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Igreja da Misericórdia de Aveiro

Fonte: Porto Renascentista

Identificação[editar | editar código-fonte][editar | editar código-fonte]

Designação Igreja da Misericórdia de Aveiro
Localização Aveiro
Cronologia Séc. XVI

Arquiteto[editar | editar código-fonte]

Gregório Lourenço

Estado da Arte[editar | editar código-fonte]

Igreja da Misericórdia de Aveiro

O Renascimento em Portugal, ao contrário de outros países europeus, teve um ritmo mais gradual, com ênfase na simetria, proporção e recuperação de elementos clássicos. No final do século XV e início do século XVI, o país vivia num período de grande prosperidade económica, proporcionado pela expansão marítima e das conquistas do ultramar, o que permitiu o desenvolvimento artístico e cultural, incluindo a arquitetura.

No reinado de D. João I, verifica-se o contacto de artistas portugueses com as inovações técnicas e estéticas vindas de Itália, onde artistas italianos eram convidados a trabalhar em Portugal, contribuindo assim, para a propagação destas novas técnicas. Vítor Serrão (2002), ressalta a importância e a grande influência dos artistas e mestres italianos (por exemplo Filippo Lippi), e os primeiros contactos com os artistas flamengos, que ajudaram a modernizar a arte portuguesa. (SERRÃO, Vitor. 2002)  A arquitetura renascentista tem como principais características a recuperação de elementos clássicos, a grande ênfase à proporção e à simetria com base em estudos matemáticos como os de Vitrúvio, o uso de formas geométricas simples e claras, como quadrados, círculos e retângulos eram bastante comum, e a introdução da perspetiva linear nas fachadas e interiores permitia criar uma ilusão de profundidade e um efeito tridimensional nas superfícies, tendo sido uma inovação relativamente ao estilo gótico, que era mais focado na verticalidade e formas complexas.

Influenciados pela descoberta da perspetiva e pela busca da harmonia das proporções, os arquitetos portugueses procuraram estipular simetrias nas fachadas e interiores dos edifícios, havendo também, uma adoção de elementos clássicos, como a coluna e o arco de volta perfeita. Embora o Renascimento tenha trazido uma nova era de arquitetura em Portugal, ele não durou tanto tempo quanto em outros países da Europa, devido no final do século XVI, começou a emergir no país o estilo maneirista, ele sendo uma evolução do Renascimento. Na arquitetura, os ganhos provenientes do comércio de especiarias nas primeiras décadas do século XVI possibilitaram o desenvolvimento de um novo estilo, que mais tarde ficou conhecido como Manuelino, devido ao fato de a maior parte das construções desse estilo terem sido iniciadas durante o reinado de D. Manuel I. O Manuelino é considerado uma mistura do gótico final com elementos renascentistas, ele marcado pela decoração luxuosa, com a utilização de motivos naturalistas e vegetais.

Enquadramento[editar | editar código-fonte]

1. Cidade de Aveiro[editar | editar código-fonte]

No século XVI, Aveiro manifestou-se como um importante centro comercial, devido ao seu porto e localização  estratégica, onde essa prosperidade económica teve um impacto significativo na arquitetura da cidade. Durante o Renascimento, Aveiro estava em crescimento, devido ao seu porto e à sua proximidade com a costa atlântica, segundo diz Jaime Cortesão (1987), “Que tenham existido oficinas locais, mas confinadas a obras de menor primor e vulto, para satisfazer  a fé religiosas, tão afavorada nas localidades onde predominam as atividades marítimas, é de crer” (CORTESÃO, 1987, p.152.).  Um grande exemplo da arquitetura renascentista nesta cidade é a igreja da Misericórdia de Aveiro, sendo classificada como IIP- Imóvel de Interesse Público.

2. A Irmandade da Misericórdia de Aveiro[editar | editar código-fonte]

A Irmandade vai, cada vez mais, introduzir-se na vida social e económica da Vila, disputando o espaço religioso com outras Confrarias e Irmandades, umas mais recentes que outras.

Embora não esteja documentada a data exata da fundação da irmandade da Misericórdia de Aveiro, está atribuída, ao ano de 1498, logo após a fundação da Misericórdia de Lisboa, sendo a sua primeira casa a Capela de Santo ildefonso, encostada à igreja Matriz de S. Miguel (NEVES, 1967, p.3).  Ao longo do século XVI, a irmandade reuniu esforços para a construção de uma igreja própria, por isso, em 1585- D. Filipe I concedeu à irmandade aveirense os mesmos privilégios que a Misericórdia de Coimbra usufruía. A presença da ação filipina, na organização municipal é uma constante, a Misericórdia um dos aspetos de tal projeto político. A sequência de indicadores ocorrem: “a Provisão de S. Majestade passada no anno de 1585 a 18 de Julho pella qual concede a esta Santa Caza da Misericórdia os privilégios concedidos a Misericórdia de Coimbra. ” (Arquivo, n.º 382, fol.1.).

Descrição[editar | editar código-fonte]

Objeto arquitetónico[editar | editar código-fonte]

A construção da igreja da Misericórdia de Aveiro teve o seu início no século XVI (1600), e encontra-se na Rua de Coimbra, n.º 27, integrada no largo municipal, estando adossado do seu lado esquerdo a Casa do Despacho e respectivos anexos, estando a sua frente urbana fronteira integrada ao Teatro Aveirense e a Escola Secundária Homem Cristo.

Nos inícios do século XVII, são construídas ao mesmo tempo, no princípio da Rua Direita, «uma ampla e majestosa casa do Desppacho, e uma imponente igreja em estilo renascença italiana pré-barroca, de uma só nave, sem calas laterais e sem transepto.». Iniciaram-se as obras no ano de 1600, e em 1608 estava concluída a Casa do Despacho e o corpo da igreja, faltando o portal ornamental da fachada e a capela-mor » (NEVES, F. Ferreira, p.5).

No entanto, a fábrica de obras foi interrompida, por falta de apoios financeiros, e a capela-mor só viria a ser concluída entre 1650 e 1655, durante a provedoria de D. Raimundo de Lencastre, Duque de Aveiro, sob a direção do mestre Manuel de Azenha. Somente em 1669, a Capela de Santo Ildefonso deixou de ser utilizada pela irmandade, pelo o que se compreende que nesta data a estrutura do templo da Misericórdia estava concluída. Como já dito, a arquitetura do Renascimento em Portugal, foi marcada pela busca da proporção, da harmonia e equilíbrio, inspirando-se nos ideais da Antiguidade Clássica, e a igreja da Misericórdia de Aveiro não foge à regra. A planta retangular, composta por duplo retângulo correspondendo à planta longitudinal de igreja, de nave única e Capela-mor profunda.

Património integrado[editar | editar código-fonte]

A sua fachada é composta por um remate em frontão simples e um pórtico maneirista, composto por dois andares de bela composição, sendo ela também revestida por azulejos colocados no século XIX, seguindo os princípios renascentistas de simetria e proporção. Por cima deste entablamento encontra-se, no centro, o escudo de armas do rei e quatro urnas decorativas assentam na prumada das colunas erguendo-se, entre elas, a Cruz de Cristo e a esfera armilar.Na estrutura da fachada, revestida por azulejos em 1876, destaca-se o portal, tratado como um grande retábulo e “ cravado na fachada”, ao gosto arquitetónico de inspiração flamenga que na época predominava no noroeste português. Destaca-se ainda o registo superior do portal, onde foi utilizado um modelo coríntio “ Que não se encontra em nenhum tratado de estampa da época, e que poderá ser invenção (...)”, segundo afirma o arquiteto Gregório Lourenço.  

Revestimento azulejar na fachada

O interior é composto por uma nave comprida, ampla e alta, onde podemos ver a presença de azulejos de padrões do século XVI, nave esta coberta por uma abóbada de berço apainelada, ou seja, a que tem a directriz oval. No interior desta igreja, podemos destacar a composição espacial da nave e da Capela-mor, onde a utilização do espaço num formato mais linear e mais aberto do que nas igrejas medievais é uma característica da transição do estilo gótico para o renascentista, onde o foco passa a ser mais voltado para a centralidade e a clareza da organização espacial. A Capela-mor é grandiosa, de planta retangular, tendo sido executada pelo mestre Manuel de Azenha no século XVII. Ela é composta por uma abóbada com talha dourada e pinturas, assim como uma belo retábulo, ele réplica do portal, composto por 4 pinturas, destacando-se a de Nossa Senhora da Misericórdia.

A Casa do Despacho organiza-se num pátio interior com varanda corrida e dois pisos em colunata toscana, incluindo também uma escadaria de acesso lateral.

Capela-mor

A igreja da Misericórdia de Aveiro, também reflete bem o espírito humanista da época, na qual o homem é colocado no centro do universo, isso manifestando-se na simplicidade e clareza do espaço, bem como na valorização da luz e da proporção, sendo esta estrutura de uma grande verticalidade, onde a iluminação é feita através do coro-alto, por uma grande janela losangular e dois vãos retangulares, e duas grandes janelas na nave, de cada lado, sendo triplas na Capela-mor. (SIPA, 1996)  

Para além destas características, temos a presença de elementos arquitetónicos inspirados nos modelos clássicos, como arcos de volta perfeita, colunas ou até mesmo a moldura do portal ter a presença de um arco de concha.

Trabalho do arquiteto[editar | editar código-fonte]

O projeto inicial, foi datado a 1585, e foi atribuído ao arquiteto italiano que esteve cerca de 20 anos ativo em Portugal- Filippo Terzi (Filipe Tércio).

Filipe Tércio é um arquiteto italiano, nascido em Bolonha no ano de 1520, ele que esteve em Itália entre 1520 a 1576, e esteve presente em Portugal para desenvolver uma série de projetos entre 1577 a 1596, onde terá sido nessa altura que foi elaborado este projeto. Foi um dos arquitetos mais influentes na segunda metade do século XVI, destacando-se por ser um dos principais responsáveis por aplicar os conhecimentos de engenharia e arquitetura provenientes de Urbino em Portugal. Filipe Tércio elaborou desenhos e projetos em 1585 para a igreja da Misericórdia de Aveiro, mas que não chegaram a ser executados segundo os seus planos, que tinham como objetivo refletir uma busca pela grandiosidade e pela expressão da fé através da arquitetura.

A obra de edificação do templo iniciou-se em 1600, sendo contratado para a execução da traça o mestre Gregório Lourenço. (RUÃO, 1995, p.19.)  

O arquiteto Gregório Lourenço, natural de S. Martinho de Dume, foi um dos exemplos da cultura “flamenguista”, o seu estilo reflete uma fusão entre a arquitetura manuelina, com as suas formas ornamentais e detalhadas, e a influência do Renascimento, mais focada em proporções clássicas e harmonia. A primeira pedra da igreja foi lançada ainda nesse ano, mas como Gregório Lourenço estava encarregue de outras edificações, por exemplo na cidade do Porto, em 1601, indicou o mestre Francisco João, o seu irmão, para supervisionar a fábrica de obras.

Assim, a execução da Igreja da Misericórdia de Aveiro por Gregório Lourenço visava criar um espaço que, ao mesmo tempo, fosse um marco de poder e prestígio para a Irmandade, um centro de culto e de reflexão religiosa, e um símbolo da ajuda aos mais necessitados.

Imagens[editar | editar código-fonte]

Fachada da igreja da Misericórdia de Aveiro[editar | editar código-fonte]

Revestimento azulejar da fachada[editar | editar código-fonte]

Capela-mor[editar | editar código-fonte]

Altar-mor[editar | editar código-fonte]

Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/BoleMuniAv/Bolet019/Bol19_20.htm

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/116484/2/296406.pdf

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/86938/2/166947.pdf

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5173

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

1. CORTESÃO, Jaime. Portugal, a Terra e o Homem. Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987.

2. DIAS, Pedro. História da Arte Portuguesa, Vol. II. Lisboa: Círculo de Leitores, 1995.

3. NEVES, F. Ferreira. A igreja da Misericórdia de Aveiro, in Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XXXIII, Aveiro, 1967.

4. RUÃO, Carlos. Arquitectura maneirista no Noroeste de Portugal. Dissertação (Mestrado em História da Arte)- Universidade de Letras da Faculdade de Coimbra, Coimbra, 1995.

5. SERRÃO, Vítor. História da Arte em Portugal- O Renascimento e o Maneirismo. Lisboa: Editorial Presença, 2002.

6. VITERBO, Francisco M. de Sousa. Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional, 1922.