Saltar para o conteúdo

Utilizador:Vânia Oliveira

Fonte: Porto Renascentista
Revisão em 07h24min de 30 de dezembro de 2024 por Vânia Oliveira (discussão | contribs) (Criou a página com "'''Arquitetura e Arquitetos a Norte de Aveiro - XVI - Início de XVII''' '''Introdução: A Arquitetura Renascentista''' A arquitetura renascentista, surgida em Itália no século XV, transformou profundamente os paradigmas construtivos e estéticos ao introduzir princípios de racionalidade, proporção e simetria, elementos essenciais ao espírito do Renascimento. Esta transformação esteve diretamente ligada a duas vertentes fundamentais do movimento renascentist...")
(dif) ← Revisão anterior | Revisão atual (dif) | Revisão seguinte → (dif)

Arquitetura e Arquitetos a Norte de Aveiro - XVI - Início de XVII

Introdução: A Arquitetura Renascentista

A arquitetura renascentista, surgida em Itália no século XV, transformou profundamente os paradigmas construtivos e estéticos ao introduzir princípios de racionalidade, proporção e simetria, elementos essenciais ao espírito do Renascimento. Esta transformação esteve diretamente ligada a duas vertentes fundamentais do movimento renascentista: a renovatio hominis, a centralidade do ser humano e a valorização da racionalidade, promovidas pelo Humanismo, e a renovatio antiquitatis, que buscava reviver e superar os modelos da Antiguidade Clássica (Ruão, 2006 p. 55). Com epicentros em cidades como Florença e Roma, a nova abordagem teve como expoentes Filippo Brunelleschi e Leon Battista Alberti, que idealizaram uma arquitetura pautada na harmonia geométrica e na ordem estrutural, inspirada nos modelos da Antiguidade Clássica (Ruão, 2006 p. 63).

Em Portugal, o Renascimento teve uma expressão singular. Segundo Kubler (1998), a incorporação de elementos clássicos dialogava com a ornamentação gótica local, resultando numa estética híbrida que, por um lado, preservava a exuberância decorativa do manuelino e, por outro, integrava os ideais de equilíbrio e simplicidade do classicismo. A coexistência entre os vários estilos é destacada por Craveiro em A Arquitetura “Ao Romano” (2009 p.101), onde sublinha os desafios e inovações no processo de adaptação dos novos conceitos arquitetónicos, onde a complexidade ornamental e simbólica do manuelino preparou o caminho para a arquitetura “chã” — uma manifestação mais austera e depurada do renascimento português. Segundo Carlos Ruão (1995), dois pilares fundamentais marcaram a arquitetura maneirista no Noroeste de Portugal. Por um lado, o flamenguismo, que introduziu um programa decorativo com modelos e linguagens figurativas que unificaram estilisticamente a arquitetura deste período. Por outro lado, o italianismo, visível tanto na disseminação dos modelos de Serlio, fundamentais para a assimilação da linguagem clássica, quanto no Maneirismo tridentino ou reformado, que estabeleceu normas arquitetónicas baseadas nos preceitos doutrinários, promovendo maior contacto com a modernidade italiana. Este diálogo entre influências flamengas e italianas reflete o caráter plural e inovador da adaptação portuguesa às novas correntes arquitetónicas (Serrão, 2002 p.202). Kubler (1988) contextualiza a “arquitetura chã” como uma resposta racionalista ao estilo manuelino, representando o culminar de uma transição gradual do gótico para o renascimento. Vitor Serrão examina o desenvolvimento do Renascimento português dentro do panorama europeu, ilustrando como o estilo manuelino evoluiu para uma estética renascentista adaptada ao contexto português (Serrão, 2002 p.21). Por sua vez, Craveiro (2009) contribui com a análise da arquitetura “Ao Romano”, um modelo classicista aplicado em construções religiosas e civis, sublinhando as adaptações locais da linguagem renascentista e o fortalecimento da identidade arquitetónica portuguesa. Neste contexto, o movimento renascentista, impulsionado pelo humanismo, valorizava a racionalidade e a observação da natureza, sendo estes princípios fundamentais para a renovação arquitetónica da época (Ruão, 2006 p. 297-298). O Renascimento procurava a perfeição nas formas geométricas puras e introduziu a aplicação do ponto de fuga, oferecendo uma ilusão de profundidade e tridimensionalidade que conferia à arquitetura uma volumetria equilibrada e proporcional. Em Portugal, estas técnicas foram reinterpretadas em diálogo com as tradições locais, moldando uma estética própria no contexto manuelino (Craveiro, 2009 p.7-8).

A influência dos ideais renascentistas não se limitou às grandes edificações religiosas ou civis, mas estendeu-se também a obras de menor escala, como as infraestruturas hidráulicas. Nessas construções, a funcionalidade aliava-se aos valores estéticos herdados do classicismo, resultando em obras de singular importância. Um exemplo marcante dessa integração é o legado da família Lopes, uma dinastia de mestres pedreiros e arquitetos que teve um impacto significativo na arquitetura do norte de Portugal e da Galiza.

Entre as suas contribuições mais notáveis encontram-se três chafarizes: o da Praça da Rainha, em Viana do Castelo; o do Largo de Camões, em Ponte de Lima; e o do Toural, em Guimarães. Estas estruturas destacam-se pela forma como conjugam a utilidade prática com uma linguagem arquitetónica que integra elementos decorativos renascentistas adaptados às tradições locais.

A análise destas obras permitirá compreender o papel da família Lopes na introdução e adaptação dos princípios do Renascimento à escala urbana, bem como o seu contributo para o enriquecimento do panorama arquitetónico e artístico da época no norte de Portugal.

Palavras-Chave: Arquitetura, Chafariz, Clássico, Família Lopes, Humanismo, Renascimento.  

A família Lopes - Mestres Pedreiros

A família Lopes destacou-se como uma das mais importantes dinastias de mestres pedreiros e arquitetos do norte de Portugal e da Galiza (Craveiro, 2008 p. 115). O patriarca, João Lopes, conhecido como João Lopes-o-Velho, iniciou uma tradição artística que perdurou por pelo menos um século e meio, sendo reconhecida pela sua relevância na arquitetura da região.

Os sucessores de João Lopes-o-Velho incluíram figuras notáveis como João Lopes-o-Moço (filho de João Lopes-o-Velho), ativo principalmente nas margens do Lima, e Gonçalo Lopes, cuja obra se concentrou na região de Guimarães. Mateus Lopes deixou contribuições significativas tanto no Minho quanto na Galiza (Soromenho, 2009 p. 48).

Na geração seguinte, destacaram-se João Lopes de Amorim e Pedro Afonso Lopes, conhecido também como Pedro Afonso de Amorim (genro de Gonçalo Lopes). Outros membros, como Baltasar Lopes e Manuel Lopes, embora com menos visibilidade, também contribuíram para a perpetuação desta tradição familiar.

A análise das suas obras permite compreender o papel dos mestres pedreiros, especialmente no contexto de construções hidráulicas, como chafarizes, que aliam funcionalidade e expressão artística.

João Lopes-o-Velho

João Lopes-o-Velho deixou um legado imenso para a arquitetura portuguesa. As suas obras tanto na arquitetura religiosa, como na arquitetura civil não deixam dúvidas sobre o poder desta família na construção da memória de um País. “Seus filhos serão João Lopes-o-Moço, Gonçalo Lopes (1533-1603), Pedro Lopes e Mateus Lopes (1542-1605), todos com obra atribuída e ao serviço da encomenda mais credenciada em Portugal e na Galiza. (Craveiro, 2008 p. 117)”.

João Lopes-o-Velho iniciou a sua carreira colaborando com mestres biscainhos nas obras da matriz de Caminha, destacando-se como discípulo de Francisco Fial (Ruão, 2016 p. 502), segundo Figueiredo da Guerra. Em 1508, assumiu a posição de mestre nas obras da Sé de Lamego, assumindo a construção da nova fachada principal, em parceria com outros biscainhos, tais como: João de Vargas e João de Parmenes. Posteriormente, foi contratado para erguer o Convento da Ave-Maria no Porto, uma obra de grande importância que se prolongou por mais de uma década. Em finais do século XIX, todo o conjunto da igreja e do convento foi demolido para dar lugar à construção da estação ferroviária de São Bento, as obras tiveram início a 22 de outubro de 1900 (Reis, 1986 p. 153).

No decorrer da sua carreira, João Lopes-o-Velho trabalhou em diversas estruturas notáveis, como o pelourinho de Arcos de Valdevez (c. 1531), o chafariz do Largo de São Domingos no Porto (1544), e o chafariz da Ferraria em Pontevedra (1549) (Craveiro, 2008 p. 117). Em Viana do Castelo, criou obras marcantes, incluindo o chafariz da Praça da República, cuja execução foi continuada pelo seu filho, João Lopes-o-Moço, após a sua morte em 1559.

Os chafarizes foram a criação mais distintiva de João Lopes-o-Velho, conjugando elementos decorativos e funcionais, como colunas bolbosas e taças sobrepostas, que conferiam dinamismo aos espaços públicos. Mesmo após perderem a sua função prática, esses monumentos mantêm-se como testemunhos da inovação e do estilo arquitetónico do mestre.

João Lopes-o-Moço

João Lopes-o-Moço, nascido por volta de 1530, destacou-se como continuador do legado arquitetónico de seu pai, João Lopes-o-Velho. Desde cedo, trabalhou ao lado do pai, adquirindo experiência na execução de chafarizes e outras obras públicas (Ruão, 2016 p. 520). Após a morte de João Lopes-o-Velho, foi escolhido pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, em 1559, para concluir a conduta de água e o chafariz da Praça do Forno (atual Praça da República), dada a sua familiaridade e experiência com este tipo de construções.

Nos anos seguintes, João Lopes-o-Moço envolveu-se em projetos de destaque, como a portada da Capela do Santíssimo Sacramento na Colegiada de Viana (1562) e a torre da Matriz de Vila do Conde (1573). Trabalhou ainda no Mosteiro da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, e em 1575 foi contratado para criar o chafariz de Ponte de Lima, cuja execução se prolongou até 1603 (Reis, 1986 p. 159). Este último destaca-se como uma das obras mais elegantes associadas à família Lopes, tanto pela sua sofisticação estética como pela funcionalidade.

Embora frequentemente atuasse como executor de projetos concebidos por outros, João Lopes-o-Moço foi reconhecido pela sua habilidade e atenção ao detalhe, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da arquitetura hidráulica e ornamental no norte de Portugal.

Gonçalo Lopes

Gonçalo Lopes, nascido por volta de 1534, destacou-se como mestre de pedraria em Guimarães, onde residiu a partir de 1580 até ao final da sua vida. Foi responsável por diversas obras de relevância, incluindo a construção da capela-mor da igreja paroquial de Azurara, em 1552, onde foi construída a conhecida abóbada de arestas artesoada que este desenhou.

Na cidade de Guimarães, Gonçalo Lopes projetou e construiu dois chafarizes emblemáticos, um deles atualmente localizado na Praça do Toural (Craveiro, 2008 p. 121). Além disso, colaborou nas obras do convento de São Gonçalo de Amarante, ao lado do irmão Mateus Lopes. Também desempenhou um papel central na construção e manutenção das estruturas hidráulicas da cidade, incluindo a conduta de água que abastecia os chafarizes (Reis, 1986 p. 161).

Como mestre reconhecido, Gonçalo Lopes foi contratado para trabalhos significativos, como o claustro de São Francisco e as obras da Misericórdia de Guimarães, muitas vezes acompanhado pelo genro Pedro Afonso de Amorim (Soromenho, 2009 p. 48). Em 1601, recebeu aprovação régia para a reparação dos chafarizes da cidade, obras que acabaram por ser concluídas pelo genro após o seu falecimento.

O último projeto de Gonçalo Lopes foi a reforma do chafariz do Rossio da Sé, em Lamego, concluído pouco antes da sua morte, em 31 de agosto de 1603.

A sua obra, especialmente os chafarizes, permanece como um testemunho da sua mestria técnica e artística (Soromenho, 2009 p. 52).

O Chafariz da Praça da Rainha - Viana do Castelo

O Chafariz da Praça da Rainha, em Viana do Castelo, é uma estrutura maneirista destacada pela sua riqueza decorativa e importância urbanística. Construído por João Lopes em 1554, este chafariz apresenta um esquema piramidal, semelhante ao de Caminha, servindo de modelo para fontes públicas financiadas pelos municípios no século XVI (SIPA).

É composto por um tanque circular decorado com almofadas côncavas e frisos denticulados, sustentado por um soco escalonado de cinco degraus. No centro, uma coluna galbada com ornamentos fitomórficos suporta duas taças circulares, adornadas com bicas em forma de carrancas, seguidas por uma terceira coluna decorada e rematada por um coruchéu vegetalista com uma esfera armilar e cruz da Ordem de Cristo em metal.

A estrutura representa a funcionalidade e o simbolismo das fontes urbanas da época, sendo, juntamente com os chafarizes de Caminha (1551) e Pontevedra (1549) (Craveiro, 2008 p. 117), um dos mais representativos da carreira de João Lopes. Este chafariz destaca-se pelo cuidado ornamental, ainda que a grade de proteção, semelhante à do de Caminha, tenha desaparecido no início do século XX.

Estado da Arte: O restauro do chafariz renascentista com mais de 450 anos iniciou-se em Janeiro de 2024, tendo sido este desmontado para se conseguir chegar às tubagens que se encontram no interior da estrutura em pedra. Posteriormente, depois de tratado será outra vez montando, conservando a arquitetura do monumento (jornal O Minho, janeiro 2024).

Arquitecto / Construtor / Autor

PEDREIROS: Fernão Anes (1512); João Gonçalves (1523); João Lopes, o Velho (1553); João Lopes, Filho (1559); António Lopes Trindade (1730). PINTOR-DOURADOR: António Ferreira Callelas (1735).

Chafariz do Largo de Camões - Ponte de Lima

Este chafariz, datado do final do século XVI e início do XVII, caracteriza-se pelo seu estilo maneirista, enriquecido com elementos decorativos que remetem ao manuelino. Entre os detalhes distintivos estão as carrancas, folhas de acanto, fogaréus e a esfera armilar que adornam a coluna central. A estrutura que tem como apoio a coluna central define-se pela sua decoração com motivos vegetalistas (folhas de acanto), assentando num plinto quadrangular com faces ornamentadas por rostos femininos em relevo. Acima da coluna erguem-se duas taças circulares de perfil curvo, decoradas com seis bicas em relevo em forma de carrancas (recurso ao grotesco)(Craveiro, 2008 p. 7), dispostas radialmente. O topo é rematado por um ornamento em forma de pinha, semelhante a um fogaréu, também adornado com carrancas de dimensões variadas, culminando numa esfera armilar em metal. O tanque é circular e de bordo liso, suportado por um soco igualmente circular formado por quatro degraus, sendo o degrau inferior simples e reto, em contacto com o pavimento da praça (SIPA).

O design segue o modelo dos grandes chafarizes concebidos pelo Mestre João Lopes-o-Velho, destinados a grandes praças, sendo executado por pedreiros sob a supervisão dos seus filhos.

Estado da Arte: O chafariz localizava-se no local onde é hoje o Largo Dr. António de Magalhães, quando a cidade era muralhada. 16/11/1929 - Procede-se à nomeação do arquiteto Baltazar de Castro para se juntar à Comissão para dar o parecer das obras a executar na Praça de Camões (Portaria de 13 novembro, DG n.º 268, 2.ª série); desmantelamento, transferência e reconstrução do chafariz no local atual.

Arquitecto / Construtor / Autor

ARQUITETO: Baltazar de Castro (1929). MESTRE: João Lopes, o Moço (séc. 16, conjetural).

Chafariz do Toural - Guimarães

O Chafariz do Toural, em Guimarães (Ruão, 2016 p. 534), é uma obra maneirista com um desenho piramidal que se afina em altura, integrando-se na tipologia de fontes públicas centrais com coluna galbada, duas taças sobrepostas e um remate em forma de coruchéu. A sua decoração reflete o maneirismo (Craveiro, 2008 p. 134), visível na composição e nos detalhes ornamentais.

A estrutura assenta num soco circular de dois degraus, sobre o qual se ergue um tanque igualmente circular. No centro, eleva-se uma base prismática decorada com almofadas trabalhadas, que suporta uma coluna galbada ornamentada com grotescos. Esta é coroada por uma taça circular com seis bicas em forma de carrancas, um padrão que se repete na segunda taça, desta vez com quatro bicas em cabeças de anjo.

Acima desta, a coluna divide-se em duas partes decorativas: a primeira, estriada, é adornada com uma esfera armilar e carrancas com bicas; a segunda apresenta duas águias de asas abertas sustentando o escudo peninsular e, no lado oposto, as Armas Antigas de Guimarães, com a imagem da Virgem Maria e o Menino Jesus, acompanhados de uma oliveira arrancada. O chafariz culmina com um coruchéu decorado com motivos vegetalistas, encimado por uma esfera armilar e uma cruz em metal (SIPA).

Estado da Arte: 26/10/1865 - demolição parcial do chafariz do Toural, as pedras são guardadas na Praça do Mercado; 03/06/1874 - procede-se à demolição final do chafariz por ordem da Câmara; 1891 - edificação do chafariz desmantelado do Toural, no largo da Igreja do Carmo. 13/12/2011 - requalificação da praça Toural, o chafariz é novamente edificado no seu local de origem.

Medidas tiradas in loco: Medidas a registar: Altura do Chafariz: 5,30m / Altura Tanque: 90 cm / Altura Soco: 60 cm; Altura total do chafariz: 6,80m / Diâmetro do tanque: 6m / Diâmetro taça inferior: 3m (aprox.) Diâmetro taça superior: 1,5m (aprox.) / Degraus do soco: 3 com 20 cm cada.

Arquitecto / Construtor / Autor

Gonçalo Lopes.

Conclusão referente à familia Lopes:

A análise da obra e da trajetória da família Lopes destaca o seu papel central na arte peninsular, particularmente na portuguesa, ao longo de várias gerações. Estes mestres pedreiros e canteiros não apenas dominaram os segredos técnicos da sua arte, como também se mantiveram na vanguarda do seu tempo, evoluindo com as mudanças estéticas e assimilando influências de mestres italianos e de outras regiões.

A robustez e a austeridade das suas obras, fortemente marcadas pelo uso do granito, conferem-lhes uma identidade única, caracterizada por uma harmonia sóbria e um rigor estrutural notável. Esta escolha de material, ainda que desafiadora, tornou-se símbolo da resistência e perenidade das criações destes artistas, cuja influência se estendeu por importantes marcos arquitetónicos e infraestruturais. A família Lopes, com o seu percurso exemplar, representa uma síntese perfeita entre tradição e inovação na arquitetura do Noroeste peninsular do século XVI.

Infraestruturas de Abastecimento Público de Água

As fontes públicas, inicialmente, eram alimentadas por nascentes naturais. Com o desenvolvimento das primeiras redes destinadas à captação, condução e distribuição de água nas cidades, começaram a surgir os chafarizes, aproveitando diferentes tipos de recursos hídricos. Rapidamente, estes espaços tornaram-se pontos de encontro, locais de socialização e até de comércio. Quando se identificava uma nascente com propriedades medicinais, era habitual que se construísse uma fonte para a sua valorização. Em muitas cidades, os chafarizes passaram a organizar a configuração das praças, tornando-se elementos distintivos que simbolizavam o "centro" da comunidade. A sua importância social resultou numa abordagem artística mais elaborada na sua construção.

A estética associada à arquitetura da água esteve presente ao longo da história urbana, destacando-se a partir do Renascimento e alcançando o auge nos séculos XVII, XVIII e XIX. Estas estruturas foram realizadas por alguns dos mais destacados artistas da época, inspirados nos modelos romanos (Teixeira, 2011 p. 63).

  1. Contexto Histórico e Relevância Social: Durante os séculos XIV a XVI, as cidades enfrentaram o desafio constante de garantir o abastecimento de água em quantidade e qualidade. Esse período marca a reintrodução de aquedutos no mundo urbano, após um hiato de séculos, evidenciando a relevância da água como símbolo de magnificência, eficácia e poder (Heers, 1990, p. 299 e Magnusson, 2001 p. 18).
  2. Fontes e Chafarizes como Pontos de Sociabilidade: Fontes e chafarizes eram estruturas centrais no tecido urbano medieval, servindo como locais de sociabilidade e elementos integradores das comunidades. Leon Battista Alberti destacou, em 1452, que o acesso à água era essencial para a vida humana e a organização social, realçando os princípios de "encontrá-la, conduzi-la, selecioná-la e conservá-la" (Alberti, 2011 p. 629; p. 642).
  3. Conflitos e Propaganda em Torno da Água: A posse e distribuição da água geravam frequentes disputas e conflitos. Em Guimarães, por exemplo, o "Estomento de Convença" de 1436 documenta acordos sobre o uso de um chafariz na praça, partilhado entre a população e o Conde de Barcelos. Situações semelhantes ocorreram noutras localidades, como Viana do Castelo, em 1511, onde o concelho negociava com privados para redistribuir o acesso à água (Cardoso, 2002 p. 163).
  4. Infraestruturas Hidráulicas e Urbanismo: A evolução dos sistemas de distribuição de água acompanhou o desenvolvimento urbano. Redes de canos conduziam água para fontes públicas e lavadouros, enquanto sistemas de esgoto rudimentares escoavam águas residuais. Estas infraestruturas começaram a refletir preocupações com a estética, a higiene e o enobrecimento das cidades, evidenciando novos hábitos e tecnologias que prenunciavam a modernidade.
  5. Administração e Regulamentação: A manutenção e expansão das infraestruturas hidráulicas estavam sujeitas a regulamentações rigorosas. Coimas e penas eram aplicadas para garantir o funcionamento adequado dos sistemas e preservar a higiene das águas (Cardoso, 2002 p. 160-161). Estas práticas denotam uma administração preocupada com o bem-estar das populações e com a gestão dos recursos naturais.
  6. Simbologia e Poder: Fontes e chafarizes representavam mais do que simples pontos de distribuição de água. A sua construção e manutenção eram frequentemente associadas à propaganda de poder, sendo adornadas com brasões e inscrições que exaltavam os seus financiadores, como forma de eternizar a sua contribuição ao bem público.
  7. Interdependência com a Natureza: A engenharia hidráulica reflete a capacidade das sociedades em adaptar-se e tirar proveito dos recursos naturais. O abastecimento de água era essencial não apenas para a sobrevivência, mas também para o funcionamento das atividades económicas e sociais, como moinhos, pelames e tanoarias.

Estes tópicos abordam os aspectos essenciais relacionados à gestão da água no contexto tardo-medieval e renascentista, refletindo tanto as dificuldades práticas quanto os significados culturais e políticos atribuídos a este recurso vital.

Referências Bibliográficas

AFONSO, José Ferrão, (2017) - O Chafariz de S. Domingos: Venturas e Desventuras de uma Obra de Arte Comunitária - CITAR - EA, UCP – Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes; Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa - DIGITAL ATAS - Arte Pública VOL 2-110-121.

ALBERTI, Leon Battista (2011) – Da Arte Edificatória, trad. do Latim de Arnaldo Monteiro do Espírito Santo; introdução, notas e revisão disciplinar de Mário Júlio Teixeira Krüger, Fundação Calouste Gulbenkian, n.205, Lisboa, 2011

ARCHIVO Pittoresco (1864). Seminário Illustrado. Editores Proprietários, Castro irmão & Companhia. Volume II - 1864; L 005 961 956 9

CARDOSO, Isabel Freitas Botelho (2002)  – "El Agua en las Ciudades Portuguesas Medievales", in Usos Sociales del Agua en las Ciudades Hispánicas de la Edad Media, coord. Maria Isabel del Val Valdivieso, Série: Estudios de Historia Medieval, nº6, Universidad de Valladolid, Secretariado de Publicaciones e Intercambio Editorial, Valladolid, 2002, pp.156-168

CRAVEIRO, Maria de Lurdes (2008). Arte Portuguesa da Pré-História ao Século XX - A Arquitetura “AO ROMANO”. Fubu Editores, SA. ISBN: 978-989-8207-00-5

ESTRELA, Gisele Freitas (2017) - Fontes e Chafarizes. O abastecimento de água nos espaços públicos na Baixa Idade Média portuguesa - Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Arqueologia, orientada pelo Professor Doutor Mário Jorge Barroca. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

FERNANDES, Isabel Maria  e OLIVEIRA, António José – Ofícios e Mesteres Vimaranenses nos séculos XV e XVI.

HEERS, Jacques (1990)  – La Ville au Moyen Âge en Occident, Paysages, Pouvoirs et Conflits, Librairie Arthème Fayard, Paris, 1990

KUBLER, George, 1988. A Arquitetura Portuguesa Chã - Entre as Especiarias e os Diamantes, 1521-1706. Vega.  ISBN: 0082000115657

MAGNUSSON, Roberta J. (2001) – Water Technology in the Middle Ages: cities, monasteries, and waterworks after the Roman Empire, The Johns Hopkins University Press, University of Oklahoma, Oklahoma, 2001

MOREIRA, Rafael (1991) - A Arquitectura do Renascimento no Sul de Portugal - A Encomenda Régia entre o Moderno e o Romano; Dissertação de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

SERRÃO, Vitor (2002), História da Arte em Portugal - O Renascimento e o Maneirismo (1500-1620); Editorial Presença; ISBN: 972-23-2924-3

SOROMENHO, Miguel (2009). Arte Portuguesa da Pré-História ao Século XX. Fubu Editores, SA. ISBN: 978-989-8207-01-2

REIS, António Matos, Lopes, Uma Família de Artistas em Portugal e na Galiza. Revista de Guimarães, 96 - Jan.-Dez. 1986, p. 151-180.

RUÃO, Carlos (2006). «O Eupalinos Moderno» Teoria e Prática da Arquitetura Religiosa em Portugal, 1550-1640 - Volume I - Da «Ordinatio» ao «Decorum» / Volume II - Da «Corte» à «Província». Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra.

TEIXEIRA, Diogo (2011). O Abastecimento de Água na Cidade do Porto nos Séculos XVII e XVIII. Aquedutos, Fontes e Chafarizes; Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa.

TRINDADE, Luísa. A Água nas Cidades Portuguesas entre os Séculos XIV e XVI - A Mudança de Paradigma (p. 367-380).

VITERBO, Sousa (1904). Dicionário Histórico e Documental dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes ou a Serviço de Portugal; Publicado por indicação da comissão dos monumentos - Vol II - H-R - Lisboa - Imprensa Nacional; Fine Arts Library - FL 3ERRL

dgpc.gov.pt - https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/resultado.php

MDC - Revista de Arquitetura e Urbanismo: Renovação Urbana Praça do Toural, Alameda de S. Dâmaso, Rua de Sto. António, Guimarães