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Sé de Miranda do Douro

Fonte: Porto Renascentista

Identificação[editar | editar código-fonte]

Designação Sé de Miranda do Douro, Igreja de Miranda do Douro, Concatedral de Miranda do Douro
Localização Miranda do Douro, Trás-os-Montes
Cronologia Século XVI
Autores Gonçalo de Torralva e Miguel de Arruda
© Dantadd
Sé de Miranda do Douro - Vista Frontal

Estado da Arte[editar | editar código-fonte]

A Sé de Miranda do Douro foi primeira catedral maneirista em Portugal a ser construída depois do Concílio de Trento. A sua edificação teve início no final do século XVI, mais precisamente em 1552, e foi concluída em 1610, com a sua inauguração.

Antes de ser construída, no tempo do D. Dinis houve uma disputa entre o rei e o arcebispo para construir naquele local a Igreja de Santa Maria Maior (Século XIII), já que Miranda não tinha nenhuma igreja até ao momento. A obra foi promovida pelo Bispo de Miranda, D. João de Castro, como parte de um processo de reorganização e promoção da fé católica na região e com a finalidade de ser a Sé do novo Bispado de Miranda do Douro.

Em 1545, Miranda do Douro foi elevada a Diocese e a construção da Sé tinha como objetivo afirmar a importância e a autonomia religiosa da cidade dentro do contexto regional. D. João III tinha a intenção de elevar a exaltação de Miranda ao seu mais alto nível.

A arquitetura da igreja reflete as influências do Renascimento e, em parte, do Barroco, estilo que se começava a impor na época. A obra é um claro exemplo da transição entre esses dois estilos, com características do Renascimento adaptadas ao norte de Portugal, antecipando as formas mais expressivas e dinâmicas do Barroco.

Enquadramento[editar | editar código-fonte]

A Sé de Miranda do Douro, no nordeste de Portugal, é um exemplo notável de arquitetura religiosa que reflete o contexto histórico da região, bem como as influências artísticas e sociais dos séculos XVI e início do XVII.

Localizada em Miranda do Douro, região de Trás-os-Montes, ocupa uma posição estratégica próxima à fronteira com Espanha. Esta cidade desempenhou um papel importante nas dinâmicas de defesa e intercâmbio cultural entre os dois países, especialmente durante períodos de conflitos e tensões fronteiriças.

A cidade, com uma população predominantemente rural e uma forte identidade ligada à Igreja e ao clero, refletia a centralidade da Igreja na vida social e espiritual da região. A construção da Sé marcou um momento de fortalecimento da Igreja e de afirmação do poder religioso.

Uma igreja construída para ser uma Sé, ganhando a denominação de concatedral apenas no Século XX.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Objeto Arquitetónico[editar | editar código-fonte]

Com planta em cruz latina, uma nave central e duas laterais, é uma estrutura simples com elementos tipicamente renascentistas como a simetria e a sobriedade, que transmite uma sensação de imponência condizente com o papel central da catedral na cidade.

A fachada é emblemática, uma característica típica do Renascimento. Construída em granito, com aspeto robusto e duradouro, é composta por duas torres quadrangulares que se elevam de forma simétrica, parcialmente decoradas com contrafortes e cornijas. No topo das torres encontra-se pequenas cúpulas que acrescentam verticalidade ao edifício. O portal principal é retangular e emoldurado por colunas toscanas de inspiração clássica. Acima do portal encontra-se um frontão triangular com detalhes simples e elegantes. Sobre o portal, há uma janela retangular com ornamentação discreta, que ilumina o interior da catedral e quebra a austeridade da pedra. A decoração desta fachada é sóbria. As linhas horizontais e verticais bem definidas acentuam a ordem e a clareza estrutural.

O interior da catedral é sóbrio em termos decorativos. Constituído por um altar-mor decorado com mármore e talha dourada – uma das áreas mais elaboradas e apreciadas do interior. A nave central é ampla, elevada e iluminada, com um teto abobadado que confere profundidade e majestade ao espaço. Os arcos de volta perfeita sustentam a abóbada, apoiados em pilares robustos, que criam uma sucessão de ritmos geométricos. As naves laterais são mais baixas e oferecem uma sensação de acolhimento, contrastando com a verticalidade da nave central. O interior da combina a austeridade estrutural renascentista com a riqueza decorativa do barroco, criando um espaço que é ao mesmo tempo solene e envolvente. A luz desempenha um papel crucial, filtrando-se pelas janelas altas e pela cúpula, criando uma atmosfera de elevação espiritual.

Pela sua grande determinação em elevar Miranda aos olhos da Península Ibérica, D. João III escolhe para ser arquiteto da catedral um dos seus arquitetos prediletos, um dos irmãos Torralva, Gonçalo, irmão de Diogo de Torralva, este que havia feito o Claustro de D. João III no Convento de Tomar. Mais tarde, junta-se Miguel de Arruda ao projeto, este que era arquiteto militar pessoal do rei.

Torralva era conhecido pela sua relação com a arquitetura renascentista e maneirista, com a igreja sendo uma das várias sés construídas sob o reinado de D. João III. O projeto de Torralva reflete influências típicas das construções de catedrais da época, especialmente aquelas com apoio real.

Miguel de Arruda esteve diretamente envolvido na supervisão e orientação da obra da Sé., Miguel de Arruda foi chamado para atuar no projeto no momento em que as influências renascentistas estavam a ser absorvidas por elementos de estilo maneirista e, em certa medida, barroco. A sua atuação na Sé envolveu a adaptação do plano original e a decoração interna, onde ele introduziu elementos de transição entre os estilos com a utilização de formas simétricas e o uso de detalhes ornamentais. Em 1547, Torralva veio a Miranda e cordeou (mediu com corda o espaço de onde iria ficar a catedral), balizou (delimitou o terreno), e levou os apontamentos consigo, levando já um esboço da planta que ia ficar a catedral. O seu trabalho na fachada principal e na decoração interna, especialmente no altar-mor, é um exemplo claro da evolução do gosto artístico da época, onde ele concilia a tradição com as novas tendências artísticas que começavam a se afirmar em Portugal. No geral, a sua atuação na Sé de Miranda do Douro reflete a influência do estilo renascentista que caracterizou muitos edifícios religiosos da época, ao mesmo tempo em que antecipa as formas mais expressivas e dinâmicas do Barroco.

Património Integrado[editar | editar código-fonte]

Retábulo do Altar-Mor[editar | editar código-fonte]

Esta é uma das mais reconhecidas peças de arte religiosa ibérica.

Bastante detalhado, foi produzido sob orientação do grande escultor Gregorio Fernandéz (1576-1636), em 1610/11. Produzido sob o domínio Filipino (Filipe II de Portugal, III de Espanha, 1578-1621), passou por algumas alterações ao longo dos anos, sendo que só em 1635/36 é que foi deixado tal e qual como o encontramos agora, pintado.

Uma peça integralmente espanhola, mais especificamente Castelhana, sendo de autoria Castelhana também as quatro figuras dos quatro evangelistas que nele estão assentes. Estes foram esculpidos por Gerónimo Garcia, originário de Zamora, em 1636, e pelas quais cobrou 100.000 reis.

É um retábulo de grande força de expressão a nível decorativo e escultórico. Algo de destaque são as figuras dos apóstolos representadas em que a escultura nos transmite a sensação de que os apóstolos estão realmente em conversa uns com os outros, saindo da obra e envolvendo-se com o espaço.

Conjunto de Pinturas - Retratos dos Meses[editar | editar código-fonte]

Estes retratos dão conta do investimento que foi feito para que a Sé fosse vista como brilhantíssima e destacável na diocese.

Um conjunto de doze quadros flamencos dos finais do Século XVI, produzidos na Antuérpia, em cerca de 1580, na oficina do mestre pintor Pieter Balten (1527-1584). Poderá ter sido encomendado por parte do Bispo D. Jerónimo de Menezes que governou a Diocese de Miranda entre 1581 e 1592 e, de nome Retratos dos Meses, ou, Calendário, que pretende representar os doze meses do ano numa iconografia escassa no património artístico nacional.

A representação dos Meses, do ponto de vista iconográfico, reflete influências da Antiguidade Clássica, com exemplos marcantes na arte greco-romana. Posteriormente, em um contexto cristão, essa temática inspirou importantes obras, desde as ilustrações dos Livros de Horas medievais até a pintura de gênero do século XVII. Sob uma perspectiva iconológica, essas obras expressam uma busca por harmonia no universo, frequentemente associada à simbologia astrológica, sem perder seu caráter devocional. Revelam uma interação entre o real e o simbólico, alimentando diversas interpretações cosmológicas sobre a renovação do universo, um tema valorizado tanto pela Igreja Católica quanto por grupos protestantes.

Objeto em Destaque[editar | editar código-fonte]

O Menino Jesus da Cartolinha e o seu Enxoval de Roupas[editar | editar código-fonte]

A lenda nasce em 1710, durante a Guerra da Sucessão. Os espanhóis invadiram a cidade de Miranda, destruindo e roubando por onde passavam, instalando o caos. Até que os mirandeses afirmam terem avistado um Menino a aclamar contra os espanhóis no cimo da muralha. Avistando tal, a população saiu contra os espanhóis e a cidade foi libertada até 1713, ano em que a guerra acaba.

Diante deste milagre, a população mandou fazer a escultura de um Menino tal e qual como o tinham visto: em pé, vestido de fidalgo cavaleiro.

Relativamente à cartolinha, esta é vista como não apropriada, uma vez que, tendo sido este menino esculpido nos inícios do Século XVIII, não haveria razão para o Menino ter uma cartola, acreditando-se que esta lhe foi colocada entre finais do Século XIX e inícios do Século XX. Apesar disso, uma vez que a cabeça do Menino apresenta orifícios, é possível afirmar que o Menino poderia ter cabelo e, possivelmente, um chapéu de palha.

Não havendo uma data da encomenda da escultura, podemos chegar a uma data próxima. A partir de 1713 já se encontra um inventário de roupas do Menino, assim como encontramos no inventário escrito da própria Catedral, de 1720, no Arquivo Distrital em Bragança, um Menino Jesus de pé que serve nas procissões. Considerando que apenas podemos encontrar outros Meninos apenas deitados nesta Sé e não havendo registo de mais nenhum Menino de pé ao longo dos anos, podemos chegar à conclusão que não poderá ser outro senão o Menino da Cartolinha. Este aparece repetido no inventário de 1739, também da catedral.

A tradição de vestir o Menino foi algo que apareceu por volta do início do Século XVIII e que podemos encontrar noutros conventos. Encontramos Meninos vestidos de cardeais, fidalgos, cavaleiros, pois eram as freiras que vestiam os meninos com a sua visão de como queriam um marido.

As suas roupas são mudadas de acordo com o círculo litúrgico:

  • Verde – tempo comum, quando terminam as festas pascais e até ao advento;
  • Branco – desde o dia da Páscoa até ao Corpo de Deus e no Natal, de 25 de dezembro a 13 de janeiro;
  • Roxo – na Quaresma e no Advento;
  • Vermelho – no Pentecostes.

Muitas destas roupas são ofertas ou promessas feitas a este Menino, tendo as ofertas começado no próprio Século XVIII. Hoje podemos encontrar também ofertas de fardas de bombeiros, GNR e polícia, fardas estas que usa apenas num dia ao ano em ocasiões especiais ou de homenagem.

Imagens e Iconografia do Objeto[editar | editar código-fonte]

Objeto Arquitetónico[editar | editar código-fonte]

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Património Integrado[editar | editar código-fonte]

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Objeto em Destaque[editar | editar código-fonte]

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Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • Instituto do Património Cultural. Catedral de Miranda / Sé de Miranda / Igreja Paroquial de Miranda do Douro / Igreja de Santa Maria Maior. Direção-Geral do Património Cultural. http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/SIPA.aspx?id=1066
  • Moura Pinheiro, P. (Apresentadora). (2018, 17 de dezembro). Concatedral de Miranda do Douro (Temporada 8, Episódio 27). Em Visita Guiada. Rádio e Televisão de Portugal. https://www.rtp.pt/play/p4530/e380149/visita-guiada
  • Museu Terra de Miranda. Calendário. https://www.museuterrademiranda.gov.pt/concatedral/calendario/
  • Museu Terra de Miranda. Menino Jesus da Cartolinha. https://www.museuterrademiranda.gov.pt/concatedral/menino-jesus-cartolinha/
  • Direção-Geral do Património Cultural. (n.d.). Catedral de Miranda / Sé de Miranda / Igreja Paroquial de Miranda do Douro / Igreja de Santa Maria Maior. Arquivo Digital. https://arquiva.patrimoniocultural.gov.pt/index.php/concatedral-de-miranda-do-douro-antiga-se

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Serrão, V. (2002). História da arte em Portugal: O renascimento (1500-1620). Lisboa: Editorial Presença.
  • Mourinho Júnior, A. R. (1993). A catedral de Miranda do Douro. S.l.: Edição do Autor.
  • Rodrigues, L. A. (1998). A sé de Miranda: O inventário da sua fábrica no primeiro quartel do século XVIII.
  • Mourinho Júnior, A. R. (1995). A arquitetura religiosa na antiga diocese de Miranda do Douro - Bragança: 1545-1800. Miranda do Douro: Câmara Municipal.
  • Vários autores. (n.d.). A arte e a arquitetura em Trás-os-Montes.
  • Cleto, J., & Faro, S. (n.d.). Sé de Miranda do Douro: História e arte.