Medalhão com Belerofonte matando a Quimera (Casa dos Repuxos, Conímbriga)
Identificação[editar | editar código-fonte]
| Localização actual | Casa dos Repuxos, Museu Nacional de Conímbriga (até 2023, designado Museu Monográfico de Conímbriga). Freguesias de Condeixa-a-Velha e Condeixa-a-Nova, distrito de Coimbra |
| Localização admin. romana | Ciuitas de Conimbriga, Conuentus Scalabitanus, Província da Lusitânia |
| Cronologia | último quartel do séc. II a primeiro quartel do séc. III |
Estado da Arte[editar | editar código-fonte]
Pode-se considerar que a pesquisa sobre os mosaicos romanos em Portugal começa com o artigo publicado por António Augusto Gonçalves em 1907, no Diário de Notícias, que dá conta da descoberta inicial da Casa dos Repuxos. Trinta anos mais tarde, aquando da “redescoberta” da Casa dos Repuxos, Vergílio Correia publica em agosto de 1939 o artigo “Arte e Arqueologia. Novos descobrimentos de mosaicos em Conímbriga”, no Diário de Coimbra. Será, porém, a partir dos anos 90 do século passado que a literatura mais significativa sobre o tema começará a ser publicada.
Em 1992, J. M. Bairrão Oleiro publica Corpus dos Mosaicos Romanos de Portugal, vol. I – Casa dos Repuxos, Conímbriga– trata-se de uma obra pioneira que fornece uma documentação detalhada dos mosaicos da Casa dos Repuxos,em Conímbriga. Consiste na minuciosa descrição das dimensões, cores, técnicas de execução e iconografia dos mosaicos em análise, tornando-se uma referência incontornável para o estudo desta arte no contexto português.
No ano seguinte, é publicado o Dicionário de Motivos Geométricos no Mosaico Romano por Catarina Viegas, Fátima Abraços e Marta Macedo. Esta obra baseia-se na análise realizada pela obra Le Décor Géométrique de La Mosaique Romaine, coordenada por C.Balmelle, de 1985. Com a indicação do vocabulário em português, este dicionário oferece uma sistematização dos motivos geométricos presentes nos mosaicos romanos. Facilita também a identificação e análise dos padrões geométricos e simbólicos encontrados, com especial destaque para os mosaicos de Conímbriga.
Ainda em 1993, Jorge de Alarcão publica História da Arte em Portugal: Do Paleolítico à Arte Visigótica, uma obra de divulgação na qual aborda a produção de mosaicos romanos, contextualizando-os no processo de romanização e discutindo a sua importância como elemento decorativo e símbolo de estatuto nas vilas e residências romanas.
Mais recentemente, em 2005, Cristina Oliveira, publica um conjunto de textos sobre “Os Mosaicos de Conímbriga”, na sequência do X Colóquio Internacional da Associação Internacional para o Estudo do Mosaico Antigo (AIEMA), realizado em Conímbriga. Esses textos representam uma sistematização das obras anteriores, particularmente a de Oleiro, e contribuem para a organização e compreensão atualizada das descobertas arqueológicas sobre os mosaicos de Conímbriga, em particular os das casas que ainda não possuem corpus.
Em 2010, a tese de doutoramento de Virgílio Hipólito Correia intitulada “A Arquitetura Doméstica de Conimbriga e as Estruturas Económicas e Sociais da Cidade Romana” trata da arquitetura doméstica em Conímbriga, abordando os mosaicos da Casa dos Repuxos e da Casa de Cantaber.
Este conjunto de publicações constitui a base para o estudo dos mosaicos romanos em Portugal, fornecendo uma análise detalhada e contextualizada das técnicas, iconografia e importância cultural dos mosaicos, particularmente os de Conímbriga.
Enquadramento/Contextualização Histórica[editar | editar código-fonte]
Consta dos artigos de António Augusto Gonçalves e de Vergílio Correia que a Casa dos Repuxos terá sido inicial e temporariamente descoberta em 1907– «edifício com colunas de ladrilho, mosaicos, indícios de canalizações, piscinas ou tanques [...] fragmentos de estuques pintados [...]» (Correia 1909, p.250-261). A Casa dos Repuxos é redescoberta em agosto de 1939, por consequência das obras de desaterros e terraplanagem para a construção de uma nova estrada facilitadora do acesso às ruínas de Conímbriga.
O Prof. J.M Bairrão Oleiro não crê que, no período de tempo entre a redescoberta da Casa dos Repuxos e a morte de Vergílio Correia em 1944, as obras de consolidação e restauro tenham abrangido os pavimentos de mosaico. (OLEIRO 1993, p.9-13).
«Estes só começaram a ser consolidados no segundo semestre de 1951, por iniciativa da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), tendo-se encarregado dos trabalhos de levantamento e consolidação in situ uma brigada do Museu Etnológico Português, sob a orientação do Doutor Manuel Heleno (…)» (Oleiro 1993, p.12)
O grande peristilo retangular da Casa dos Repuxos situa-se no centro da casa. O pavimento das quatro alas do peristilo, com a largura média de 2,80 metros, era revestido com mosaicos policromos geométricos e figurados. No centro do peristilo, encontra-se um grande tanque, ocupando uma área superior a 170 metros quadrados. Este tanque servia de impluvium, recolhendo as águas pluviais e iluminando e arejando os compartimentos adjacentes. Contava ainda com um extraordinário elemento decorativo: numerosos jogos de água (“repuxos”) que conferiam animação e vivacidade a esta domus.
Descrição[editar | editar código-fonte]
Decomposição Visual/Gráfica[editar | editar código-fonte]
Motivos decorativos: geométricos, animais e figuras humanas;
Composição: no centro do medalhão;
Identificação de cenas iconográficas: Belerofonte matando a Quimera.


Verbal[editar | editar código-fonte]
O mosaico em análise é composto por um painel quadrangular no qual se inclui um medalhão figurado com Belerofonte e a Quimera. Este mosaico insere-se no esquema decorativo B, de acordo com a representação da distribuição dos esquemas decorativos dos medalhões da Casa dos Repuxos realizada em sala de aula. A moldura do painel quadrangular (1.3.1.1) é constituída por um filete preto triplo.

Na área residual entre as duas molduras, a moldura do painel e as molduras do medalhão, encontramos, em cantoneira, em três dos quatro ângulos do quadrado, tridentes (a negro) com laços de pontas pendentes nos cabos, ladeados por dois golfinhos (corpo preto contornado a vermelho, com tesselas brancas em V e em vírgula que marcam as guelras e os olhos, respetivamente) e dois peixes (vermelho, com tesselas brancas e pretas a marcar as guelras e olhos). Os golfinhos estão dispostos de um e de outro lado dos tridentes, com uma orientação exterior, em direções opostas tocando-se nas caudas.

No que toca ao medalhão figurado, este é precedido por uma sequência de molduras, devidamente identificas na figura 4, nomeadamente: uma moldura composta por filete negro com a largura de cerca de duas tesselas (1), uma idêntica em amarelo (2) e uma terceira em negro (3). Segue-se uma moldura composta por uma “espécie de roda dentada”, como assim a designa o professor J.M. Bairrão Oleiro (negro debruado a vermelho) composta por semicírculos tangentes, com pequenos travessões vermelhos nas extremidades (4). Na área entre os vários “dentes” encontramos uma flor, composta por quatro tesselas vermelhas, sobre fundo branco. Partindo de uma outra perspectiva, poderíamos classificar esta mesma moldura como sendo um conjunto de arcos (em volta perfeita, um pouco abatidos) tangentes contiguos e sobrepostos, a branco. A este motivo seguem-se duas molduras de filete vermelho (5) e filete branco (6). Depois, encontramos uma moldura com trança de duas pontas com quatro cores (vermelho, amarelo, preto e branco) sobre fundo preto (7). Imediatamente antes do círculo figurado, podemos observar duas outras molduras (8 e 9) dois filetes duplos, vermelho e negro. Quanto à parte figurada, esta área foi parcialmente destruída. Conseguimos, porém, identificar a cena representada como tratando-se de Belerofonte matando a Quimera, através dos elementos superviventes, nomeadamente: a Quimera e as patas dianteiras e o focinho do Pégaso. A Quimera desenha-se com tesselas amarelas debruadas a vermelho e preto, um monstro com uma cabeça de leão, da qual sai uma grande língua vermelha, e, nas costas, uma cabeça do que parece ser um lobo. Na cauda deveria estar uma cabeça de serpente. A Quimera apoia as patas traseiras sobre uma linha de solo (a vermelho) e parece saltar para a frente, para um arbusto da mesma cor.
Do Pégaso, como já se referiu, apenas subsistem as patas da frente, uma parte do peito e da cabeça. O Pégaso seria desenhado com tesselas pretas e contorno vermelho, da mesma cor do arreio. O Pégaso parece estar, então, apoiado sobre as patas traseiras. A figura do herói Belerofonte, da qual já nada resta, surgiria montada no cavalo, no momento em que mata a Quimera com uma lança.
A iconografia do mito de Belerofonte e a Quimera:
Filho de Poseidon e de Eurínome, rainha de Corinto, Belerofonte é um jovem de origem divina e régia cujo percurso se entrelaça com a desventura: depois de acidentalmente matar um homem, o herói procura purificar-se na corte de Preto, rei de Tirinto. No entanto, a hospitalidade de Preto é pervertida pela sua esposa, Estenebeia, que, ao ver os seus avanços rejeitados por Belerofonte, o acusa falsamente de tentativa de sedução. Para evitar violar as leis da hospitalidade, Preto envia o herói ao seu sogro, Ióbates, rei da Lícia, com uma carta lacrada que contém um pedido velado de execução. Esta tensão entre hospitalidade e traição reflete uma temática recorrente nas narrativas mitológicas gregas, onde os vínculos sociais são simultaneamente testados e subvertidos.
Ióbates, preso às mesmas obrigações de hospitalidade, evita assassinar Belerofonte diretamente e, em vez disso, impõe-lhe uma série de desafios impossíveis, o primeiro dos quais é enfrentar a Quimera. Esta criatura monstruosa, descrita com corpo de leão, cabeça de cabra no dorso e cauda em forma de serpente, é representada iconograficamente como uma combinação destas feras e frequentemente expelindo fogo pela cabeça caprina. A Quimera devastava as terras da Lícia, sendo um arquétipo do inimigo sobrenatural.
Então, a ajuda divina de Atena desempenha um papel crucial. A deusa oferece a Belerofonte um freio de ouro para domar Pégaso, o cavalo alado nascido do sangue da Medusa. Este episódio é um dos momentos mais marcantes da iconografia associada ao mito, com Belerofonte frequentemente representado montado no Pégaso, voando sobre a Quimera. O herói derrota o monstro cravando-lhe uma lança de chumbo na garganta; o metal derrete devido às chamas exaladas pela criatura, matando-a.
Após esta vitória, Ióbates irá impor novos desafios a Belerofonte, após os quais reconhece a origem divina do herói, acolhendo-o como genro e oferecendo-lhe a sua filha em casamento, consolidando a sua posição na linhagem régia da Lícia. Apesar de todas as suas conquistas, o mito culmina na hybris de Belerofonte, que tenta ascender ao Olimpo montado em Pégaso, desafiando os limites da sua condição humana. Este ato de presunção é punido por Zeus, que envia uma mosca para picar Pégaso, derrubando o herói. Belerofonte sobrevive, mas é condenado à solidão, desprezado por homens e deuses. Por outro lado, Pégaso, símbolo de pureza e transcendência, é eternizado como uma constelação no firmamento. (MUELA 2013, p.63-65)

Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]
Oleiro, J. M. B. (1992). Corpus dos mosaicos romanos de Portugal: Conuentus Scallabitanus, Conimbriga, Casa dos Repuxos (Vol. I). Conimbriga: Museu Monográfico de Conimbriga; Lisboa: Instituto Portugus dos Museus.
Alarcão, J. (1993). História da Arte em Portugal: Do Paleolítico à Arte Visigótica. Lisboa: Publicações Alfa.
Oliveira, C. (2005). “Mosaicos de Conímbriga”. In X Colóquio Internacional da Associação Internacional para o Estudo do Mosaico Antigo (AIEMA). Conimbriga: Museu Monográfico de Conimbriga; Lisboa: Instituto Portugus dos Museus. Pp. 7-12.
Maciel, V. J. (2009). Vitrúvio. Tratado de Arquitetura. Lisboa: IST Press.
Balmelle, C. (1985). La Décor Géometrique de la Mosaique Romaine: répertoire graphique et descriptif des compositions linéaires et isotropes. Paris: Picard.
Carmona Muela, J. (2013). Iconografía clásica: guía básica para estudiantes. 5a ed., 1a reimp. Madrid: Akal.
Trabalho realizado por: Ana Machado Santos Neri Moreira e Catarina Ferraz Nogueira.