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Mosaico dos Octógonos Côncavos (Complexo Monumental de Santiago da Guarda)

Fonte: Opustessellatum-PT

Identificação[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Localização actual Pars Urbana - Villa romana de Santiago da Guarda, Complexo Monumental. Conselho de Ansião, Distrito de Leiria
Localização admin. romana Ciuitas de Conimbriga ou Sellium, Conuentus Scalabitanus, Província da Lusitânia
Cronologia séc. IV-V

Estado da Arte[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

O mosaico dos octógonos côncavos[1] da Villa Romana de Santiago da Guarda permanece pouco estudado em profundidade, carecendo de análises detalhadas que explorem sua singularidade e contexto cultural. As investigações realizadas até agora inserem-se em estudos mais amplos sobre os mosaicos desta pars urbana e não em estudos de mosaicos de divisões específicas da casa. Destacam-se as seguintes obras: The Late Roman Villa of Santiago da Guarda (Ansião, Portugal): One place, many centuries, a Decoration Project. In Estudios sobre mosaicos romanos: Dimas Fernández Galiano In memoriam de 2018 e Research and value: The Roman mosaics of the Villa of Santiago da Guarda (Ansião, Portugal). Mosaicos romanos en el espacial rural, Investigación y puesta en valor de 2019 ambos da autoria de Filomena Limão e Rodrigo Pereira; The Roman mosaics of the Roman villa in the monumental complex of Santiago de Guarda, Municipality of Ansião (Portugal) de Rodrigo Pereira; The mosaics of Santiago da Guarda: A virtual reconstruction. In Horizontes Artísticos da Lusitânia: Dinâmicas da Antiguidade Clássica e Tardia. Séculos I a VIII e Contributo para uma visão global dos pavimentos de mosaico da villa romana de Santiago da Guarda, Ansião. In Actas do Encontro Portugal-Galiza: Mosaicos Romanos – Rabaçal datado de  2019 por Luís Ribeiro.

Estes oferecem importantes contributos iniciais, mas deixam em aberto muitas questões sobre a técnica, simbologia e função decorativa do mosaico em questão, destacando a necessidade de pesquisas mais específicas que situem a obra no panorama artístico e arqueológico romano. A preservação do mosaico é fundamental. Oferece uma visão valiosa sobre os métodos artísticos e os materiais usados na época, permitindo comparações com outros mosaicos da herança romana encontrados em Portugal e no Mediterrâneo.


[1]Nome atribuído pelas alunas. Pode ser encontrado também como “Mosaico dos Fusos” in RIBEIRO, 2019, p. 88. Todos os nomes seguintes nesta investigação, sejam de painéis ou molduras, são da autoria das alunas.

Enquadramento/Contextualização Histórica[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Inaugurado em 2006, o Complexo Monumental de Santiago da Guarda representa um sítio de elevado valor arqueológico e histórico.

Fig.1 - Planta da Pars Urbana da Villa romana de Santiago da Guarda com o mosaico localizado na designada Sala de Receção (Rodrigo Pereira), a nordeste. Estudo gráfico sobre a planta de Santiago da Guarda realizado pela aluna Inês Gonçalves, utilizando o programa Inkscape.

O conjunto monumental é composto por uma torre do século XV e uma residência senhorial moderna datada do século XVI. A partir deste período, a propriedade tornou-se a residência da influente família Vasconcelos, que posteriormente adquiriu o título de Palácio dos Vasconcelos ou Residência Senhorial dos Condes de Castelo Maior (Limão & Pereira, 2018, p. 195). Na segunda metade do século XIX, o conjunto residencial deixou de pertencer à família dos Vasconcelos e, no início do século XX, perdeu a sua função habitacional. Ao longo do século passado, a estrutura sofreu algum abandono e descuido, mas isso não comprometeu o seu valor histórico, sendo classificada como Monumento Nacional em 1978. Em 1996, a Câmara Municipal de Ansião adquiriu a antiga residência dos Condes de Castelo Melhor e deu início a um ambicioso projeto de recuperação e adaptação do espaço.

Fig. 2 - Ortofoto nº 7 do mosaico com indicação das partes constituintes do mosaico em análise, da autoria de Sergiy Scheblykin, e Filomena Limão (2021).

A grande descoberta aconteceu em 2002, com as intervenções arqueológicas que revelaram um achado surpreendente: pavimentos de mosaico que pertenciam à pars urbana de uma villa romana escondida sob o conjunto habitacional (Limão & Pereira, 2018 p. 197). De acordo com o arqueólogo responsável pela descoberta, Rodrigo Pereira, esta casa teria pertencido a uma família rica de uma área rural do território romano da Lusitânia. A residência aristocrática da villa romana de Santiago da Guarda, onde vivia o proprietário, teria sido construída e ocupada pela sua família entre os séc. IV e V (Complexo Monumental de Santiago da Guarda, [s.d], Domus construção e ocupação).

           Segundo o arqueólogo o mosaico que estudamos ocupava o espaço onde se localizava uma taberna na década de 1980 do século XX, o que terá contribuído para a sua deteriorização[1].


[1] Informação fornecida pelo arqueólogo, Rodrigo Pereira, em 25 out. 2024, numa visita ao local.

Descrição[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Decomposição Visual/Gráfica [editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

7. Mosaico dos Octógonos Côncavos

Fig. 3 - Estudo gráfico da composição ortogonal dos octógonos côncavos (7.1). Estudo gráfico sobre a ortofoto realizado pela aluna Inês Gonçalves, utilizando o programa Inkscape.

7.1. Painel de composição ortogonal formado por octógonos de lados côncavos, compostos com uma trança de dois cordões.

●       7.1.1. Filete linear branco com 4 tesselas de largura;

●      7.1.2. Moldura de composição linear, composta por duas faixas de porções enlaçadas com quadrados denteados sobre o vértice incluídos nas aberturas amendoadas. Na parte exterior do ponto de laço, encontra-se o motivo de triângulo com perfil denteado

Fig. 4 Estudo gráfico das tranças (7.1.2). Estudo gráfico sobre o ortofoto realizado pela aluna Inês Gonçalves, utilizando o programa Inkscape.

8. Mosaico das Aspas

8.1. Painel de composição linear com padrão em chevron correspondente às “aspas”

Fig. 5 Estudo gráfico das “aspas” (8.1). Estudo gráfico sobre a ortofoto realizado pela aluna Inês Gonçalves, utilizando o programa Inkscape.

●       8.1.1. Filete linear branco com 3 tesselas de largura;

●      8.1.2. Moldura linear (ou talvez parte de um painel) com quadrados sobre o vértice concêntricos, tangentes e denteados, emoldurados por preto e dispostos sobre um fundo amarelado. O quadrado concêntrico também é preto.

9. Continuação da moldura de quadrados sobre o vértice (8.1.2.)

Fig. 6. Estudo gráfico dos quadrados sobre o vértice. (8.1.2 e 9) Estudo gráfico sobre a ortofoto realizado pela aluna Inês Gonçalves, utilizando o programa Inkscape.

10. Mosaico da Soleira

·       10.1. Painel ortogonal com quadrados concêntricos adjacentes (vermelho, azul e amarelo), emoldurados por filetes pretos sobre o fundo branco.

Fig. 7 Estudo gráfico dos quadrados concêntricos da soleira (10.1). Estudo gráfico sobre a ortofoto realizado pela aluna Inês Gonçalves, utilizando o programa Inkscape.

Verbal[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

O Mosaico dos Octógonos Côncavos exibe uma estrutura decorativa que se consegue identificar ainda que parcialmente danificada.

Localizado in situ no pavimento da pars urbana, a noroeste da planta arquitetónica e a norte da sala da abside ou êxedra, pertencente a uma sala de recepção da casa, apresenta uma organização de motivos geométricos e vegetalistas. Daria continuidade ao mosaico da êxedra, pois seriam o mesmo mosaico. Tem 4,50 x 3,36 metros de comprimento (Pereira, 2017, p.294). Atendendo à densidade das tesselas, tem cerca de 115-117 dm² (RIBEIRO, 2019, p. 76). Conecta-se/Liga-se com o mosaico da Sala de Receção (acima referido) através da moldura dos quadrados sobre o vértice e do mosaico da soleira.


Este mosaico passou por um processo contemporâneo de limpeza e fixação das extremidades das tesselas, visando conter a desagregação que ameaça a integridade da obra ao longo do tempo. Este processo foi indispensável para estabilizar o mosaico e assegurar que as suas peças, que se tendem a soltar devido à sua fragilidade, permaneçam no local, preservando a estrutura e a estética originais (Ribeiro, 2015, p. 76). Para além das condições naturais do tempo, o mosaico enfrenta desafios específicos durante o inverno, devido ao clima caracteristicamente húmido e chuvoso de Santiago da Guarda. Essa humidade, somada à proximidade dos mosaicos às camadas mais profundas do solo, resulta em submersões periódicas. Essas condições fazem com que a água se infiltre no solo ao redor e abaixo da camada do mosaico, intensificando o desgaste e acelerando o processo de degradação (Limão & Pereira, 2019, p.40). Outro aspeto a realçar é o facto do local onde está situado ter sido uma taberna na década de 1980. A intensa movimentação de pessoas e a deslocação de produtos nesse espaço contribuíram para a degradação das tesselas, expondo-as a substâncias agressivas[1].


Começando a descrição pelo Mosaico nº7 (Fig 2, Fig. 4 e Fig. 5), encontra-se uma moldura de composição linear de duas faixas enlaçadas (7.1.2.) sobre um fundo branco. Estas alternam entre porções em gradação das cores vermelhas, azuis e amarelas. Em cada uma das suas aberturas amendoadas está incluído um quadrado sobre o vértice denteado, compondo um motivo floral; e em cada ponto do enlace, um elemento parecido a um triângulo isósceles com perfil denteado. Seguidamente, encontra-se um filete de composição linear branco de quatro tesselas de largura (7.1.1.) que emoldura o painel principal da sala. Este painel apresenta uma composição ortogonal e é formado por octógonos de lados côncavos (7.1.), daí a origem da atribuição do nome do mosaico completo. São compostos por uma trança de dois cordões. No interior, encontram-se dois quadrados entrelaçados, resultando numa estrela de oito pontas. No centro destas, dois quadrados concêntricos denteados sobre o vértice. No espaço ao redor da estrela de oito pontas (espaço residual) estão quatro trifólios em cantoneira: no canto superior esquerdo e no inferior direito (na planta, localizam-se nordeste e sudoeste), predominam as cores amarelo e azul; no canto superior direito e no inferior esquerdo (a noroeste e a sudeste), predominam o preto e o vermelho. Exteriores aos octógonos estão quatro motivos ovais envoltos em chevron, com as suas “aspas” de cores vermelho, azul e amarelo. No espaço branco residual a este padrão, notamos a presença de um motivo vegetalista, semelhante a um florão, incluído num quadrado sobre o vértice. Este parece que nem sempre se repete, de acordo com o que é possível visualizar na fig. 2. Possivelmente tinha uma flor de lótus delimitada por uma faixa preta e curva em cada canto.[1]


O Mosaico nº8 (Fig. 2 e Fig. 6) é composto por uma primeira moldura (ou talvez parte de um painel), de composição linear de quadrados sobre o vértice denteados, concêntricos e tangentes sobre um fundo amarelado. Alternam entre as cores vermelho, azul e amarelo, e são emoldurados por um filete preto (8.1.2.). Possivelmente percorria as extremidades da sala desta divisão. Seguidamente outra moldura: um filete de composição linear branco de três tesselas de largura (8.1.1. e 9.) que delimita o painel das aspas (8.1.). Este de composição linear com motivos em chevron/aspas de cores preto, branco, vermelho, azul e amarelo. O mosaico nº9 é a continuação da moldura de quadrados sobre o vértice denteados (8.1.2.).


Para concluir, o Mosaico nº10 (Fig.2 e Fig. 3) apresenta o painel da soleira (10.1). Sabemos que é uma entrada, pois encontra-se no limiar do mosaico da sala da exedra. Apresenta uma composição ortogonal de quadrados concêntricos adjacentes, de cores vermelho, azul e amarelo. São emoldurados por filetes pretos sobre um fundo branco.



[1]Informação fornecida pelo arqueólogo, Rodrigo Pereira, em 25 out. 2024, numa visita ao local.


[Imagens e Iconografia do Objeto][editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Fig. 8 – Painel do Óctogonos Côncavos (7.1.). Adaptado a partir da ortofoto
Fig. 9– Filete branco (7.1.1.). Adaptado a partir da ortofoto.
Fig. 10 – Moldura de duas faixas enlaçadas (7.1.2.). Adaptado a partir da ortofoto.
Fig. 11 – Painel das Aspas (8.1.). Adaptado a partir da ortofoto.
Fig. 12 – Filete branco (8.1.1.). Adaptado a partir da ortofoto.
Fig. 13 – Moldura dos Quadrados sobre o Vértice (8.1.2. e 9.). Adaptado a partir da ortofoto
Fig. 14 – Painel da Soleira (10.1.). Adaptado a partir da ortofoto.
Fig. 15- Vestígios do mosaico dos Octógonos Côncavos completo, parcialmente conservado no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a deterioração da superfície decorativa e a exposição da base. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 16-Vestígios do mosaico dos Octógonos Côncavos completo, parcialmente conservado no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a deterioração da superfície decorativa e a exposição da base. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 17- Lado direito do mosaico dos Octógonos Côncavos, parcialmente conservado no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a deterioração da superfície decorativa e a exposição da base. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 18 - Detalhe dos mosaicos romanos no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, com padrões geométricos ainda visíveis, mas apresentando desgaste significativo.
Fig. 19- Vista geral dos mosaicos romanos no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, mostrando padrões geométricos deteriorados e lacunas na superfície Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 20 -Perspetiva lateral dos mosaicos romanos, destacando o estado de conservação parcial e as marcas de degradação ao longo do tempo. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 21 -Detalhe lateral esquerda dos mosaicos romanos no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a transição entre o revestimento e as estruturas adjacentes.Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 22 - Detalhe lateral direita dos mosaicos romanos no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a transição entre o revestimento e as estruturas adjacentes. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 23- Detalhe lateral direita dos mosaicos romanos no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a transição entre o revestimento e as estruturas adjacentes. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).
Fig. 25- Fotografia retirada do artigo, “The Roman Mosaics of the Roman Villa in the Monumental Complex of Santiago da Guarda, Municipality of Ansião (Portugal)”, por Rodrigo Marques Pereira (2017)
Fig. 24 - Detalhe lateral direita dos mosaicos romanos no Complexo Monumental de Santiago da Guarda, evidenciando a transição entre o revestimento e as estruturas adjacentes. Fotografia de Mariana Gonçalves (25/11/2024).

Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Câmara Municipal de Ansião. (s.d.). Complexo Monumental de Santiago da Guarda. Complexo Monumental de Santiago da Guarda. https://www.cm-ansiao.pt/PT/visitantes/1/cultura-e-historia/27/complexo-monumental-de-santiago-da-guarda/98/complexo-monumental-santiago-da-guarda

Cortesão, L., Pereira, R.M.M., Trindade, L. (2006). Um sedimento, uma ruína, um projecto: O Paço dos Vasconcelos, em Santiago da Guarda. Monumentos, (25), 214–225. Lisboa: DGEMN.

Limão, F., Pereira, R. (2018). The Late Roman Villa of Santiago da Guarda (Ansião, Portugal): One place, many centuries, a Decoration Project. In Estudios sobre mosaicos romanos: Dimas Fernández Galiano In memoriam.

Limão, F., Pereira, R. (2019). Research and value: The Roman mosaics of the Villa of Santiago da Guarda (Ansião, Portugal). In L. Neira Jiménez (Coord.), Mosaicos romanos en el espacial rural, Investigación y puesta en valor (pp. 39–45). “L’Erma” di Bretschneider, Hispania Antigua: Série Arqueológica, 10.

Pereira, R. (2017). The Roman mosaics of the Roman villa in the monumental complex of Santiago de Guarda, Municipality of Ansião (Portugal). Journal of Mosaic Research, 10, 285–298.

Ribeiro, L.C. (2019). The mosaics of Santiago da Guarda: A virtual reconstruction. In Horizontes Artísticos da Lusitânia: Dinâmicas da Antiguidade Clássica e Tardia. Séculos I a VIII (pp. 338–355). Canto Redondo.

Ribeiro, L.C. (2015). Contributo para uma visão global dos pavimentos de mosaico da villa romana de Santiago da Guarda, Ansião. In Actas do Encontro Portugal-Galiza: Mosaicos Romanos – Rabaçal (pp. 71–91). APECMA / AIEMA.

Viegas, C., Abraços, F., Macedo, M. (1993). Dicionário de Motivos Geométricos no Mosaico Romano. Liga dos Amigos de Conímbriga (e.d).