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Mosteiro da Serra do Pilar: diferenças entre revisões

Fonte: Porto Renascentista
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|'''Designação'''
|'''Designação'''
|Mosteiro da Serra do Pilar
|Mosteiro da Serra do Pilar.
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|'''Localização'''
|'''Localização'''
|Vila Nova de Gaia, Portugal, 41° 08′ 18″ N, 8° 36′ 24″ O
|Largo de Aviz, 4430-329 Vila Nova de Gaia, Portugal, 41° 08′ 18″ N, 8° 36′ 24″ O.
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|'''Cronologia'''
|'''Cronologia'''
|Século XVI
|Fundado em 1537, por Frei Brás de Braga.
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|'''Autor(es)'''
|'''Autor(es)'''
|Diogo de Castilho e João de Ruão
|Diogo de Castilho e João de Ruão.
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[[Ficheiro:Mosteiro Serra do Pilar .jpg|miniaturadaimagem|Mosteiro da Serra do Pilar - Visão frontal]]


== Estado da Arte[editar | editar código-fonte] ==
== Estado da Arte[editar | editar código-fonte] ==
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== Enquadramento ==
== Enquadramento ==
Existem e existiram imóveis no contexto físico patrimonial na área envolvente do Mosteiro que marcaram e marcam estrategicamente a população e o próprio edifício, como por exemplo: a Ermida de Nicolau, a Capela do Senhor d´Além, o Hospício do Senhor d´Além, o Jardim do Morro, o aqueduto da Serra do Pilar, o Casino da Ponte, o Cais de Gaia, entre outros. É ainda de importante referência a relação do Mosteiro com o rio e com a outra margem, tendo uma relação com a Ponte das Barcas (1806-1843), Ponte D. Maria II (1843-1886), Ponte D. Maria Pia (1877) e Ponte D.Luís I (1886). Atualmente, este encontra-se inserido na área do centro histórico do Porto, classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1996, que acolhe arquiteturas como a Sé do Porto, o Palácio da Bolsa e a Igreja de São Francisco e entre muitas outras presentes na parte da cidade interior ao traçado da antiga muralha fernandina e também algumas áreas vizinhas. Assim sendo, a localização privilegiada do edifício coloca-o em contacto acrescido com património circundante.
Existem e existiram imóveis no contexto físico patrimonial na área envolvente do Mosteiro que marcaram e marcam estrategicamente a população e o próprio edifício, como por exemplo: a Ermida de Nicolau, a Capela do Senhor d´Além, o Hospício do Senhor d´Além, o Jardim do Morro, o aqueduto da Serra do Pilar, o Casino da Ponte, o Cais de Gaia, entre outros. É ainda de importante referência a relação do Mosteiro com o rio e com a outra margem, tendo uma relação com a Ponte das Barcas (1806-1843), Ponte D. Maria II (1843-1886), Ponte D. Maria Pia (1877) e Ponte D.Luís I (1886). Atualmente, este encontra-se inserido na área do centro histórico do Porto, classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1996, que acolhe arquiteturas como a Sé do Porto, o Palácio da Bolsa e a Igreja de São Francisco e entre muitas outras presentes na parte da cidade interior ao traçado da antiga muralha fernandina e também algumas áreas vizinhas. Assim sendo, a localização privilegiada do edifício coloca-o em contacto acrescido com património circundante.
== Cronologia ==
O Mosteiro em estudo, para além da sua ocupação eclesiástica teve uma forte ocupação militar, oferecendo uma vasta e marcada cronologia. O contexto da fundação deste mosteiro pode ser explicado pela necessidade de reformar o Mosteiro de Grijó, localizado num lugar baixo e húmido, onde se assistia a certos vícios de relaxamento e abusos por parte dos religiosos pertencentes à Ordem Religiosa dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho do Convento de Santa Cruz de Coimbra, assim como outro dos motivos da edificação deste novo convento seria a necessidade de aproximar a atividade pastoral desta instituição para uma maior proximidade da população urbana. Em 1537 fundou-se o Mosteiro da Serra, por Frei Brás de Braga, sob a invocação do Salvador do Mundo, sendo feito neste ano o lançamento da primeira pedra do mosteiro, sob a direção de Frei Brás de Braga, na presença do Bispo do Porto D.Baltasar Limpo, e dos arquitetos Diogo de Castilho e João Ruão. Durante os séculos XVII e XVIII, serviu como um centro religioso e espiritual relevante. Contudo, no século XIX, a dissolução das ordens religiosas em Portugal, marcou o fim da sua função original. Posteriormente, foi adaptado para fins militares, desempenhando um papel crucial no Cerco do Porto, durante as Guerras Liberais. Ao longo do século XX, o mosteiro enfrentou períodos de abandono, mas também foi alvo de iniciativas de conservação, sendo classificado como Monumento Nacional em 1910 e, mais tarde, incluído na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1996, como parte do Centro Histórico do Porto. Atualmente, funciona como um espaço cultural e turístico, representando a riqueza histórica, arquitetônica e espiritual da região.
=== Cronologia aprofundada ===
* 961: Fortificação militar do Monte da Meijoeira pelo Conde Gonçalo Moniz (Senhor de Entre-Douro-e-Mondego) e seus apaniguados numa atitude de autonomia face ao Rei de Leão, D. Sancho I.
* 1140: Pedro Rabaldio manda erigir um convento de monjas de invocação a São Nicolau, também designado por Donas Pregaretas de São Nicolau, Convento das Emparedadas de São Nicolau e ainda por Convento de Freiras Descalças de São Nicolau.
* 1500: Cerimónia de condução das imagens de São Nicolau, de São Bartolomeu e do Senhor Crucificado, existentes na igreja do extinto convento das Donas Pregaretas de São Nicolau, até à Capela do Senhor d' Além.
* 1537: Fundação do Mosteiro da Serra por Frei Brás de Braga, sob a invocação do Salvador do Mundo. Lançamento da 1ª pedra do mosteiro, sob a direção de D. Frei Brás de Braga, na presença do Bispo do Porto D. Baltasar Limpo. As obras estavam a cargo dos arquitetos Diogo de Castilho e João Ruão.
* 1540: Autorização papal oficializando a mudança do Mosteiro de Grijó para a serra de São Nicolau de Vila Nova.
* 1541: Os frades são aconselhados pelo Padre Geral de Santa Cruz de Coimbra a estabelecerem-se definitivamente no novo local, no prazo de um ano, facto este a que os crúzios de Grijó encaravam com relutância.
* 1542: Eleito D. Manuel como 1° prior do mosteiro da Serra do Pilar, abandonado, tendo-se já efetuado a mudança do Mosteiro de Grijó que terá ficado assim. Início da construção da igreja, claustro, coro, capítulo e refeitório.
* 1554: Frei Brás de Braga é destituído do cargo de reformador da Ordem.
* 1563: Regresso dos monges a Grijó. Entre 1563 e 1564 dá-se a separação definitiva do Mosteiro de São Salvador de Grijó, dividindo-se as rendas e bens.
* 1576: Início da construção do claustro do mosteiro.
* 1580: Instalação de António Prior do Crato no Mosteiro de Santo Agostinho da Serra, de onde bombardeou a cidade do Porto com disparos de artilharia durante três dias.
* 1583: Conclusão da obra do claustro do mosteiro.
* 1596: D. Acúrcio de Santo Agostinho é eleito Prior do Mosteiro.
* 1598.1599: Data provável do início da construção da nova igreja do mosteiro (a atual, de planta circular), sob a direção dos mestres de pedraria e arquitetos Gonçalo Vaz e Gregório Lourenço.
* 1599: Reunião do Capítulo Geral em Coimbra onde se decide atribuir o titulo e invocação de Santo Agostinho ao mosteiro abandonando-se a anterior invocação a S. Salvador da Serra.
* 1629: Adjudicação da obra de um caminho para o mosteiro.
* 1658: Conclusão da Chronica da Ordem dos Cónegos Regrantes da autoria de D. Nicolau de Santa Maria, prior do Mosteiro da Serra entre 1617 e 1650.
* 1672: Missa inaugural da igreja nova do Mosteiro da Serra, iniciada em 1669, por D. Acúrsio de Santo Agostinho. Inauguração da atual igreja do Mosteiro da Serra.
* 1678: Entrada da imagem da Senhora do Pilar na igreja do Mosteiro da Serra, passando aí a ser venerada e festejada a 15 de agosto de cada ano. Constitui-se, para tal, uma irmandade. Conclusão da nova igreja do mosteiro (a atual, de planta circular). No domingo de Páscoa desse ano, o então Prior D. Jerónimo da Conceição, colocou no altar-mor a imagem de Nossa Senhora do Pilar.
* 1690: O Prior D. Jerónimo de S. Tomé decide construir a atual capela-mor e o coro, levando ao desmantelamento e translado do claustro para o atual local, recebendo o mestre pedreiro Manuel do Couto 550 mil réis.
* 1692: Colocação do parapeito e platibanda do claustro. Conclusão das obras de transferência do claustro, tendo sido esta data registada na própria pedra do mesmo claustro.
* 1739: Fundação do Hospício do Senhor d' Além, por iniciativa de cinco frades carmelitas. Este estabelecimento funcionou até 1832.
* 1755: Conclusão das obras da sacristia.
* 1763: Utilização do edifício do Mosteiro da Serra do Pilar por unidades militares, nomeadamente do Regimento de Artilharia do Porto, extinto em 1829.
* 1809: Reconquista da cidade do Porto a partir da Serra do Pilar, onde as tropas anglo-lusas instalaram uma bateria de artilharia com 18 peças contra os invasores franceses. Em consequência das invasões francesas e das guerras liberais, o edifício passou a aquartelamento militar.
* 1832.1833: Destruição parcial do convento e da igreja durante o chamado "Cerco do Porto".
* 1832: Abandono de todo o convento pelos monges do convento da Serra do Pilar, ao saberem da chegada das tropas liberais. Este acontecimento marca a viragem, entre a ocupação eclesiástica e a ocupação militar da Serra do Pilar.Nomeação do Coronel José António da Silva Torres como comandante do reduto militar da Serra do Pilar. Combate decisivo para a vitória dos liberais. Apesar do ativo e violento ataque miguelista (que se prolongou durante 33 horas consecutivas), as tropas gaienses conseguiram suportar e repelir heróica e vigorosamente essa investida, tendo aguentado de forma estóica a luta corpo a corpo. Na sequência deste feito militar, D. Pedro, Duque de Bragança, atribuiu aos defensores da Serra o honroso epiteto de POLACOS DA SERRA, igualando-os em heroicidade aos filhos da Polónia que combateram as tropas russas, prussianas e austriacas, na altura em que o Czar Nicolau I invadiu a Polónia.
* 1834: Extinção do Hospício do Senhor d'Além, da Ordem dos Carmelitas. Nesta altura é vendido para nele funcionar uma fábrica de louça. Elevação da Serra do Pilar à categoria de Fortaleza Militar por Decreto da Rainha D. Maria II.
* 1835: Elevação da Serra do Pilar à categoria de Praça de Guerra de 1ª classe, por Decreto de D. Maria II, data a partir da qual passou a ser utilizada como Unidade Militar.
* 1844: Venda do Hospício do Senhor d'Além em hasta pública. Foram vários os seus proprietários/possuidores, nomeadamente: Justiniano César Osório, Nicolao Pollevi, Joaquim Fernandes de Araújo, António Rodrigues dos Santos, os irmãos Vieira Braga e os Vieira de Castro.
* 1859: Utilização do Hospício do Senhor d' Além como fábrica de moagem a vapor, descasque de arroz e padaria e fábrica de bolacha.
* 1866: Aproximadamente nesta data assiste-se à utilização do Hospício do Senhor d'Além como fábrica de louça pelos irmãos Vieira Braga. Em 1908 a fábrica passa a ser gerida pela firma Barbosa, Branco & Companhia. Mais tarde, foi alugada a José Pereira Valente Júnior, que tinha estado ligado à cerâmica de família, nas Devesas.
* 1877: Edificação da nova Capela do Senhor d' Além, no mesmo lugar da antiga ali existente. A festa em honra do Senhor d' Além realiza-se no penúltimo Domingo de Agosto.
* 1889: Instalação da Brigada de Artilharia de Montanha (criada em 1878) na Serra do Pilar, aí se mantendo até à sua extinção em 1897.
* 1910: Elevação à categoria de Monumento Nacional (MN, Dec. 16-06-1910, DG 136 de 23 Junho 1910 (Igreja e claustro), IIP, Dec. n° 25 034, DG 33 de 11 Fevereiro 1935 (sala do capítulo, refeitório, cozinha, torre e capela), ZEP, DG 137 de 16 Junho 1949; N.° IPA PTO11317160001).
* 1911: Instalação do RA6 [Regimento de Artilharia 6] (Montada) na Serra do Pilar.
* 1925: Constituição da Comissão dos Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar.
* 1926: Passa a designar-se RA5 [Regimento de Artilharia 5]. Esta Unidade Militar herda o património histórico do RA4 (Porto) extinto em 1829, do Grupo de Artilharia de Montanha n.° 2 (Amarante - 1927) e do AL5 Montada (Penafiel - 1965), sendo ainda fiel depositário do RA4 (Porto - 1829).
* 1927: Inicio das obras de conservação, reabilitação e reconstrução do Mosteiro da Serra do Pilar.
* 1931: Reconstrução de várias dependências do mosteiro, nomeadamente na sala do Capítulo.
* 1939: Execução de uma abóbada, em betão armado, para a sacristia nova.
* 1943: Início das obras da capela-mor, com a transladação do altar-mor para um plano anterior.
* 1945: Realização de obras de reparação diversas, como pequenos consertos de caixilharia.
* 1947: Cedência, a título precário, do refeitório e sala anexa ao Regimento de Artilharia Pesada, n.° 2, para instalação de um pequeno museu; Cedência da capela pelo Comando do RAP n° 2 à DGEMN; algumas dependências do mosteiro passam a servir de armazém de altares e talha diversa, painéis de azulejos e outras peças retiradas das igrejas pela DGEMN.
* 1948.1949: Estudo dos graves problemas verificados na abóbada da igreja. Estes problemas traduziam-se em fendas extensas e mesmo numa abertura na cúpula, existentes há já alguns anos, e facilmente visualizados do interior da igreja.
* 1950: Enterramento no cemitério paroquial das ossadas encontradas no adro da igreja. Estudo das fendas das paredes da igreja, com substituição de pedras partidas e parcialmente destruídas.
* 1950.1951: Obras de consolidação da cúpula.
* 1951: Estudo da consolidação da escarpa norte do mosteiro que se encontrava parcialmente em desagregação.
* 1957: Reabertura da igreja ao culto. Obras de restauro da capela-mor. Conjuntamente com a da Torre dos Clérigos e da Sé do Porto, é elaborado o projeto de iluminação do Mosteiro da Serra do Pilar. Elaboração do projeto de consolidação da escarpa, com a colaboração do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
* 1976.1979: Conclusão da obra da cúpula, com a colocação de telhas argamassadas.
* 2004: Concurso de adjudicação para conservação da Igreja, claustro e espaços monásticos. Conservação e restauro de peças existentes em depósito.
== Caracterização do objeto arquitetónico no período Renascentista ==
* Nome do Arquiteto: Diogo de Castilho e João de Ruão
* Nome do Ocupante: Ordem de Santo Agostinho
* Nome do Proprietário: Ordem de Santo Agostinho
* Tipo de Uso: religioso e militar.
== Caracterização do objeto arquitetónico na atualidade ==
* Nome do Ocupante do Objeto Contemporâneo: Turismo de Portugal e Estado Português.
* Nome do Proprietário do Objeto Contemporâneo: Estado Português.
* Tipo de Uso do Objeto Contemporâneo: uso turístico e cultural.
== Autores ==
A sua autoria é atribuída ao arquiteto espanhol Diogo de Castilho e ao arquiteto e escultor francês João de Ruão, tal como é referido por Susana Matos Abreu. Sendo esta dupla autoria um fator impulsionador da singularidade da arquitetura do mosteiro que é um exemplo único de convento com igreja e claustro de planta circular, devido às ideias inovadoras colocadas em prática enquanto se vivia numa época artística marcada pela admiração e seguimento da arquitetura clássica, onde a solução de um eixo da composição principal sustentado por uma sequência de espaços centrados (a igreja e o claustro) enquadrado por duas alas laterais, é inédita no país e constitui um modelo proveniente da arquitetura civil. Mais tarde, entre 1598-1599, dá-se a construção da nova igreja do mosteiro (a atual) sob a direção dos arquitetos e mestres de pedraria Filipe Tércio, Gonçalo Vaz e Gregório Lourenço. Em 1690, é registada a presença do mestre pedreiro Manuel do Couto para a construção da atual capela-mor e coro, sendo feita a passagem do claustro para o atual local.


== Descrição ==
== Descrição ==


=== Objeto arquitetónico ===
=== Objeto arquitetónico ===
A falta de documentos primários devido a um incêndio na biblioteca aí existente, fez desaparecerem todas as informações relativas à conceção do espaço, desconhecendo-se por isso os registos originais do projeto e execução. A organização dos edifícios do mosteiro foi feita de acordo com a arquitetura monástica, seguindo os valores desta comunidade. No panorama da arquitetura contra-reformada, no qual se apresenta como um projeto sem paralelo, o Mosteiro é considerado «um dos mais notáveis edifícios da arquitetura clássica europeia de todos os tempos devido à sua igreja e ao seu claustro, ambos circulares e da mesma dimensão em planta» (GOMES, Paulo Varela, 2001, p.79). O Mosteiro de estilo maneirista é constituído por dois corpos que se articulam com a volumetria circular da igreja e do claustro, formando então os dois espaços um "infinito perfeito". Encontra-se a norte o corpo mais antigo – o dormitório, onde se localizavam também as celas e a sul situa-se o refeitório e a cozinha. Em 1598 o prior D. Acúrsio de Santo Agostinho considerou a igreja do mosteiro pequena, pelo que decidiu refazer a mesma, consagrando-a a Santo Agostinho, sendo esta nova igreja atribuída por alguns autores ao arquiteto Filipe Tércio. A planta circular da nova igreja relembra a igreja de Santa Maria Redonda de Roma e esta terá mantido o primeiro projeto uma vez que a planimetria empregue era não só desajustada ao gosto arquitetónico da época como "desadequada" às normas tridentinas então vigentes, limitando-se por isso a uma cópia da planta já existente.
A falta de documentos primários devido a um incêndio na biblioteca aí existente, fez desaparecerem todas as informações relativas à conceção do espaço, desconhecendo-se por isso os registos originais do projeto e execução.


=== Património integrado[editar | editar código-fonte] ===
A análise descritiva da arquitetura do mosteiro foi realizada com base na descrição disponibilizada no SIPA e no livro O Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar" de org. [da] Divisão Municipal de Arquivo, Pelouro da Cultura [da] Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
 
A organização dos edifícios do mosteiro foi feita de acordo com a arquitetura monástica, seguindo os valores desta comunidade. No panorama da arquitetura contra-reformada, no qual se apresenta como um projeto sem paralelo, o Mosteiro é considerado «um dos mais notáveis edifícios da arquitetura clássica europeia de todos os tempos devido à sua igreja e ao seu claustro, ambos circulares e da mesma dimensão em planta» (GOMES, Paulo Varela, 2001, p.79). O Mosteiro de estilo maneirista é constituído por dois corpos que se articulam com a volumetria circular da igreja e do claustro, formando então os dois espaços um "infinito perfeito". Encontra-se a norte o corpo mais antigo – o dormitório, onde se localizavam também as celas e a sul situa-se o refeitório e a cozinha. Em 1598 o prior D. Acúrsio de Santo Agostinho considerou a igreja do mosteiro pequena, pelo que decidiu refazer a mesma, consagrando-a a Santo Agostinho, sendo esta nova igreja atribuída por alguns autores ao arquiteto Filipe Tércio. A planta circular da nova igreja relembra a igreja de Santa Maria Redonda de Roma e esta terá mantido o primeiro projeto uma vez que a planimetria empregue era não só desajustada ao gosto arquitetónico da época como "desadequada" às normas tridentinas então vigentes, limitando-se por isso a uma cópia da planta já existente.
 
=== Património integrado ===


==== A igreja ====
==== A igreja ====
[[Ficheiro:Fachada principal da entrada da igreja.jpg|alt=Fachada principal da entrada da igreja do Mosteiro da Serra do Pilar|miniaturadaimagem|'''Fachada principal da entrada da igreja.''']]
A entrada principal da igreja é marcada por quatro colunas jónicas assentes em pedestais, ladeando a porta, um portal de volta perfeita almofadado, ladeado por uma estrutura de cantaria com quatro colunas jónicas sobre soco. Do lado direito, em primeiro plano da ala sul, estão patentes as janelas da sacristia. O entablamento tem um nicho vazio encimado por um frontão com uma cruz ao meio. A fachada é dividida por pilastras, correspondentes aos pilares estruturais que dividem o corpo circular da igreja e enquadram os panos rebocados que abrem, a meio, janelas retangulares e mais abaixo destas pequenas janelas. A nível do último piso temos o entablamento e cornija que suportam um varandim de balaústres encimados por pináculos. O interior da igreja, por sua vez, é reforçado por oito pilares com a frente decorada por pilastras duplas. Nos espaços intermédios encontra-se a porta, o arco da capela-mor, seis altares e sete janelas em nível mais elevado. O arco triunfal é ladeado por imagens dos quatro evangelistas e encimada por imagem num trono apoiado no entablamento circundante. Nos altares laterais, em talha dourada, avultam colunas salomónicas cobertas com exuberante ornamentação de anjos, figuras bíblicas, aves e folhagens. Os púlpitos em talha dourada são encimados por duas figuras alegóricas a Fé e a Igreja. Do lado esquerdo encontra-se o primeiro altar do lado do Evangelho e do lado direito o primeiro altar do lado da Epistola. A capela-mor, retangular, tem teto em abóbada de berço dividida por caixotões ornados com cartelas. A iluminação é feita por três janelas laterais de cada lado a um nível mais elevado. Apresenta um retábulo neoclássico com revestimento lacado a branco-pérola e ouro, decorado com flores, urnas com ramalhetes e pontilhados. O sacrário com a forma de um templo romano é rematado por uma cúpula, bem ao estilo neoclássico, tendo o mesmo revestimento que o retábulo. A cúpula interior da igreja caracteriza-se através da cornija assente em modilhões onde se ergue a abobada hemisférica disposta em tabelas de cantaria em forma de almofadas ou de reboco intercalado com nervuras. Nesta cornija pode se ver um nicho com a imagem de São Salvador. Existe ainda uma cúpula no exterior, decorada com pináculos e no topo um cata-vento, com volutas a surgirem da interceção dos arcos com a base das colunas, entre a balaustrada e a cúpula encontra-se um terraço na forma deste corredor envolvente. Tanto a cúpula como o terraço reforçam o impacto visual e funcional da construção.
A entrada principal da igreja é marcada por quatro colunas jónicas assentes em pedestais, ladeando a porta, um portal de volta perfeita almofadado, ladeado por uma estrutura de cantaria com quatro colunas jónicas sobre soco. Do lado direito, em primeiro plano da ala sul, estão patentes as janelas da sacristia. O entablamento tem um nicho vazio encimado por um frontão com uma cruz ao meio. A fachada é dividida por pilastras, correspondentes aos pilares estruturais que dividem o corpo circular da igreja e enquadram os panos rebocados que abrem, a meio, janelas retangulares e mais abaixo destas pequenas janelas. A nível do último piso temos o entablamento e cornija que suportam um varandim de balaústres encimados por pináculos. O interior da igreja, por sua vez, é reforçado por oito pilares com a frente decorada por pilastras duplas. Nos espaços intermédios encontra-se a porta, o arco da capela-mor, seis altares e sete janelas em nível mais elevado. O arco triunfal é ladeado por imagens dos quatro evangelistas e encimada por imagem num trono apoiado no entablamento circundante. Nos altares laterais, em talha dourada, avultam colunas salomónicas cobertas com exuberante ornamentação de anjos, figuras bíblicas, aves e folhagens. Os púlpitos em talha dourada são encimados por duas figuras alegóricas a Fé e a Igreja. Do lado esquerdo encontra-se o primeiro altar do lado do Evangelho e do lado direito o primeiro altar do lado da Epistola. A capela-mor, retangular, tem teto em abóbada de berço dividida por caixotões ornados com cartelas. A iluminação é feita por três janelas laterais de cada lado a um nível mais elevado. Apresenta um retábulo neoclássico com revestimento lacado a branco-pérola e ouro, decorado com flores, urnas com ramalhetes e pontilhados. O sacrário com a forma de um templo romano é rematado por uma cúpula, bem ao estilo neoclássico, tendo o mesmo revestimento que o retábulo. A cúpula interior da igreja caracteriza-se através da cornija assente em modilhões onde se ergue a abobada hemisférica disposta em tabelas de cantaria em forma de almofadas ou de reboco intercalado com nervuras. Nesta cornija pode se ver um nicho com a imagem de São Salvador. Existe ainda uma cúpula no exterior, decorada com pináculos e no topo um cata-vento, com volutas a surgirem da interceção dos arcos com a base das colunas, entre a balaustrada e a cúpula encontra-se um terraço na forma deste corredor envolvente. Tanto a cúpula como o terraço reforçam o impacto visual e funcional da construção.
[[Ficheiro:Fachada lateral da igreja.jpg|alt=Fachada lateral da igreja do Mosteiro da Serra do Pilar|miniaturadaimagem|Fachada lateral da igreja]]


==== Claustro ====
==== Claustro ====
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À esquerda da igreja é visível a torre sineira e a portaria. A torre sineira é um dos edifícios que restam da igreja primitiva. É uma construção de planta quadrangular onde se suspendem os sinos em oito arcos agrupados dois a dois, é rematada por 4 pináculos e está separada do corpo da igreja. A portaria tem um simples traçado, tem uma porta encimada por um frontão semicircular com uma cruz acima desta e duas janelas laterais pequenas. Ao nível do vão do telhado está uma outra janela, rematada no topo por uma cruz.
À esquerda da igreja é visível a torre sineira e a portaria. A torre sineira é um dos edifícios que restam da igreja primitiva. É uma construção de planta quadrangular onde se suspendem os sinos em oito arcos agrupados dois a dois, é rematada por 4 pináculos e está separada do corpo da igreja. A portaria tem um simples traçado, tem uma porta encimada por um frontão semicircular com uma cruz acima desta e duas janelas laterais pequenas. Ao nível do vão do telhado está uma outra janela, rematada no topo por uma cruz.


=== Objeto ou conjunto em destaque[editar | editar código-fonte] ===
== Fontes e Bibliografia ==
Que objeto destaca no Património Integrado? Justifique o motivo de destacar este objeto / conjunto e apresente-o sumariamente.
 
 
 
'''Breve contextualização'''
 
O século XVI foi um período de grandes e profundas transformações culturais e artísticas em toda a Europa, com o Renascimento consolidando-se como um movimento de renovação estética, intelectual e científica. O movimento surgido na Itália trouxe uma nova abordagem à arte, focada na redescoberta dos ideais clássicos de harmonia, proporção e racionalidade. Essa renovação estética se difundiu por outros países europeus, adaptando-se às tradições e aos contextos culturais locais de cada região.
 
O contexto português é marcado por grandes influências italianas e francesas. Como reforça Paulo Pereira (1995), a arquitetura e a escultura ganharam novas formas e proporções inspiradas nos modelos clássicos, especialmente com a chegada de tratados de arquitetura e artistas estrangeiro. Um exemplo disso foi Filippo Terzi, arquiteto italiano que trabalhou em Portugal e foi responsável por projetos importantes, como a Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, que incorpora princípios clássicos de simetria e proporção. O autor também nos leva a compreender as resistências, especialmente nas regiões mais afastadas de Lisboa, às inovações. Essas resistências são importantes na compreensão do mosteiro da serra do pilar para um melhor entendimento da importância da geografia da construção, como veremos a seguir.
 
'''Origem do mosteiro e contexto histórico e religioso'''
 
O Mosteiro da Serra do Pilar, ou Mosteiro de São Salvador da Serra, teve a sua construção motivada pela vontade de transferir o Mosteiro de São Salvador de Grijó – localizado numa área rural – para uma área urbana. Localizado em Vila Nova de Gaia, teve a sua construção iniciada em meados do século XVI, período que Portugal enfrentava tensões políticas, com o esforço para consolidar a política interna e expandir suas influências pelo mundo; religiosas, com as reformas católicas e a resistência ao protestantismo; e culturais, com a adaptação dos conceitos renascentistas no cenário português. Dentro deste contexto,  Abreu reflete sobre a arquitetura do mosteiro:  
 
''A sua arquitectura invulgar é reflexo de todas estas tensões: nasce de um programa político e econômico complexo traçado para o reino pelo seu patrono D. João III; alça-se como estandarte de mudança no panorama religioso e espiritual da pré-Reforma da Igreja pelo seu fundador, Fr. Brás de Barros; afirma-se como símbolo de uma mundividência que aspira a ser verdadeiramente universal – dir-se-ia até mesmo cosmológica – por mão dos seus arquitectos.”'' (Abreu, S. 2015, p. 1)
 
O local escolhido para a sua construção, no alto da serra, refletia princípios renascentistas valorizados na época, como a visibilidade e a imponência associadas a edificações em posições elevadas. Essa escolha, segundo Marta Oliveira, destaca a intenção de estabelecer um marco visual e simbólico na paisagem da cidade, afirmando o poder espiritual e social que a presença da igreja afirmava. Registros documentais indicam que o início dos trabalhos foi dado em 1537. A autora também destaca a crescente importância da região Norte de Portugal, especialmente as cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, impulsionada pela rota fluvial à qual estavam próximas e pelo crescimento urbano que essas áreas experimentavam. Essa evolução fez com que a região passasse a competir em importância com a cidade de Braga, refletindo a necessidade de reforçar a presença religiosa e o controle sobre essa área estratégica. Assim, a decisão do Rei João III de construir o Mosteiro de São Salvador na área escolhida é justificada. Segundo Oliveira, essa escolha é um diferencial em comparação com as demais construções religiosas da época.
 
O projeto do mosteiro foi encomendado pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, liderados por Frei Brás de Barros (ou de Braga), reformador da ordem e responsável por intervir, junto da comunidade religiosa de Grijó, para a transferência do mosteiro e impulsionar a construção da casa monástica. A escolha do local de construção do mosteiro reforça o sentido de afirmação da visibilidade e proeminência da Ordem a que pertencia. Importante referir a discordância dos Cónegos da Sé com a escolha do local da execução do translado. Tal escolha reforçou posteriormente uma diferenciação do convento em comparação a outros da época pela sua localização privilegiada.
 
Susana Abreu afirma que inicialmente o projeto possuía uma arquitetura simples, com um formato retangular e um telhado de duas águas. Em 1590,  essa estrutura simples foi substituída, dando lugar a uma nova construção, em formato circular e com abóbada circular feita de pedra. Entretanto, João de Barros, geógrafo que possui parentesco com Frei Brás de Barros, escreveu por volta de 1549 que o mosteiro estava sendo construído com formas redondas e técnicas novas “Redondo de arte mui noua”. Essa constatação de João indica como, desde o princípio, a construção do mosteiro já tinha em seu plano de execução o formato circular.
 
''A modesta construção da igreja então levantada, um corpo rectangular com cobertura de duas águas, seria substituída pela atual, está de forma circular e abobadada em pedra, empreendida em 1590 no mesmo local. Um importante testemunho do geógrafo João de Barros – por sinal parente de Fr. Brás de Barros (ou de Braga), o fundador desta casa monástica e Reformador da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho – assegura que por volta de 1549 o mosteiro se ia erguendo “Redondo de arte mui noua”, o que indica que já então a forma circular do claustro (o mesmo que ainda hoje se mantém) hegemonizaria a organização espacial das dependências circundantes.'' (Abreu, S. 2007, p. 1)
 
'''Arquitetos e responsáveis pela obra'''
 
Em ''Diogo de Castilho e João de Ruão: uma parceria invulgar no traçado do Mosteiro de S. Salvador da Serra (Serra do Pilar)'', Abreu (2007) discute como os arquitetos associados ao início da construção do mosteiro foram envolvidos na obra. A pedido de Frei Brás, encomendador e fundador da igreja, que não apenas supervisionou as etapas iniciais da obra, mas também desempenhou um papel central na organização e no financiamento do projeto, foi enviada uma carta ao prior do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, informando sobre o andamento das obras do mosteiro em Vila Nova e solicitando a presença de dois artistas importantes para trabalharem na edificação do projeto.
 
Discute-se qual foi o papel exato de cada um dos artistas convidados na execução da obra arquitetônica. Acredita-se que João de Ruão provavelmente atuou como diretor da obra, supervisionando todo o processo, enquanto o escultor Diogo de Castilho foi chamado para auxiliar no ajuste da posição dos edifícios no terreno.
 
A partir de web consulta ao SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitetónico), obtêm-se informações sobre outros profissionais envolvidos na construção e execução do mosteiro, como os mestres-de-obras André Álvares (1580) e Gonçalo Anes de Madalena (1580), além dos pedreiros Diogo Dias (1568) e Jerónimo Luís (1576-1581). Complementando a obra e contribuindo para os acabamentos e ornamentos interiores, destacam-se os carpinteiros Pedro Anes (1567, 1572-1580) e Afonso Gonçalves (1573), bem como os entalhadores António Gomes (1692) e Filipe da Silva (1691).  Além do desenhador Manuel Taveira (1684) e o pintor Francisco Correia (1573-1574).
 
'''Análise arquitetônica'''
 
A análise descritiva da arquitetura do mosteiro foi realizada com base na descrição disponibilizada no SIPA. A planta do mosteiro é composta por três partes principais: uma igreja circular, um espaço destinado à oração; uma capela-mor retangular, área sagrada atrás do altar principal; e um claustro circular, pátio interno rodeado por colunas e galerias alinhadas em sequência. Nas laterais, em duas alas estreitas, estão as dependências conventuais (áreas residenciais ou funcionais), com uma torre à esquerda, como vemos na Figura 1. Os blocos arquitetônicos – igreja, capela-mor e alas laterais – possuem telhados de diferentes formas, com alguns de duas ou quatro águas (telhados inclinados) e outros em cúpula ou terraço. O mosteiro possui dois acessos: Santa Marinha e Largo de Aviz.
 
1 – Igreja; 2 – Capela-mor; 3 – Retrocoro; 4 – Antecoro; 5 – Claustro; 6 – Sala do capítulo; 7 – Cozinha; 8 – Refeitório; 9 – Sacristia; 10 – Portaria; 11 – Dormitório; 12 – Torre sineira.
 
Figura 1. Planta do Mosteiro da Serra do Pilar (Manuelvbotelho, 2017).
 
'''Proporções e formas'''


Com base nos estudos da planta arquitetônica, observa-se como as proporções antropométricas são aplicadas no desenho do mosteiro. O "Homem Vitruviano" (c. 1490), estudo de Leonardo da Vinci fundamentado nos textos de Vitrúvio, reflete sobre a geometria e sua relação com o corpo humano, evidenciando o corpo como a medida de todas as coisas e a harmonia presente em tudo ao nosso redor. Vitrúvio argumentava que as formas do círculo, representando o cosmos, o divino e o infinito, e do quadrado, simbolizando a matéria, o mundo terreno e racional, eram as geometrias perfeitas, o que Leonardo evidenciou em sua ilustração, como vemos na figura 2. Esses conceitos ajudam a compreender a base teórica da arquitetura renascentista, especialmente no caso do Mosteiro da Serra do Pilar, que se destaca como uma construção única no país, refletindo a dimensão cultural que transmite.
=== Fontes ===
ABREU, Susana Matos – Diogo de Castilho e João de Ruão: uma parceria invulgar no traçado do Mosteiro de S. Salvador da Serra (Serra do Pilar) in "Artistas e Artífices e a sua mobilidade no Mundo de Expressão Portuguesa”. Actas do VII Colóquio Luso Brasileiro de História da Arte (Porto, 20-23 Junho 2005)", ed. Natália Marinho Ferreira Alves, Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2007, 495-503.


A planta do mosteiro segue uma proporção de 7:2, comparável ao esquema antropomórfico de Martini (c. 1492). Essa relação entre o comprimento e a largura do edifício revela uma conexão simbólica, associando as partes do mosteiro às partes do corpo humano: a igreja como a cabeça, as alas laterais (áreas residenciais) como os braços e o claustro como o coração. Abreu (2015) destaca que essa proporção e o simbolismo associado ressaltam a visão humanista do Renascimento, sendo um exemplo claro de como a arquitetura renascentista combinava simbolismo religioso com lógica estrutural e técnica.  
ALVES, Joaquim Jaime Ferreira - O novo corpo da igreja do Mosteiro de Santo Agostinho da Serra e a deslocação do claustro (1690-1691)", in Revista MONUMENTOS N.9, Lisboa, 1998, pp. 42-47, 1998.  


Figura 2. Leonardo da Vinci, Homem Vitruviano, c. 1490. Imagem de domínio público. Fonte: Wikimedia Commons
- A Serra do Pilar: achegas para uma bibliografia gaiense. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. - Vol. 2, n° 11 (Nov.1981).


'''A igreja'''
CRAVEIRO, Maria de Lurdes - A arquitectura “Ao Romano”, 2009


A fachada da  igreja possui dois andares separados por uma cornija. É decorada com pilastras que, além de exercerem função estética (''venustas''), funcionam como contrafortes, ajudando a suportar o peso das paredes e cobertura e que equilibram as forças exercidas pela cúpula (que tende a empurrar as paredes pela força). Nas pontas dos contrafortes vêem-se pináculos, ou seja, pontas decorativas. Como podemos ver na figura 3.
FIGUEIREDO, Pedro Marques de; TAVARES, José Luis - O Mosteiro da Serra do Pilar. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. -Vol. 6, n.° 40 (Dez. 1995).


A entrada principal da igreja tem um portal com um arco pleno enquadrado por uma estrutura de cantaria, decorado com quatro colunas jônicas com bases retangulares em que se apoiam e um frontão triangular que é interrompido por uma cruz. O andar superior possui janelas distribuídas simetricamente, enquanto pequenas aberturas no andar inferior garantem ventilação e luz ao interior.  
GOMES, Paulo Varela - Arquitectura, Religião e Política em Portugal no século XVII - A Planta Centralizada, 2001.  


A cúpula da igreja, figura 4, é coberta por telhas e possui um lanternim de pedra, com uma pequena cúpula no topo. Há ainda, entre a balaustrada e a cúpula, um terraço que forma uma espécie de corredor e permite acesso a uma área plana.
GUIMARÃES, Gonçalves- A Serra do Pilar: Património Cultural da Humanidade. Vila Nova de Gaia: Fundação Salvador Caetano, 1999.


O interior da igreja expõe em sua ornamentação e arquitetura o significado do espaço sagrado. Ele é igualmente dividido em dois andares que são separados por pilastras duplas alternadas com capelas decoradas com retábulos dourados ou brancos e dourados. Além disso, possuem também dois ou três nichos com imagens e, no segundo andar, como destacados na visão exterior, as janelas da parte superior estão acima das capelas no segundo andar do edifício. O arco central é amplo e alto e ao seu lado encontram-se dois púlpitos decorados com esculturas de madeira. O teto da igreja possui uma abóbada hemisférica com detalhes em pedra, incluindo nichos e relevos, além de nervuras no reboco.
História da Arte Portuguesa (1995), Dir. Paulo Pereira, Vol. II, Círculo de Leitores. Parte 3 – Classicismo: Inovações, Resistências, Academismos, pp. 279-537.


Os elementos clássicos que decoram a fachada refletem a busca renascentista por proporções perfeitas e harmonia, como discutido anteriormente. A geometria simbólica com a planta circular da igreja e a cúpula representam o infinito e o divino e enfatizam a conexão entre o espaço sagrado e o cosmos. O uso do círculo aqui, tanto na planta quanto na cúpula, não é apenas uma escolha estética, mas uma manifestação da ideia de um espaço divino e perfeito, onde a continuidade e a unidade são ressaltadas.
OLIVEIRA, Marta M. Peters - Arriscado de O Mosteiro do Salvador: um projecto do século XVI in Monumentos, nº 9, Lisboa, 1998.


Figura 3. Fachada da Igreja. (Krzysztof Golik, 2020)
NOGUEIRA, Fernanda - Mosteiro da Serra do Pilar: o ex-libris de Vila Nova de Gaia. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. -Vol. 4, n° 24 (Jun. 1988). - O Mosteiro da Serra do Pilar: Património da humanidade. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. -Vol. 7, n° 42 (Dez. 1996).


Figura 4. Cúpula da Igreja (Manuel Botelho, 2016)
PEREIRA, Ana Rita - O Mosteiro da Serra do Pilar: Análise Arquitetónica e Patrimonial", tese de mestrado em História da Arte, Universidade do Porto.


'''O claustro'''
RUÃO, Carlos - Arquitectura maneirista no Noroeste de Portugal, 1996. - Senhora do Pilar substitui Santo Agostinho, porquê? In: Boletim da Associação Cultural dos Amigos de Gaia. -Vol. 8, n°. 50 (Jun. 2000). 


Como mencionado no capítulo sobre a origem do mosteiro e contexto histórico e religioso, documentações indicam que o claustro circular fazia parte do planejamento original do projeto. Ele é de fato concebido em forma circular e possui um piso único e a galeria que o circunda é formada por um teto abobadado e uma cornija decorada, que são sustentadas por 36 colunas jônicas. O claustro possui também um chafariz. Como vemos nas figuras 5 e 6.
SERRÃO, Vítor - História da Arte em Portugal (2002) - O Renascimento e o Maneirismo (1500-1620). Lisboa: Editorial Presença.


O círculo representa o universo e a busca por inovação, com a organização radial do espaço e a continuidade das colunas, interrompidas apenas por acessos ao centro, permitindo a entrada de luz. Essa disposição não só gera uma sensação de harmonia e equilíbrio, mas também reflete o ideal renascentista de integrar o humano e o divino. A luz que entra pelas aberturas no claustro não apenas ilumina fisicamente o ambiente, mas também "espiritualmente".
TEMUDO, Alda Padrão – “O Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar... Para além da Serra”, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.


Figura 5. Claustro do Mosteiro Serra do Pilar (Manuel Botelho, 2016)
VILA (Romero), FREITAS (Eugénio de Andrea da Cunha e) & GONÇALVES (A. Nogueira) – “O MOSTEIRO DA SERRA DO PILAR” [Gabinete de História e Arqueologia de V. N. Gaia. Câmara Municipal de V. N. de Gaia].


Figura 6. Claustro do Mosteiro Serra do Pilar (Manuel Botelho, 2016)
=== Bibliografia ===
Bibliografia sobre o Centro Histórico <nowiki>https://pt.wikipedia.org/wiki/Centro_Hist%C3%B3rico_do_Porto</nowiki>, 10/11/2024. do Porto - consultado 10/11/2024.


'''Os materiais'''
DGLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), Arquivo Nacional: Torre do Tombo, Mosteiro de Santo Agostinho da Serra de Vila Nova de Gaia, disponível em: <nowiki>https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4380753</nowiki>, consultado 09/12/2024.


Quanto aos materiais, as paredes exteriores, segundo o SIPA, foram feitas em alvenaria de pedra. Para cobertura, ou telhados, foram utilizadas telhas cerâmicas. As caixilharias e retábulos foram produzidos em madeira.
Monumentos Nacionais: Mosteiro da Serra do Pilar - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR), disponível em: <nowiki>http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5358</nowiki>, consultado 13/11/2024.

Edição atual desde as 08h10min de 28 de fevereiro de 2025

Identificação[editar | editar código-fonte]

Designação Mosteiro da Serra do Pilar.
Localização Largo de Aviz, 4430-329 Vila Nova de Gaia, Portugal, 41° 08′ 18″ N, 8° 36′ 24″ O.
Cronologia Fundado em 1537, por Frei Brás de Braga.
Autor(es) Diogo de Castilho e João de Ruão.
Mosteiro da Serra do Pilar - Visão frontal

Estado da Arte[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Estado da Arte do objeto selecionado, através da análise critica da bibliografia  que destaque a importância do objeto no contexto da Arquitetura do séculos XVI em Portugal. Bibliografia obrigatória disponibilizada.

Enquadramento[editar | editar código-fonte]

Existem e existiram imóveis no contexto físico patrimonial na área envolvente do Mosteiro que marcaram e marcam estrategicamente a população e o próprio edifício, como por exemplo: a Ermida de Nicolau, a Capela do Senhor d´Além, o Hospício do Senhor d´Além, o Jardim do Morro, o aqueduto da Serra do Pilar, o Casino da Ponte, o Cais de Gaia, entre outros. É ainda de importante referência a relação do Mosteiro com o rio e com a outra margem, tendo uma relação com a Ponte das Barcas (1806-1843), Ponte D. Maria II (1843-1886), Ponte D. Maria Pia (1877) e Ponte D.Luís I (1886). Atualmente, este encontra-se inserido na área do centro histórico do Porto, classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1996, que acolhe arquiteturas como a Sé do Porto, o Palácio da Bolsa e a Igreja de São Francisco e entre muitas outras presentes na parte da cidade interior ao traçado da antiga muralha fernandina e também algumas áreas vizinhas. Assim sendo, a localização privilegiada do edifício coloca-o em contacto acrescido com património circundante.

Cronologia[editar | editar código-fonte]

O Mosteiro em estudo, para além da sua ocupação eclesiástica teve uma forte ocupação militar, oferecendo uma vasta e marcada cronologia. O contexto da fundação deste mosteiro pode ser explicado pela necessidade de reformar o Mosteiro de Grijó, localizado num lugar baixo e húmido, onde se assistia a certos vícios de relaxamento e abusos por parte dos religiosos pertencentes à Ordem Religiosa dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho do Convento de Santa Cruz de Coimbra, assim como outro dos motivos da edificação deste novo convento seria a necessidade de aproximar a atividade pastoral desta instituição para uma maior proximidade da população urbana. Em 1537 fundou-se o Mosteiro da Serra, por Frei Brás de Braga, sob a invocação do Salvador do Mundo, sendo feito neste ano o lançamento da primeira pedra do mosteiro, sob a direção de Frei Brás de Braga, na presença do Bispo do Porto D.Baltasar Limpo, e dos arquitetos Diogo de Castilho e João Ruão. Durante os séculos XVII e XVIII, serviu como um centro religioso e espiritual relevante. Contudo, no século XIX, a dissolução das ordens religiosas em Portugal, marcou o fim da sua função original. Posteriormente, foi adaptado para fins militares, desempenhando um papel crucial no Cerco do Porto, durante as Guerras Liberais. Ao longo do século XX, o mosteiro enfrentou períodos de abandono, mas também foi alvo de iniciativas de conservação, sendo classificado como Monumento Nacional em 1910 e, mais tarde, incluído na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1996, como parte do Centro Histórico do Porto. Atualmente, funciona como um espaço cultural e turístico, representando a riqueza histórica, arquitetônica e espiritual da região.

Cronologia aprofundada[editar | editar código-fonte]

  • 961: Fortificação militar do Monte da Meijoeira pelo Conde Gonçalo Moniz (Senhor de Entre-Douro-e-Mondego) e seus apaniguados numa atitude de autonomia face ao Rei de Leão, D. Sancho I.
  • 1140: Pedro Rabaldio manda erigir um convento de monjas de invocação a São Nicolau, também designado por Donas Pregaretas de São Nicolau, Convento das Emparedadas de São Nicolau e ainda por Convento de Freiras Descalças de São Nicolau.
  • 1500: Cerimónia de condução das imagens de São Nicolau, de São Bartolomeu e do Senhor Crucificado, existentes na igreja do extinto convento das Donas Pregaretas de São Nicolau, até à Capela do Senhor d' Além.
  • 1537: Fundação do Mosteiro da Serra por Frei Brás de Braga, sob a invocação do Salvador do Mundo. Lançamento da 1ª pedra do mosteiro, sob a direção de D. Frei Brás de Braga, na presença do Bispo do Porto D. Baltasar Limpo. As obras estavam a cargo dos arquitetos Diogo de Castilho e João Ruão.
  • 1540: Autorização papal oficializando a mudança do Mosteiro de Grijó para a serra de São Nicolau de Vila Nova.
  • 1541: Os frades são aconselhados pelo Padre Geral de Santa Cruz de Coimbra a estabelecerem-se definitivamente no novo local, no prazo de um ano, facto este a que os crúzios de Grijó encaravam com relutância.
  • 1542: Eleito D. Manuel como 1° prior do mosteiro da Serra do Pilar, abandonado, tendo-se já efetuado a mudança do Mosteiro de Grijó que terá ficado assim. Início da construção da igreja, claustro, coro, capítulo e refeitório.
  • 1554: Frei Brás de Braga é destituído do cargo de reformador da Ordem.
  • 1563: Regresso dos monges a Grijó. Entre 1563 e 1564 dá-se a separação definitiva do Mosteiro de São Salvador de Grijó, dividindo-se as rendas e bens.
  • 1576: Início da construção do claustro do mosteiro.
  • 1580: Instalação de António Prior do Crato no Mosteiro de Santo Agostinho da Serra, de onde bombardeou a cidade do Porto com disparos de artilharia durante três dias.
  • 1583: Conclusão da obra do claustro do mosteiro.
  • 1596: D. Acúrcio de Santo Agostinho é eleito Prior do Mosteiro.
  • 1598.1599: Data provável do início da construção da nova igreja do mosteiro (a atual, de planta circular), sob a direção dos mestres de pedraria e arquitetos Gonçalo Vaz e Gregório Lourenço.
  • 1599: Reunião do Capítulo Geral em Coimbra onde se decide atribuir o titulo e invocação de Santo Agostinho ao mosteiro abandonando-se a anterior invocação a S. Salvador da Serra.
  • 1629: Adjudicação da obra de um caminho para o mosteiro.
  • 1658: Conclusão da Chronica da Ordem dos Cónegos Regrantes da autoria de D. Nicolau de Santa Maria, prior do Mosteiro da Serra entre 1617 e 1650.
  • 1672: Missa inaugural da igreja nova do Mosteiro da Serra, iniciada em 1669, por D. Acúrsio de Santo Agostinho. Inauguração da atual igreja do Mosteiro da Serra.
  • 1678: Entrada da imagem da Senhora do Pilar na igreja do Mosteiro da Serra, passando aí a ser venerada e festejada a 15 de agosto de cada ano. Constitui-se, para tal, uma irmandade. Conclusão da nova igreja do mosteiro (a atual, de planta circular). No domingo de Páscoa desse ano, o então Prior D. Jerónimo da Conceição, colocou no altar-mor a imagem de Nossa Senhora do Pilar.
  • 1690: O Prior D. Jerónimo de S. Tomé decide construir a atual capela-mor e o coro, levando ao desmantelamento e translado do claustro para o atual local, recebendo o mestre pedreiro Manuel do Couto 550 mil réis.
  • 1692: Colocação do parapeito e platibanda do claustro. Conclusão das obras de transferência do claustro, tendo sido esta data registada na própria pedra do mesmo claustro.
  • 1739: Fundação do Hospício do Senhor d' Além, por iniciativa de cinco frades carmelitas. Este estabelecimento funcionou até 1832.
  • 1755: Conclusão das obras da sacristia.
  • 1763: Utilização do edifício do Mosteiro da Serra do Pilar por unidades militares, nomeadamente do Regimento de Artilharia do Porto, extinto em 1829.
  • 1809: Reconquista da cidade do Porto a partir da Serra do Pilar, onde as tropas anglo-lusas instalaram uma bateria de artilharia com 18 peças contra os invasores franceses. Em consequência das invasões francesas e das guerras liberais, o edifício passou a aquartelamento militar.
  • 1832.1833: Destruição parcial do convento e da igreja durante o chamado "Cerco do Porto".
  • 1832: Abandono de todo o convento pelos monges do convento da Serra do Pilar, ao saberem da chegada das tropas liberais. Este acontecimento marca a viragem, entre a ocupação eclesiástica e a ocupação militar da Serra do Pilar.Nomeação do Coronel José António da Silva Torres como comandante do reduto militar da Serra do Pilar. Combate decisivo para a vitória dos liberais. Apesar do ativo e violento ataque miguelista (que se prolongou durante 33 horas consecutivas), as tropas gaienses conseguiram suportar e repelir heróica e vigorosamente essa investida, tendo aguentado de forma estóica a luta corpo a corpo. Na sequência deste feito militar, D. Pedro, Duque de Bragança, atribuiu aos defensores da Serra o honroso epiteto de POLACOS DA SERRA, igualando-os em heroicidade aos filhos da Polónia que combateram as tropas russas, prussianas e austriacas, na altura em que o Czar Nicolau I invadiu a Polónia.
  • 1834: Extinção do Hospício do Senhor d'Além, da Ordem dos Carmelitas. Nesta altura é vendido para nele funcionar uma fábrica de louça. Elevação da Serra do Pilar à categoria de Fortaleza Militar por Decreto da Rainha D. Maria II.
  • 1835: Elevação da Serra do Pilar à categoria de Praça de Guerra de 1ª classe, por Decreto de D. Maria II, data a partir da qual passou a ser utilizada como Unidade Militar.
  • 1844: Venda do Hospício do Senhor d'Além em hasta pública. Foram vários os seus proprietários/possuidores, nomeadamente: Justiniano César Osório, Nicolao Pollevi, Joaquim Fernandes de Araújo, António Rodrigues dos Santos, os irmãos Vieira Braga e os Vieira de Castro.
  • 1859: Utilização do Hospício do Senhor d' Além como fábrica de moagem a vapor, descasque de arroz e padaria e fábrica de bolacha.
  • 1866: Aproximadamente nesta data assiste-se à utilização do Hospício do Senhor d'Além como fábrica de louça pelos irmãos Vieira Braga. Em 1908 a fábrica passa a ser gerida pela firma Barbosa, Branco & Companhia. Mais tarde, foi alugada a José Pereira Valente Júnior, que tinha estado ligado à cerâmica de família, nas Devesas.
  • 1877: Edificação da nova Capela do Senhor d' Além, no mesmo lugar da antiga ali existente. A festa em honra do Senhor d' Além realiza-se no penúltimo Domingo de Agosto.
  • 1889: Instalação da Brigada de Artilharia de Montanha (criada em 1878) na Serra do Pilar, aí se mantendo até à sua extinção em 1897.
  • 1910: Elevação à categoria de Monumento Nacional (MN, Dec. 16-06-1910, DG 136 de 23 Junho 1910 (Igreja e claustro), IIP, Dec. n° 25 034, DG 33 de 11 Fevereiro 1935 (sala do capítulo, refeitório, cozinha, torre e capela), ZEP, DG 137 de 16 Junho 1949; N.° IPA PTO11317160001).
  • 1911: Instalação do RA6 [Regimento de Artilharia 6] (Montada) na Serra do Pilar.
  • 1925: Constituição da Comissão dos Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar.
  • 1926: Passa a designar-se RA5 [Regimento de Artilharia 5]. Esta Unidade Militar herda o património histórico do RA4 (Porto) extinto em 1829, do Grupo de Artilharia de Montanha n.° 2 (Amarante - 1927) e do AL5 Montada (Penafiel - 1965), sendo ainda fiel depositário do RA4 (Porto - 1829).
  • 1927: Inicio das obras de conservação, reabilitação e reconstrução do Mosteiro da Serra do Pilar.
  • 1931: Reconstrução de várias dependências do mosteiro, nomeadamente na sala do Capítulo.
  • 1939: Execução de uma abóbada, em betão armado, para a sacristia nova.
  • 1943: Início das obras da capela-mor, com a transladação do altar-mor para um plano anterior.
  • 1945: Realização de obras de reparação diversas, como pequenos consertos de caixilharia.
  • 1947: Cedência, a título precário, do refeitório e sala anexa ao Regimento de Artilharia Pesada, n.° 2, para instalação de um pequeno museu; Cedência da capela pelo Comando do RAP n° 2 à DGEMN; algumas dependências do mosteiro passam a servir de armazém de altares e talha diversa, painéis de azulejos e outras peças retiradas das igrejas pela DGEMN.
  • 1948.1949: Estudo dos graves problemas verificados na abóbada da igreja. Estes problemas traduziam-se em fendas extensas e mesmo numa abertura na cúpula, existentes há já alguns anos, e facilmente visualizados do interior da igreja.
  • 1950: Enterramento no cemitério paroquial das ossadas encontradas no adro da igreja. Estudo das fendas das paredes da igreja, com substituição de pedras partidas e parcialmente destruídas.
  • 1950.1951: Obras de consolidação da cúpula.
  • 1951: Estudo da consolidação da escarpa norte do mosteiro que se encontrava parcialmente em desagregação.
  • 1957: Reabertura da igreja ao culto. Obras de restauro da capela-mor. Conjuntamente com a da Torre dos Clérigos e da Sé do Porto, é elaborado o projeto de iluminação do Mosteiro da Serra do Pilar. Elaboração do projeto de consolidação da escarpa, com a colaboração do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
  • 1976.1979: Conclusão da obra da cúpula, com a colocação de telhas argamassadas.
  • 2004: Concurso de adjudicação para conservação da Igreja, claustro e espaços monásticos. Conservação e restauro de peças existentes em depósito.

Caracterização do objeto arquitetónico no período Renascentista[editar | editar código-fonte]

  • Nome do Arquiteto: Diogo de Castilho e João de Ruão
  • Nome do Ocupante: Ordem de Santo Agostinho
  • Nome do Proprietário: Ordem de Santo Agostinho
  • Tipo de Uso: religioso e militar.

Caracterização do objeto arquitetónico na atualidade[editar | editar código-fonte]

  • Nome do Ocupante do Objeto Contemporâneo: Turismo de Portugal e Estado Português.
  • Nome do Proprietário do Objeto Contemporâneo: Estado Português.
  • Tipo de Uso do Objeto Contemporâneo: uso turístico e cultural.

Autores[editar | editar código-fonte]

A sua autoria é atribuída ao arquiteto espanhol Diogo de Castilho e ao arquiteto e escultor francês João de Ruão, tal como é referido por Susana Matos Abreu. Sendo esta dupla autoria um fator impulsionador da singularidade da arquitetura do mosteiro que é um exemplo único de convento com igreja e claustro de planta circular, devido às ideias inovadoras colocadas em prática enquanto se vivia numa época artística marcada pela admiração e seguimento da arquitetura clássica, onde a solução de um eixo da composição principal sustentado por uma sequência de espaços centrados (a igreja e o claustro) enquadrado por duas alas laterais, é inédita no país e constitui um modelo proveniente da arquitetura civil. Mais tarde, entre 1598-1599, dá-se a construção da nova igreja do mosteiro (a atual) sob a direção dos arquitetos e mestres de pedraria Filipe Tércio, Gonçalo Vaz e Gregório Lourenço. Em 1690, é registada a presença do mestre pedreiro Manuel do Couto para a construção da atual capela-mor e coro, sendo feita a passagem do claustro para o atual local.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Objeto arquitetónico[editar | editar código-fonte]

A falta de documentos primários devido a um incêndio na biblioteca aí existente, fez desaparecerem todas as informações relativas à conceção do espaço, desconhecendo-se por isso os registos originais do projeto e execução.

A análise descritiva da arquitetura do mosteiro foi realizada com base na descrição disponibilizada no SIPA e no livro O Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar" de org. [da] Divisão Municipal de Arquivo, Pelouro da Cultura [da] Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

A organização dos edifícios do mosteiro foi feita de acordo com a arquitetura monástica, seguindo os valores desta comunidade. No panorama da arquitetura contra-reformada, no qual se apresenta como um projeto sem paralelo, o Mosteiro é considerado «um dos mais notáveis edifícios da arquitetura clássica europeia de todos os tempos devido à sua igreja e ao seu claustro, ambos circulares e da mesma dimensão em planta» (GOMES, Paulo Varela, 2001, p.79). O Mosteiro de estilo maneirista é constituído por dois corpos que se articulam com a volumetria circular da igreja e do claustro, formando então os dois espaços um "infinito perfeito". Encontra-se a norte o corpo mais antigo – o dormitório, onde se localizavam também as celas e a sul situa-se o refeitório e a cozinha. Em 1598 o prior D. Acúrsio de Santo Agostinho considerou a igreja do mosteiro pequena, pelo que decidiu refazer a mesma, consagrando-a a Santo Agostinho, sendo esta nova igreja atribuída por alguns autores ao arquiteto Filipe Tércio. A planta circular da nova igreja relembra a igreja de Santa Maria Redonda de Roma e esta terá mantido o primeiro projeto uma vez que a planimetria empregue era não só desajustada ao gosto arquitetónico da época como "desadequada" às normas tridentinas então vigentes, limitando-se por isso a uma cópia da planta já existente.

Património integrado[editar | editar código-fonte]

A igreja[editar | editar código-fonte]

Fachada principal da entrada da igreja do Mosteiro da Serra do Pilar
Fachada principal da entrada da igreja.

A entrada principal da igreja é marcada por quatro colunas jónicas assentes em pedestais, ladeando a porta, um portal de volta perfeita almofadado, ladeado por uma estrutura de cantaria com quatro colunas jónicas sobre soco. Do lado direito, em primeiro plano da ala sul, estão patentes as janelas da sacristia. O entablamento tem um nicho vazio encimado por um frontão com uma cruz ao meio. A fachada é dividida por pilastras, correspondentes aos pilares estruturais que dividem o corpo circular da igreja e enquadram os panos rebocados que abrem, a meio, janelas retangulares e mais abaixo destas pequenas janelas. A nível do último piso temos o entablamento e cornija que suportam um varandim de balaústres encimados por pináculos. O interior da igreja, por sua vez, é reforçado por oito pilares com a frente decorada por pilastras duplas. Nos espaços intermédios encontra-se a porta, o arco da capela-mor, seis altares e sete janelas em nível mais elevado. O arco triunfal é ladeado por imagens dos quatro evangelistas e encimada por imagem num trono apoiado no entablamento circundante. Nos altares laterais, em talha dourada, avultam colunas salomónicas cobertas com exuberante ornamentação de anjos, figuras bíblicas, aves e folhagens. Os púlpitos em talha dourada são encimados por duas figuras alegóricas a Fé e a Igreja. Do lado esquerdo encontra-se o primeiro altar do lado do Evangelho e do lado direito o primeiro altar do lado da Epistola. A capela-mor, retangular, tem teto em abóbada de berço dividida por caixotões ornados com cartelas. A iluminação é feita por três janelas laterais de cada lado a um nível mais elevado. Apresenta um retábulo neoclássico com revestimento lacado a branco-pérola e ouro, decorado com flores, urnas com ramalhetes e pontilhados. O sacrário com a forma de um templo romano é rematado por uma cúpula, bem ao estilo neoclássico, tendo o mesmo revestimento que o retábulo. A cúpula interior da igreja caracteriza-se através da cornija assente em modilhões onde se ergue a abobada hemisférica disposta em tabelas de cantaria em forma de almofadas ou de reboco intercalado com nervuras. Nesta cornija pode se ver um nicho com a imagem de São Salvador. Existe ainda uma cúpula no exterior, decorada com pináculos e no topo um cata-vento, com volutas a surgirem da interceção dos arcos com a base das colunas, entre a balaustrada e a cúpula encontra-se um terraço na forma deste corredor envolvente. Tanto a cúpula como o terraço reforçam o impacto visual e funcional da construção.

Fachada lateral da igreja do Mosteiro da Serra do Pilar
Fachada lateral da igreja

Claustro[editar | editar código-fonte]

O claustro, de planta circular, é único em Portugal e exibe uma grande riqueza ornamental, sendo um objeto arquitetónico desta construção que merece destaque. Devido à construção de um novo coro em 1690, o claustro anterior foi demolido e reconstruído no local onde agora se encontra, mantendo a forma circular do projeto inicial, porém inserido num quadrado regular. Este é constituído por uma galeria de um piso, coberta por uma abóboda circular de volta completa e apoia-se em trinta e seis colunas com capiteis jónicos e um friso decorado com pináculos e volutas, tendo em roda quatro capelas quinhentistas. No centro do claustro, encontra-se uma fonte com um tanque de forma octogonal, de onde a água para uma taça com quatro mascarões nas bordas.

Coro[editar | editar código-fonte]

O coro separa a igreja do claustro, tem uma forma quadrangular e na sua parte posterior virada para o claustro podemos ver um telhado de duas águas com uma cruz no topo e pináculos laterais.

Sala do Capítulo[editar | editar código-fonte]

A sala do capítulo é conhecida atualmente como a sala D. Afonso Henriques, também serviu de museu. Tem no seu interior atualmente a estátua de D. Afonso Henriques, de Soares dos Reis, que é a versão em gesso da de bronze do Castelo de Guimarães. É de abóbada semicircular dividida por caixotões, tem um arco retabular em cantaria amparado por colunas e encimado por um frontão.

A sacristia, o refeitório e a cozinha[editar | editar código-fonte]

A sacristia, o refeitório e a cozinha são dependências laterais viradas a sul, que ficaram muito danificadas durante o cerco do Porto. Foram recuperadas na década de quarenta. A cozinha com tem um formato quadrangular e tem do lado direito da entrada uma grande lareira e na parede em frente três janelas de grandes dimensões voltadas para o exterior. O refeitório que está ligado à cozinha por uma porta e corredor é também de grandes dimensões e está iluminado por cinco janelas. Do lado exterior existe um primeiro corpo com cinco janelas a nível de cada piso para lado poente e a sul com duas janelas ao nível de cada piso que correspondem à sacristia. Um segundo corpo virado a sul com cinco janelas a nível de cada piso que correspondem ao refeitório. O terceiro corpo com uma janela a nível de cada piso é o corredor de passagem para a cozinha que corresponde ao último corpo composto por três janelas a nível de cada piso. Todos os corpos apresentam ao nível do primeiro piso janelões emoldurados e divididos por pinázios e a nível do segundo piso janelas mais pequenas, mas com as mesmas características dos primeiros.

Dormitório[editar | editar código-fonte]

O dormitório é também um dos edifícios que permanece do projeto inicial, sendo uma dependência lateral virada a norte. Tem cinco corpos que se destacam através dos telhados de quatro águas intercalados ao longo do edifício principal que tem um telhado de duas águas.

Torre sineira e portaria[editar | editar código-fonte]

À esquerda da igreja é visível a torre sineira e a portaria. A torre sineira é um dos edifícios que restam da igreja primitiva. É uma construção de planta quadrangular onde se suspendem os sinos em oito arcos agrupados dois a dois, é rematada por 4 pináculos e está separada do corpo da igreja. A portaria tem um simples traçado, tem uma porta encimada por um frontão semicircular com uma cruz acima desta e duas janelas laterais pequenas. Ao nível do vão do telhado está uma outra janela, rematada no topo por uma cruz.

Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

ABREU, Susana Matos – Diogo de Castilho e João de Ruão: uma parceria invulgar no traçado do Mosteiro de S. Salvador da Serra (Serra do Pilar) in "Artistas e Artífices e a sua mobilidade no Mundo de Expressão Portuguesa”. Actas do VII Colóquio Luso Brasileiro de História da Arte (Porto, 20-23 Junho 2005)", ed. Natália Marinho Ferreira Alves, Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2007, 495-503.

ALVES, Joaquim Jaime Ferreira - O novo corpo da igreja do Mosteiro de Santo Agostinho da Serra e a deslocação do claustro (1690-1691)", in Revista MONUMENTOS N.9, Lisboa, 1998, pp. 42-47, 1998.

- A Serra do Pilar: achegas para uma bibliografia gaiense. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. - Vol. 2, n° 11 (Nov.1981).

CRAVEIRO, Maria de Lurdes - A arquitectura “Ao Romano”, 2009

FIGUEIREDO, Pedro Marques de; TAVARES, José Luis - O Mosteiro da Serra do Pilar. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. -Vol. 6, n.° 40 (Dez. 1995).

GOMES, Paulo Varela - Arquitectura, Religião e Política em Portugal no século XVII - A Planta Centralizada, 2001.

GUIMARÃES, Gonçalves- A Serra do Pilar: Património Cultural da Humanidade. Vila Nova de Gaia: Fundação Salvador Caetano, 1999.

História da Arte Portuguesa (1995), Dir. Paulo Pereira, Vol. II, Círculo de Leitores. Parte 3 – Classicismo: Inovações, Resistências, Academismos, pp. 279-537.

OLIVEIRA, Marta M. Peters - Arriscado de O Mosteiro do Salvador: um projecto do século XVI in Monumentos, nº 9, Lisboa, 1998.

NOGUEIRA, Fernanda - Mosteiro da Serra do Pilar: o ex-libris de Vila Nova de Gaia. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. -Vol. 4, n° 24 (Jun. 1988). - O Mosteiro da Serra do Pilar: Património da humanidade. In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. -Vol. 7, n° 42 (Dez. 1996).

PEREIRA, Ana Rita - O Mosteiro da Serra do Pilar: Análise Arquitetónica e Patrimonial", tese de mestrado em História da Arte, Universidade do Porto.

RUÃO, Carlos - Arquitectura maneirista no Noroeste de Portugal, 1996. - Senhora do Pilar substitui Santo Agostinho, porquê? In: Boletim da Associação Cultural dos Amigos de Gaia. -Vol. 8, n°. 50 (Jun. 2000).

SERRÃO, Vítor - História da Arte em Portugal (2002) - O Renascimento e o Maneirismo (1500-1620). Lisboa: Editorial Presença.

TEMUDO, Alda Padrão – “O Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar... Para além da Serra”, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

VILA (Romero), FREITAS (Eugénio de Andrea da Cunha e) & GONÇALVES (A. Nogueira) – “O MOSTEIRO DA SERRA DO PILAR” [Gabinete de História e Arqueologia de V. N. Gaia. Câmara Municipal de V. N. de Gaia].

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Bibliografia sobre o Centro Histórico https://pt.wikipedia.org/wiki/Centro_Hist%C3%B3rico_do_Porto, 10/11/2024. do Porto - consultado 10/11/2024.

DGLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), Arquivo Nacional: Torre do Tombo, Mosteiro de Santo Agostinho da Serra de Vila Nova de Gaia, disponível em: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4380753, consultado 09/12/2024.

Monumentos Nacionais: Mosteiro da Serra do Pilar - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR), disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5358, consultado 13/11/2024.