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Esta | No período Renascentista, a disciplina de arquitetura é considerada a que melhor se articula com as outras artes e que conjuga e põe em diálogo todos os saberes. É uma marca de prestígio social e político e um instrumento ao serviço da afirmação de um Estado moderno e poderoso (Moreira, 1995, p. 304). De grande qualidade técnica construtiva, mas profundamente despojada, a arquitetura dessa cronologia floresce pela mão de mestres pedreiros/arquitetos exímios na talha da pedra, à qual adicionam inovações técnicas e tipologias herdadas de outros países (Moreira, 1995, p. 303). | ||
Em Portugal, o humanismo aplicado às artes plásticas, com os seus ideais de racionalidade e proporções numéricas perfeitas, estabeleceu-se, de início, na escultura, mas rapidamente foi transposto para a arquitetura (Moreira, 1995, p. 323) (Craveiro, 2008, p. 12). | |||
O norte de Portugal foi dos primeiros a acolher este Renascimento inicial, o designado “Renascimento de granito” (Moreira, 1995, p. 334). João Lopes-o-Velho destacou-se no litoral minhoto como o primeiro de uma das mais importantes castas de pedreiros e arquitetos desta região (Craveiro, 2008, p. 116). | |||
João Jácome Rodrigues de Luna, descendente de nobres galegos que tinham perdido os direitos senhoriais, transpôs para a sua habitação de família as formas arquitetónicas inovadoras e arrojadas então em voga. Com estas pretendia demonstrar o seu poder político e económico. Implantou a sua casa num terreno frontal à Sé da cidade, num gaveto entre a Rua do Poço e o Largo da Sé, na proximidade da porta da muralha medieval. Esta porta abria diretamente para a fachada do hospital da Misericórdia, da qual Jácome de Luna era provedor. A qualidade da arquitetura e a implantação urbana estratégica conjugavam-se para enaltecer a figura deste homem e da sua linhagem. Não lhe sendo possível ostentar o brasão da família na sua habitação, contratou o mestre João Lopes-o-Velho para elaborar a sua residência e adornar as fachadas com elementos decorativos que exaltassem o seu passado senhorial (Oliveira, 2003). | |||
Miguel de Vasconcelos, Secretário de Estado de Filipe III e primeira vítima mortal do golpe de estado de 1 de dezembro de 1640, era bisneto de Jácome de Luna e foi proprietário da casa no século XVII. No século XIX a casa foi vendida e passou a ter locatários provisórios. No século XX foi aí instalado, temporariamente, o Governo Civil de Viana do Castelo, enquanto decorriam as obras na Casa dos Cunhas. Em 19 julho de 1961 foi integrada na Zona Especial de Proteção, conjuntamente com a Igreja Matriz e a Casa de João Velho ou dos Arcos (Noé, Casa de Miguel de Vasconcelos, Casa dos Medalhões, Casa das Lunas, 2008). | |||
A casa, de planta retangular e lote estreito, apresenta três volumes articulados e cobertura com telhado de quatro águas. Em alçado divide-se em três pisos, o inferior destinado ao comércio e os dois superiores a habitação/atividade administrativa. Este edifício possui duas fachadas, a principal a orientada a este e a lateral a sul. A norte e a oeste tem adossados edifícios de tipologia habitacional. Na fachada principal, o piso térreo com cunhais em cantaria, foi rasgado por três vãos retangulares de moldura simples para se adaptar à atividade comercial. Os dois pisos superiores apresentam vãos sobrepostos, sendo o segundo rasgado por duas janelas de sacada com molduras diferenciadas, a da esquerda mainelada e ladeada por pilastras decoradas com motivos clássicos. Na base das pilastras encontram-se esculpidos, em baixo-relevo, as figuras de dois homens: um com turbante e um com elmo. A moldura da janela da direita, sem decoração, tem no seu arranque dois guerreiros com elmo (Oliveira, 2003). Nos capiteis, de motivos vegetalistas, assenta uma cornija. Acima desta estão esculpidas duas ânforas que enquadram dois medalhões, provavelmente com as figuras dos proprietários da casa, atualmente não percetíveis. No terceiro piso, as janelas de peitoril repousam sobre uma cornija decorada com parras e querubins. As suas molduras possuem colunelos decorados com motivos vegetalistas, e o remate superior faz-se com urnas. Este piso apresenta ainda a inscrição mural "ESTA CASA MANDOU FAZER JÁCOME RODRIGUEZ CAVALEIRO FIDALGO DA CASA D'EL REI NOSSO SENHOR E COMENDADOR DE BRITO NA ORDEM DE CRISTO E SUA MULHER MARIA BARBOSA BISNETA DE FERNÃO GONÇALVES BARBOSA E BISNETA DE MARTIM DA ROCHA, FIDALGO DO SENHOR INFANTE D. PEDRO" (Oliveira, 2003). | |||
A fachada lateral, resultado da agregação de três casas, foi uniformizada através da decoração. Apresenta, no entanto, uma fenestração e ornamentação mais irregular, sendo a de maior elaboração no piso nobre. O piso térreo, não decorado, abre-se em três vãos para acesso à parte posterior do edifício. O piso nobre apresenta quatro janelas de peitoril com molduras, todas com ornamentação diferenciada, centradas por janela de sacada. Esta, de arco bilobado e estrutura mainelada, contem figura zoomórfica na imposta e é ladeada por pilastras com capiteis e bases adornadas. O capiteis, de motivos vegetalistas, são encimados por cornija onde repousam dois vasos a delimitar uma cartela. As bases apresentam decoração figurativa em relevo, a da esquerda com uma armadura e a da direita um homem com elmo (Oliveira, 2003). A ornamentação das janelas não é uniforme. No lado direito do pano murário, uma das janelas tem apenas moldura simples em cantaria, enquanto a outra é decorada com enrolamentos vegetalistas e ladeada por medalhões. À esquerda da janela de sacada, o muro é também rasgado por dois vãos. Um deles é sobreposto por uma cruz de Santo André, emoldurado por quatro colunelos e ladeado pelas figuras esculpidas de um homem e uma mulher. O outro vão é flanqueado por colunelos e apresenta uma cruz de Cristo inscrita no lintel. A parte mais oeste do edifício, de muro sem decoração, é encimado por terraço apoiado em cachorros. Os vãos do piso superior são de peitoril e não ornamentados. | |||
Craveiro, M. d. (2008). ''A Arquitetura "ao romano".'' Fubu Editores. | |||
Moreira, R. (1995). Arquitetura: Renascimento e classicismo. Em P. Pereira, História da Arte Portuguesa (pp. 303-364). Lisboa: Círculo de Leitores. | |||
Noé, P. (2008). Casa de Miguel de Vasconcelos, Casa dos Medalhões, Casa dos Lunas. Obtido de Sistema de Informação para o Património Arquitetónico: <nowiki>http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=4116</nowiki> | |||
Oliveira, C. (2003). Casa de Miguel de Vasconcelos. Obtido de Direção Geral do Património Cultural: <nowiki>https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=70310</nowiki> | |||
Revisão das 19h04min de 1 de abril de 2025
Casa dos Lunas
Introdução ao Objeto
No período Renascentista, a disciplina de arquitetura é considerada a que melhor se articula com as outras artes e que conjuga e põe em diálogo todos os saberes. É uma marca de prestígio social e político e um instrumento ao serviço da afirmação de um Estado moderno e poderoso (Moreira, 1995, p. 304). De grande qualidade técnica construtiva, mas profundamente despojada, a arquitetura dessa cronologia floresce pela mão de mestres pedreiros/arquitetos exímios na talha da pedra, à qual adicionam inovações técnicas e tipologias herdadas de outros países (Moreira, 1995, p. 303).
Em Portugal, o humanismo aplicado às artes plásticas, com os seus ideais de racionalidade e proporções numéricas perfeitas, estabeleceu-se, de início, na escultura, mas rapidamente foi transposto para a arquitetura (Moreira, 1995, p. 323) (Craveiro, 2008, p. 12).
O norte de Portugal foi dos primeiros a acolher este Renascimento inicial, o designado “Renascimento de granito” (Moreira, 1995, p. 334). João Lopes-o-Velho destacou-se no litoral minhoto como o primeiro de uma das mais importantes castas de pedreiros e arquitetos desta região (Craveiro, 2008, p. 116).
João Jácome Rodrigues de Luna, descendente de nobres galegos que tinham perdido os direitos senhoriais, transpôs para a sua habitação de família as formas arquitetónicas inovadoras e arrojadas então em voga. Com estas pretendia demonstrar o seu poder político e económico. Implantou a sua casa num terreno frontal à Sé da cidade, num gaveto entre a Rua do Poço e o Largo da Sé, na proximidade da porta da muralha medieval. Esta porta abria diretamente para a fachada do hospital da Misericórdia, da qual Jácome de Luna era provedor. A qualidade da arquitetura e a implantação urbana estratégica conjugavam-se para enaltecer a figura deste homem e da sua linhagem. Não lhe sendo possível ostentar o brasão da família na sua habitação, contratou o mestre João Lopes-o-Velho para elaborar a sua residência e adornar as fachadas com elementos decorativos que exaltassem o seu passado senhorial (Oliveira, 2003).
Miguel de Vasconcelos, Secretário de Estado de Filipe III e primeira vítima mortal do golpe de estado de 1 de dezembro de 1640, era bisneto de Jácome de Luna e foi proprietário da casa no século XVII. No século XIX a casa foi vendida e passou a ter locatários provisórios. No século XX foi aí instalado, temporariamente, o Governo Civil de Viana do Castelo, enquanto decorriam as obras na Casa dos Cunhas. Em 19 julho de 1961 foi integrada na Zona Especial de Proteção, conjuntamente com a Igreja Matriz e a Casa de João Velho ou dos Arcos (Noé, Casa de Miguel de Vasconcelos, Casa dos Medalhões, Casa das Lunas, 2008).
A casa, de planta retangular e lote estreito, apresenta três volumes articulados e cobertura com telhado de quatro águas. Em alçado divide-se em três pisos, o inferior destinado ao comércio e os dois superiores a habitação/atividade administrativa. Este edifício possui duas fachadas, a principal a orientada a este e a lateral a sul. A norte e a oeste tem adossados edifícios de tipologia habitacional. Na fachada principal, o piso térreo com cunhais em cantaria, foi rasgado por três vãos retangulares de moldura simples para se adaptar à atividade comercial. Os dois pisos superiores apresentam vãos sobrepostos, sendo o segundo rasgado por duas janelas de sacada com molduras diferenciadas, a da esquerda mainelada e ladeada por pilastras decoradas com motivos clássicos. Na base das pilastras encontram-se esculpidos, em baixo-relevo, as figuras de dois homens: um com turbante e um com elmo. A moldura da janela da direita, sem decoração, tem no seu arranque dois guerreiros com elmo (Oliveira, 2003). Nos capiteis, de motivos vegetalistas, assenta uma cornija. Acima desta estão esculpidas duas ânforas que enquadram dois medalhões, provavelmente com as figuras dos proprietários da casa, atualmente não percetíveis. No terceiro piso, as janelas de peitoril repousam sobre uma cornija decorada com parras e querubins. As suas molduras possuem colunelos decorados com motivos vegetalistas, e o remate superior faz-se com urnas. Este piso apresenta ainda a inscrição mural "ESTA CASA MANDOU FAZER JÁCOME RODRIGUEZ CAVALEIRO FIDALGO DA CASA D'EL REI NOSSO SENHOR E COMENDADOR DE BRITO NA ORDEM DE CRISTO E SUA MULHER MARIA BARBOSA BISNETA DE FERNÃO GONÇALVES BARBOSA E BISNETA DE MARTIM DA ROCHA, FIDALGO DO SENHOR INFANTE D. PEDRO" (Oliveira, 2003).
A fachada lateral, resultado da agregação de três casas, foi uniformizada através da decoração. Apresenta, no entanto, uma fenestração e ornamentação mais irregular, sendo a de maior elaboração no piso nobre. O piso térreo, não decorado, abre-se em três vãos para acesso à parte posterior do edifício. O piso nobre apresenta quatro janelas de peitoril com molduras, todas com ornamentação diferenciada, centradas por janela de sacada. Esta, de arco bilobado e estrutura mainelada, contem figura zoomórfica na imposta e é ladeada por pilastras com capiteis e bases adornadas. O capiteis, de motivos vegetalistas, são encimados por cornija onde repousam dois vasos a delimitar uma cartela. As bases apresentam decoração figurativa em relevo, a da esquerda com uma armadura e a da direita um homem com elmo (Oliveira, 2003). A ornamentação das janelas não é uniforme. No lado direito do pano murário, uma das janelas tem apenas moldura simples em cantaria, enquanto a outra é decorada com enrolamentos vegetalistas e ladeada por medalhões. À esquerda da janela de sacada, o muro é também rasgado por dois vãos. Um deles é sobreposto por uma cruz de Santo André, emoldurado por quatro colunelos e ladeado pelas figuras esculpidas de um homem e uma mulher. O outro vão é flanqueado por colunelos e apresenta uma cruz de Cristo inscrita no lintel. A parte mais oeste do edifício, de muro sem decoração, é encimado por terraço apoiado em cachorros. Os vãos do piso superior são de peitoril e não ornamentados.
Craveiro, M. d. (2008). A Arquitetura "ao romano". Fubu Editores.
Moreira, R. (1995). Arquitetura: Renascimento e classicismo. Em P. Pereira, História da Arte Portuguesa (pp. 303-364). Lisboa: Círculo de Leitores.
Noé, P. (2008). Casa de Miguel de Vasconcelos, Casa dos Medalhões, Casa dos Lunas. Obtido de Sistema de Informação para o Património Arquitetónico: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=4116
Oliveira, C. (2003). Casa de Miguel de Vasconcelos. Obtido de Direção Geral do Património Cultural: https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=70310