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Mosteiro de Moreira da Maia

Fonte: Porto Renascentista
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Breve história A origem do Mosteiro de Moreira da Maia[1] remonta ao século XI, confirmada pelas referências alusivas a doações de terras[2]. Em 1092 é iniciada a construção do edifício românico, sagrado em 1112 pelo bispo do Porto, D. Hugo (Melo, dir. 2000, p. 15).

Incorporado em 1562 na Congregação da Santa Cruz de Coimbra por bula papal, os cónegos regrantes decidiram refazer o Mosteiro, tendo a primeira pedra de construção da nova igreja sido lançada em maio[3] de 1588. A 22 de fevereiro de 1591, Filipe II decidia patrocinar as obras[4]. A mudança do Santíssimo Sacramento da igreja velha para a nova no dia da Cruz de Maio do mesmo ano. Todavia, o aspeto atual da igreja só ficará concluído no final do século XVII com a edificação das duas torres recuadas (Ruão 2006, II, p. 430).

Em 1834, com a reforma do regime de propriedade das ordens religiosas, a igreja fica na posse da paróquia e as restantes propriedades vendidas em hasta pública a particulares, desaparecendo totalmente o enorme couto do século XII, pela sucessiva redução da influência do mosteiro ao longo do tempo (Melo, dir. 2000, pp. 14-16).

Arquitetura

O atual edifício, composto por galilé, nave longitudinal única, com duas capelas em cada lado, transepto inscrito, capela-mor, coro alto, sacristia, claustro – hoje limitado a galeria lateral -, e duas torres sineiras recuadas, deverá a sua traça a Gregório Lourenço[5] (Pereira, dir. 1995, p. 359; Ruão 2006, II, p.431; Serrão 2002, p. 200), um dos mestres mais representativos da cultura arquitetónica “flamenguista”. A fachada depurada, ao gosto maneirista, apresenta uma sobreposição das ordens toscana no piso térreo e jónica no piso superior, destacadamente mais alto, devido à introdução de pseudo-plintos - de onde partem as pilastras da ordem arquitetónica -, apresenta-se dividida em três panos, cuja verticalidade não é afetada pelos dois entablamentos, todavia, o entablamento superior com acentuada cornija, cria a ilusão de um varandim abalaustrado destacado da parede. O remate superior é feito com um frontão triangular com três cruzes e um relógio ao centro. De salientar o motivo serliano no piso superior, com dois vãos retangulares cegos[6], sendo o central, em forma de arco de volta perfeita, o único que ilumina o templo (Ruão 2006, II, pp. 431-432).

O acesso à galilé faz-se através de uma tripla entrada retangular, com portões metálicos. O seu teto é composto por caixotões quadrangulares de granito bem trabalhado. Na galilé, o portal central para entrada no interior do templo, é constituído por duplas colunas coríntias de fuste estriado, cujo terço inferior possui motivos geométricos, assentes em plinto único – uma solução serliana. O entablamento, com friso ornado de figuras ovais unidas por molduras hexagonais, cornija com fiada denticular e outra com óvalos e pendentes. A face interior da arquitrave e o intradorso do arco do portal possuem a mesma linguagem decorativa – motivos geométricos em relevo da tratadística de Vredeman De Vries - triângulo, retângulo e o círculo ovalado. O arco de volta perfeita possui meio capitel toscano adossado, com moldura idêntica aos da fachada, e uma pequena chave-mísula estriada decorativa.

Dentro do templo, a nave, com cerca de 20 metros de altura, possui cobertura em abóbada de berço com caixotões lisos e é antecedida por coro alto, assente num arco abatido suportado por fortes mísulas. De ambos os lados da nave, duas capelas comunicantes. As primeiras com arco de volta perfeita inserido numa estrutura retangular com friso assente em mísulas em forma de capiteis jónicos, encimado por frontão triangular interrompido por janelão chanfrado. Os dois arcos próximos do arco cruzeiro, possuem a mesma altura deste, e funcionam como falso transepto. As quatro capelas possuem cobertura em abóbada de berço, em caixotões pétreos. Em todo o perímetro superior da nave, uma cornija assente em mísulas que assinalam os segmentos das esquadrias da abóbada. Uma outra cornija, menor, percorre as paredes da nave ao nível do arranque do arco das capelas maiores e do arco cruzeiro. Este alinhamento permite a colocação de altares nas laterais do arco cruzeiro e um remate superior nas pilastras laterais com pirâmides boleadas. O coroamento é feito com frontão semicircular interrompido.

O arco cruzeiro, com capiteis toscanos, dá acesso à capela-mor, cuja abóbada de berço, de linguagem «flamenguista», se impõe como elemento de excelência na arquitetura do edifício. Esta abóbada é suportada por uma cornija mísulada, com teto em caixotões de granito de diferentes dimensões, alternando a forma retangular e quadrada, todos ornados com figuras geométricas em relevo: ovais, piramidais e retangulares, enquadrados por molduras trabalhadas. Um deles, ao centro, com a representação do Agnus Dei.

Do claustro, de ordem toscana, resta somente uma galeria transformada em corredor de acesso à sacristia, ao coro alto e ao exterior. O capitel corresponde ao modelo do Livro IV de Sebastiano Serlio (Ruão 2006, II, pp. 432-433). A sacristia, contigua à capela-mor, de forma retangular, possui teto em caixotões de madeira escura. As duas torres sineiras recuadas, de forma quadrangular e cobertura piramidal, foram construídas em 1695, conforme inscrição na face da torre Norte: «Esta torre e empena mandou fazer o Padre D. António de Santo Agostinho, por sua indústria sendo Prior deste mosteiro, 1695» (Melo, dir. 2000, pp. 44-45).

Património Integrado

A decoração interior da igreja do Mosteiro de Moreira da Maia, realizada entre 1676-1750, é já barroca. Os dois retábulos colaterais poderão ser do mesmo autor. Os altares laterais, “engessados” ou já dourados, são de época mais tardia (Melo, dir., 2000, p. 37).


Após entrar na nave, de cada lado do portal, uma pia de água benta em granito.

Quadro das Almas, situado após a entrada na nave, do lado do Evangelho, de autor desconhecido, dimensões 1,80 x 1,43 m. Segundo Melo, dir. “...é uma pintura amaneirada sobre tábua, versando o tema das almas do purgatório. Ao alto, num cúmulo de nuvens e anjinhos está Nossa Senhora. Do lado esquerdo, são Miguel, o anjo psicopompo, dá a mão a um ser humano que se vai libertando das chamas do Purgatório. Ao lado direito, está São Patrício, identificado pela legenda, padroeiro da Irlanda, aqui vestido de cónego regrante e de flor de lis numa mão, enquanto dá a outra a um ser humano que também se liberta do Purgatório” (2000, p. 40). Na parte superior, numa moldura de 0,80 x 0,80 m, está representada a Santíssima Trindade.

Capela do Senhor dos Passos, do lado do Evangelho. Jesus surge sobre um frontão em pedra, assente num retábulo dourado, onde estão embutidas caixas relicário. Ao centro, o sacrário antes chamado Santo Lenho ou Relicário da Cruz. Aqui também se encontra o tesouro paroquial, um valioso relicário de prata dourada, em forma de cruz.

O púlpito, entre a capela do Senhor dos Passos e a capela de Santo Agostinho, com balaustres em madeira de pau preto, assenta sobre uma mísula de granito trabalhado. O acesso faz-se por uma escada que tem início na parte comunicante das capelas.

A pia batismal, já dentro do espaço da capela de Santo Agostinho, em granito muito bem trabalhado.

A Capela de Santo Agostinho, patrono da Congregação dos Crúzios, surge trajado de bispo, com um coração flamejante na mão direita, símbolo do amor a Deus, e o báculo na mão esquerda. À sua direita a figura de Santa Madalena e à esquerda Santa Mónica. Por esta capela acede-se à casa da fábrica.

A Capela de São Teotónio, do lado da Epístola, primeiro Prior de Santa Cruz de Coimbra, coevo de D. Afonso Henriques e primeiro santo português. Surge ladeado por São José e São Joaquim.

A Capela do Senhor Crucificado, ladeado por São Sebastião e por Nossa Senhora da Conceição. Sob a Cruz, a figura da Senhora das Dores.

No coro alto, junto à parede do lado da Epístola, o órgão datado de 1701, executado pelo organeiro de Hamburgo, Harp Schnitger.

O arco cruzeiro, está pintado em "brutesco" com enrolamentos vegetalistas nos fustes, óvalos e pendentes dourados. Ao alinhar pela cota inferior da cornija, permite a colocação de altares colaterais: o Altar de Nossa Senhora do Rosário, do lado esquerdo, encimado por uma cara de lua-cheia, associada à Virgem na simbologia cristã; do lado direito, o Altar de Santo António, trajado de cónego regrante, memória dos tempos passados em Santa Cruz de Coimbra. Acima do altar, está representado um coração flamejante associado aos agostinhos. Ainda nas laterais do arco cruzeiro, duas representações a óleo sobre madeira de autor desconhecido: à esquerda, na “Exaltação da Santa Cruz”, o Imperador Heráclito segura a Santa Cruz recuperada na vitória contra os persas; do lado direito, Heráclito, descalço, transporta a Santa Cruz para a Jerusalém. Acima da cornija, as pilastras são rematadas por duas pirâmides boleadas e um frontão semicircular, pintado, com uma cruz e dois anjos ajoelhados dentro de um templete, encimado por um nicho oval.

Na capela-mor, cujas paredes estão revestidas a azulejos do século XVII, com motivos azuis e amarelos, está, de ambos os lados, o cadeiral do coro. Na sacristia, cujas paredes estão revestidas com azulejos idênticos aos da capela-mor, um arcaz ocupa toda a parede do lado Sul, encimado por uma representação da crucificação. No lado oposto, junto à porta de acesso à capela-mor, uma pia em granito.

Conjunto em destaque Do património integrado, destaca-se o retábulo do altar-mor em talha dourada, executado pelo mestre imaginário Jerónimo da Costa[7] em 1676. Tem a forma de um arco triunfal, com três arquivoltas assente em colunas torsas. Atrás, uma tribuna com abóbada de berço de caixotões de madeira. Ao centro um trono sobre uma base, onde se encontra o sacrário embutido, com três níveis para as exposições do Santíssimo Sacramento. Na parte superior dois anjos ladeiam o Agnus Dei. Predomina a decoração vegetalista, de videiras e uvas, com putti (Melo, dir. 2000, p. 44).



Considerações finais

Em termos gerais, a arquitetura do Mosteiro de Moreira da Maia constitui uma síntese depurada da tipologia construtiva do Mosteiro de São Salvador de Grijó, partilhando a mesma linguagem (Ruão 2006, II, p. 433; Serrão, dir. 1986, p.118),

Bibliografia

CRAVEIRO, Maria Lurdes, 2009. A Arquitectura “Ao Romano”. Arte Portuguesa – Da Pré-História ao Século XX. Coord. Dalila Rodrigues. ISBN 978-989-8207-00-5.

MELO, António, dir., 2000. O Mosteiro Crúzio de Moreira – História Arte e Música. Fábrica da Igreja de Moreira da Maia. ISBN 972-98578-0-6.

PEREIRA, Paulo, dir., 1995. História da Arte Portuguesa, vol. II. Círculo de Leitores, Lisboa, pp. 279-537. ISBN 972-42-1184-3.

KUBLER, George, 1988. A Arquitectura Portuguesa Chã. Entre as Especiarias e os Diamantes (1521-1706). Ed. Veja, Lisboa.

RUÃO, Carlos, 2006. “O Eupalinos Moderno” Teoria e Prática da Arquitectura Religiosa em Portugal (1550-1640). Tese de doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 3 Vols.

SERRÃO, Vítor, dir., 1986. História da Arte em Portugal. O maneirismo, vol. 7. Publicações Alfa, pp. 117-118.

SERRÃO, Vítor, 2002. O Renascimento e o Maneirismo (1500-1620. História da Arte em Portugal, vol. 1. Ed. Presença, pp.154-163. ISBN 972-23-2924-3.

SOROMENHO, Miguel, 2009. A Arquitectura do Ciclo Filipino. Arte Portuguesa – Da Pré-História ao Século XX. Coord. Dalila Rodrigues. ISBN 978-989-8207-01-2.

Recursos Digitais

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. [Consultado em 2024-10-30]. Disponível em: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=1458715

GOOGLE EARTH. [consultado 2024-10-30]. Disponível em: https://earth.google.com/web/search/MOREIRA+DA+MAIA/@41.24596642,-8.65234646,77.20365819a,1067.86023736d,35y,41.38303005h,60.00001833t,360r/data=CiwiJgokCXEOJ7vzdDNAEW4OJ7vzdDPAGaAMbVfkOEdAIX9c-u5SC0vAQgIIAToDCgEwQgIIAEoNCP___________wEQAA

SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico - DGPC]. [consultado 2024-10-30]. Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=4899


[1] Monumento de Interesse Público, Portaria n.º 740-C/2012 ((© SIPA. [consultado 2024-10-30]).

[2] “Doações de 1042, 1044, 1047, 1069 e 1081, falam de “arcisterio” e de “monasterio”. Em 1087, Tructesindo Guterres doa ao Mosteiro a quinta parte dos seus bens, o que significava larguíssima extensão de terras no Entre-Douro-e-Ave” (Melo, dir. 2000, p. 15).

[3] No dia da Cruz de Maio, 3 de maio.

[4] “[...] mandar «todas as justiças e oficiais dela deem e façam dar ao prior e p.p. deste mosteiro para as obras do novo mosteiro e igreja todos cavouqueiros, barqueiros, pedreiros, carpinteiros, carreiros e servidores que lhe forem necessários para as obras enquanto durarem e juntamente façam dar toda a cal, tijolo, pedra, telha, madeira, tojo e mais coisas necessárias».” (Ruão 2006, II, p. 430).

[5] Gregório Lourenço, natural de São Martinho de Dume, Braga, seguiu com os seus quatro irmãos a profissão paterna. Em 1576 está na cidade do Porto, onde casa com Jerónima Fernandes. Era cunhado do mestre pedreiro Brás Martins, pai do também mestre Pantaleão Brás. O Mosteiro de Moreira da Maia e a Misericórdia de Aveiro constituem as suas duas obras-primas (Ruão, 2006, II, p. 426).

[6] Antes da reforma de 1884, a parte superior da fachada possuía três janelões, tal como se observa no desenho de João de Almeida (Melo, dir., 2000, p. 39).

[7] Jerónimo da Costa, mestre imaginário, natural de Santa Cristina de Cerzedelo, Guimarães.  Celebrou contrato com o Prior D. José da Graça para executar por 450 mil reis o retábulo-mor a 30/07/1676, dando a obra pronta no ano seguinte, segundo desenho entregue pelo Prior do mosteiro, mas vindo de Lisboa. Teve de empenhar a própria casa para dar fiança da obra. Os dois retábulos colaterais devem ser do mesmo autor. Os altares laterais, “engessados” ou já dourados, como os classifica a “Descripsão”, são de época mais tardia. Ao todo, havia 7 altares na igreja, mas, no decorrer do tempo, houve troca de imagens nos altares, como ainda agora se pode verificar (Melo, dir. 2000, p. 37).