Convento de São Gonçalo de Amarante
Identificação[editar | editar código-fonte]
| Designação | Convento de São Gonçalo de Amarante |
| Localização | Amarante |
| Cronologia | 1543 |
| Autor(es) | Julião Romero, Mateus Lopes |
Estado da Arte[editar | editar código-fonte]
Estado da Arte do objeto selecionado, através da análise critica da bibliografia que destaque a importância do objeto no contexto da Arquitetura do séculos XVI em Portugal. Bibliografia obrigatória disponibilizada.
Enquadramento[editar | editar código-fonte]
Enquadra-se no centro histórico de Amarante, num terreno de declive acentuado, no sentido E. / O., junto do Rio Tâmega, sobre o qual passa, junto do convento, a Ponte de São Gonçalo. A fachada principal, voltada a oeste, é perpendicular a uma rua estreita, que, do lado oposto ao da fachada, tem em cota mais elevada a Igreja de São Domingos; esta, adossada à torre sineira, anexa ao convento. A fachada lateral está voltada para a Praça da República (Largo de São Gonçalo), lajeado de granito. Inserido no complexo, a norte da Igreja, o claustro, o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, o Paço do Concelho de Amarante e a Câmara Municipal de Amarante. A este encontra-se um parque arborizado, local em que ocorre a feira de São Gonçalo, com uma estátua do poeta, escritor e filósofo, Teixeira de Pascoaes.
Descrição[editar | editar código-fonte]
Objeto arquitetónico[editar | editar código-fonte]
Nota sumária de apresentação fundamentada em bibliografia: monografias sobre o objeto; autores de referência; trabalhos académicos (dissertações de mestrado e teses de doutoramento a consultar nas bibliotecas da FLUP, da FAUP e da FEUP); Bibliografia obrigatória recomendada.
Pesquisar a bibliografia local e a informação que está a ser divulgada sobre o objeto/conjunto arquitetónico.
(Pesquisar no repositório do Núcleo Porto, da Biblioteca da FLUP; ver biblioteca da FAUP; consultar guias Turísticos); periódicos locais; bases de dados online (consultar SIPA). Paralelamente à pesquisa, deve selecionar imagens antigas, plantas e alçados do objeto.
Património integrado[editar | editar código-fonte]
Sinteticamente (no máximo meia página) caracterize o interior e os programas integrados na Arquitetura. Atente: tetos, retábulos, escultura, pintura, azulejaria, ferros, estuques, mobiliário etc.etc.
Objeto ou conjunto em destaque[editar | editar código-fonte]
Que objeto destaca no Património Integrado? Justifique o motivo de destacar este objeto / conjunto e apresente-o sumariamente.
Imagens e Iconografia do Objeto[editar | editar código-fonte]
Mapas, plantas, alçados, fotografias recentes / antigas, estampas, etc., com legenda individual que identifique o autor ou da fonte da imagem.
Objeto arquitetónico[editar | editar código-fonte]
Património integrado[editar | editar código-fonte]
Objeto ou conjunto em destaque[editar | editar código-fonte]
Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]
Fontes[editar | editar código-fonte]
Bibliografia
1. Identificação
O Convento de São Gonçalo de Amarante, localizado na União das Freguesias de Amarante (São Gonçalo), Madalena, Cepelos e Gatão, é fundado em 1540, como consequência do culto do Santo local homónimo, por D. João III. Tendo a primeira pedra sido colocada em 1543, e a construção terminada durante o reinado de D. Felipe I, é observável no resultado a convergência do traço dos múltiplos mestres que nela intervieram. O primeiro nome a quem pode ser atribuída a construção do edifício é Frei Julião Romero, mas é incontornável a influência da “mais importante casta de pedreiros e mestres arquitetos do Norte do País” (CRAVEIRO, 2009, p.117), que se inicia com João Lopes, o Velho, pois o que observamos hoje é também muito por obra do risco do arquiteto Mateus Lopes (RUÃO, 1995, p.24), que ultrapassa o papel de mestre-de-obras, atribuindo-se-lhe o projeto num contexto de Contra-Reforma. Há muitas incertezas quanto às primeiras décadas da construção do edifício, seguindo a um ritmo lento, e quanto às décadas 60 e 70, não há referencias documentais (Idem, ibidem). Saberemos através de Pedro Afonso de Amorim e Gonçalo Lopes, ambos mestres de pedraria, encarregados em 1586 de documentar o estado da obra, que a capela-mor da igreja estava próxima da conclusão, e ainda as paredes da igreja e o primeiro piso do portal lateral, o lanço do dormitório, a sacristia e o refeitório e dependências anexas estavam concluídos aquando da vistoria. João Lopes de Amorim, mestre de pedraria e arquiteto, construiu o chafariz no Claustro Velho e as escadas que ligam, do mesmo claustro, aos dormitórios. Além da família Lopes, de destacar Gaspar Correia, ferreiro, referenciado como testemunha de contrato celebrado em 1607, e ainda Matias Antunes, azulejador, que em 1639 é contratado a “azolejar a Igreja do dito mosteiro de São Gonçallo de Amarante”; Domingos de Freitas, mestre arquiteto de pedraria, em 1641 firma a encomenda do cruzeiro e zimbório.
2. Enquadramento
Enquadra-se no centro histórico de Amarante, num terreno de declive acentuado, no sentido E. / O., junto do Rio Tâmega, sobre o qual passa, junto do convento, a Ponte de São Gonçalo. A fachada principal, voltada a oeste, é perpendicular a uma rua estreita, que, do lado oposto ao da fachada, tem em cota mais elevada a Igreja de São Domingos; esta, adossada à torre sineira, anexa ao convento. A fachada lateral está voltada para a Praça da República (Largo de São Gonçalo), lajeado de granito. Inserido no complexo, a norte da Igreja, o claustro, o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, o Paço do Concelho de Amarante e a Câmara Municipal de Amarante. A este encontra-se um parque arborizado, local em que ocorre a feira de São Gonçalo, com uma estátua do poeta, escritor e filósofo, Teixeira de Pascoaes.
3. Descrição
A planta do Convento é composta por igreja longitudinal, com exonártex, de nave singular dividida em três tramos, com capelas laterais profundas, transepto inscrito, cabeceira tripartida e capela-mor retangular; a torre sineira, de planta retangular, entre a fachada principal da igreja e a Igreja de São Domingos; dois claustros retangulares, sendo o mais pequeno imediatamente após a igreja, designado de “Claustro Velho”, e após o mesmo um alongado, atualmente o Museu Amadeo de Souza-Cardoso; e rematada pelos Paços do Concelho. Coberturas de duas águas, em domo sobre o cruzeiro, e em laçaria cruzada, coroada por um pináculo piramidal, de recorte oriental, na torre. O zimbório é dividido em dois setores, cobertos de telha e de diferente inclinação, é coroado por lanternim, forrado a azulejos de padrão seiscentistas, e no topo possui uma esfera armilar. A Igreja conta com fachadas em cantaria de granito aparelhada; a fachada principal em dois registos, sendo no primeiro a galilé, o corpo do exonártex, composta por arcos de volta perfeita, assentes em pilastras larga, e abóbada, no interior, de pedraria, e a porta principal em arco de perfil chanfrado, e no segundo registo, encontra-se uma rosácea flanqueada por janelões retangulares verticais. Na fachada lateral, orientada a sul, de composição e adorno mais elaborado, encontramos a “Varanda dos Reis”, uma loggia, num registo superior, em arcaria de volta perfeita, assentes em pilastras toscanas, com mísulas onde podemos observar quatro estátuas dos monarcas (D. João III, D. Sebastião I, Cardeal-Rei D. Henrique e Filipe I) que contribuíram para a edificação do complexo, e também o pórtico em três registos, estando no primeiro a porta em arco de volta perfeita enquadrada por dois pares de colunas coríntias sobre pedestais, e entre cada par um nicho em arco de volta perfeita com esculturas de São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão, respetivamente, no segundo registo está presente uma fiada de seis colunas coríntias, o entablamento é decorado, e estão entre as colunas três nichos com as representações de São Pedro Mártir, São Gonçalo e São Tomás de Aquino, e no terceiro, um quarteirão, nos extremos colunas pseudosalomónicas coríntias, rematado por um frontão ondulado com tímpano decorado, possuindo, ao centro, um nicho com imagem de Nossa Senhora do Rosário. O interior da Igreja, de pavimento em soalho, tem paredes rebocadas e pintadas de branco, com coro-alto sobre o exonártex que se prolonga para o primeiro tramo da nave, suportado por arco abatido. Nave coberta por abóbada de berço com pintura em trompe l'oeil de caixotões, assente em cornija decorada por modilhões. As paredes da nave são rasgadas por arcos de volta perfeita que assentam em pilastras jónicas, de acesso às cinco capelas laterais e à entrada lateral. A encimar os arcos, óculos moldurados, encimados por pintura em trompe l'oeil de abóbada de lunetas. As capelas são cobertas por abóbada de berço de caixotões e alguns possuem pintura mural e nas paredes testeiras retábulos de talha dourada. Do lado do Evangelho, o Batistério, a capela de Santo António, Nossa Senhora do Rosário – entre estas duas localiza-se o órgão – e Santiago; já do lado da Epístola, as capelas de Nossa Senhora do Pópulo ou da Guia, e São Jacinto. Encontramos junto ao transepto púlpitos confrontantes, de talha dourada, com base de pedra escalonada, assente em modilhão, guarda plena, porta decorada por cortina de talha e protegida por baldaquino encimado por estatuária alusiva à Paz. No cruzeiro, a cobertura é em cúpula de caixotões. O transepto possui, além de capelas retabulares de arco de volta perfeita, no braço do lado do Evangelho, uma porta de acesso ao Claustro Velho e retábulo colateral do Santíssimo Sacramento, já no braço do lado da Epístola, retábulo de Santa Luzia ou de Santa Rosa e retábulo colateral de Senhor Jesus. Na cabeceira, arco triunfal de volta perfeita, assente sobre pilastras sobrepostas jónicas, pintado com motivos florais. A ladeá-lo duas grandes colunas com inscrição na base, pintadas com motivos vegetalistas, coroadas pelas estátuas de pedra de São Pedro e São Paulo. A capela-mor, coberta por abóbada de berço de caixotões de pedra, com retábulo-mor, sobre cripta, formando, inferiormente, duas capelas, com escadaria ao centro de acesso ao nível superior. A capela do lado do Evangelho, com silhar de azulejos de padrão seiscentista e restante parede e teto forrados com apainelados de talha, tem ao seu centro o túmulo de São Gonçalo. A capela das Oferendas, do lado oposto, possui a imagem do santo. O acesso à ante sacristia pela capela-mor dá-se do lado do Evangelho, é com corredor aberto por teto de talha dourada e policromada seiscentista. A ante sacristia é coberta por teto de caixotões de madeira, com florões ao centro, a parede E. possui portal de verga reta, ladeado por pilastras molduradas e rematado por cornija reta, a parede S. com grande lavabo, composto por nicho de verga reta, tendo inferiormente, bica carranca, ladeada por querubins, enquadrado por colunas coríntias, sobrepostas sobre pilastras da mesma ordem, que suportam entablamento rematado por cornija reta.
A torre sineira pintada de branco, com as fachadas a sul e este em três registos, e a norte e oeste em dois; nos dois registos inferiores a sul e este, janelas estreitas, e no último, sineira com ventanas em arco de volta perfeita, e na sul, no segundo, relógio. O “Claustro Velho” é de dois registos, o primeiro composto por alas com arcaria plena, o superior, por colunata jónica que suporta um entablamento sob duplo beiral; no primeiro registo, as paredes interiores são em cantaria aparelhada e o pavimento de laje de cantaria, sendo a cobertura interior em abóbada de nervuras com medalhões nos ângulos; no segundo registo é observável um teto de masseira de madeira; já o pátio, possui um pavimento em laje de cantaria, com, ao centro, uma fonte. O designado “Claustro Maior”, de dois registos, tem uma fachada rebocada e pintada de branco depurada de decoração, possui um corpo retangular ao centro que divide o espaço em duas alas; na ala sul o primeiro registo é em arcaria de volta perfeita com capiteis decorados de forma diferente dos demais, e o segundo com galeria em colunata; a ala norte possui, no primeiro registo, arcaria em volta perfeita e, no segundo, janelas de verga reta de tamanhos e ornamentação diversa.
3.1. Materiais
É utilizado granito na estrutura de cantaria e alvenaria, elementos decorativos, cobertura da torre sineira, molduras dos vãos, cunhais, estatuária, fontes, abóbada da capela-mor e o primeiro piso do Claustro Velho, pavimento dos claustros e escadarias. O túmulo de São Gonçalo é em calcário policromado. São aplicados azulejos seiscentistas no lanternim, capela funerária de São Gonçalo, sacristia e Claustro Velho. Em madeira são as portas e janelas, pavimento da nave e coro-alto, cadeiral, retábulos e púlpito de talha, e tetos de masseira no segundo piso do Claustro Velho. Janelas envidraçadas. As coberturas e o zimbório são forrados a telha de canudo.
4. Descrição Complementar
O órgão, de 43 registos: planta trapezoidal, de três castelos sendo o central mais elevado, são rematados por cornija, com mascarão no central e anjos nos laterais. Consola em janela dividida em apainelados, ritmados por pilastras. A tribuna é de planta côncava, forma um semicírculo ao centro, com balaustrada, e é suportada por uma mísula colossal com atlantes.
5. Influências e considerações
A igreja do Convento de São Gonçalo insere-se na concepção das “igrejas-padrão” destacadas pelas fachadas retabulares, tal como a igreja de Santa Cruz em Viana do Castelo, obra de João Lopes, o Filho onde também Mateus Lopes trabalhou. E será precisamente pela mão deste artista que o modelo atingirá a maturação na Galiza, destacando-se San Xoan de Poio, na Colegiada de Santiago, em Pontevedra, ou em San Martín Pinario em Compostela.
A presença na Galiza destes artistas vai levar a que a região norte do país siga o mesmo caminho que caracteriza a arquitetura contra-reformista, fazendo-se notar no Claustro Velho, inspirado no do mosteiro de Poio (RUÃO, 1995, p. 26), mas também na fachada retabular lateral que, tendo originalmente a mesma concepção das fachadas de Santa Cruz e da Colegiada de Santiago, teve o seu projeto alterado uma vez que "os registos superiores são obra de outra época" (Idem, ibidem), posteriormente finalizado no Séc. XVII pelo arquiteto Manuel de Couto, também autor da Varanda dos Reis. Manuel Couto foi ainda responsável pelas estátuas de São Francisco, São Domingos, São Pedro Mártir e São Gonçalo.
Para os Lopes falta ainda realizar uma definição estatuária que permita um entendimento mais claro do seu papel na arquitetura do Renascimento no Noroeste de Portugal e Galiza. Muito pode-lhes ser atribuído pela divulgação de uma estrutura religiosa coesa, tanto como projetistas como participantes na construção do espaço e definição das formas. Isto numa região alargada marcada pelo intercâmbio de culturas, como a atividade de Mateus Lopes na Galiza nos demonstra (CRAVEIRO, 2009, p.118).
As Igrejas de nave única com capelas acolitadas na disposição planimétrica do retângulo possuem uma orientação decorativa com a sua origem na tratadística clássica, sendo aqui aplicada pela ideia da monumentalidade e dinâmica de ornamento que imprime ao edifício. Há uma organização sobreposta de ordens arquitetónicas que se harmoniza com o intenso decorativismo de modelo flamengo, diferente do ritmo estabelecido pela decoração fantasiada do primeiro Renascimento, onde se insere a igreja da Misericórdia de Caminha. Com um tempo de construção diferente desta, a fachada da Misericórdia de Braga, o motivo da tabula ansata, marca a distinção (CRAVEIRO, 2009, p.120-121).
A arquitetura de extração humanista no Noroeste de Portugal prolonga-se episodicamente, como no exemplo da Misericórdia de Caminha, mas vai-se diluir também pela influência do arcebispo de Braga, frei Bartolomeu dos Mártires, que impulsiona orientações contra-reformistas. Este Renascimento “reformado” vai passar muito pelos Lopes, e levará a uma escala calculada, tanto interna como externamente. O seu espaço uniformizado, conseguido através da nave única com capelas laterais, é agigantado pelas dimensões dos elementos arquitetónicos ordenados em ritmo musculado, levando a igreja a apresentar uma fachada de um ornamento triunfal. O portal-retábulo que recorre à sobreposição perspética dos registos desenvolvidos pelos pares de colunas, entre elas nichos com colunas, é também observável nas fachadas das igrejas de São Domingos de Viana do castelo, Misericórdia de Braga e Misericórdia de Guimarães (CRAVEIRO, 2009, p.121-122).
A arquitetura no noroeste do país segui um rumo próprio definido na segunda metade do século XVI, e por mais relevante que seja a menção do arquiteto de formação humanista frei Julião Romero, é incontornável o papel dos Lopes na organização de uma estratégia consistente a desenvolver modelos alternativos na arte do seu tempo (CRAVEIRO, 2009, p.123).