Ficheiro Discussão:WMP - Le Monde Diplomatique.pdf

Da Wikimedia

Ir para: navegação, pesquisa

Texto do artigo

Wikimedia Portugal: uma organização que quer mudar o mundo

A economia dos bens comuns tem na Internet um dos campos mais férteis para a multiplicação de experiências de disponibilização de conteúdos à escala global. A associação Wikimedia Portugal, recentemente criada, pretende alargar o universo digital dos conhecimentos de livre acesso em língua portuguesa, tanto em texto como em imagem.
Por Waldir Pimenta *


Nos dias que correm, quase toda a gente conhece a Wikipédia. É hoje daquelas coisas que fazem parte da nossa vida, tal como o Google ou o iPhone. Mas até que ponto a influência de uma enciclopédia escrita pelos seus próprios leitores é importante para a nossa sociedade? Façamos uma breve incursão ao tema para tentar tirar algumas conclusões.

Elinor Ostrom foi recentemente premiada pelo seu trabalho sobre a gestão de bens públicos (florestas, pastos, rios, etc.) pelas próprias comunidades que os usam[1]. São bens que em terminologia económica se designam por recursos não exclusivos – porque, não sendo propriedade privada, não podem ser usufruídos por uns indivíduos e vetados a outros – e rivais, porque o seu consumo implica a não disponibilidade dessa parcela consumida a outros.

Ora, o tema enquadra-se perfeitamente no espírito que levou à criação da Wikipédia, já que esta também se baseia na gestão de recursos comuns pela mão dos seus próprios utilizadores; a diferença é que os recursos de que falamos desta feita são os saberes colectivos da humanidade, sendo portanto recursos não rivais, bastando, para o perceber, relembrarmo-nos da famosa parábola chinesa segundo a qual se um homem partilhar um pão com outro, ficam ambos com meio pão; mas que se, em vez disso, partilhar uma ideia, ambos ficariam com uma ideia «inteira».

O conhecimento, embora não seja um bem exclusivo na sua forma «bruta», é-o no formato em que é consumido: os livros, por exemplo, podem ser oferecidos mas, por regra, só são disponibilizados a quem paga por eles. Transferir informação, no passado, implicava despojar o detentor original da posse do documento, ou então criar uma cópia, o que requeria recursos materiais e humanos consideráveis.

Apenas no século passado, com o desenvolvimento das tecnologias de armazenamento digital, a transferência de informação passou a poder efectuar-se, na prática, como acontece com a partilha de ideias: com custos praticamente nulos e mantendo-se o original intacto. Esta revolução permitiu o surgimento de várias enciclopédias digitais que tentaram usar este novo meio para reunir, com custos bastante reduzidos, compilações do conhecimento humano.

Mas o único modelo que vingou foi o formato wiki, que, tal como advoga Ostrom, é gerido de forma aberta pelos próprios utilizadores do conteúdo. As pessoas adoptaram em massa a iniciativa e partilharam, graças ao sistema wiki (palavra havaiana que significa «rápido», em referência à facilidade com que o recurso comum pode ser actualizado), os seus conhecimentos com o mundo. Por ser um projecto de participação voluntária, sem remuneração de qualquer tipo, muitos economistas previram-lhe uma vida curta. Porém, a vontade de partilha sobrepôs-se ao desejo de compensação, pelo que a ideia ganhou momentum e cresceu cada vez mais. Há até uma frase que brinca com o que se dizia do comunismo: «A Wikipédia funciona na prática, mas não na teoria».

Com o sucesso estrondoso da Wikipédia, foram criadas inicialmente versões em diversas línguas (a de língua portuguesa já existe desde 2001) e depois projectos paralelos, com foco em outras áreas de conhecimento, como dicionários, colecções de conteúdos multimédia, entre vários outros – sempre mantendo a abertura e liberdade de utilização do material neles incluído.

A missão da Wikipédia e dos projectos da mesma génese resume-se no ambicioso «reunir todo o conhecimento humano e disponibilizá-lo livremente a todas as pessoas do planeta». À medida que as pessoas foram aderindo aos projectos e estes crescendo, tornou-se evidente a necessidade de haver uma estrutura para os suportar, no mínimo com os servidores para manter os sítios Internet (que cresceram rapidamente em popularidade, estando hoje entre os mais visitados da Internet em todo o mundo) disponíveis e à altura de poder responder à enorme procura.

Foi assim criada a Wikimedia Foundation, uma organização sem fins lucrativos que, apenas com recurso a doações, mantém sítios cujo calibre (em termos técnicos, pelo menos) equivale ao de outros que se suportam comercialmente, frequentemente com orçamentos de vários milhões de dólares. Além dessa vertente de suporte técnico aos projectos, esta fundação trabalha em outras frentes que ajudam a avançar a sua missão. Uma das mais interessantes é a cooperação com museus e arquivos de forma a digitalizar e organizar conteúdo que legalmente já está em domínio público, devido à sua idade, mas que na prática se encontra inacessível a muitas pessoas. Milhares de fotografias, mapas, documentos e outros conteúdos já foram, desta forma, associados aos projectos e, graças à licença que usam, é-lhes garantido um estatuto perpétuo de acesso livre de restrições para todos.

A perspectiva lusófona

A Wikipédia em língua portuguesa foi uma das primeiras versões internacionais a ser criada – a quinta, para ser mais exacto. Existe desde 2001, mas apenas em 2004 começou a ganhar «massa crítica» e capacidade para caminhar pelo seu próprio pé. É um projecto verdadeiramente lusófono, englobando editores de todos os países falantes do português. Houve em vários momentos propostas de se criar versões separadas para o Brasil e para Portugal, mas a comunidade decidiu por maioria manter-se unificada.

Os outros projectos foram também desenvolvendo versões em português, havendo hoje seis projectos colaborativos além da Wikipédia: o Wikisource (livros e outros documentos disponíveis em domínio público ou sob licenças permissivas), o Wikilivros (livros escritos colaborativamente), o Wikiquote (colectânea de citações notáveis), o Wikcionário (dicionário), o Wikinotícias e a Wikiversidade (manuais de ensino).

O número de editores voluntários, tendo crescido com os anos, permitiu que se criassem comunidades locais que regularmente se reúnem para se conhecer melhor, conversar face-a-face e naturalmente discutir aspectos relacionados com esses projectos. Em Portugal, após diversos encontros informais, começou a tomar forma a ideia de formalizar uma associação que permitisse não apenas uma interacção mais regular e organizada entre os diversos editores portugueses, como também o desenvolvimento de outras actividades que exigem uma estrutura mais sólida do que grupos informais de pessoas.

Assim sendo, após alguns meses de discussão, comunicação com a Wikimedia Foundation e trabalho nos documentos necessários para o efeito, foi criada em Setembro deste ano a Associação Wikimedia Portugal, que se tornou um dos já vários chapters (representações locais) da Wikimedia Foundation fora dos Estados Unidos, onde está sediada, para permitir de forma mais eficiente levar a cabo a sua missão, em interacção directa com comunidades locais. Apesar de ser ideologicamente subsidiária da Foundation, a Wikimedia Portugal é uma associação completamente independente.

Com esta associação pretende-se levar a cabo acções que se integrem na missão de recolher e disponibilizar conhecimento, tanto na forma de textos, como de imagens, sons, vídeo ou outros. Já existem conversações com algumas entidades com objectivos semelhantes, havendo várias outras que serão futuramente abordadas para possíveis parcerias. As actividades que podem ser desenvolvidas incluem:

As possibilidades são imensas. Há um longo caminho a percorrer até que se possa garantir o acesso livre e universal a todo o conhecimento humano. O objectivo último destas actividades será sempre melhorar a quantidade, qualidade e disponibilidade dos conteúdos chamados «abertos», ou seja, parte dos recursos comuns da humanidade de que se falou acima.

Isto trará vantagens específicas à sociedade portuguesa a vários níveis. Primeiramente, e de forma mais directa, ao público consumidor dos conteúdos. Mas também às próprias entidades que abracem o conceito de cultura livre e disponibilizem conteúdos que disponham, até porque, como os projectos Wikimedia usam licenças que garantem a manutenção dos créditos originais, essas entidades (ou indivíduos) ganharão certamente mais visibilidade, tendo em conta a popularidade dos projectos Wikimedia na Internet e considerando a gratidão das pessoas que não tinham acesso a esses conteúdos, ou nem sequer conheciam.

E ainda, a própria sociedade beneficiará desta abertura que já está a ocorrer, no sentido de se migrar para uma cultura de participação mais disseminada, com a intensificação da partilha de ideias e a diminuição das restrições em conteúdos, estímulo ao auto-didactismo e consequente diminuição da ignorância em vários aspectos – ignorância que é fonte de discriminação social, racial, sexual e que, tantas vezes, bloqueia oportunidades de crescimento pessoal.

Costuma dizer-se, meio a brincar, que «o importante não é saber, mas ter o telefone de quem sabe». Ora, brincadeiras à parte, a verdade é que nenhum de nós pode realisticamente esperar algum dia conseguir reunir em si todo o conhecimento humano. A recolha de conhecimento e o incentivo à partilha do que cada um de nós sabe, contribuindo para um repositório comum, é a nossa melhor hipótese de conseguir reunir um recurso dessa dimensão. Mas não nos esqueçamos que o valor desse recurso está directamente relacionado com a sua acessibilidade a todos os que dele possam fazer uso, o que neste caso equivale ao telefone da metáfora.

Isto é especialmente verdade quando consideramos que nem todos têm acesso à Internet. A missão da Wikimedia Foundation e da Wikimedia Portugal já passaria, nestes casos, pelo apoio à criação e disponibilização de conteúdos em língua portuguesa em sítios onde não existe oferta desses conteúdos, ou a pessoas que não podem deles dispor. Vale a pena mencionar que o projecto dos computadores Magalhães – que também segue esta linha de apoio ao acesso universal à Sociedade da Informação e do Conhecimento – demonstrou entender esta vertente ao incluir um campo de pesquisa configurado para usar o Sapo Saber, uma enciclopédia portuguesa baseada na Wikipédia lusófona.

A maior vantagem deste projecto é, portanto, a possibilidade de, globalmente, um número cada vez maior de pessoas ter acesso ao bem mais valioso de que dispomos, como seres humanos capazes de aprender, raciocinar e produzir valor sobre o que já existe: o conhecimento. Efectivamente, é o conhecimento que nos permite, como já dizia Newton, erguermo-nos sobre os ombros de gigantes e poder ver mais longe e juntar a nossa pedra ao saber colectivo que só nos beneficiará a todos. Deixo portanto, um convite à participação nesta missão: venha ajudar-nos a mudar o mundo.

* Presidente da Associação Wikimedia Portugal (www.wikimedia.pt, geral@wikimedia.pt).


1. José Castro Caldas, «A economia dos bens comuns», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Novembro de 2009.

Ferramentas pessoais
Espaços nominais
Variantes
Acções
Navegação
Associação
Como apoiar
Ferramentas