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	<title>Porto Barroco - Contribuições do utilizador [pt]</title>
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		<title>Corpus Christi</title>
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		<updated>2025-05-31T14:13:47Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;[[File:Fachada da igreja.jpg|thumb|Fachada da igreja]]&#039;&#039;&#039;TRABALHO DE PESQUISA&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;1. IDENTIFICAÇÃO&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|&#039;&#039;&#039;Designação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
|Convento de Corpus Christi&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|&#039;&#039;&#039;Localização&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
|Vila Nova de Gaia&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|&#039;&#039;&#039;Cronologia&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
|século XIV&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|&#039;&#039;&#039;Autor(es)&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
|D. Maria Mendes Petite&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|&#039;&#039;&#039;Classificação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
|Convento  Feminino&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;2. ESTADO DA ARTE&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OO Convento de Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, tem sido objeto de estudo sobretudo no âmbito da arquitetura religiosa pós-tridentina, da história da arte portuguesa e da transformação de espaços monásticos femininos. A literatura académica existente sublinha a singularidade deste edifício dominicano feminino, quer pelo seu valor arquitetónico, quer pela riqueza do seu património artístico integrado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações focam-se, em grande parte, nas transformações ocorridas após o Concílio de Trento, período em que os espaços religiosos foram profundamente adaptados às novas exigências da clausura monástica, da ortodoxia católica e das funções pedagógicas e devocionais próprias da espiritualidade da Contrarreforma (Marçal, 2011; Ferreira Alves, 1984). A igreja de planta centralizada octogonal, concebida pelo padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, e o Coro Alto, com o seu cadeiral ricamente ornamentado, são elementos centrais na análise das obras de reforma e reafirmação da identidade dominicana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Luísa Rodrigues e, sobretudo, Fernando Manuel Campos de Sá Mota constituem referências incontornáveis para a compreensão da evolução do convento. A obra de Mota (2016), em particular, conjuga a análise arquitetónica com a leitura histórico-religiosa, oferecendo uma perspetiva abrangente sobre as diversas fases de construção, ampliação e reconfiguração do espaço, bem como sobre o papel desempenhado pelas religiosas dominicanas na vida espiritual e educativa da cidade de Gaia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Paralelamente, autores como Raúl Rolo, Rute Rodrigues e Geraldo Dias têm vindo a aprofundar o estudo do monaquismo e das unidades monásticas femininas em Portugal, contribuindo para uma melhor contextualização do Convento de Corpus Christi no panorama mais vasto das instituições religiosas femininas. Estes estudos sublinham a função social e educativa dos conventos, a par do seu papel na consolidação do catolicismo pós tridentino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reconversão contemporânea do convento em espaço cultural e museológico tem também despertado interesse no domínio da reabilitação patrimonial e da valorização de imóveis classificados. Investigadores como Helena Marçal (2011) têm contribuído com estudos focados na conservação e restauro da talha dourada do cadeiral do Coro Alto, demonstrando a relevância do convento enquanto testemunho artístico e devocional do barroco conventual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, autores como Joaquim Ferreira Alves (1984) analisam as campanhas artísticas e decorativas do século XVII, realçando a colaboração de mestres como Gregório Fernandes, responsável por elementos do mobiliário litúrgico, e a influência posterior de Nicolau Nasoni na fachada da igreja. Estas contribuições permitem uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas artísticas que moldaram o espaço ao longo do tempo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim, o conjunto de estudos disponíveis permite construir uma visão integrada do Convento de Corpus Christi — não apenas enquanto monumento artístico, mas como síntese de vivências religiosas, sociais e culturais, cuja leitura exige um diálogo entre arquitetura, história, arte e espiritualidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;3. ENQUADRAMENTO&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Convento de Corpus Christi, também chamado de Mosteiro de S. Domingos das Donas de Vila Nova de Gaia e Instituto do Bom Pastor, localiza-se na zona histórica de Vila Nova de Gaia, junto à margem do rio Douro, sendo uma referência patrimonial de grande relevância no tecido urbano da cidade. A sua implantação estratégica na frente ribeirinha reforça a importância histórica e simbólica do conjunto, relacionando-se visualmente com o Mosteiro da Serra do Pilar e a cidade do Porto (MARÇAL, 2011, p. 102). A zona envolvente tem passado por significativas transformações ao longo do tempo, mas o convento manteve a sua centralidade e identidade arquitetónica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O mosteiro foi fundado em 1345 por D. Maria Mendes Petite, uma fidalga de Gaia, filha de Soeiro Mendes Petite (foi um nobre e cavaleiro medieval), e mãe de Pero Coelho, um dos responsáveis pelo assassínio de D. Inês de Castro, ela conhecida como “huma Dona muitorica, e nobre” (SOUSA,199, p.603) D. Maria Mendes Petite dedicou o mosteiro ao Augusto Sacramento da Eucaristia, dotou-o de avultados bens e entregou-o à Ordem de São Domingos. Durante a guerra civil de 1832-1834, as monjas de Corpus Christi foram obrigadas a deixar o convento e a refugir-se no Mosteiro de Vairão (1833), regressando ainda em 1834, após o Cerco do Porto. Foi em 1894 que a última residente de Corpus Christi faleceu e todo o edifício passou para a tutela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Domingos de Gusmão. (MOTA,2016, p.43) Sobre a tutela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Domingos de Gusmão e ainda no ano de 1894, passaram a funcionar neste espaço escolas primárias para ambos os sexos, projeto dinamizado pelas irmãs franciscanas hospitaleiras. As funções conventuais extinguiram-se em 1894 com a morte da última freira, Marcelina Cândida Viana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No ano de 1922, um Alvará do Governo Civil manda encerrar o convento e dissolver a Irmandade, permanecendo este espaço sem qualquer utilização até final da década de 20. Na sequência da reforma do sistema de educação de menores, o Instituto Corpus Christi encerra definitivamente em 2002, revertendo para a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 2003, o convento sofreu recentes obras de remodelação, albergando agora um espaço cultural - o Espaço Corpus Christi - e ainda um pólo de mestrado da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Hoje, é usado como objeto de fruição cultural (exposições de arte, concertos, conferências literárias), mas também de fruição económica e comercial (apresentação de produtos comerciais, de empresas, etc.) - resultou de um complexo edificado ao longo de séculos, ao serviço de uma comunidade de mulheres dedicadas ao sobrenatural e religioso. (MOTA,2016, p.18) Está também classificada como Imóvel de Interesse Público desde 2012.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;4. DESCRIÇÃO&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os estudos relativos ao Convento de Corpus Christi destacam a importância do espaço dominicano feminino e as várias obras e modificações por que passou ao longo do tempo, nomeadamente devido às grandes cheias do rio Douro. Segundo Marçal, “desde a sua fundação, o convento sofreu as consequências da proximidade do rio Douro. Em inúmeras ocasiões as cheias impediram a utilização da igreja, afetaram dormitórios, claustro e cerca, provocando problemas estruturais e elevados custos em reparações que abalam as precárias finanças das religiosas” (Marçal, 2011, p. 103). Entre as cheias que ocorreram, destacam-se as de 1625, que cobriu parte da igreja, dormitórios e claustros, e a de 1727. Com a degradação do edifício, sentiu-se a necessidade urgente de realizar obras profundas, que acabaram por alterar significativamente as linhas originais do convento e até o local onde este se encontrava inicialmente instalado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primitiva igreja do convento sofreu uma degradação gradual devido às constantes cheias do rio Douro, o que motivou a construção de um novo templo na segunda metade do século XVII. A traça foi concebida pelo padre &#039;&#039;&#039;Pantaleão da Rocha de Magalhães&#039;&#039;&#039;, uma figura com várias intervenções arquitetónicas no Porto e seus arredores (Ferreira Alves, 1984, p. 250). A nova igreja seguiu o modelo do Mosteiro do Bom Sucesso de Santa Maria de Belém, em Lisboa, também da Ordem Dominicana, com adaptações ao espaço disponível e às necessidades da comunidade religiosa, nomeadamente nos coros, atribuídas a &#039;&#039;&#039;Gregório Fernandes&#039;&#039;&#039; (Ferreira Alves, 1984, p. 253). No século XVIII, foi construída a fachada barroca que antecede o portal da igreja, onde é notória a influência de Nicolau Nasoni.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A nova igreja, agora edificada em cota mais elevada (ainda que em área mais reduzida), permitiu ao arquiteto a concretização de uma planta centralizada octogonal, abobadada ao centro, com capela-mor a nascente e coros a poente — solução arquitetónica que adapta o espaço à geometria simbólica do octógono, figura associada à ressurreição e à Nova Criação Redimida (Coelho, 1997, pp. 134–135). A organização interna é marcada pela presença de uma nave única e dois coros, permitindo a participação das religiosas nos ofícios religiosos, mesmo em regime de clausura (Marçal, 2011, p. 103). Esta configuração reflete não apenas a funcionalidade, mas também os valores simbólicos e espirituais da vivência conventual dominicana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sobriedade das fachadas exteriores contrasta com a riqueza decorativa do interior da igreja. Destaca-se o coro alto, de traça barroca, com um notável cadeiral em talha dourada, pintura mural e retábulos. O esforço construtivo para garantir a suspensão da cúpula de pedra exigiu muros robustos, capazes de suportar o empuxo da abóbada, ao mesmo tempo que se pretendia manter uma sensação de leveza espacial. Além da talha, merece destaque a pintura ilusionista que decora as pilastras, o entablamento e a abóbada, conferindo brilho e complexidade a um espaço que, de outro modo, seria decorativamente comedido (Rodrigues, 1998, p. 71). De facto, trata-se de um dos melhores exemplos do barroco conventual no norte do país, pela qualidade do programa decorativo integrado (Ferreira Alves, 1984, p. 250).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo inventários realizados antes da extinção do convento, havia cerca de 90 imagens ou conjuntos de imagens, bem como mais de 30 quadros, distribuídos não só pelos cinco altares fixos da igreja, mas também pelos altares dos coros, pelos claustros e pela portaria (Ferreira Alves, 1984, p. 251).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fachada da igreja constitui a estrutura mais elaborada em termos decorativos, refletindo o gosto artístico vivido no Porto durante o século XVIII. Nicolau Nasoni, chegado à cidade em 1725, influenciou fortemente a arquitetura portuense com obras como a Igreja dos Clérigos, o Palácio do Freixo, a fachada da Santa Casa da Misericórdia e a Igreja de Santa Marinha, todas próximas do Convento de Corpus Christi. Vários investigadores atribuem-lhe a autoria da fachada da igreja, concluída por volta de 1745 (Mota, 2016, p. 73).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O elemento mais relevante do património integrado do convento é, sem dúvida, o Coro Alto, tanto pelo seu valor litúrgico como pela sua excecional riqueza artística. O cadeiral, atribuído ao entalhador Domingos Lopes, é executado em madeira de nogueira de Bordéus e compõe-se de três séries de assentos levadiços, decorados com misericórdias figurativas: animais, seres fantásticos e figuras humanas. Estes elementos refletem não só a criatividade artística, mas também possíveis influências do imaginário do Império Ultramarino, visíveis na representação de negros, exóticos e elementos vegetais (Ferreira Alves, 1984, pp. 250–252; C.M. Vila Nova de Gaia, 2025).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O espaldar do cadeiral é constituído por catorze telas com temática dominante dominicana, incluindo representações de Santo António de Lisboa e Santa Joana Princesa. O espaço é guarnecido por talha vegetalista e o teto é composto por 49 caixotões pintados a óleo sobre madeira. Estes apresentam figuras de santos da Ordem Dominicana e de outras ordens, sendo os quinze painéis centrais alusivos aos Mistérios do Rosário — tema de particular devoção na espiritualidade dominicana (C.M. Vila Nova de Gaia, 2025; Ferreira Alves, 1984, p. 253).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pintura e a imaginária da igreja — visíveis no espaldar, nos caixotões e nos retábulos — inserem-se plenamente no contexto da espiritualidade da Ordem, representando os principais temas devocionais: o Santo Rosário, o Nome de Jesus e a Eucaristia (Ferreira Alves, 1984, pp. 253–254). Este programa iconográfico, coerente e intencional, expressa a função pedagógica e meditativa dos espaços conventuais, em consonância com o espírito da Contrarreforma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A preservação destes elementos ao longo das sucessivas intervenções reflete o cuidado com a conservação do património artístico integrado do convento, espelhando um equilíbrio entre o respeito pelo legado histórico e a adaptação às necessidades contemporâneas (SIPA, 2008).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;5. IMAGENS E ICONOGRAFIA DO OBJETO&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
[[File:Coro alto do convento Corpus Christi.jpg|left|thumb|283x283px|Coro Alto]]&lt;br /&gt;
[[File:Pinturas do Coro Alto do Convento de Corpus Christi.jpg|thumb|227x227px|Pinturas do Coro Alto|center]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[File:Altar-mor do convento de Corpus Christi.jpg|left|thumb|Altar-mor]]&lt;br /&gt;
[[File:Igreja do Convento de Corpus Christi.jpg|thumb|284x284px|Interior da igreja]]&amp;lt;br /&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;6. FONTES E BIBLIOGRAFIA&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1. Livro História da Arquitetura Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar, Coord. Manuel Joaquim Moreira da Rocha/Juan Manuel Monterroso Montero. CITCEM, 2023.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2. Serrão, V. História da arte em Portugal – O Barroco. Editorial Presença, 2003.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3. Rocha, A. M. O barroco. Paralelo Editora, 1998. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4. Pinto, A. L., Meireles, F., &amp;amp; Cambotas, M. C. Arte Portuguesa. Porto Editora, 2010.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5. Pereira, J. F. Arquitectura barroca em Portugal. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
6. GOMES, Francisco José Silva, “PEREGRINATIO E STABILITAS: Monaquismo e Cristandade Ocidental do Século VI a VIII”, Textos de História, vol. 9, nº 1-2, Universidade de Brasília, 2001. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
7. ROLO, Raúl A., “Monjas Dominicanas” in Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. II, dir., Carlos Azevedo, Centro de Estudos de História Religiosa, Círculo de Leitores, 2000. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
8. PENTEADO, Pedro, “Confrarias”, Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. I, dir. Carlos Azevedo, Centro de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Círculo de Leitores. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
9. DIAS, Geraldo J. A. Coelho Dias. “Perspectivas Bíblicas da Mulher e Monaquismo Medieval Feminino”, Revista da Faculdade de Letras, Universidade do Porto. 1995. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
10. SILVA, António Martins, “Extinção das Ordens Religiosas” in Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. II, dir. Carlos Azevedo, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Círculo de Leitores, 2000. 19 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
11. &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0212063_05_cap_06.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt; - Tese PUC- Rio: Desenvolvimento Histórico do Monaquismo e Surgimento do Diálogo Inter-Religioso Monástico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
12. RODRIGUES, Luísa Fernanda Ferreira. O Mosteiro de Corpus Christi de Vila Nova de Gaia, 2016. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
13. CAMPO BELLO, Conde (D. Henrique), “O Mosteiro de Corpus Christi de Gaia”, Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol. I, Fasc. III, Porto, setembro - 1938. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
14. “Mosteiro de Corpus Christi” in História de Gaia, fasc. 24, vol. II, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, Camara Municipal de Vila Nova de Gaia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
15. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves, “O Mosteiro de S. Domingos de Donas de Vila Nova de Gaia ou Convento de Corpus Christi: breve resenha histórica”, Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, nº 75, 12º vol., Vila Nova de Gaia, dezembro de 2012. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
16. Sá Mota, F. M. C. de. Convento Corpus Christi de Gaia: Novos usos do património [Dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto], 2016. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
17. Marçal, H. Diacronia da ocupação do Convento Corpus Christi, Vila Nova de Gaia, 2011. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
18. COELHO, Gustavo Neiva, “Igrejas de Planta Octogonal: o Simbolismo Barroco em Goiás no Século XVIII”, Locus, revista de história, Juiz de Fora, vol. 3, nº 1. 19. &amp;lt;nowiki&amp;gt;http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/sipa.aspx?id=5341&amp;lt;/nowiki&amp;gt; - SIPA- Sistema de Informação para o Património Arquitectónico: Igreja da Misericórdia de Aveiro, 2008. 20. Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Espaço Corpus Christi, 2025.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
19. FERREIRA ALVES, Joaquim J. B&#039;&#039;&#039;.&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;Algumas obras seiscentistas no Convento de Corpus Christi&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DEFAULTSORT:Convento de Corpus Christi}}&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
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		<title>Convento da Madre de Deus Guimarães</title>
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		<updated>2025-05-27T09:26:57Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: legendas anexos&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|+&lt;br /&gt;
!&#039;&#039;&#039;Designação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
!Convento da Madre de Deus - Guimarães&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Localização&lt;br /&gt;
|Rua de D. Domingos da Silva Gonçalves&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Cronologia&lt;br /&gt;
|Séculos XVIII&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Arquiteto&lt;br /&gt;
|Desconhecido&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Classificação&lt;br /&gt;
|Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 8/83, DR, I Série, 19 de 24 janeiro 1983 / Incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães (v. PT010308340101)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A historiografia e o lugar do Convento na História da Arte ==&lt;br /&gt;
A arquitetura religiosa feminina em Portugal desempenhou, sobretudo a partir do Concílio de Trento, um papel fundamental na organização do espaço urbano, na afirmação simbólica do catolicismo e na gestão social da clausura. O Convento da Madre de Deus de Guimarães inscreve-se nesse universo, revelando, na sua trajetória arquitetónica e funcional, os mecanismos de poder espiritual, familiar e urbano que moldaram o património monástico ao longo da modernidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia dos conventos femininos em Portugal evoluiu de meros registos patrimoniais para abordagens críticas mais integradas, que hoje reconhecem o valor arquitetónico, social e simbólico destas instituições. (Pereira 2020. pp. 124-131) O interesse pelos conventos femininos começou muitas vezes por motivos práticos: inventários patrimoniais (especialmente após extinção das ordens religiosas em 1834) para registar bens e obras de arte. Posteriormente, nos séculos XIX-XX, começou-se a olhar para estes conventos não apenas como “depósitos” de arte, mas como elementos arquitetónicos e sociais. Atualmente há alguns estudos mais críticos que ligam os conventos à história urbana, ao papel das mulheres e às dinâmicas de poder. No entanto, os conventos femininos ainda estão menos estudados que os masculinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As determinações do Concílio de Trento (1545–1563) instituíram um novo modelo para a vida religiosa feminina, impondo clausura rigorosa como forma de garantir a pureza doutrinal e moral. Esta mudança refletiu-se profundamente na arquitetura conventual, que passou a privilegiar espaços fechados, controlando o contacto com o exterior (Conde 2015, pp. 235-257). Em Portugal, país marcadamente católico, essas orientações foram seguidas com grande zelo, levando à adaptação de conventos existentes e à fundação de novas casas segundo os princípios tridentinos (Jacquinet 2015, pp. 4-23). As ordens religiosas femininas ganharam novo protagonismo, funcionando como agentes de ortodoxia e como espaços de contenção social. As mulheres da nobreza, frequentemente destinadas à vida religiosa por motivos de devoção ou conveniência familiar, eram acolhidas em conventos que asseguravam educação básica, reforço moral e prestígio social às suas famílias. Servindo muitas vezes como &amp;quot;depósito&amp;quot; de filhas de famílias nobres que não casavam, garantindo alianças políticas e económicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A extinção das ordens religiosas em 1834 (Oliveira 2015, p.17; Silva 2000), decretada no contexto das reformas liberais que colocaram fim ao Antigo Regime, marcou um ponto de rutura na história do Convento da Madre de Deus de Guimarães. As ordens, tanto masculinas como femininas, foram progressivamente extintas, os seus bens confiscados e os espaços conventuais encerrados (Veiga 2019, pp. 113-120). Como em muitas outras casas religiosas, os bens móveis (livros, imagens, objetos litúrgicos) foram dispersos, vendidos ou simplesmente pilhados. A partir da segunda metade do século XIX, muitos conventos foram adaptados a funções civis (escolas, quartéis, prisões, armazéns ou habitação). Estas reutilizações, quase sempre alheias a qualquer preocupação de preservação histórica, resultaram em descaracterizações graves. A história do convento espelha, de forma paradigmática, os ciclos ideológicos que moldaram Portugal. Nos séculos XVII e XVIII, a construção conventual atinge o seu auge, alimentada por uma religiosidade oficial que servia também a construção de uma identidade nacional. Com a ascensão do Liberalismo no século XIX, verifica-se uma ofensiva sobre o património religioso, enquanto símbolo de um poder a combater.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bases históricas para a análise arquitectónica ==&lt;br /&gt;
[[File:Claustro Convento da Madre de Deus de Guimarães.jpg|alt=Claustro Convento|thumb|Claustro Convento |268x268px]]&lt;br /&gt;
O Convento da Madre de Deus, localizado em Guimarães, atravessou diversas fases marcadas por sucessivas transformações e intervenções, impulsionadas por figuras de grande relevância. Em junho de 1672, D. Catarina de Chagas chegou a Vale de Donas, acompanhada de um grupo de religiosas, iniciando então a recolha de fundos que possibilitaram, em 1683, a sua instalação definitiva no local, então conhecido como Rosal de Santa Isabel (Caldas 1881, p. 206; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). Com o objetivo de conferir uma regra canónica à comunidade, partiu para Roma entre 1690 e 1693, disfarçada com trajes masculinos, na tentativa de obter a Regra de Santa Clara. No entanto, faleceu durante a viagem de regresso e as normas por si adquiridas nunca chegaram a ser implementadas. Mais tarde, em janeiro de 1716, através de Breve D. Rodrigo de Moura Teles, arcebispo de Braga, figura de grande influência e promotor de várias instituições religiosas no norte do país (Rocha 2009, p. 172), envolvendo também membros da nobreza e da alta burguesia urbana, como era comum, motivados tanto pela salvação da alma como pelo prestígio social, nomeia, sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição (então recolhida no Mosteiro da Madre de Deus de Lisboa), primeira abadessa da nova fundação ([http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1924 SIPA] 2025; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). A sua entrada solene no convento de Guimarães ocorreu a 13 de abril do mesmo ano. Até ao seu falecimento, a 1 de abril de 1739, dedicou-se intensamente ao engrandecimento do edifício, promovendo ampliações e melhorias que permitiram elevar o número de recolhidas a trinta e três. A vida conventual era marcada pela clausura rigorosa, a oração e a educação feminina básica (Silva 2019, p. 352), esta prática de fundação conventual respondia ao modelo pós-tridentino, onde o mecenato religioso reforçava a autoridade familiar e a devoção institucional.                        &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O século XIX marcou o início do seu declínio. A interdição do noviciado, em 1833, e a consequente incorporação do convento nos bens da Fazenda Nacional, no ano seguinte, levaram à redução progressiva da comunidade. O falecimento da última religiosa, Soror Maria de São José, em 1888, marcou o encerramento da vida conventual ([https://digitarq.arquivos.pt/documentDetails/3d147f7410b740718a2ff9ae5c5d34a4 DIGITARQ] 2025). O edifício permaneceu ao abandono, sofrendo atos de vandalismo em 1910. Foi apenas em 1918 que o espaço conheceu nova função, quando D. Domingos da Silva Gonçalves, fundador das Oficinas de São José, arrendou o antigo convento com a intenção de o transformar num internato para jovens rapazes em situação de carência (SIPA 2025). Em 1983, o edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público, nos termos do Decreto n.º 8/83, publicado no &#039;&#039;Diário da República&#039;&#039;, n.º 19, de 24 de janeiro (Oliveira 2011, vol. I, p. 383). Sob a liderança de D. Domingos, realizaram-se obras significativas de reabilitação e ampliação, adaptando o conjunto às novas exigências pedagógicas. À data da sua morte, a 4 de junho de 1960, o convento encontrava-se em pleno funcionamento, albergando diversas atividades formativas e educativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Arquitetura ==&lt;br /&gt;
[[File:Porta lateral igreja.jpg|thumb|Porta de acesso à igreja|267x267px]]&lt;br /&gt;
O Convento, é também conhecido como Igreja do Convento das Capuchinhas ou Centro Juvenil de S. José, atualmente classificado pelo SIPA e protegido como Imóvel de Interesse Público. Está ainda incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Constata-se que, do antigo convento, apenas a igreja e o claustro subsistem sem alterações significativas. As restantes áreas foram alvo de sucessivas transformações, adequando-se às novas funções impostas pelo uso contemporâneo do espaço. O edifício apresenta uma arquitetura de traço austero, refletindo os princípios da chamada &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, uma linguagem formal marcada pela simplicidade volumétrica, pela contenção decorativa e pelo funcionalismo. George Kubler teorizou esta tendência em &#039;&#039;A Arquitectura Portuguesa Chã – Entre as Especiarias e os Diamantes – 1521-1706&#039;&#039;, relacionando-a com os ideais pós-tridentinos de modéstia e recato, especialmente evidentes nas ordens religiosas femininas reformadas (Paiva 2014, p. 73). Esta linguagem, amplamente disseminada na arquitetura religiosa portuguesa, distingue-se por uma depuração formal, ausência de ornamentos supérfluos e soluções construtivas sóbrias (Pereira 1992, p. 24). Tais características estão bem evidenciadas no Convento da Madre de Deus, cuja planta retangular, volumes simples e fachadas despojadas conferem expressividade sobretudo pelo equilíbrio e proporção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A igreja apresenta uma planta longitudinal, com nave única e capela-mor mais estreita e ligeiramente elevada. A configuração corresponde ao tipo de “igreja-caixa” da &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, caracterizada por volumes paralelepipédicos e ausência de compartimentação interna, com cobertura em abóbada e transição entre nave e capela-mor marcada por um arco triunfal. Este último elemento, de origem clássica, desempenha uma função simbólica significativa, assinalando a passagem entre espaços de estatuto litúrgico distinto (Rocha 2017, p. 95). O teto da nave é constituído por caixotões de madeira pintados. O púlpito, utilizado para a pregação, localiza-se do lado da Epístola e assenta numa mísula de cantaria, com guarda plena em madeira. De acordo com Pedro Miguel Oliveira Paiva, existiria um acesso direto entre a sacristia e o púlpito, posteriormente entaipado. “&#039;&#039;A igreja teria perdido o acesso ao púlpito e duas janelas da capela-mor em virtude da construção das escadas de acesso para o segundo piso&#039;&#039;” (Paiva 2014, p. 95). Entre a sacristia e a capela-mor encontra-se uma pia de pedra destinada à purificação ritual das mãos pelo celebrante antes do momento da consagração litúrgica. A capela-mor, centro simbólico do espaço sagrado, acolhe o momento da transubstanciação, ou seja, a conversão do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, num ritual exclusivamente mediado pelo clero masculino (Rocha 2017, p. 95).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exteriormente, o edifício distingue-se pela predominância de panos murários lisos, sem elementos decorativos, à exceção do portal principal. Este apresenta uma composição mais elaborada, com volutas, pináculos e espaldar de cantaria encimado por uma cruz latina, sinalizando uma discreta influência do gosto barroco. A estrutura decorativa da entrada revela referências à arquitetura clássica, entablamento e cornija saliente, com pilastras de capitéis que reinterpretam a ordem toscana. O portal principal, com verga saliente, insere-se numa composição simétrica, sendo ladeado por duas janelas gradeadas de verga recta. Sobre o portal, ergue-se um nicho em arco de volta perfeita, que acolhe uma imagem devocional, rematado lateralmente por dois pináculos de cantaria que conferem verticalidade e sobriedade ao conjunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos conventos femininos, o acesso à igreja pelas religiosas fazia-se geralmente por um percurso autónomo, a partir do interior do claustro, conduzindo ao coro-alto (em certos casos, ao coro-baixo). Estas estruturas permitiam às religiosas assistir à missa através de grades, preservando o anonimato e a clausura, sem contacto direto com os fiéis que acediam pela entrada lateral da igreja (Paiva 2014, p. 165).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de equipamentos organiza-se em torno de um claustro central de planta retangular. No piso térreo, apresenta arcadas retas com fachadas em granito aparente; no piso superior, abrem-se janelas com varandins em ferro. O claustro assume aqui o seu papel tradicional de espaço de recolhimento, silêncio e oração (Rocha 2017, p. 93). No seu centro destaca-se um chafariz em pedra, datado do século XVIII. Este elemento cumpre funções simbólicas e práticas: além do abastecimento de água, representava purificação e, segundo Pereira (1992, p. 82), reforçava o dramatismo cénico próprio da estética barroca. A estrutura conventual articulava-se em torno deste núcleo, com acesso às diversas dependências (dormitórios, refeitório, cozinha, enfermaria e noviciado), que foram adaptadas ao longo do tempo, sem anular completamente a memória das suas funções originais (Paiva 2014, p. 45).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda a referir, a existência de um terreiro com um cruzeiro datado de 1775, alinhado com a antiga Calçada das Capuchinhas, e pátios ajardinados que integram fontes decoradas com motivos fitomórficos, testemunho discreto da linguagem barroca. No contexto do Barroco, os cruzeiros assumiam-se como elementos de forte carga simbólica, demarcando o território da fé e integrando o espaço público enquanto sinais da presença religiosa, muitas vezes com funções devocionais e cenográficas (Pereira 2022, p. 20). A fachada orientada a nordeste, estabelecia uma ligação visual direta com a muralha e com a torre da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, reforçando o papel simbólico do convento na paisagem monumental de Guimarães (Paiva 2014, p. 71). Esta intencionalidade espacial foi comprometida, no século XIX, pela chegada da linha férrea e pela construção de pavilhões industriais que obscureceram a leitura urbana do edifício. A arquitetura conventual, mais do que mera funcionalidade, deve ser entendida como um discurso simbólico, um verdadeiro “texto tridimensional” que articula valores religiosos, sociais e políticos através do espaço construído.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Mestres de obra identificados ==&lt;br /&gt;
Atualmente podem observar-se marcas que remetem para as várias fases e épocas construtivas que o edifício atravessou. O edifício preserva, na sua estrutura, os vestígios das intervenções sucessivas de mestres-de-obras, arquitetos e pedreiros, que ao longo do tempo foram moldando o traçado, os volumes e a forma do conjunto, testemunhando assim as diversas fases de transformação e adaptação que marcaram a sua história. Embora não existam documentos que nos consigam levar ao conhecimento do arquiteto responsável pela obra, a tese de doutoramento de António José de Oliveira “Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII” (2011), permite identificar os principais mestres construtores responsáveis pelas campanhas construtivas mais relevantes do convento durante os séculos XVII e XVIII.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;André Machado&#039;&#039;&#039;, mestre pedreiro de Arões, foi contratado em 1701 para &amp;quot;&#039;&#039;acabar e aperfeiçoar toda a obra de pedraria que faltava por acabar neste convento&#039;&#039;&amp;quot;, incluindo paredes, portas, janelas, pilares e escadas, segundo a traça definida pelas religiosas. A pedra seria proveniente da Quinta de Vila Nova ou do Montinho de São Roque. O contrato previa uma remuneração de &#039;&#039;&#039;450$000 réis&#039;&#039;&#039;, com cláusulas específicas de prazo, qualidade e penalizações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;António de Oliveira&#039;&#039;&#039;, pedreiro residente no lugar da Cividade (freguesia de São Salvador de Joane), foi contratado em 1719 para a construção de um novo dormitório conventual, pelo valor de &#039;&#039;&#039;615$000 réis&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Manuel da Silva&#039;&#039;&#039;, carpinteiro residente na freguesia de Ruivães, assumiu a execução da carpintaria do mesmo dormitório (portas, janelas, ferragens), pelo valor de &#039;&#039;&#039;385$000 réis&#039;&#039;&#039;. Ambos os contratos mencionam a existência de plantas e apontamentos fornecidos pelas religiosas, e a necessidade de revisão da obra por outros oficiais antes do pagamento final.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O património integrado do Convento da Madre de Deus de Guimarães ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Convento é um exemplo de como a articulação entre arquitetura religiosa e património integrado, entendendo-se este último como o conjunto de bens cuja existência e função estão intrinsecamente ligadas ao edifício onde se encontram inseridos, formam com ele uma unidade indivisível (Calado et al. 2003, p. 5). Entre os elementos integrados mais relevantes, que estão conservados no convento, sobressai o conjunto de azulejaria figurativa setecentista da capela-mor. Composto por seis grandes painéis azuis e brancos, que representam episódios centrais da vida da Sagrada Família (Paiva 2014, p. 99): a Anunciação, o Sonho de São José, a Apresentação no Templo, a Fuga para o Egipto, o Casamento da Virgem e a Adoração dos Pastores e dos Magos (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Estes painéis não só exemplificam a qualidade técnica da produção azulejar lisboeta do século XVIII (Paiva 2014, p. 167), como revelam uma clara intenção pedagógica e devocional, em linha com os ideais pós-tridentinos de catequese visual.[[File:Retábulo capela mor.jpg|thumb|Retábulo Capela-Mor|268x268px]]O &#039;&#039;retábulo-mor&#039;&#039;, em talha policroma a branco, cinza e dourado, apresenta uma composição tripartida, com tribuna central, colunas coríntias e decoração vegetalista (SIPA 2025), adaptado à sensibilidade franciscana capucha. A presença deste elemento exibe uma contenção ornamental equilibrada com a solenidade litúrgica, preservando o ideal de pobreza decorativa sem abdicar do esplendor do espaço sagrado. Outros &#039;&#039;retábulos dourados&#039;&#039; atualmente existentes nas laterais da nave pintados por António Luís e Luís Lopes Pimenta (1739) (Oliveira 2011, p. 382) — dedicados a &#039;&#039;São José&#039;&#039; e a &#039;&#039;Santa Clara&#039;&#039;, não são originais do convento, tendo sido transferidos da Igreja de Santa Clara de Guimarães no século XX (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Ainda assim, a sua integração posterior mostra bem os desafios contemporâneos na gestão e salvaguarda do património integrado: como defende o IPPAR, a dispersão ou substituição destes bens compromete a coerência simbólica e material do espaço arquitetónico (Calado et al. 2003, p. 14).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A compreensão do património integrado do convento exige também uma consciência crítica dos processos históricos de perda e alienação de bens, particularmente após a extinção das ordens religiosas em 1834. Neste contexto, muitos objetos litúrgicos e artísticos foram removidos ou substituídos, comprometendo a “alma do monumento” — isto é, a unidade simbólica entre espaço, objeto e função (Calado et al. 2003, p. 8). A manutenção e valorização dos elementos ainda preservados, como os azulejos e o retábulo-mor, assume, por isso, particular importância no reconhecimento da identidade do edifício. Neste sentido, o Convento da Madre de Deus de Guimarães oferece-se hoje como um exemplo de património religioso onde a persistência de elementos integrados (apesar das vicissitudes institucionais e funcionais), permite ainda uma leitura coerente da sua função original, simbólica e artística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Do &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039; à mercantilização: o património entre memória e função ==&lt;br /&gt;
A intervenção no edificado, ilustra de forma clara as tensões entre a preservação patrimonial e a funcionalização contemporânea de edifícios históricos. Ao longo do século XX, alterações urbanas como a abertura de novas avenidas e a formação de núcleos industriais contribuíram para a descaracterização do entorno conventual. O edifício perdeu a sua relação visual e simbólica com o centro histórico, especialmente com a torre da Colegiada da Oliveira, uma rutura paisagística que compromete o valor monumental da sua implantação original. Internamente, o edifício sofreu intervenções que levantam dilemas clássicos do restauro: conservar o original ou reconstituir o passado? A introdução de betão armado e divisórias em materiais modernos, apontam para uma lógica de adaptação funcional, mais do que de conservação criteriosa. Esta realidade insere-se numa crítica mais ampla à chamada “mercantilização do património”, onde edifícios históricos são descontextualizados em nome da utilidade contemporânea. Por outro lado, alguns teóricos apontam ainda para o &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039;, ou seja, a tendência de querer salvar tudo sem qualquer hierarquia de valores, (Zerbetto 2007) poderia diluir o verdadeiro significado do património. A reconversão do Convento insere-se numa tendência mais ampla de reutilização de património religioso desativado, comum em Portugal com abordagens diversas, oscilando entre a conservação e a descaracterização profunda. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Convento como palimpsesto: Leitura crítica do espaço atual ==&lt;br /&gt;
O edificado configura-se hoje como um verdadeiro palimpsesto arquitetónico, (Quintão 2023, pp. 29-34) no qual elementos barrocos originais coexistem com intervenções contemporâneas, ora integradas com sensibilidade, ora contrastantes ou dissonantes. A arquitetura contemporânea sobreposta ao espaço conventual manifesta uma relação dialética com a pré-existência: nalguns pontos, respeita a memória do lugar; noutros, obscurece ou apaga os seus significados. Este fenómeno coloca em causa os princípios da intervenção patrimonial, como os estabelecidos na &#039;&#039;&#039;Carta de Veneza&#039;&#039;&#039; ou nas teorias do restauro crítico, que defendem a distinção clara entre o novo e o antigo, preservando a legibilidade histórica dos conjuntos. Neste sentido, o convento pode ser lido como um espaço de memória em disputa, onde algumas marcas resistem (a estrutura, a função simbólica da clausura, os vestígios artísticos), enquanto outras se perderam ou foram reinterpretadas.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Inserção urbana e função social do convento na cidade de Guimarães ==&lt;br /&gt;
Inserido no denso tecido urbano de Guimarães (cidade de forte tradição religiosa e sede de numerosos conventos masculinos e femininos), o Convento da Madre de Deus não funcionava apenas como espaço de clausura, mas também como instrumento de ordenação social, moral e simbólica. A sua localização, ainda que integrada na malha urbana, criava uma espécie de “&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;ilha de clausura&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;”, separada fisicamente, mas influente espiritualmente. De acordo com alguns autores (Oliveira 2011, pp. 379–387), este tipo de conventos femininos reforçava a autoridade da Igreja sobre o espaço urbano, projetando valores de disciplina, recolhimento e pureza sobre o quotidiano das populações. Esta rede prolongava-se até Braga, sede do arcebispado, onde figuras como D. Rodrigo de Moura Teles promoveram ativamente fundações religiosas. O convento de Guimarães poderá assim ser entendido como parte de uma estratégia episcopal mais ampla, com objetivos devocionais, sociais e políticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Centro Juvenil São José 2025 ==&lt;br /&gt;
O [https://www.cjsj.pt/ Centro Juvenil de São José (CJSJ)] é atualmente uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos, cuja origem remonta às antigas Oficinas de São José, fundadas em 1915 no Convento das Capuchinhas, em Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o CJSJ dedica-se ao acolhimento e à inserção social de crianças e jovens sem apoio familiar ou em risco de exclusão social. As suas principais respostas sociais incluem uma Casa de Acolhimento e um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), ambos sediados em Guimarães, bem como uma creche localizada em Felgueiras. Paralelamente, desenvolve projetos como o “Bons Pais, Bons Filhos” e mantém um Alojamento Local (AL), cujas receitas contribuem para a sustentabilidade das suas atividades sociais. Este AL, tem como objetivo principal apoiar jovens oriundos dos PALOP, que se encontram em dificuldades financeiras, ajudando-os a ajustarem-se à realidade económica e social portuguesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A missão do Centro assenta na intervenção para a reintegração social, colocando as necessidades da criança e do jovem no centro da sua ação, promovendo a sua inclusão e bem-estar. Embora o edifício tenha perdido o seu contexto religioso original, permanece impregnado de espiritualidade e do compromisso com o próximo, valores fundamentais da doutrina cristã que continuam vivos. Este espaço assume-se, assim, como um lugar de memória histórica, sustentado por princípios de fé, de purificação da alma e de amor ao próximo.&amp;lt;gallery class=&amp;quot;[[File:Sepultura Soror Soror Luísa Maria da Conceição.jpg|thumb|]]&amp;quot; style=&amp;quot;[[File:Sepultura Soror Soror Luísa Maria da Conceição.jpg|thumb|]]&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sala Interior Oficinas de São José.jpg|&#039;&#039;Sala Interior Oficinas de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Interior Oficinas de São José (Corredor).jpg|&#039;&#039;Interior Oficinas de São José (Corredor)&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Refeitório Oficinas de São José.jpg|&#039;&#039;Refeitório Oficinas de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Galeria Convento: ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sacristia - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Sacristia&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Nave - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Nave&#039;&#039; &lt;br /&gt;
File:Cruzeiro - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Cruzeiro&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Chafariz - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Chafariz&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Púlpito - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Púlpito&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Pia Sacristia - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Pia Sacristia&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Painéis azulejares - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Painéis Azulejares&#039;&#039; &lt;br /&gt;
File:Capela-mor - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Capela-mor&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Retábulo São José - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Retábulo de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Retábulo Santa Clara - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Retábulo Santa Clara&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Túmulo D. Domingos - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Túmulo D. Domingos&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Grade Coro-Alto - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Grade Coro-Alto&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sepultura Soror Soror Luísa Maria da Conceição.jpg|&#039;&#039;Sepultura Soror Luísa Maria da Conceição&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Placa sepultura.jpg|&#039;&#039;Placa sepultura&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Anexos imagens: ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
© PAIVA, Pedro Miguel Oliveira (2014).&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Estudo de vãos.jpg|1.  &#039;&#039;Estudo de Vãos&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Desenhos 3d.jpg|2. &#039;&#039;Desenhos 3D&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Fig- 32, 33, 34.jpg|3. &#039;&#039;Estudos (desenhos)&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Desenho baixo relevo.jpg|4. &#039;&#039;Desenho baixo-relevo&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Vista aérea convento desenho.jpg|5 - &#039;&#039;Vista aérea&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Manuscrito e cartografia.jpg|6 - Manuscrito do Livro de atas da Câmara&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
© OLIVEIRA, António José de (2011).&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Pag. 128.jpg&lt;br /&gt;
File:Pag. 129.jpg&lt;br /&gt;
File:Pag. 130.jpg&lt;br /&gt;
File:Pag. 131.jpg&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bibliografia e Fontes: ==&lt;br /&gt;
ALVES-FERREIRA, Natália M. (2009). Os Franciscanos no Mundo Português. Artistas e Obras I. CEPESE.  ISBN: 978-989-95922-8-5. ROCHA, Manuel Joaquim (2009). Panorama Artístico no Século XVIII dos Conventos Franciscanos Femininos em Braga. Tópicos para uma Abordagem. pp. 170-176.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALADO, Luís Ferreira &amp;amp; LEITE, Joaquim Passos &amp;amp; PEREIRA, Paulo (2003). Direção do IPPAR.  Património Integrado: Ou a Alma dos Monumentos. Património Estudos - Conservação e Restauro de Património Integrado. Instituto Português do Património Arquitetónico. Ministério da Cultura. ISSN 1645-2453.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALDAS, Padre Antonio José Ferreira  (1881). Guimarães: Apontamentos para a sua história. Volume I. Porto - Typ. de A. J. da Silva Teixeira - 31761071501647 - &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://archive.org/details/guimaresaponta01ferr/mode/2up&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CONDE, Antónia Fialho (2015). O reforço da clausura no mundo monástico feminino em Portugal e a ação disciplinadora de Trento. In: TORREMOCHA HERNÁNDEZ, Margarita; DRUMOND BRAGA, Isabel (coords.). As mulheres perante os tribunais do Antigo Regime na Península Ibérica. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 235–257. ISBN: 978-989-26-1033-7.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
JACQUINET, Maria Luísa (2015). Corpos de Clausura. Reflexões Sobre a Arquitetura Monástica Feminina na Época Moderna. digitAR – Revista Digital de Arqueologia, Arquitetura e Artes, n.º 2, pp. 229–237.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
KUBLER, George (1988). A Arquitectura Portuguesa Chã - Entre as Especiarias e os Diamantes - 1521-1706. Vega.  ISBN: 0082000115657. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
KÜHL, Beatriz Mugayar (2010). “Notas Sobre a Carta de Veneza.” Anais Do Museu Paulista, vol. 18, no. 2, pp. 287–320, &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.1590/S0101-47142010000200008&amp;lt;/nowiki&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LAGE, Ana Cristina P. (2020). Semelhanças e diferenças entre conventos e recolhimentos femininos da América Portuguesa. Revista Antíteses, vol. 13, n.º 25, Universidade Estadual de Londrina, pp. 671–698&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, António José de (2011). Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII. Tese de Doutoramento em História da Arte Portuguesa. Volume I, II, III. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.&lt;br /&gt;
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QUINTÃO, José C. Vasconcelos (2023). Palimpsestos. In: História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar. Publicação póstuma. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto; CEAU, pp. 29–34.&lt;br /&gt;
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ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (2006). O Mosteiro-cidade na Génese e Desenvolvimento Urbano: Uma Interpretação do Espaço. Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património. Porto 2006-2007. I série, Vol. V-VI, pp. 527-548.&lt;br /&gt;
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ROCHA, Manuel Joaquim (2017). A retórica do espaço na arquitetura religiosa portuguesa nos séculos XVI a XVIII. QUINTANA Nº16 2017. ISSN 1579-7414. pp. 79-102.&lt;br /&gt;
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VEIGA, Francisca Branco (2019). 1832–1834: Regência de D. Pedro em nome de sua filha D. Maria da Glória: fim do governo temporal da Igreja Católica e das Ordens Religiosas em Portugal. In: SOARES, Clara Moura; MALTA, Marize (eds.). D. Maria II, princesa do Brasil, rainha de Portugal: Arte, Património e Identidade. Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda, pp. 113–120. ISBN: 978-972-27-1234-7.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Archeevo - &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://archeevo.amap.pt/descriptions/306585&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
SIPA - &amp;lt;nowiki&amp;gt;http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1924&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Torre do Tombo: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4224358&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
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		<title>Convento de santa teresa</title>
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		<updated>2025-05-27T08:04:37Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: Created page with &amp;quot;O &amp;#039;&amp;#039;&amp;#039;Convento de Santa Teresa&amp;#039;&amp;#039;&amp;#039;, também referido como &amp;#039;&amp;#039;&amp;#039;Convento das Teresinhas&amp;#039;&amp;#039;&amp;#039;, devido a sua ocupação de religiosas Carmelitas Descalçadas, localiza-se na freguesia de São Vincente, pertencente a cidade e município de Braga, em Portugal. {| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot; |+ |designação |Convento de Santa Teresa, também conhecido por Convento das Teresinhas. Atualmente denominado como Asilo de São José |- |localização |freguesia de São Vicente, Braga, Portugal |- |...&amp;quot;&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;O &#039;&#039;&#039;Convento de Santa Teresa&#039;&#039;&#039;, também referido como &#039;&#039;&#039;Convento das Teresinhas&#039;&#039;&#039;, devido a sua ocupação de religiosas Carmelitas Descalçadas, localiza-se na freguesia de São Vincente, pertencente a cidade e município de Braga, em Portugal.&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|+&lt;br /&gt;
|designação&lt;br /&gt;
|Convento de Santa Teresa, também conhecido por Convento das Teresinhas. Atualmente denominado como Asilo de São José&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
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|-&lt;br /&gt;
|cronologia&lt;br /&gt;
|construção finalizada no ano 1766 - meados do Século XVIII&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|autor(es)&lt;br /&gt;
|Desconhecido&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|classificação&lt;br /&gt;
|nenhuma&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estado da arte ==&lt;br /&gt;
Este edifício viu ainda pouco estudo, certamente causada por uma falta de documentação histórica tal como contemporânea deste espaço. Encontramos sua em menção em catálogos, dicionários e enciclopédias, como na obra de Pinho Leal, &#039;&#039;Portugal Antigo e Novo.&#039;&#039; Um outro caso mais contemporânea é a investigação de Flávia Oliveira, nomeada as &#039;&#039;Teresinhas: O Carmelo feminino da Braga moderna e contemporânea (1766‑1902),&#039;&#039; mesmo que assume uma investigação histórica, preocupando-se com as condições económicas, sociais e políticas , e não um olhar fundado nas preocupações visuais da historia da arte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Enquadramento ==&lt;br /&gt;
Em 1742, um recolhimento feminino é formado pelas religiosas Maria de Jesus e Isabel de Jesus, pertencentes a ordem dominicana, enquadrando-se no recinto da Igreja de São Vítor.. Foi planificado anexar o convento a essa mesma igreja. A passagem de ordem para a dos Carmelitas Descalçados é efetuada um ano depois, em dezembro, 1743, devido a forte devoção entre o recolhimento feminino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A promoção da edificação do Convento começa em 1756, por licença de Frei D. Aleixo de Miranda, e patrocínio de Pedro Fernandes. Com sua relocalização, as construções iniciam apenas 1763, pós a promoção de D. Gaspar de Bragança, Arcebispo Primaz de Braga. As construções são finalizadas três anos depois, em 1766.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A morte da ultima religiosa que tinha ingressado dentro desta casa em 1902, por entanto, estando este complexo conventual na posse de Comendador Fernando Oliveira Guimarães, Governador de Braga, ainda em 1850, por decreto da extinção das ordens religiosas em Portugal no Século XIX, a casa conventual vê se transformada num espaço de solidariedade social. Passará a ser denominada, até período corrente, por Asilo de São José.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Descrição ==&lt;br /&gt;
A estrutura é toda feita em granito, sendo esta de planta retangular, sendo esta coberta por um telhado em aguas furtadas, coberto por telha. A Portuária encontra-se na fachada sul a porta principal do antigo convento. No seu tímpano insere-se um nicho, uma estatua ao orago São José, podemos deduzir, então, que esta foi uma potencialmente. Nota-se também a ondulação aqui presente no pináculo do frontão, e as conchas que encimam as volutas, já referentes ao emergente gosto rocaille. O seu entablamento, apoiado sobre pilastras, recebe um letreiro com o ano de acabamento da obra. Atravessando esta primeira porta leva-nos a um vestíbulo onde permaneceria uma religiosa porteira (no caso dos conventos femininos) guardando as duas entradas. Esta segunda porta segue para a arcada que daria acesso ao claustro, um lanço de escadas dava acesso ao segundo piso do convento. Tendo também um nível de austeridade típica do rigor severo da linguagem arquitetônica da Ordem do Carmo e subsequentes ramos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Claustro é o espaço central da unidade monástica, todos os membros da casa conventual têm acesso a ele, por essa mesma razão, o espaço conventual vai se articular a volta de esta unidade, e todos as unidades principais poderiam ser acessada por este nexo, tendo elevação, no caso do Convento de Santa Teresa, esta em predominante contacto com o piso superior do convento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descendo as escadas, encontra-se o ponto de acesso ao poço, donde provem um elemento vital para a vida monástica, pois grandes partes da limpeza dependeriam da sua utilidade, como a lavagem de louças e a lavagem das roupas, ofício destinado aos religiosos mais novos. A água que bebiam os habitantes desta casa também proviria deste mesmo local.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As celas eram locais de intendidos para o repouso, para o estudo e para a oração individual, compondo-se apenas dos moveis básicos para a vida quotidiana. Estes locais eram solitários e, por essa mesma razão, privados. Foram concebidos e propostos pelo Concilio de Trento com o âmbito de que cada religioso/a tenha um espaço individual para cumprir suas meditações, suas leituras, escrituras e penitências recebidas pós a confeção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os vãos de iluminação que afrentam o exterior do convento garantiam, com sua pequena dimensão e baixo posicionamento, o bom iluminamento das celas, enquanto mantinha as religiosas de ver fora do convento, tal como mantinha que estas sejam vistas. A torre mirante segue esta mesma lógica, sendo um espaço elevado com vão de elevação de maior dimensão que oferecem as religiosas maior visibilidade para o exterior, mas mantém quem esteja presente na torre ocultado a vista de qualquer transeunte ao exterior do convento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na adega, que é agora o museu asilando as mobílias permanecentes, estariam guardados todos elementos produzidos pela casa que necessitavam ser mantidas ao fresco. É neste mesmo local onde se encontra o confessionário, sendo este um elemento de três divisões em comunicação com a igreja anexada ao convento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fachada do portal principal da Igreja de Santa Teresa é composta por um frontão aberto, composto por volutas que são interrompidas por um nicho arcado, onde insere-se o orago, sendo esta Santa Teresa de Jesus, cujo a estatua arquitetónica é assente sobre um trono. A metade desta cúpula corta segue a moldura de uma concha, sendo um dos vários elementos da iminente linguagem do rocaille que iremos encontrar nesta igreja, encimando esta, insere-se um cartucho onde é inserido o emblema da Ordem das Carmelitas Descalçadas. Este entablamento ira se repousar sobre a cornija de um frontão triangular, notamos em suas saliências a influencia do Barroco Italiano, e como afirmação e relembrança de sua presença de edificação deste local, encontramos no cartucho centrado no tímpano da moldura desta porta principal o brasão Arquiepiscopal de D. Gaspar de Bragança. Por natureza de ser uma igreja anexada a um convento feminino, a entrada para dentro do edifício é inserida na lateral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua planta é longitudinal, e composta por uma única nave. Podemos definir este espaço como uma igreja ‘salão’. Para o Oeste da única nave, encontramos o confessionário em comunicação com o convento, sobre este esta o coro alto, onde eram sentados membros da alta hierarquia religiosa, este elemento de elevação, tal como as grades presentes entre o arco que separa a capela-mor do corpo da igreja, onde se assentava a audiência, assegurava a separação, durante a liturgia, entre os religiosos e os leigos. Alem de seu parapeito talhado, posicionaria os membros do clero presentes neste espaço ao mesmo nível do Santíssimo Sacramento. Aqui presente esta uma capela radiante consagrada a Nossa Senhora do Carmo, que vai espalhar o retábulo-mor, consagrado a mesma. Este local também daria acesso ao órgão principal, é anexado ao coro alto, onde o revestimento em escaiola é encarado com a logica de um embutido de pedra. Encimando seu pontiagudo frontão triangular, encontra-se no cartucho o brasão arquiepiscopal do Arcebispo Primaz de Braga, D. Gaspar de Bragança, com suporte de dois putti.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estão presentes duas capelas radiantes no recinto da nave, uma consagrada a São José, presente na lateral Sul, e outra consagrada a Santo António, de estrutura espelhada, presente na lateral norte. Estes altars são inseridos num nicho onde o metodo da escaiola e da talha dourada são outra vez utilizados. Tendo estes um frontão quebrado, que termina num pinaculo piramidal, seu entablamento é assente sobre pilastras onde figuras devocionais são inseridas em nichos. No nicho principal, encontra-se a figura a qual estes altars são consagradas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Púlpito é elevado na lateral sul da nave, encontrando-se quase ao centro deste espaço, sendo ele quadrangular, com acesso exterior a igreja, e assente sobre uma mísula. Sua teia saliente é revestida a escaiola e em talha dourada, onde seus ângulos convergentes são ornados com elementos vegetalistas. Ao centro, enquadrado com um baixo-relevo geométrico, encaixa-se a simbólica do olha da providencia rodeado por querubins. Um espaldar recortado e curvo é ornado pela figura do espírito santo, com as mesmas cromáticas escaiolas e talha dourada. Subiam aqui os oradores e os leitores durante a liturgia, estes transmitiam sermões e leituras litúrgicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O altar-mor é assente sobre um pódio, degraus são inseridos nesta abertura concava de granito, flanqueado pelos avanços convexos deste patamar. É composto por um frontão duplo triangular, interrompido por avanços e recuos espelhados, com uma saliência em seu tímpano onde se insere uma grinalda forrada a talha dourada, tal como a cornija. É recortado por formas geometrizante de cromática azul e cor-de-rosa, ambos a tons de pastel. Esta estrutura tem como matéria principal o estuque, utilizando um acabamento em escaiola para ornamentar e nobilitar o material, seguindo a noção de que para deus, ou o divino (isto claramente incluindo os santos, cujo culto é exaltado em resposta as reformas) o melhor, o mais belo, o mais nobre. Em sua base está centrado o sacrário na mesa do altar, do plinto emergem mísulas onde são assentes as figuras de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz. Assente sobre este encontra-se uma arcada composta por uma coluna em eixo e uma pilastra, ambas de capitel compósito, que são espelhadas. Tudo este espaço é de um movimento curvilíneo. O retábulo-mor é consagrado a Nossa Senhora do Carmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O coro alto e baixo são ambos acessados pelo convento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como sistema de cobertura, a igreja utilisa uma abobada de berço. Em ambos os espaços da Nave única e da capela-mor, encontramos pintura de teto, respetivamente retratando a transverberação de Santa Teresa e o emblema dos Carmelitas Descalçados. O mestre pintor destas obras é desconhecido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sacristia é acessada pela porta lateral da face sul da capela-mor, sendo esta uma peça onde eram guardados os trajes e utensílios litúrgicos. Um sacerdote dito ‘sacristão’ teria como dever guardar e manter o espaço, sabendo este os ritos sacramentais para cuidar dos utensílios necessitados durante as cerimónias. Por natureza do seu uso, e desta presença masculina, não era um espaço cujas religiosas teriam acesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a viga das escadas encontra-se o lavabo, espaço de purificação. Com a água desta, os sacerdotes lavavam suas mãos num processo mundificador antes e depois de atender seus deveres litúrgicos. O altar presente tinha o mesmo efeito, sendo que um limpava o corpo, e o outro limpava a alma. O lavabo presente na Igreja de Santa Teresa é formado de pedra de granito, com seu respaldo curvilíneo que termina num pináculo triangular é encimado por uma concha, outra vez notamos aqui presentes soluções do rocaille. Pela esta unidade encontra-se o ponto de acesso para a tribuna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Imagens ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes e Bibliografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* Convento das Teresinhas na base de dados SIPA da Direção-Geral do Património Cultural&lt;br /&gt;
* Oliveira, Flavia (2017) As teresinhas: O Carmelo feminino da Braga moderna e contemporânea (1766‑1902)&lt;br /&gt;
* Santana,  José Pereira de (1745). Chronica dos Carmelitas da Antiga e Regular Observancia Nestes Reynos de Portugal, Algarves e Seus Dominios&lt;br /&gt;
* Ferreira Carneiro, Lucas (2018). A agulha e a Folha, Dimensões Espaciais na Construção de Braga Setecentista - Livro I&lt;br /&gt;
* Ferreira Carneiro, Lucas (2018). A agulha e a Folha, Dimensões Espaciais na Construção de Braga Setecentista - Livro II&lt;br /&gt;
* Rocha, Manuel Joaquim Moreira da (2012). Arquitectura Religiosa Barroca em Braga (Minho): Entre a Tradição e a Modernidade&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
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		<id>https://wikimedia.pt/portobarroco/index.php?title=Convento_da_Madre_de_Deus_Guimar%C3%A3es&amp;diff=787</id>
		<title>Convento da Madre de Deus Guimarães</title>
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		<updated>2025-05-26T23:48:19Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: titulos&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|+&lt;br /&gt;
!&#039;&#039;&#039;Designação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
!Convento da Madre de Deus - Guimarães&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Localização&lt;br /&gt;
|Rua de D. Domingos da Silva Gonçalves&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Cronologia&lt;br /&gt;
|Séculos XVIII&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Arquiteto&lt;br /&gt;
|Desconhecido&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Classificação&lt;br /&gt;
|Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 8/83, DR, I Série, 19 de 24 janeiro 1983 / Incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães (v. PT010308340101)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A historiografia e o lugar do Convento na História da Arte ==&lt;br /&gt;
A arquitetura religiosa feminina em Portugal desempenhou, sobretudo a partir do Concílio de Trento, um papel fundamental na organização do espaço urbano, na afirmação simbólica do catolicismo e na gestão social da clausura. O Convento da Madre de Deus de Guimarães inscreve-se nesse universo, revelando, na sua trajetória arquitetónica e funcional, os mecanismos de poder espiritual, familiar e urbano que moldaram o património monástico ao longo da modernidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia dos conventos femininos em Portugal evoluiu de meros registos patrimoniais para abordagens críticas mais integradas, que hoje reconhecem o valor arquitetónico, social e simbólico destas instituições. (Pereira 2020. pp. 124-131) O interesse pelos conventos femininos começou muitas vezes por motivos práticos: inventários patrimoniais (especialmente após extinção das ordens religiosas em 1834) para registar bens e obras de arte. Posteriormente, nos séculos XIX-XX, começou-se a olhar para estes conventos não apenas como “depósitos” de arte, mas como elementos arquitetónicos e sociais. Atualmente há alguns estudos mais críticos que ligam os conventos à história urbana, ao papel das mulheres e às dinâmicas de poder. No entanto, os conventos femininos ainda estão menos estudados que os masculinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As determinações do Concílio de Trento (1545–1563) instituíram um novo modelo para a vida religiosa feminina, impondo clausura rigorosa como forma de garantir a pureza doutrinal e moral. Esta mudança refletiu-se profundamente na arquitetura conventual, que passou a privilegiar espaços fechados, controlando o contacto com o exterior (Conde 2015, pp. 235-257). Em Portugal, país marcadamente católico, essas orientações foram seguidas com grande zelo, levando à adaptação de conventos existentes e à fundação de novas casas segundo os princípios tridentinos (Jacquinet 2015, pp. 4-23). As ordens religiosas femininas ganharam novo protagonismo, funcionando como agentes de ortodoxia e como espaços de contenção social. As mulheres da nobreza, frequentemente destinadas à vida religiosa por motivos de devoção ou conveniência familiar, eram acolhidas em conventos que asseguravam educação básica, reforço moral e prestígio social às suas famílias. Servindo muitas vezes como &amp;quot;depósito&amp;quot; de filhas de famílias nobres que não casavam, garantindo alianças políticas e económicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A extinção das ordens religiosas em 1834 (Oliveira 2015, p.17; Silva 2000), decretada no contexto das reformas liberais que colocaram fim ao Antigo Regime, marcou um ponto de rutura na história do Convento da Madre de Deus de Guimarães. As ordens, tanto masculinas como femininas, foram progressivamente extintas, os seus bens confiscados e os espaços conventuais encerrados (Veiga 2019, pp. 113-120). Como em muitas outras casas religiosas, os bens móveis (livros, imagens, objetos litúrgicos) foram dispersos, vendidos ou simplesmente pilhados. A partir da segunda metade do século XIX, muitos conventos foram adaptados a funções civis (escolas, quartéis, prisões, armazéns ou habitação). Estas reutilizações, quase sempre alheias a qualquer preocupação de preservação histórica, resultaram em descaracterizações graves. A história do convento espelha, de forma paradigmática, os ciclos ideológicos que moldaram Portugal. Nos séculos XVII e XVIII, a construção conventual atinge o seu auge, alimentada por uma religiosidade oficial que servia também a construção de uma identidade nacional. Com a ascensão do Liberalismo no século XIX, verifica-se uma ofensiva sobre o património religioso, enquanto símbolo de um poder a combater.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bases históricas para a análise arquitectónica ==&lt;br /&gt;
[[File:Claustro Convento da Madre de Deus de Guimarães.jpg|alt=Claustro Convento|thumb|Claustro Convento |268x268px]]&lt;br /&gt;
O Convento da Madre de Deus, localizado em Guimarães, atravessou diversas fases marcadas por sucessivas transformações e intervenções, impulsionadas por figuras de grande relevância. Em junho de 1672, D. Catarina de Chagas chegou a Vale de Donas, acompanhada de um grupo de religiosas, iniciando então a recolha de fundos que possibilitaram, em 1683, a sua instalação definitiva no local, então conhecido como Rosal de Santa Isabel (Caldas 1881, p. 206; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). Com o objetivo de conferir uma regra canónica à comunidade, partiu para Roma entre 1690 e 1693, disfarçada com trajes masculinos, na tentativa de obter a Regra de Santa Clara. No entanto, faleceu durante a viagem de regresso e as normas por si adquiridas nunca chegaram a ser implementadas. Mais tarde, em janeiro de 1716, através de Breve D. Rodrigo de Moura Teles, arcebispo de Braga, figura de grande influência e promotor de várias instituições religiosas no norte do país (Rocha 2009, p. 172), envolvendo também membros da nobreza e da alta burguesia urbana, como era comum, motivados tanto pela salvação da alma como pelo prestígio social, nomeia, sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição (então recolhida no Mosteiro da Madre de Deus de Lisboa), primeira abadessa da nova fundação ([http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1924 SIPA] 2025; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). A sua entrada solene no convento de Guimarães ocorreu a 13 de abril do mesmo ano. Até ao seu falecimento, a 1 de abril de 1739, dedicou-se intensamente ao engrandecimento do edifício, promovendo ampliações e melhorias que permitiram elevar o número de recolhidas a trinta e três. A vida conventual era marcada pela clausura rigorosa, a oração e a educação feminina básica (Silva 2019, p. 352), esta prática de fundação conventual respondia ao modelo pós-tridentino, onde o mecenato religioso reforçava a autoridade familiar e a devoção institucional.                        &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O século XIX marcou o início do seu declínio. A interdição do noviciado, em 1833, e a consequente incorporação do convento nos bens da Fazenda Nacional, no ano seguinte, levaram à redução progressiva da comunidade. O falecimento da última religiosa, Soror Maria de São José, em 1888, marcou o encerramento da vida conventual ([https://digitarq.arquivos.pt/documentDetails/3d147f7410b740718a2ff9ae5c5d34a4 DIGITARQ] 2025). O edifício permaneceu ao abandono, sofrendo atos de vandalismo em 1910. Foi apenas em 1918 que o espaço conheceu nova função, quando D. Domingos da Silva Gonçalves, fundador das Oficinas de São José, arrendou o antigo convento com a intenção de o transformar num internato para jovens rapazes em situação de carência (SIPA 2025). Em 1983, o edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público, nos termos do Decreto n.º 8/83, publicado no &#039;&#039;Diário da República&#039;&#039;, n.º 19, de 24 de janeiro (Oliveira 2011, vol. I, p. 383). Sob a liderança de D. Domingos, realizaram-se obras significativas de reabilitação e ampliação, adaptando o conjunto às novas exigências pedagógicas. À data da sua morte, a 4 de junho de 1960, o convento encontrava-se em pleno funcionamento, albergando diversas atividades formativas e educativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Arquitetura ==&lt;br /&gt;
[[File:Porta lateral igreja.jpg|thumb|Porta de acesso à igreja|267x267px]]&lt;br /&gt;
O Convento, é também conhecido como Igreja do Convento das Capuchinhas ou Centro Juvenil de S. José, atualmente classificado pelo SIPA e protegido como Imóvel de Interesse Público. Está ainda incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Constata-se que, do antigo convento, apenas a igreja e o claustro subsistem sem alterações significativas. As restantes áreas foram alvo de sucessivas transformações, adequando-se às novas funções impostas pelo uso contemporâneo do espaço. O edifício apresenta uma arquitetura de traço austero, refletindo os princípios da chamada &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, uma linguagem formal marcada pela simplicidade volumétrica, pela contenção decorativa e pelo funcionalismo. George Kubler teorizou esta tendência em &#039;&#039;A Arquitectura Portuguesa Chã – Entre as Especiarias e os Diamantes – 1521-1706&#039;&#039;, relacionando-a com os ideais pós-tridentinos de modéstia e recato, especialmente evidentes nas ordens religiosas femininas reformadas (Paiva 2014, p. 73). Esta linguagem, amplamente disseminada na arquitetura religiosa portuguesa, distingue-se por uma depuração formal, ausência de ornamentos supérfluos e soluções construtivas sóbrias (Pereira 1992, p. 24). Tais características estão bem evidenciadas no Convento da Madre de Deus, cuja planta retangular, volumes simples e fachadas despojadas conferem expressividade sobretudo pelo equilíbrio e proporção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A igreja apresenta uma planta longitudinal, com nave única e capela-mor mais estreita e ligeiramente elevada. A configuração corresponde ao tipo de “igreja-caixa” da &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, caracterizada por volumes paralelepipédicos e ausência de compartimentação interna, com cobertura em abóbada e transição entre nave e capela-mor marcada por um arco triunfal. Este último elemento, de origem clássica, desempenha uma função simbólica significativa, assinalando a passagem entre espaços de estatuto litúrgico distinto (Rocha 2017, p. 95). O teto da nave é constituído por caixotões de madeira pintados. O púlpito, utilizado para a pregação, localiza-se do lado da Epístola e assenta numa mísula de cantaria, com guarda plena em madeira. De acordo com Pedro Miguel Oliveira Paiva, existiria um acesso direto entre a sacristia e o púlpito, posteriormente entaipado. “&#039;&#039;A igreja teria perdido o acesso ao púlpito e duas janelas da capela-mor em virtude da construção das escadas de acesso para o segundo piso&#039;&#039;” (Paiva 2014, p. 95). Entre a sacristia e a capela-mor encontra-se uma pia de pedra destinada à purificação ritual das mãos pelo celebrante antes do momento da consagração litúrgica. A capela-mor, centro simbólico do espaço sagrado, acolhe o momento da transubstanciação, ou seja, a conversão do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, num ritual exclusivamente mediado pelo clero masculino (Rocha 2017, p. 95).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exteriormente, o edifício distingue-se pela predominância de panos murários lisos, sem elementos decorativos, à exceção do portal principal. Este apresenta uma composição mais elaborada, com volutas, pináculos e espaldar de cantaria encimado por uma cruz latina, sinalizando uma discreta influência do gosto barroco. A estrutura decorativa da entrada revela referências à arquitetura clássica, entablamento e cornija saliente, com pilastras de capitéis que reinterpretam a ordem toscana. O portal principal, com verga saliente, insere-se numa composição simétrica, sendo ladeado por duas janelas gradeadas de verga recta. Sobre o portal, ergue-se um nicho em arco de volta perfeita, que acolhe uma imagem devocional, rematado lateralmente por dois pináculos de cantaria que conferem verticalidade e sobriedade ao conjunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos conventos femininos, o acesso à igreja pelas religiosas fazia-se geralmente por um percurso autónomo, a partir do interior do claustro, conduzindo ao coro-alto (em certos casos, ao coro-baixo). Estas estruturas permitiam às religiosas assistir à missa através de grades, preservando o anonimato e a clausura, sem contacto direto com os fiéis que acediam pela entrada lateral da igreja (Paiva 2014, p. 165).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de equipamentos organiza-se em torno de um claustro central de planta retangular. No piso térreo, apresenta arcadas retas com fachadas em granito aparente; no piso superior, abrem-se janelas com varandins em ferro. O claustro assume aqui o seu papel tradicional de espaço de recolhimento, silêncio e oração (Rocha 2017, p. 93). No seu centro destaca-se um chafariz em pedra, datado do século XVIII. Este elemento cumpre funções simbólicas e práticas: além do abastecimento de água, representava purificação e, segundo Pereira (1992, p. 82), reforçava o dramatismo cénico próprio da estética barroca. A estrutura conventual articulava-se em torno deste núcleo, com acesso às diversas dependências (dormitórios, refeitório, cozinha, enfermaria e noviciado), que foram adaptadas ao longo do tempo, sem anular completamente a memória das suas funções originais (Paiva 2014, p. 45).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda a referir, a existência de um terreiro com um cruzeiro datado de 1775, alinhado com a antiga Calçada das Capuchinhas, e pátios ajardinados que integram fontes decoradas com motivos fitomórficos, testemunho discreto da linguagem barroca. No contexto do Barroco, os cruzeiros assumiam-se como elementos de forte carga simbólica, demarcando o território da fé e integrando o espaço público enquanto sinais da presença religiosa, muitas vezes com funções devocionais e cenográficas (Pereira 2022, p. 20). A fachada orientada a nordeste, estabelecia uma ligação visual direta com a muralha e com a torre da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, reforçando o papel simbólico do convento na paisagem monumental de Guimarães (Paiva 2014, p. 71). Esta intencionalidade espacial foi comprometida, no século XIX, pela chegada da linha férrea e pela construção de pavilhões industriais que obscureceram a leitura urbana do edifício. A arquitetura conventual, mais do que mera funcionalidade, deve ser entendida como um discurso simbólico, um verdadeiro “texto tridimensional” que articula valores religiosos, sociais e políticos através do espaço construído.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Mestres de obra identificados ==&lt;br /&gt;
Atualmente podem observar-se marcas que remetem para as várias fases e épocas construtivas que o edifício atravessou. O edifício preserva, na sua estrutura, os vestígios das intervenções sucessivas de mestres-de-obras, arquitetos e pedreiros, que ao longo do tempo foram moldando o traçado, os volumes e a forma do conjunto, testemunhando assim as diversas fases de transformação e adaptação que marcaram a sua história. Embora não existam documentos que nos consigam levar ao conhecimento do arquiteto responsável pela obra, a tese de doutoramento de António José de Oliveira “Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII” (2011), permite identificar os principais mestres construtores responsáveis pelas campanhas construtivas mais relevantes do convento durante os séculos XVII e XVIII.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;André Machado&#039;&#039;&#039;, mestre pedreiro de Arões, foi contratado em 1701 para &amp;quot;&#039;&#039;acabar e aperfeiçoar toda a obra de pedraria que faltava por acabar neste convento&#039;&#039;&amp;quot;, incluindo paredes, portas, janelas, pilares e escadas, segundo a traça definida pelas religiosas. A pedra seria proveniente da Quinta de Vila Nova ou do Montinho de São Roque. O contrato previa uma remuneração de &#039;&#039;&#039;450$000 réis&#039;&#039;&#039;, com cláusulas específicas de prazo, qualidade e penalizações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;António de Oliveira&#039;&#039;&#039;, pedreiro residente no lugar da Cividade (freguesia de São Salvador de Joane), foi contratado em 1719 para a construção de um novo dormitório conventual, pelo valor de &#039;&#039;&#039;615$000 réis&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Manuel da Silva&#039;&#039;&#039;, carpinteiro residente na freguesia de Ruivães, assumiu a execução da carpintaria do mesmo dormitório (portas, janelas, ferragens), pelo valor de &#039;&#039;&#039;385$000 réis&#039;&#039;&#039;. Ambos os contratos mencionam a existência de plantas e apontamentos fornecidos pelas religiosas, e a necessidade de revisão da obra por outros oficiais antes do pagamento final.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O património integrado do Convento da Madre de Deus de Guimarães ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Convento é um exemplo de como a articulação entre arquitetura religiosa e património integrado, entendendo-se este último como o conjunto de bens cuja existência e função estão intrinsecamente ligadas ao edifício onde se encontram inseridos, formam com ele uma unidade indivisível (Calado et al. 2003, p. 5). Entre os elementos integrados mais relevantes, que estão conservados no convento, sobressai o conjunto de azulejaria figurativa setecentista da capela-mor. Composto por seis grandes painéis azuis e brancos, que representam episódios centrais da vida da Sagrada Família (Paiva 2014, p. 99): a Anunciação, o Sonho de São José, a Apresentação no Templo, a Fuga para o Egipto, o Casamento da Virgem e a Adoração dos Pastores e dos Magos (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Estes painéis não só exemplificam a qualidade técnica da produção azulejar lisboeta do século XVIII (Paiva 2014, p. 167), como revelam uma clara intenção pedagógica e devocional, em linha com os ideais pós-tridentinos de catequese visual.[[File:Retábulo capela mor.jpg|thumb|Retábulo Capela-Mor|268x268px]]O &#039;&#039;retábulo-mor&#039;&#039;, em talha policroma a branco, cinza e dourado, apresenta uma composição tripartida, com tribuna central, colunas coríntias e decoração vegetalista (SIPA 2025), adaptado à sensibilidade franciscana capucha. A presença deste elemento exibe uma contenção ornamental equilibrada com a solenidade litúrgica, preservando o ideal de pobreza decorativa sem abdicar do esplendor do espaço sagrado. Outros &#039;&#039;retábulos dourados&#039;&#039; atualmente existentes nas laterais da nave pintados por António Luís e Luís Lopes Pimenta (1739) (Oliveira 2011, p. 382) — dedicados a &#039;&#039;São José&#039;&#039; e a &#039;&#039;Santa Clara&#039;&#039;, não são originais do convento, tendo sido transferidos da Igreja de Santa Clara de Guimarães no século XX (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Ainda assim, a sua integração posterior mostra bem os desafios contemporâneos na gestão e salvaguarda do património integrado: como defende o IPPAR, a dispersão ou substituição destes bens compromete a coerência simbólica e material do espaço arquitetónico (Calado et al. 2003, p. 14).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A compreensão do património integrado do convento exige também uma consciência crítica dos processos históricos de perda e alienação de bens, particularmente após a extinção das ordens religiosas em 1834. Neste contexto, muitos objetos litúrgicos e artísticos foram removidos ou substituídos, comprometendo a “alma do monumento” — isto é, a unidade simbólica entre espaço, objeto e função (Calado et al. 2003, p. 8). A manutenção e valorização dos elementos ainda preservados, como os azulejos e o retábulo-mor, assume, por isso, particular importância no reconhecimento da identidade do edifício. Neste sentido, o Convento da Madre de Deus de Guimarães oferece-se hoje como um exemplo de património religioso onde a persistência de elementos integrados (apesar das vicissitudes institucionais e funcionais), permite ainda uma leitura coerente da sua função original, simbólica e artística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Do &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039; à mercantilização: o património entre memória e função ==&lt;br /&gt;
A intervenção no edificado, ilustra de forma clara as tensões entre a preservação patrimonial e a funcionalização contemporânea de edifícios históricos. Ao longo do século XX, alterações urbanas como a abertura de novas avenidas e a formação de núcleos industriais contribuíram para a descaracterização do entorno conventual. O edifício perdeu a sua relação visual e simbólica com o centro histórico, especialmente com a torre da Colegiada da Oliveira, uma rutura paisagística que compromete o valor monumental da sua implantação original. Internamente, o edifício sofreu intervenções que levantam dilemas clássicos do restauro: conservar o original ou reconstituir o passado? A introdução de betão armado e divisórias em materiais modernos, apontam para uma lógica de adaptação funcional, mais do que de conservação criteriosa. Esta realidade insere-se numa crítica mais ampla à chamada “mercantilização do património”, onde edifícios históricos são descontextualizados em nome da utilidade contemporânea. Por outro lado, alguns teóricos apontam ainda para o &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039;, ou seja, a tendência de querer salvar tudo sem qualquer hierarquia de valores, (Zerbetto 2007) poderia diluir o verdadeiro significado do património. A reconversão do Convento insere-se numa tendência mais ampla de reutilização de património religioso desativado, comum em Portugal com abordagens diversas, oscilando entre a conservação e a descaracterização profunda. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Convento como palimpsesto: Leitura crítica do espaço atual ==&lt;br /&gt;
O edificado configura-se hoje como um verdadeiro palimpsesto arquitetónico, (Quintão 2023, pp. 29-34) no qual elementos barrocos originais coexistem com intervenções contemporâneas, ora integradas com sensibilidade, ora contrastantes ou dissonantes. A arquitetura contemporânea sobreposta ao espaço conventual manifesta uma relação dialética com a pré-existência: nalguns pontos, respeita a memória do lugar; noutros, obscurece ou apaga os seus significados. Este fenómeno coloca em causa os princípios da intervenção patrimonial, como os estabelecidos na &#039;&#039;&#039;Carta de Veneza&#039;&#039;&#039; ou nas teorias do restauro crítico, que defendem a distinção clara entre o novo e o antigo, preservando a legibilidade histórica dos conjuntos. Neste sentido, o convento pode ser lido como um espaço de memória em disputa, onde algumas marcas resistem (a estrutura, a função simbólica da clausura, os vestígios artísticos), enquanto outras se perderam ou foram reinterpretadas.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Inserção urbana e função social do convento na cidade de Guimarães ==&lt;br /&gt;
Inserido no denso tecido urbano de Guimarães (cidade de forte tradição religiosa e sede de numerosos conventos masculinos e femininos), o Convento da Madre de Deus não funcionava apenas como espaço de clausura, mas também como instrumento de ordenação social, moral e simbólica. A sua localização, ainda que integrada na malha urbana, criava uma espécie de “&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;ilha de clausura&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;”, separada fisicamente, mas influente espiritualmente. De acordo com alguns autores (Oliveira 2011, pp. 379–387), este tipo de conventos femininos reforçava a autoridade da Igreja sobre o espaço urbano, projetando valores de disciplina, recolhimento e pureza sobre o quotidiano das populações. Esta rede prolongava-se até Braga, sede do arcebispado, onde figuras como D. Rodrigo de Moura Teles promoveram ativamente fundações religiosas. O convento de Guimarães poderá assim ser entendido como parte de uma estratégia episcopal mais ampla, com objetivos devocionais, sociais e políticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Centro Juvenil São José 2025 ==&lt;br /&gt;
O [https://www.cjsj.pt/ Centro Juvenil de São José (CJSJ)] é atualmente uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos, cuja origem remonta às antigas Oficinas de São José, fundadas em 1915 no Convento das Capuchinhas, em Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o CJSJ dedica-se ao acolhimento e à inserção social de crianças e jovens sem apoio familiar ou em risco de exclusão social. As suas principais respostas sociais incluem uma Casa de Acolhimento e um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), ambos sediados em Guimarães, bem como uma creche localizada em Felgueiras. Paralelamente, desenvolve projetos como o “Bons Pais, Bons Filhos” e mantém um Alojamento Local (AL), cujas receitas contribuem para a sustentabilidade das suas atividades sociais. Este AL, tem como objetivo principal apoiar jovens oriundos dos PALOP, que se encontram em dificuldades financeiras, ajudando-os a ajustarem-se à realidade económica e social portuguesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A missão do Centro assenta na intervenção para a reintegração social, colocando as necessidades da criança e do jovem no centro da sua ação, promovendo a sua inclusão e bem-estar. Embora o edifício tenha perdido o seu contexto religioso original, permanece impregnado de espiritualidade e do compromisso com o próximo, valores fundamentais da doutrina cristã que continuam vivos. Este espaço assume-se, assim, como um lugar de memória histórica, sustentado por princípios de fé, de purificação da alma e de amor ao próximo.&amp;lt;gallery class=&amp;quot;[[File:Sepultura Soror Soror Luísa Maria da Conceição.jpg|thumb|]]&amp;quot; style=&amp;quot;[[File:Sepultura Soror Soror Luísa Maria da Conceição.jpg|thumb|]]&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sala Interior Oficinas de São José.jpg|&#039;&#039;Sala Interior Oficinas de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Interior Oficinas de São José (Corredor).jpg|&#039;&#039;Interior Oficinas de São José (Corredor)&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Refeitório Oficinas de São José.jpg|&#039;&#039;Refeitório Oficinas de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Galeria: ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sacristia - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Sacristia&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Nave - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Nave&#039;&#039; &lt;br /&gt;
File:Cruzeiro - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Cruzeiro&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Chafariz - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Chafariz&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Púlpito - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Púlpito&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Pia Sacristia - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Pia Sacristia&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Painéis azulejares - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Painéis Azulejares&#039;&#039; &lt;br /&gt;
File:Capela-mor - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Capela-mor&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Retábulo São José - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Retábulo de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Retábulo Santa Clara - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Retábulo Santa Clara&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Túmulo D. Domingos - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Túmulo D. Domingos&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Grade Coro-Alto - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Grade Coro-Alto&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sepultura Soror Soror Luísa Maria da Conceição.jpg|&#039;&#039;Sepultura Soror Luísa Maria da Conceição&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Placa sepultura.jpg|&#039;&#039;Placa sepultura&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Anexos imagens: ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
© PAIVA, Pedro Miguel Oliveira (2014).&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Estudo de vãos.jpg&lt;br /&gt;
File:Desenhos 3d.jpg&lt;br /&gt;
File:Fig- 32, 33, 34.jpg&lt;br /&gt;
File:Desenho baixo relevo.jpg&lt;br /&gt;
File:Vista aérea convento desenho.jpg&lt;br /&gt;
File:Manuscrito e cartografia.jpg&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
© OLIVEIRA, António José de (2011).&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Pag. 128.jpg&lt;br /&gt;
File:Pag. 129.jpg&lt;br /&gt;
File:Pag. 130.jpg&lt;br /&gt;
File:Pag. 131.jpg&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bibliografia e Fontes: ==&lt;br /&gt;
ALVES-FERREIRA, Natália M. (2009). Os Franciscanos no Mundo Português. Artistas e Obras I. CEPESE.  ISBN: 978-989-95922-8-5. ROCHA, Manuel Joaquim (2009). Panorama Artístico no Século XVIII dos Conventos Franciscanos Femininos em Braga. Tópicos para uma Abordagem. pp. 170-176.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALADO, Luís Ferreira &amp;amp; LEITE, Joaquim Passos &amp;amp; PEREIRA, Paulo (2003). Direção do IPPAR.  Património Integrado: Ou a Alma dos Monumentos. Património Estudos - Conservação e Restauro de Património Integrado. Instituto Português do Património Arquitetónico. Ministério da Cultura. ISSN 1645-2453.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALDAS, Padre Antonio José Ferreira  (1881). Guimarães: Apontamentos para a sua história. Volume I. Porto - Typ. de A. J. da Silva Teixeira - 31761071501647 - &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://archive.org/details/guimaresaponta01ferr/mode/2up&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CONDE, Antónia Fialho (2015). O reforço da clausura no mundo monástico feminino em Portugal e a ação disciplinadora de Trento. In: TORREMOCHA HERNÁNDEZ, Margarita; DRUMOND BRAGA, Isabel (coords.). As mulheres perante os tribunais do Antigo Regime na Península Ibérica. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 235–257. ISBN: 978-989-26-1033-7.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
JACQUINET, Maria Luísa (2015). Corpos de Clausura. Reflexões Sobre a Arquitetura Monástica Feminina na Época Moderna. digitAR – Revista Digital de Arqueologia, Arquitetura e Artes, n.º 2, pp. 229–237.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
KUBLER, George (1988). A Arquitectura Portuguesa Chã - Entre as Especiarias e os Diamantes - 1521-1706. Vega.  ISBN: 0082000115657. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
KÜHL, Beatriz Mugayar (2010). “Notas Sobre a Carta de Veneza.” Anais Do Museu Paulista, vol. 18, no. 2, pp. 287–320, &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.1590/S0101-47142010000200008&amp;lt;/nowiki&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LAGE, Ana Cristina P. (2020). Semelhanças e diferenças entre conventos e recolhimentos femininos da América Portuguesa. Revista Antíteses, vol. 13, n.º 25, Universidade Estadual de Londrina, pp. 671–698&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, António José de (2011). Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII. Tese de Doutoramento em História da Arte Portuguesa. Volume I, II, III. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.&lt;br /&gt;
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Torre do Tombo: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4224358&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
	</entry>
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		<title>Convento da Madre de Deus Guimarães</title>
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		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|+&lt;br /&gt;
!&#039;&#039;&#039;Designação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
!Convento da Madre de Deus - Guimarães&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Localização&lt;br /&gt;
|Rua de D. Domingos da Silva Gonçalves&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Cronologia&lt;br /&gt;
|Séculos XVIII&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Arquiteto&lt;br /&gt;
|Desconhecido&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Classificação&lt;br /&gt;
|Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 8/83, DR, I Série, 19 de 24 janeiro 1983 / Incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães (v. PT010308340101)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A historiografia e o lugar do Convento na História da Arte ===&lt;br /&gt;
A arquitetura religiosa feminina em Portugal desempenhou, sobretudo a partir do Concílio de Trento, um papel fundamental na organização do espaço urbano, na afirmação simbólica do catolicismo e na gestão social da clausura. O Convento da Madre de Deus de Guimarães inscreve-se nesse universo, revelando, na sua trajetória arquitetónica e funcional, os mecanismos de poder espiritual, familiar e urbano que moldaram o património monástico ao longo da modernidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia dos conventos femininos em Portugal evoluiu de meros registos patrimoniais para abordagens críticas mais integradas, que hoje reconhecem o valor arquitetónico, social e simbólico destas instituições. (Pereira 2020. pp. 124-131) O interesse pelos conventos femininos começou muitas vezes por motivos práticos: inventários patrimoniais (especialmente após extinção das ordens religiosas em 1834) para registar bens e obras de arte. Posteriormente, nos séculos XIX-XX, começou-se a olhar para estes conventos não apenas como “depósitos” de arte, mas como elementos arquitetónicos e sociais. Atualmente há alguns estudos mais críticos que ligam os conventos à história urbana, ao papel das mulheres e às dinâmicas de poder. No entanto, os conventos femininos ainda estão menos estudados que os masculinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As determinações do Concílio de Trento (1545–1563) instituíram um novo modelo para a vida religiosa feminina, impondo clausura rigorosa como forma de garantir a pureza doutrinal e moral. Esta mudança refletiu-se profundamente na arquitetura conventual, que passou a privilegiar espaços fechados, controlando o contacto com o exterior (Conde 2015, pp. 235-257). Em Portugal, país marcadamente católico, essas orientações foram seguidas com grande zelo, levando à adaptação de conventos existentes e à fundação de novas casas segundo os princípios tridentinos (Jacquinet 2015, pp. 4-23). As ordens religiosas femininas ganharam novo protagonismo, funcionando como agentes de ortodoxia e como espaços de contenção social. As mulheres da nobreza, frequentemente destinadas à vida religiosa por motivos de devoção ou conveniência familiar, eram acolhidas em conventos que asseguravam educação básica, reforço moral e prestígio social às suas famílias. Servindo muitas vezes como &amp;quot;depósito&amp;quot; de filhas de famílias nobres que não casavam, garantindo alianças políticas e económicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A extinção das ordens religiosas em 1834 (Oliveira 2015, p.17; Silva 2000), decretada no contexto das reformas liberais que colocaram fim ao Antigo Regime, marcou um ponto de rutura na história do Convento da Madre de Deus de Guimarães. As ordens, tanto masculinas como femininas, foram progressivamente extintas, os seus bens confiscados e os espaços conventuais encerrados (Veiga 2019, pp. 113-120). Como em muitas outras casas religiosas, os bens móveis (livros, imagens, objetos litúrgicos) foram dispersos, vendidos ou simplesmente pilhados. A partir da segunda metade do século XIX, muitos conventos foram adaptados a funções civis (escolas, quartéis, prisões, armazéns ou habitação). Estas reutilizações, quase sempre alheias a qualquer preocupação de preservação histórica, resultaram em descaracterizações graves. A história do convento espelha, de forma paradigmática, os ciclos ideológicos que moldaram Portugal. Nos séculos XVII e XVIII, a construção conventual atinge o seu auge, alimentada por uma religiosidade oficial que servia também a construção de uma identidade nacional. Com a ascensão do Liberalismo no século XIX, verifica-se uma ofensiva sobre o património religioso, enquanto símbolo de um poder a combater.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bases históricas para a análise arquitectónica ===&lt;br /&gt;
[[File:Claustro Convento da Madre de Deus de Guimarães.jpg|alt=Claustro Convento|thumb|Claustro Convento |268x268px]]&lt;br /&gt;
O Convento da Madre de Deus, localizado em Guimarães, atravessou diversas fases marcadas por sucessivas transformações e intervenções, impulsionadas por figuras de grande relevância. Em junho de 1672, D. Catarina de Chagas chegou a Vale de Donas, acompanhada de um grupo de religiosas, iniciando então a recolha de fundos que possibilitaram, em 1683, a sua instalação definitiva no local, então conhecido como Rosal de Santa Isabel (Caldas 1881, p. 206; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). Com o objetivo de conferir uma regra canónica à comunidade, partiu para Roma entre 1690 e 1693, disfarçada com trajes masculinos, na tentativa de obter a Regra de Santa Clara. No entanto, faleceu durante a viagem de regresso e as normas por si adquiridas nunca chegaram a ser implementadas. Mais tarde, em janeiro de 1716, através de Breve D. Rodrigo de Moura Teles, arcebispo de Braga, figura de grande influência e promotor de várias instituições religiosas no norte do país (Rocha 2009, p. 172), envolvendo também membros da nobreza e da alta burguesia urbana, como era comum, motivados tanto pela salvação da alma como pelo prestígio social, nomeia, sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição (então recolhida no Mosteiro da Madre de Deus de Lisboa), primeira abadessa da nova fundação ([http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1924 SIPA] 2025; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). A sua entrada solene no convento de Guimarães ocorreu a 13 de abril do mesmo ano. Até ao seu falecimento, a 1 de abril de 1739, dedicou-se intensamente ao engrandecimento do edifício, promovendo ampliações e melhorias que permitiram elevar o número de recolhidas a trinta e três. A vida conventual era marcada pela clausura rigorosa, a oração e a educação feminina básica (Silva 2019, p. 352), esta prática de fundação conventual respondia ao modelo pós-tridentino, onde o mecenato religioso reforçava a autoridade familiar e a devoção institucional.                        &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O século XIX marcou o início do seu declínio. A interdição do noviciado, em 1833, e a consequente incorporação do convento nos bens da Fazenda Nacional, no ano seguinte, levaram à redução progressiva da comunidade. O falecimento da última religiosa, Soror Maria de São José, em 1888, marcou o encerramento da vida conventual ([https://digitarq.arquivos.pt/documentDetails/3d147f7410b740718a2ff9ae5c5d34a4 DIGITARQ] 2025). O edifício permaneceu ao abandono, sofrendo atos de vandalismo em 1910. Foi apenas em 1918 que o espaço conheceu nova função, quando D. Domingos da Silva Gonçalves, fundador das Oficinas de São José, arrendou o antigo convento com a intenção de o transformar num internato para jovens rapazes em situação de carência (SIPA 2025). Em 1983, o edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público, nos termos do Decreto n.º 8/83, publicado no &#039;&#039;Diário da República&#039;&#039;, n.º 19, de 24 de janeiro (Oliveira 2011, vol. I, p. 383). Sob a liderança de D. Domingos, realizaram-se obras significativas de reabilitação e ampliação, adaptando o conjunto às novas exigências pedagógicas. À data da sua morte, a 4 de junho de 1960, o convento encontrava-se em pleno funcionamento, albergando diversas atividades formativas e educativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura ===&lt;br /&gt;
[[File:Porta lateral igreja.jpg|thumb|Porta de acesso à igreja|267x267px]]&lt;br /&gt;
O Convento, é também conhecido como Igreja do Convento das Capuchinhas ou Centro Juvenil de S. José, atualmente classificado pelo SIPA e protegido como Imóvel de Interesse Público. Está ainda incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Constata-se que, do antigo convento, apenas a igreja e o claustro subsistem sem alterações significativas. As restantes áreas foram alvo de sucessivas transformações, adequando-se às novas funções impostas pelo uso contemporâneo do espaço. O edifício apresenta uma arquitetura de traço austero, refletindo os princípios da chamada &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, uma linguagem formal marcada pela simplicidade volumétrica, pela contenção decorativa e pelo funcionalismo. George Kubler teorizou esta tendência em &#039;&#039;A Arquitectura Portuguesa Chã – Entre as Especiarias e os Diamantes – 1521-1706&#039;&#039;, relacionando-a com os ideais pós-tridentinos de modéstia e recato, especialmente evidentes nas ordens religiosas femininas reformadas (Paiva 2014, p. 73). Esta linguagem, amplamente disseminada na arquitetura religiosa portuguesa, distingue-se por uma depuração formal, ausência de ornamentos supérfluos e soluções construtivas sóbrias (Pereira 1992, p. 24). Tais características estão bem evidenciadas no Convento da Madre de Deus, cuja planta retangular, volumes simples e fachadas despojadas conferem expressividade sobretudo pelo equilíbrio e proporção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A igreja apresenta uma planta longitudinal, com nave única e capela-mor mais estreita e ligeiramente elevada. A configuração corresponde ao tipo de “igreja-caixa” da &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, caracterizada por volumes paralelepipédicos e ausência de compartimentação interna, com cobertura em abóbada e transição entre nave e capela-mor marcada por um arco triunfal. Este último elemento, de origem clássica, desempenha uma função simbólica significativa, assinalando a passagem entre espaços de estatuto litúrgico distinto (Rocha 2017, p. 95). O teto da nave é constituído por caixotões de madeira pintados. O púlpito, utilizado para a pregação, localiza-se do lado da Epístola e assenta numa mísula de cantaria, com guarda plena em madeira. De acordo com Pedro Miguel Oliveira Paiva, existiria um acesso direto entre a sacristia e o púlpito, posteriormente entaipado. “&#039;&#039;A igreja teria perdido o acesso ao púlpito e duas janelas da capela-mor em virtude da construção das escadas de acesso para o segundo piso&#039;&#039;” (Paiva 2014, p. 95). Entre a sacristia e a capela-mor encontra-se uma pia de pedra destinada à purificação ritual das mãos pelo celebrante antes do momento da consagração litúrgica. A capela-mor, centro simbólico do espaço sagrado, acolhe o momento da transubstanciação, ou seja, a conversão do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, num ritual exclusivamente mediado pelo clero masculino (Rocha 2017, p. 95).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exteriormente, o edifício distingue-se pela predominância de panos murários lisos, sem elementos decorativos, à exceção do portal principal. Este apresenta uma composição mais elaborada, com volutas, pináculos e espaldar de cantaria encimado por uma cruz latina, sinalizando uma discreta influência do gosto barroco. A estrutura decorativa da entrada revela referências à arquitetura clássica, entablamento e cornija saliente, com pilastras de capitéis que reinterpretam a ordem toscana. O portal principal, com verga saliente, insere-se numa composição simétrica, sendo ladeado por duas janelas gradeadas de verga recta. Sobre o portal, ergue-se um nicho em arco de volta perfeita, que acolhe uma imagem devocional, rematado lateralmente por dois pináculos de cantaria que conferem verticalidade e sobriedade ao conjunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos conventos femininos, o acesso à igreja pelas religiosas fazia-se geralmente por um percurso autónomo, a partir do interior do claustro, conduzindo ao coro-alto (em certos casos, ao coro-baixo). Estas estruturas permitiam às religiosas assistir à missa através de grades, preservando o anonimato e a clausura, sem contacto direto com os fiéis que acediam pela entrada lateral da igreja (Paiva 2014, p. 165).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de equipamentos organiza-se em torno de um claustro central de planta retangular. No piso térreo, apresenta arcadas retas com fachadas em granito aparente; no piso superior, abrem-se janelas com varandins em ferro. O claustro assume aqui o seu papel tradicional de espaço de recolhimento, silêncio e oração (Rocha 2017, p. 93). No seu centro destaca-se um chafariz em pedra, datado do século XVIII. Este elemento cumpre funções simbólicas e práticas: além do abastecimento de água, representava purificação e, segundo Pereira (1992, p. 82), reforçava o dramatismo cénico próprio da estética barroca. A estrutura conventual articulava-se em torno deste núcleo, com acesso às diversas dependências (dormitórios, refeitório, cozinha, enfermaria e noviciado), que foram adaptadas ao longo do tempo, sem anular completamente a memória das suas funções originais (Paiva 2014, p. 45).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda a referir, a existência de um terreiro com um cruzeiro datado de 1775, alinhado com a antiga Calçada das Capuchinhas, e pátios ajardinados que integram fontes decoradas com motivos fitomórficos, testemunho discreto da linguagem barroca. No contexto do Barroco, os cruzeiros assumiam-se como elementos de forte carga simbólica, demarcando o território da fé e integrando o espaço público enquanto sinais da presença religiosa, muitas vezes com funções devocionais e cenográficas (Pereira 2022, p. 20). A fachada orientada a nordeste, estabelecia uma ligação visual direta com a muralha e com a torre da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, reforçando o papel simbólico do convento na paisagem monumental de Guimarães (Paiva 2014, p. 71). Esta intencionalidade espacial foi comprometida, no século XIX, pela chegada da linha férrea e pela construção de pavilhões industriais que obscureceram a leitura urbana do edifício. A arquitetura conventual, mais do que mera funcionalidade, deve ser entendida como um discurso simbólico, um verdadeiro “texto tridimensional” que articula valores religiosos, sociais e políticos através do espaço construído.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mestres de obra identificados ===&lt;br /&gt;
Atualmente podem observar-se marcas que remetem para as várias fases e épocas construtivas que o edifício atravessou. O edifício preserva, na sua estrutura, os vestígios das intervenções sucessivas de mestres-de-obras, arquitetos e pedreiros, que ao longo do tempo foram moldando o traçado, os volumes e a forma do conjunto, testemunhando assim as diversas fases de transformação e adaptação que marcaram a sua história. Embora não existam documentos que nos consigam levar ao conhecimento do arquiteto responsável pela obra, a tese de doutoramento de António José de Oliveira “Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII” (2011), permite identificar os principais mestres construtores responsáveis pelas campanhas construtivas mais relevantes do convento durante os séculos XVII e XVIII.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;André Machado&#039;&#039;&#039;, mestre pedreiro de Arões, foi contratado em 1701 para &amp;quot;&#039;&#039;acabar e aperfeiçoar toda a obra de pedraria que faltava por acabar neste convento&#039;&#039;&amp;quot;, incluindo paredes, portas, janelas, pilares e escadas, segundo a traça definida pelas religiosas. A pedra seria proveniente da Quinta de Vila Nova ou do Montinho de São Roque. O contrato previa uma remuneração de &#039;&#039;&#039;450$000 réis&#039;&#039;&#039;, com cláusulas específicas de prazo, qualidade e penalizações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;António de Oliveira&#039;&#039;&#039;, pedreiro residente no lugar da Cividade (freguesia de São Salvador de Joane), foi contratado em 1719 para a construção de um novo dormitório conventual, pelo valor de &#039;&#039;&#039;615$000 réis&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Manuel da Silva&#039;&#039;&#039;, carpinteiro residente na freguesia de Ruivães, assumiu a execução da carpintaria do mesmo dormitório (portas, janelas, ferragens), pelo valor de &#039;&#039;&#039;385$000 réis&#039;&#039;&#039;. Ambos os contratos mencionam a existência de plantas e apontamentos fornecidos pelas religiosas, e a necessidade de revisão da obra por outros oficiais antes do pagamento final.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O património integrado do Convento da Madre de Deus de Guimarães ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Convento é um exemplo de como a articulação entre arquitetura religiosa e património integrado, entendendo-se este último como o conjunto de bens cuja existência e função estão intrinsecamente ligadas ao edifício onde se encontram inseridos, formam com ele uma unidade indivisível (Calado et al. 2003, p. 5). Entre os elementos integrados mais relevantes, que estão conservados no convento, sobressai o conjunto de azulejaria figurativa setecentista da capela-mor. Composto por seis grandes painéis azuis e brancos, que representam episódios centrais da vida da Sagrada Família (Paiva 2014, p. 99): a Anunciação, o Sonho de São José, a Apresentação no Templo, a Fuga para o Egipto, o Casamento da Virgem e a Adoração dos Pastores e dos Magos (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Estes painéis não só exemplificam a qualidade técnica da produção azulejar lisboeta do século XVIII (Paiva 2014, p. 167), como revelam uma clara intenção pedagógica e devocional, em linha com os ideais pós-tridentinos de catequese visual.[[File:Retábulo capela mor.jpg|thumb|Retábulo Capela-Mor|268x268px]]O &#039;&#039;retábulo-mor&#039;&#039;, em talha policroma a branco, cinza e dourado, apresenta uma composição tripartida, com tribuna central, colunas coríntias e decoração vegetalista (SIPA 2025), adaptado à sensibilidade franciscana capucha. A presença deste elemento exibe uma contenção ornamental equilibrada com a solenidade litúrgica, preservando o ideal de pobreza decorativa sem abdicar do esplendor do espaço sagrado. Outros &#039;&#039;retábulos dourados&#039;&#039; atualmente existentes nas laterais da nave pintados por António Luís e Luís Lopes Pimenta (1739) (Oliveira 2011, p. 382) — dedicados a &#039;&#039;São José&#039;&#039; e a &#039;&#039;Santa Clara&#039;&#039;, não são originais do convento, tendo sido transferidos da Igreja de Santa Clara de Guimarães no século XX (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Ainda assim, a sua integração posterior mostra bem os desafios contemporâneos na gestão e salvaguarda do património integrado: como defende o IPPAR, a dispersão ou substituição destes bens compromete a coerência simbólica e material do espaço arquitetónico (Calado et al. 2003, p. 14).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A compreensão do património integrado do convento exige também uma consciência crítica dos processos históricos de perda e alienação de bens, particularmente após a extinção das ordens religiosas em 1834. Neste contexto, muitos objetos litúrgicos e artísticos foram removidos ou substituídos, comprometendo a “alma do monumento” — isto é, a unidade simbólica entre espaço, objeto e função (Calado et al. 2003, p. 8). A manutenção e valorização dos elementos ainda preservados, como os azulejos e o retábulo-mor, assume, por isso, particular importância no reconhecimento da identidade do edifício. Neste sentido, o Convento da Madre de Deus de Guimarães oferece-se hoje como um exemplo de património religioso onde a persistência de elementos integrados (apesar das vicissitudes institucionais e funcionais), permite ainda uma leitura coerente da sua função original, simbólica e artística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Do &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039; à mercantilização: o património entre memória e função ===&lt;br /&gt;
A intervenção no edificado, ilustra de forma clara as tensões entre a preservação patrimonial e a funcionalização contemporânea de edifícios históricos. Ao longo do século XX, alterações urbanas como a abertura de novas avenidas e a formação de núcleos industriais contribuíram para a descaracterização do entorno conventual. O edifício perdeu a sua relação visual e simbólica com o centro histórico, especialmente com a torre da Colegiada da Oliveira, uma rutura paisagística que compromete o valor monumental da sua implantação original. Internamente, o edifício sofreu intervenções que levantam dilemas clássicos do restauro: conservar o original ou reconstituir o passado? A introdução de betão armado e divisórias em materiais modernos, apontam para uma lógica de adaptação funcional, mais do que de conservação criteriosa. Esta realidade insere-se numa crítica mais ampla à chamada “mercantilização do património”, onde edifícios históricos são descontextualizados em nome da utilidade contemporânea. Por outro lado, alguns teóricos apontam ainda para o &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039;, ou seja, a tendência de querer salvar tudo sem qualquer hierarquia de valores, (Zerbetto 2007) poderia diluir o verdadeiro significado do património. A reconversão do Convento insere-se numa tendência mais ampla de reutilização de património religioso desativado, comum em Portugal com abordagens diversas, oscilando entre a conservação e a descaracterização profunda. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Convento como palimpsesto: Leitura crítica do espaço atual ===&lt;br /&gt;
O edificado configura-se hoje como um verdadeiro palimpsesto arquitetónico, (Quintão 2023, pp. 29-34) no qual elementos barrocos originais coexistem com intervenções contemporâneas, ora integradas com sensibilidade, ora contrastantes ou dissonantes. A arquitetura contemporânea sobreposta ao espaço conventual manifesta uma relação dialética com a pré-existência: nalguns pontos, respeita a memória do lugar; noutros, obscurece ou apaga os seus significados. Este fenómeno coloca em causa os princípios da intervenção patrimonial, como os estabelecidos na &#039;&#039;&#039;Carta de Veneza&#039;&#039;&#039; ou nas teorias do restauro crítico, que defendem a distinção clara entre o novo e o antigo, preservando a legibilidade histórica dos conjuntos. Neste sentido, o convento pode ser lido como um espaço de memória em disputa, onde algumas marcas resistem (a estrutura, a função simbólica da clausura, os vestígios artísticos), enquanto outras se perderam ou foram reinterpretadas.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inserção urbana e função social do convento na cidade de Guimarães ===&lt;br /&gt;
Inserido no denso tecido urbano de Guimarães (cidade de forte tradição religiosa e sede de numerosos conventos masculinos e femininos), o Convento da Madre de Deus não funcionava apenas como espaço de clausura, mas também como instrumento de ordenação social, moral e simbólica. A sua localização, ainda que integrada na malha urbana, criava uma espécie de “&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;ilha de clausura&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;”, separada fisicamente, mas influente espiritualmente. De acordo com alguns autores (Oliveira 2011, pp. 379–387), este tipo de conventos femininos reforçava a autoridade da Igreja sobre o espaço urbano, projetando valores de disciplina, recolhimento e pureza sobre o quotidiano das populações. Esta rede prolongava-se até Braga, sede do arcebispado, onde figuras como D. Rodrigo de Moura Teles promoveram ativamente fundações religiosas. O convento de Guimarães poderá assim ser entendido como parte de uma estratégia episcopal mais ampla, com objetivos devocionais, sociais e políticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Centro Juvenil São José 2025 ===&lt;br /&gt;
O [https://www.cjsj.pt/ Centro Juvenil de São José (CJSJ)] é atualmente uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos, cuja origem remonta às antigas Oficinas de São José, fundadas em 1915 no Convento das Capuchinhas, em Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o CJSJ dedica-se ao acolhimento e à inserção social de crianças e jovens sem apoio familiar ou em risco de exclusão social. As suas principais respostas sociais incluem uma Casa de Acolhimento e um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), ambos sediados em Guimarães, bem como uma creche localizada em Felgueiras. Paralelamente, desenvolve projetos como o “Bons Pais, Bons Filhos” e mantém um Alojamento Local (AL), cujas receitas contribuem para a sustentabilidade das suas atividades sociais. Este AL, tem como objetivo principal apoiar jovens oriundos dos PALOP, que se encontram em dificuldades financeiras, ajudando-os a ajustarem-se à realidade económica e social portuguesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A missão do Centro assenta na intervenção para a reintegração social, colocando as necessidades da criança e do jovem no centro da sua ação, promovendo a sua inclusão e bem-estar. Embora o edifício tenha perdido o seu contexto religioso original, permanece impregnado de espiritualidade e do compromisso com o próximo, valores fundamentais da doutrina cristã que continuam vivos. Este espaço assume-se, assim, como um lugar de memória histórica, sustentado por princípios de fé, de purificação da alma e de amor ao próximo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Galeria: ===&lt;br /&gt;
&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Sacristia - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Sacristia&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Nave - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Nave&#039;&#039; &lt;br /&gt;
File:Cruzeiro - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Cruzeiro&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Chafariz - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Chafariz&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Púlpito - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Púlpito&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Pia Sacristia - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Pia Sacristia&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Painéis azulejares - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Painéis Azulejares&#039;&#039; &lt;br /&gt;
File:Capela-mor - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Capela-mor&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Retábulo São José - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Retábulo de São José&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Retábulo Santa Clara - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Retábulo Santa Clara&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Túmulo D. Domingos - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Túmulo D. Domingos&#039;&#039;&lt;br /&gt;
File:Grade Coro-Alto - Convento da Madre de Deus - Guimarães.jpg|&#039;&#039;Grade Coro-Alto&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Anexos imagens: ===&lt;br /&gt;
PAIVA, Pedro Miguel Oliveira (2014). Antigo Convento das Capuchinhas em Guimarães: Análise retrospetiva do edifício. Tese de Mestrado Cultura arquitetónica / História da Arquitetura. Universidade do Minho / Escola de Arquitectura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, António José de (2011). Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII. Tese de Doutoramento em História da Arte Portuguesa. Volume I, II, III. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bibliografia e Fontes: ===&lt;br /&gt;
ALVES-FERREIRA, Natália M. (2009). Os Franciscanos no Mundo Português. Artistas e Obras I. CEPESE.  ISBN: 978-989-95922-8-5. ROCHA, Manuel Joaquim (2009). Panorama Artístico no Século XVIII dos Conventos Franciscanos Femininos em Braga. Tópicos para uma Abordagem. pp. 170-176.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALADO, Luís Ferreira &amp;amp; LEITE, Joaquim Passos &amp;amp; PEREIRA, Paulo (2003). Direção do IPPAR.  Património Integrado: Ou a Alma dos Monumentos. Património Estudos - Conservação e Restauro de Património Integrado. Instituto Português do Património Arquitetónico. Ministério da Cultura. ISSN 1645-2453.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALDAS, Padre Antonio José Ferreira  (1881). Guimarães: Apontamentos para a sua história. Volume I. Porto - Typ. de A. J. da Silva Teixeira - 31761071501647 - &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://archive.org/details/guimaresaponta01ferr/mode/2up&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CONDE, Antónia Fialho (2015). O reforço da clausura no mundo monástico feminino em Portugal e a ação disciplinadora de Trento. In: TORREMOCHA HERNÁNDEZ, Margarita; DRUMOND BRAGA, Isabel (coords.). As mulheres perante os tribunais do Antigo Regime na Península Ibérica. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 235–257. ISBN: 978-989-26-1033-7.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
JACQUINET, Maria Luísa (2015). Corpos de Clausura. Reflexões Sobre a Arquitetura Monástica Feminina na Época Moderna. digitAR – Revista Digital de Arqueologia, Arquitetura e Artes, n.º 2, pp. 229–237.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
KUBLER, George (1988). A Arquitectura Portuguesa Chã - Entre as Especiarias e os Diamantes - 1521-1706. Vega.  ISBN: 0082000115657. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
KÜHL, Beatriz Mugayar (2010). “Notas Sobre a Carta de Veneza.” Anais Do Museu Paulista, vol. 18, no. 2, pp. 287–320, &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.1590/S0101-47142010000200008&amp;lt;/nowiki&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LAGE, Ana Cristina P. (2020). Semelhanças e diferenças entre conventos e recolhimentos femininos da América Portuguesa. Revista Antíteses, vol. 13, n.º 25, Universidade Estadual de Londrina, pp. 671–698&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, António José de (2011). Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII. Tese de Doutoramento em História da Arte Portuguesa. Volume I, II, III. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Miguel de (2015). História Eclesiástica de Portugal. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 17. ISBN: 978-972-27-2191-2.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PAIVA, Pedro Miguel Oliveira (2014). Antigo Convento das Capuchinhas em Guimarães: Análise retrospetiva do edifício. Tese de Mestrado Cultura arquitetónica / História da Arquitetura. Universidade do Minho / Escola de Arquitectura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA, António Luís (2022). Revista Memória Rural, número 5. Testemunhos Materiais da Fé e da Religiosidade Popular: Cruzes, Cruzeiros, Vias-Sacras, Nichos e Alminhas do Concelho de Carrazeda de Ansiães, pp. 8-75.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA, José Fernandes (1992). Arquitetura Barroca em Portugal. Biblioteca Breve - Série Artes Visuais.  ISBN: 9725661710.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA de Sousa, Ítalo, and Mariana Zerbone Alves de Albuquerque (2024). “PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS E O ENQUADRAMENTO DE MEMÓRIA: LUGARES DE MEMÓRIA PARA TODOS?” Revista Eletrônica Trilhas Da História (Online), vol. 13, no. 26, pp. 221–45, &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.55028/th.v13i26.20382&amp;lt;/nowiki&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
QUINTÃO, José C. Vasconcelos (2023). Palimpsestos. In: História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar. Publicação póstuma. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto; CEAU, pp. 29–34.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (2001). A adopção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles : diálogos artísticos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (2006). O Mosteiro-cidade na Génese e Desenvolvimento Urbano: Uma Interpretação do Espaço. Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património. Porto 2006-2007. I série, Vol. V-VI, pp. 527-548.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ROCHA, Manuel Joaquim (2017). A retórica do espaço na arquitetura religiosa portuguesa nos séculos XVI a XVIII. QUINTANA Nº16 2017. ISSN 1579-7414. pp. 79-102.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
SILVA, Alex Rogério (2019). «Espaços de reclusão: a vida conventual feminina em Portugal nos séculos XVI e XVII». CLIO: Revista Pesquisa Histórica, vol. 37, n.&amp;lt;sup&amp;gt;o&amp;lt;/sup&amp;gt; 2, pp. 351–93.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
VEIGA, Francisca Branco (2019). 1832–1834: Regência de D. Pedro em nome de sua filha D. Maria da Glória: fim do governo temporal da Igreja Católica e das Ordens Religiosas em Portugal. In: SOARES, Clara Moura; MALTA, Marize (eds.). D. Maria II, princesa do Brasil, rainha de Portugal: Arte, Património e Identidade. Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda, pp. 113–120. ISBN: 978-972-27-1234-7.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Archeevo - &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://archeevo.amap.pt/descriptions/306585&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
SIPA - &amp;lt;nowiki&amp;gt;http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1924&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Torre do Tombo: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4224358&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://wikimedia.pt/portobarroco/index.php?title=Mosteiro_de_Celas&amp;diff=665</id>
		<title>Mosteiro de Celas</title>
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		<updated>2025-05-25T14:47:11Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: Texto e imagem&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&#039;&#039;&#039;Identificação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|+&lt;br /&gt;
!&#039;&#039;&#039;Designação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
!Mosteiro de Celas&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Localização&lt;br /&gt;
|Lugar de Celas, Freguesia de Santo António dos Olivais, Distrito de Coimbra&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Cronologia&lt;br /&gt;
|Séculos XIII - XVIII&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Autores&lt;br /&gt;
|Nicolau de Chanterene, Gaspar Fernandes, João Português, João de Ruão, Josefa d&#039;Óbidos&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Classificação&lt;br /&gt;
|Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG nº. 136 de 23-06-1910 / ZEP, Portaria, DG nº. 7 de 09-01-1960 / Portaria nº. 223/2011, DR, 2ª. série, nº. 11 de 17-01-2011&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Mosteiro de Celas&#039;&#039;&#039;[[File:Imagem 5.png|thumb|Vista do Mosteiro de Celas, lado Sul.|191x191px]]O Mosteiro de Celas está localizado no Largo de Celas, freguesia de Santo António dos Olivais, Coimbra, Portugal. A sua cronologia construtiva inicia-se no século XIII e prolonga-se até ao século XVIII. A extinção das Ordens Religiosas, em 1834, ditou o encerramento do mosteiro, tendo a última religiosa aí permanecido até 15 de abril de 1883. Muito pouco se conhece sobre a autoria arquitetónica e do património integrado do mosteiro, todavia, chegaram até nós alguns nomes. A Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, do Mosteiro de Celas, faz referência aos arquitetos João Português e Gaspar Fernandes, que trabalharam na igreja redonda, concluída em 1529. No abadessado de D. Leonor de Vasconcelos, Nicolau de Chanterene debuxou o portal de ligação do coro com a sala do capítulo. Ao nível do património integrado, João de Ruão é o autor do retábulo em baixo-relevo policromado da sacristia e Josefa d&#039;Óbidos pintou o quadro da Imaculada Conceição, c. 1670-1680 (Serrão 1993, p. 220).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Estado da Arte&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
[[File:Representação de Santa Sancha.jpg|thumb|248x248px|&#039;&#039;Representação de Santa Sancha&#039;&#039;]]&lt;br /&gt;
Durante o século XII, assistimos ao aumento demográfico da população, com tendência a um crescente índice de feminilidade. A estrutura familiar unilinear da nobreza, remetia os filhos segundos para heranças menores, um futuro celibatário que muitas vezes passava pelo campo de batalha ou a vida monástica. De igual modo, se a filha mais velha é dotada para casar, as restantes ou permaneciam como tias na casa ou ingressavam nos mosteiros, que se assumem como recursos de segurança demográfica, ajudando a manter o equilíbrio económico. “Se para a mulher o casamento é a meta da sua vida, ele realiza-se agora com Cristo, o esposo espiritual, e toda a abstração do terreno adquire um significado superior.” (COELHO e MARTINS 1993, p. 494). No mosteiro as donas, livres do poder parental ou marital, encontram na superiora uma espécie de mãe, e nas outras irmãs o apoio necessário a uma vida religiosa que as dignifica. Estes mosteiros começam por ser dúplices, mas o aumento da feminilidade vai fazer surgir, na segunda metade do século, mosteiros somente femininos (COELHO e MARTINS 1993, pp. 483-484). É neste contexto que a Ordem de Cister nasce e se expande, reformando a Regra de São Bento[1], surgindo em Portugal cerca de 1140. No início do século XIII os mosteiros cistercienses femininos multiplicam-se, numa ligação com a alta nobreza, tendo primeiras abadias nascido por iniciativa das infantas Teresa, Mafalda e Sancha, filhas do rei D. Sancho I (MORUJÃO 2001, pp. 21-22).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;“...proximo a Coimbra, convento de freiras bernardas, fundado em 1210, pela infanta D. Sancha, filha de D. Sancho I, (irman da rainha Santa Mafalda). Tinha a fundadora, na villa d’Alemquer (que era sua) umas mulheres a que chamavam encelladas, ou emparedadas, vivendo em uma pobre casa. Resolveu D. Sancha mudal’as para uma sua quinta, que tinha ao pé de Coimbra, chamada Uuimarães. Fez alli cellas para 30 freiras e mandando vir as beatas d’Alemquer e algumas freiras de Lorvão, para as instruírem, lhes impoz a regra da S. Bernardo, professando tambem aqui a mesma infanta.”&#039;&#039; (PINHO LEAL 1874, II, p. 232).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo Maria do Rosário Morujão, não existe documentação que comprove a data exata da fundação do mosteiro de Celas (Coimbra), afirmando que do estudo sistemático da documentação mais antiga do mosteiro, quer em Alenquer ou em Celas, data de 1221, tendo a instalação das monjas ocorrido nesse ano ou no ano seguinte. As primeiras monjas teriam vindo de Lorvão, criado e dirigido pela sua irmã, infanta D. Teresa, de acordo com a regra cisterciense que previa o envio de grupos religiosos para as novas casas. Em janeiro de 1223 todos os clérigos podiam celebrar ofícios em Celas e, em março desse ano, D. Sancha subordinou Celas à Ordem de Cister, autorizada pelo bispo de Coimbra. Sanado, por D. Sancho II, o conflito que opunha as infantas suas tias ao seu pai, D. Afonso II, o pouco tempo passado em Celas pela infanta D. Sancha foi, no entanto, suficiente para assegurar o futuro do mosteiro que, com o seu falecimento em 1229, passou para a proteção da sua irmã D. Teresa, cumprindo a sua vontade (MORUJÃO 2001, pp. 28-29).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Enquadramento&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O lugar escolhido para implantação do mosteiro situava-se dentro de uma propriedade da infanta D. Sancha, no vale de Guimarães, também chamado Vale Meão, nos arredores da cidade de Coimbra, era abastecido por cursos de água, numa terra fértil, onde predominava o cultivo de vinhas e oliveiras. Em seu redor nasceu um pequeno burgo que herdou o seu nome e se desenvolveu até aos nossos dias. Com a extinção do mosteiro no século XIX, parte dos equipamentos do mosteiro foram reaproveitados e, dentro da antiga cerca que rodeia a igreja, predomina o estado de ruína. O Mosteiro de Celas foi totalmente remodelado no século XVI, nos abadessados de D. Leonor de Vasconcelos e de D. Maria de Távora, que corresponde ao período esplendoroso da vida do mosteiro, a que se seguiram outras intervenções, que acabaram por substituir a primitiva traça medieval. Dessa fase inicial, subsiste o arco ogival de entrada na sala do capítulo e os capitéis do claustro, datados do século XIII (MORUJÃO 1999, pp. 1083-1084).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Descrição&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das características distintivas da arquitetura do Mosteiro de Celas é a sua igreja de planta centralizada[2], única dos conventos femininos portugueses. Esta tipologia foge à tradição cisterciense, caracterizada pela existência de um corpo retangular único, dividido em dois espaços autónomos: a igreja &#039;&#039;de dentro&#039;&#039; ou coro e a igreja &#039;&#039;de&#039;&#039; &#039;&#039;fora&#039;&#039; (GOMES e ROSSA 1996, p. 57). Segundo os autores Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996), a rotunda que hoje vemos pertence ao edifício original do século XIII, tendo sido alvo de melhoramentos e modernização no século XVI, no abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Dessas obras, destaca-se o seu abobadamento em estilo manuelino, sendo necessário reforçar a estrutura original com poderosos contrafortes adossados, incluindo os espaços entretanto criados junto à igreja (FERNANDES 2020, p. 18).&lt;br /&gt;
[[File:Átrio 02.jpg|thumb|262x262px|Interior da igreja de Celas]]&lt;br /&gt;
A entrada para o átrio da igreja é feita pelo portal principal, situado a Sul, onde se encontra o antigo pátio de São Germão. A fachada manuelina é encimada pelo miradouro do século XVII, com duas gelosias, podendo ver-se o campanário de origem medieval mais atrás. A nascente, situavam-se a casa da Abadessa, a cozinha e o refeitório, os armazéns e outras dependências de trabalho do mosteiro. O átrio da igreja foi concluído em 1530, como se constata numa inscrição do portal principal, e servia de capela aos leigos. Sobre a porta de acesso à igreja, datada de 1753, podemos ver um alto-relevo renascentista, com o escudo nacional, encimado de elmo com paquife e o timbre do dragão; dois anjos adultos servem de tenentes e, abaixo, dois meninos seguram um letreiro em latim alusivo ao patrocínio de D. João III na construção do templo e à data da sua conclusão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentro da igreja de planta circular destaca-se a capela-mor e no lado oposto o coro. A cobertura em abóbada manuelina, possui nervuras em calcário escuro, apoiadas em colunas torcidas, que contrastam com a pintura branca da superfície. A abobada reparte-se por oito lunetos, tendo cada um caderna e terceletes decorados com chaves de florões, ostentando a chave central o escudo português seguro por duas águias. O espaço é iluminado por um janelão, duas janelas e um óculo. As paredes da igreja possuem um lambrim de azulejos da segunda metade do século XVIII, de fabrico coimbrão, decorados com cenas da &#039;&#039;Anunciação&#039;&#039; e da &#039;&#039;Visitação&#039;&#039; e, na pequena capela da Piedade&#039;&#039;, São Marcos e São João Evangelista&#039;&#039;. A fronteira capela de Santa Sancha abriga um Cristo crucificado. A capela-mor, de meados do século XVIII, apresenta um grande arco, enquadrado por pilastras compósitas, tendo ao centro as armas de Portugal e de Cister. Da mesma época é o arco da porta do coro voltado para a igreja e assente sobre colunas jónicas. Da capela-mor, uma porta do lado direito dá acesso à sacristia e, do lado oposto, outra porta a um espaço de arrumação.&lt;br /&gt;
[[File:Átrio 05.jpg|thumb|116x116px|Abóbada arco portal do coro]]&lt;br /&gt;
O acesso ao coro é feito por uma entrada cujo arco possui uma espessura que forma uma pequena abobada manuelina, rematada com as armas dos Vasconcelos. O arco é preenchido com uma grade de ferro forjado em esquema de ovais quebradas e contínuas, do século XVIII, que separava as religiosas do espaço da igreja &#039;&#039;de fora&#039;&#039;. O coro de forma retangular, espaçoso e iluminado por três janelões laterais do século XVIII e, no topo, por três janelas e um óculo do século XVI.&lt;br /&gt;
[[File:Arco ogival século XIV acesso sala do capítulo.jpg|thumb|172x172px|Arco ogival acesso sala do capítulo, século XIV]]&lt;br /&gt;
Ao sair do coro em direção ao claustro entramos no ante cabido, espaço que terá sido o centro das primitivas construções. Aqui podemos admirar o magnifico arco projetado por Nicolau de Chanterene para o túmulo – não concretizado - da abadessa D. Leonor de Vasconcelos, que se localizaria na pequena capela poligonal do lado Sul da igreja, sendo o mesmo reaproveitado para a passagem do coro ao ante cabido (GOMES e ROSSA 1996, p.60). Neste espaço central, também se acede à sala do capítulo, através de um arco ogival em pedra do século XIV, com capitéis vegetalistas. A cobertura do espaço é feita em abobada de berço com caixotões, sendo a iluminação garantida por duas janelas e um óculo na parede Oeste, onde dois nichos com as esculturas de São Bento e de São Bernardo ladeiam um arco encimado por frontão triangular interrompido. No centro, uma mísula na parede sustenta uma escultura de &#039;&#039;Cristo Ressuscitado&#039;&#039;. As paredes laterais possuem lambrim de azulejos azuis e brancos do século XVII e bancos de pedra corridos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O claustro&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
[[File:Portal Nicolau de Chanterene.jpg|thumb|187x187px|Portal de Nicolau de Chanterene]]&lt;br /&gt;
O claustro, com o seu jardim fechado em alegoria ao Paraíso, é o lugar de paz e silêncio, para onde os outros espaços monásticos convergem[3]. Em Celas, o claustro que hoje vemos não corresponderá ao início da construção do mosteiro – de menores dimensões, adequado ao numero de religiosas (FERNANDES 2020, pp. 13-17). As alas Sul e Oeste terão sido as primeiras a ser construídas em pedra, em meados do século XIII, e as alas Norte e Este, com capitéis lisos, terão sido concluídas já no século XVI, durante o abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Das alas com capitéis figurativos, a Sul, pela sua proximidade com o muro da igreja, possui os temas mais relevantes para a iconografia cristã, com cenas cristológias e hagiográficas, complementadas com decoração vegetalista (FERNANDES 2020, pp. 23-24). A arquitetura do claustro apresenta uma estrutura de arcos de volta perfeita – alas Sul e Oeste -, colunas duplas que assentam num murete e capitéis também duplos, assentes em bases circulares, numa disposição mais de acordo com a tradição românica[4]. As alas Norte e Este, seguem o traçado dos claustros da época moderna, aqui com três grupos de dois arcos apoiados em colunas toscanas, separadas por dois contrafortes. A parede da ala Sul possui um lambrim de azulejos do século XVII, idêntico aos da sala do capítulo, e um nicho retangular emoldurado. No centro do jardim um chafariz, instalado no abadessado de D. Teresa de Noronha e reedificado no século XVIII. Segundo Carla Varela Fernandes, a intervenção da DGMEN[5], realizada na década de quarenta do século passado e que substituiu alguns capitéis figurativos deteriorados pela erosão por capitéis lisos, não impede uma leitura abrangente da evolução do claustro, salientando que os capitéis medievais foram feitos para um claustro cisterciense, e não outro, contrariando a ideia de alguns autores[6] que defendem terem sido transferidos de outro espaço para Celas (FERNANDES 2020, pp. 22-23). &lt;br /&gt;
[[File:Claustro Celas 01.jpg|thumb|278x278px|Claustro de Celas]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;gallery&amp;gt;&lt;br /&gt;
File:Claustro Celas 16.jpg|Quatro imagens de capitéis figurados do claustro&lt;br /&gt;
File:Claustro Celas 17.jpg&lt;br /&gt;
File:Claustro Celas 18.jpg&lt;br /&gt;
File:Claustro Celas 21.jpg|alt=&lt;br /&gt;
&amp;lt;/gallery&amp;gt;&#039;&#039;&#039;Património Integrado&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O património integrado engloba todos os bens contidos no edifício, com ele formando uma unidade, tornando-se esses bens uma parte identitária e inalienável do conjunto patrimonial, como as pinturas, retábulos ou alfaias litúrgicas, entre outros. Um edifício sem o seu património integrado é “um monumento &#039;&#039;desalmado&#039;&#039;” (CALADO et al. 2003, pp. 5-8). O Mosteiro de Celas possui um vasto património integrado, destacando-se: o retábulo-mor; o retábulo em pedra da sacristia, da autoria de João de Ruão; o quadro da &#039;&#039;Imaculada Conceição&#039;&#039;, da autoria de Josefa d’Óbidos; e o retábulo da &#039;&#039;Crucificação,&#039;&#039; atualmente no MNMC, que fazia parte do retábulo-mor juntamente com a representação da &#039;&#039;Anunciação&#039;&#039;. &lt;br /&gt;
[[File:Altar-mor Celas.jpg|thumb|197x197px|Altar-mor]]&lt;br /&gt;
O retábulo-mor da igreja do Mosteiro de Celas, datado de meados do século XVIII, foi realizado em madeira, em estilo neoclássico, com dourados e marmoreado nas colunas e nas partes livres da decoração vegetalista dourada. De cada lado, colunas duplas de ordem compósita, uma delas adossada à parede. Na parte superior dos capitéis, um frontão interrompido deixa espaço para uma coroa real, símbolo do poder régio, da qual emanam raios de luz. O retábulo eleva-se sobre uma base contribuindo para o efeito cenográfico. Ao centro, entre as colunas, o trono eucarístico escalonado em dois níveis, ladeado pelas figuras de São Bento e de São Bernardo. No primeiro nível do trono eucarístico, no nicho do lado esquerdo, &#039;&#039;São João Batista&#039;&#039;, e no nicho do lado direito, &#039;&#039;São Jorge a matar do dragão&#039;&#039;. Ao centro, na porta, uma pintura do cálice divino, com as uvas e as espigas de trigo, as pombas do Espírito Santo e um coração radiante. No nível superior, um nicho com uma &#039;&#039;Crucificação&#039;&#039;. Acima do trono eucarístico uma representação de &#039;&#039;Nossa Senhora com o Menino&#039;&#039;, num estilo que lembra a exoftalmia das obras de Josefa d’Óbidos e de Baltazar Gomes Figueira.&lt;br /&gt;
[[File:Retábulo sacristia João de Ruão.jpg|thumb|270x270px|Sacristia, retábulo de João de Ruão]]&lt;br /&gt;
Na sacristia, o retábulo pétreo em baixo-relevo policromado, certamente um dos que a abadessa D. Maria de Távora encomendou a João de Ruão. Na parte superior, o &#039;&#039;Martírio de São João Evangelista&#039;&#039;, enquadrado por São Jerónimo e por Santa Madalena; na parte inferior, ladeada por dois &#039;&#039;hermes&#039;&#039;, &#039;&#039;São Martinho repartindo o manto com um pobre&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No coro, a representação da &#039;&#039;Imaculada Conceição, de&#039;&#039; Josefa d’Óbidos, c. 1670-1680. Óleo sobre tela, com restos de assinatura à direita. Produção da fase final da artista, representa a Virgem de porte jovem, nimbada com estrelas, com traje branco recamado de motivos florais. Destaca-se a representação das flores envolventes, num arranjo gracioso (SERRÃO 1993, p. 220). Ainda no coro, na parede Sul, a representação da &#039;&#039;Anunciação&#039;&#039;, 1510-1525. Óleo sobre madeira proveniente da Flandres de autor desconhecido. Esta representação fazia parte do retábulo-mor, juntamente com as quatro tábuas atualmente expostas no MNMC.&lt;br /&gt;
----[1] Criada em França nos finais do século XI em oposição à opulência de Cluny (MORUJÃO 2001, p. 21).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[2] D. Sancha já havia construído, em Alenquer, um edifício de planta redonda, sendo Celas uma réplica em nome e forma (FERNANDES 2020, p. 20).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[3] São Bernardo, na sua Epístola 64, refere o claustro como &amp;quot;uma forma terrestre da Jerusalém Celestial, lugar de Luz e de Paz&amp;quot; (FERNANDES 2020, p.13).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[4] Maria do Rosário Morujão (1991), refere documentos que remetem as alas Sul e Oeste para cronologia do século XIV, conforme referência documental: “alpendre a par de chafariz da fonte” (© SIPA [consultado 2025-02-18]).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[5] Paulo Varela Gomes e Walter Rossa, referem que o claustro de Celas tinha dois pisos a toda a volta tendo, em data incerta, caído ou sido apeado o andar superior da ala Poente. As obras da DGEMN desmontaram as outras três alas superiores (GOMES e ROSSA 1996, p.59).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[6] Paulo Varela Gomes e Walter Rossa, defendem que as colunas foram feitas para os Estudos Gerais Dionisinos e não para Celas (GOMES e ROSSA 1996, p. 63).&lt;br /&gt;
----&#039;&#039;&#039;Fontes e Bibliografia&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALADO, Luís; LEITE, Joaquim; PEREIRA, Paulo, 2003. &#039;&#039;Património integrado ou a alma dos monumentos.&#039;&#039; IPPAR, Conservação e Restauro de Património Móvel e Imóvel. Caderno, pp. 5-8. ISSN: 1645-2453.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CRAVEIRO, Maria Lurdes, 2009. &#039;&#039;A Arquitectura “Ao Romano”.&#039;&#039; Arte Portuguesa – Da Pré-História ao Século XX. Coord. Dalila Rodrigues. &amp;lt;nowiki&amp;gt;ISBN 978-989-8207-00-5&amp;lt;/nowiki&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COELHO, Maria Helena; MARTINS, Rui, 1993. &#039;&#039;O monaquismo feminino cisterciense e a nobreza medieval portuguesa (séculos XIII-XIV).&#039;&#039; In: Theologica, 2ª. Série, pp. 481-506.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
MORUJÃO, Maria do Rosário, 2001. &#039;&#039;Um Mosteiro Cisterciense Feminino. Santa Maria de Celas (Século XIII a XV).&#039;&#039; Coimbra, BGUC.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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RIBEIRO, Ana, 2005. &#039;&#039;A Comunidade de Eiras em Finais do Século XVIII: estruturas, redes e dinâmicas sociais&#039;&#039;. Coleção Estudos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra&lt;br /&gt;
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SERRÃO, Vítor, dir., 1993. &#039;&#039;Josefa de Óbidos e o Tempo Barroco&#039;&#039;. IPPC, Lisboa, pp. 220-221.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Recursos digitais&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. [consultado em 2025-02-18]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://digitarq.arquivos.pt/details?id=1458715&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
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DGPC. [consultado em 2025-02-18] Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=69791&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
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SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico - DGPC]. [consultado 2025-02-18]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6703&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
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		<title>Convento da Madre de Deus Guimarães</title>
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		<summary type="html">&lt;p&gt;172.68.103.33: texto alterações&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|+&lt;br /&gt;
!&#039;&#039;&#039;Designação&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
!Convento da Madre de Deus - Guimarães&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Localização&lt;br /&gt;
|Rua de D. Domingos da Silva Gonçalves&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Cronologia&lt;br /&gt;
|Séculos XVIII&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Arquiteto&lt;br /&gt;
|Desconhecido&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|Classificação&lt;br /&gt;
|Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 8/83, DR, I Série, 19 de 24 janeiro 1983 / Incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães (v. PT010308340101)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;A historiografia e o lugar do Convento na História da Arte&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A arquitetura religiosa feminina em Portugal desempenhou, sobretudo a partir do Concílio de Trento, um papel fundamental na organização do espaço urbano, na afirmação simbólica do catolicismo e na gestão social da clausura. O Convento da Madre de Deus de Guimarães inscreve-se nesse universo, revelando, na sua trajetória arquitetónica e funcional, os mecanismos de poder espiritual, familiar e urbano que moldaram o património monástico ao longo da modernidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia dos conventos femininos em Portugal evoluiu de meros registos patrimoniais para abordagens críticas mais integradas, que hoje reconhecem o valor arquitetónico, social e simbólico destas instituições. (Pereira 2020. pp. 124-131) O interesse pelos conventos femininos começou muitas vezes por motivos práticos: inventários patrimoniais (especialmente após extinção das ordens religiosas em 1834) para registar bens e obras de arte. Posteriormente, nos séculos XIX-XX, começou-se a olhar para estes conventos não apenas como “depósitos” de arte, mas como elementos arquitetónicos e sociais. Atualmente há alguns estudos mais críticos que ligam os conventos à história urbana, ao papel das mulheres e às dinâmicas de poder. No entanto, os conventos femininos ainda estão menos estudados que os masculinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As determinações do Concílio de Trento (1545–1563) instituíram um novo modelo para a vida religiosa feminina, impondo clausura rigorosa como forma de garantir a pureza doutrinal e moral. Esta mudança refletiu-se profundamente na arquitetura conventual, que passou a privilegiar espaços fechados, controlando o contacto com o exterior (Conde 2015, pp. 235-257). Em Portugal, país marcadamente católico, essas orientações foram seguidas com grande zelo, levando à adaptação de conventos existentes e à fundação de novas casas segundo os princípios tridentinos (Jacquinet 2024, pp. 4-23). As ordens religiosas femininas ganharam novo protagonismo, funcionando como agentes de ortodoxia e como espaços de contenção social. As mulheres da nobreza, frequentemente destinadas à vida religiosa por motivos de devoção ou conveniência familiar, eram acolhidas em conventos que asseguravam educação básica, reforço moral e prestígio social às suas famílias. Servindo muitas vezes como &amp;quot;depósito&amp;quot; de filhas de famílias nobres que não casavam, garantindo alianças políticas e económicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A extinção das ordens religiosas em 1834 (Oliveira 2015, p.17; Silva 2000), decretada no contexto das reformas liberais que colocaram fim ao Antigo Regime, marcou um ponto de rutura na história do Convento da Madre de Deus de Guimarães. As ordens, tanto masculinas como femininas, foram progressivamente extintas, os seus bens confiscados e os espaços conventuais encerrados (Veiga 2019, pp. 113-120). Como em muitas outras casas religiosas, os bens móveis (livros, imagens, objetos litúrgicos) foram dispersos, vendidos ou simplesmente pilhados. A partir da segunda metade do século XIX, muitos conventos foram adaptados a funções civis (escolas, quartéis, prisões, armazéns ou habitação). Estas reutilizações, quase sempre alheias a qualquer preocupação de preservação histórica, resultaram em descaracterizações graves. A história do convento espelha, de forma paradigmática, os ciclos ideológicos que moldaram Portugal. Nos séculos XVII e XVIII, a construção conventual atinge o seu auge, alimentada por uma religiosidade oficial que servia também a construção de uma identidade nacional. Com a ascensão do Liberalismo no século XIX, verifica-se uma ofensiva sobre o património religioso, enquanto símbolo de um poder a combater.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bases históricas para a análise arquitectónica ===&lt;br /&gt;
[[File:Claustro Convento da Madre de Deus de Guimarães.jpg|alt=Claustro Convento|thumb|Claustro Convento ]]&lt;br /&gt;
O Convento da Madre de Deus, localizado em Guimarães, atravessou diversas fases marcadas por sucessivas transformações e intervenções, impulsionadas por figuras de grande relevância. Em junho de 1672, D. Catarina de Chagas chegou a Vale de Donas, acompanhada de um grupo de religiosas, iniciando então a recolha de fundos que possibilitaram, em 1683, a sua instalação definitiva no local, então conhecido como Rosal de Santa Isabel (Caldas 1881, p. 206; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). Com o objetivo de conferir uma regra canónica à comunidade, partiu para Roma entre 1690 e 1693, disfarçada com trajes masculinos, na tentativa de obter a Regra de Santa Clara. No entanto, faleceu durante a viagem de regresso e as normas por si adquiridas nunca chegaram a ser implementadas. Mais tarde, em janeiro de 1716, através de Breve D. Rodrigo de Moura Teles, arcebispo de Braga (Oliveira 1977, p. 112), figura de grande influência e promotor de várias instituições religiosas no norte do país (Rocha 2009, pp. 1-8), envolvendo também membros da nobreza e da alta burguesia urbana, como era comum, motivados tanto pela salvação da alma como pelo prestígio social, nomeia, sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição (então recolhida no Mosteiro da Madre de Deus de Lisboa), primeira abadessa da nova fundação ([http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1924 SIPA] 2025; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). A sua entrada solene no convento de Guimarães ocorreu a 13 de abril do mesmo ano. Até ao seu falecimento, a 1 de abril de 1739, dedicou-se intensamente ao engrandecimento do edifício, promovendo ampliações e melhorias que permitiram elevar o número de recolhidas a trinta e três. A vida conventual era marcada pela clausura rigorosa, a oração e a educação feminina básica (Silva 2019, p. 352), esta prática de fundação conventual respondia ao modelo pós-tridentino, onde o mecenato religioso reforçava a autoridade familiar e a devoção institucional.                        &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O século XIX marcou o início do seu declínio. A interdição do noviciado, em 1833, e a consequente incorporação do convento nos bens da Fazenda Nacional, no ano seguinte, levaram à redução progressiva da comunidade. O falecimento da última religiosa, Soror Maria de São José, em 1888, marcou o encerramento da vida conventual ([https://digitarq.arquivos.pt/documentDetails/3d147f7410b740718a2ff9ae5c5d34a4 DIGITARQ] 2025). O edifício permaneceu ao abandono, sofrendo atos de vandalismo em 1910. Foi apenas em 1918 que o espaço conheceu nova função, quando D. Domingos da Silva Gonçalves, fundador das Oficinas de São José, arrendou o antigo convento com a intenção de o transformar num internato para jovens rapazes em situação de carência (SIPA 2025). Em 1983, o edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público, nos termos do Decreto n.º 8/83, publicado no &#039;&#039;Diário da República&#039;&#039;, n.º 19, de 24 de janeiro (Oliveira 2011, vol. I, p. 383). Sob a liderança de D. Domingos, realizaram-se obras significativas de reabilitação e ampliação, adaptando o conjunto às novas exigências pedagógicas. À data da sua morte, a 4 de junho de 1960, o convento encontrava-se em pleno funcionamento, albergando diversas atividades formativas e educativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Arquitetura&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
[[File:Porta lateral igreja.jpg|thumb|Porta de acesso à igreja]]&lt;br /&gt;
O Convento, é também conhecido como Igreja do Convento das Capuchinhas ou Centro Juvenil de S. José, atualmente classificado pelo SIPA e protegido como Imóvel de Interesse Público. Está ainda incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Constata-se que, do antigo convento, apenas a igreja e o claustro subsistem sem alterações significativas. As restantes áreas foram alvo de sucessivas transformações, adequando-se às novas funções impostas pelo uso contemporâneo do espaço. O edifício apresenta uma arquitetura de traço austero, refletindo os princípios da chamada &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, uma linguagem formal marcada pela simplicidade volumétrica, pela contenção decorativa e pelo funcionalismo. George Kubler teorizou esta tendência em &#039;&#039;A Arquitectura Portuguesa Chã – Entre as Especiarias e os Diamantes – 1521-1706&#039;&#039;, relacionando-a com os ideais pós-tridentinos de modéstia e recato, especialmente evidentes nas ordens religiosas femininas reformadas (Paiva 2014, p. 73). Esta linguagem, amplamente disseminada na arquitetura religiosa portuguesa, distingue-se por uma depuração formal, ausência de ornamentos supérfluos e soluções construtivas sóbrias (Pereira 1992, p. 24). Tais características estão bem evidenciadas no Convento da Madre de Deus, cuja planta retangular, volumes simples e fachadas despojadas conferem expressividade sobretudo pelo equilíbrio e proporção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A igreja apresenta uma planta longitudinal, com nave única e capela-mor mais estreita e ligeiramente elevada. A configuração corresponde ao tipo de “igreja-caixa” da &#039;&#039;Arquitetura Chã&#039;&#039;, caracterizada por volumes paralelepipédicos e ausência de compartimentação interna, com cobertura em abóbada e transição entre nave e capela-mor marcada por um arco triunfal. Este último elemento, de origem clássica, desempenha uma função simbólica significativa, assinalando a passagem entre espaços de estatuto litúrgico distinto (Rocha 2017, p. 95). O teto da nave é constituído por caixotões de madeira pintados. O púlpito, utilizado para a pregação, localiza-se do lado da Epístola e assenta numa mísula de cantaria, com guarda plena em madeira. De acordo com Pedro Miguel Oliveira Paiva, existiria um acesso direto entre a sacristia e o púlpito, posteriormente entaipado. “&#039;&#039;A igreja teria perdido o acesso ao púlpito e duas janelas da capela-mor em virtude da construção das escadas de acesso para o segundo piso&#039;&#039;” (Paiva, 2014, p. 95). Entre a sacristia e a capela-mor encontra-se uma pia de pedra destinada à purificação ritual das mãos pelo celebrante antes do momento da consagração litúrgica. A capela-mor, centro simbólico do espaço sagrado, acolhe o momento da transubstanciação, ou seja, a conversão do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, num ritual exclusivamente mediado pelo clero masculino (Rocha, 2017, p. 95).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exteriormente, o edifício distingue-se pela predominância de panos murários lisos, sem elementos decorativos, à exceção do portal principal. Este apresenta uma composição mais elaborada, com volutas, pináculos e espaldar de cantaria encimado por uma cruz latina, sinalizando uma discreta influência do gosto barroco. A estrutura decorativa da entrada revela referências à arquitetura clássica, entablamento e cornija saliente, com pilastras de capitéis que reinterpretam a ordem toscana. O portal principal, com verga saliente, insere-se numa composição simétrica, sendo ladeado por duas janelas gradeadas de verga recta. Sobre o portal, ergue-se um nicho em arco de volta perfeita, que acolhe uma imagem devocional, rematado lateralmente por dois pináculos de cantaria que conferem verticalidade e sobriedade ao conjunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos conventos femininos, o acesso à igreja pelas religiosas fazia-se geralmente por um percurso autónomo, a partir do interior do claustro, conduzindo ao coro-alto (em certos casos, ao coro-baixo). Estas estruturas permitiam às religiosas assistir à missa através de grades, preservando o anonimato e a clausura, sem contacto direto com os fiéis que acediam pela entrada lateral da igreja (Paiva, 2014, p. 165).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de equipamentos organiza-se em torno de um claustro central de planta retangular. No piso térreo, apresenta arcadas retas com fachadas em granito aparente; no piso superior, abrem-se janelas com varandins em ferro. O claustro assume aqui o seu papel tradicional de espaço de recolhimento, silêncio e oração (Rocha, 2017, p. 93). No seu centro destaca-se um chafariz em pedra, datado do século XVIII. Este elemento cumpre funções simbólicas e práticas: além do abastecimento de água, representava purificação e, segundo Pereira (1992, p. 82), reforçava o dramatismo cénico próprio da estética barroca. A estrutura conventual articulava-se em torno deste núcleo, com acesso às diversas dependências (dormitórios, refeitório, cozinha, enfermaria e noviciado), que foram adaptadas ao longo do tempo, sem anular completamente a memória das suas funções originais (Paiva, 2014, p. 45).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda a referir, a existência de um terreiro com um cruzeiro datado de 1775, alinhado com a antiga Calçada das Capuchinhas, e pátios ajardinados que integram fontes decoradas com motivos fitomórficos, testemunho discreto da linguagem barroca. No contexto do Barroco, os cruzeiros assumiam-se como elementos de forte carga simbólica, demarcando o território da fé e integrando o espaço público enquanto sinais da presença religiosa, muitas vezes com funções devocionais e cenográficas (Pereira, 2022, p. 20). A fachada orientada a nordeste, estabelecia uma ligação visual direta com a muralha e com a torre da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, reforçando o papel simbólico do convento na paisagem monumental de Guimarães (Paiva, 2014, p. 71). Esta intencionalidade espacial foi comprometida, no século XIX, pela chegada da linha férrea e pela construção de pavilhões industriais que obscureceram a leitura urbana do edifício. A arquitetura conventual, mais do que mera funcionalidade, deve ser entendida como um discurso simbólico, um verdadeiro “texto tridimensional” que articula valores religiosos, sociais e políticos através do espaço construído.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Mestres de obra identificados&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Atualmente podem observar-se marcas que remetem para as várias fases e épocas construtivas que o edifício atravessou. O edifício preserva, na sua estrutura, os vestígios das intervenções sucessivas de mestres-de-obras, arquitetos e pedreiros, que ao longo do tempo foram moldando o traçado, os volumes e a forma do conjunto, testemunhando assim as diversas fases de transformação e adaptação que marcaram a sua história. Embora não existam documentos que nos consigam levar ao conhecimento do arquiteto responsável pela obra, a tese de doutoramento de António José de Oliveira “Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII” (2011), permite identificar os principais mestres construtores responsáveis pelas campanhas construtivas mais relevantes do convento durante os séculos XVII e XVIII.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;André Machado&#039;&#039;&#039;, mestre pedreiro de Arões, foi contratado em 1701 para &amp;quot;&#039;&#039;acabar e aperfeiçoar toda a obra de pedraria que faltava por acabar neste convento&#039;&#039;&amp;quot;, incluindo paredes, portas, janelas, pilares e escadas, segundo a traça definida pelas religiosas. A pedra seria proveniente da Quinta de Vila Nova ou do Montinho de São Roque. O contrato previa uma remuneração de &#039;&#039;&#039;450$000 réis&#039;&#039;&#039;, com cláusulas específicas de prazo, qualidade e penalizações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;António de Oliveira&#039;&#039;&#039;, pedreiro residente no lugar da Cividade (freguesia de São Salvador de Joane), foi contratado em 1719 para a construção de um novo dormitório conventual, pelo valor de &#039;&#039;&#039;615$000 réis&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Manuel da Silva&#039;&#039;&#039;, carpinteiro residente na freguesia de Ruivães, assumiu a execução da carpintaria do mesmo dormitório (portas, janelas, ferragens), pelo valor de &#039;&#039;&#039;385$000 réis&#039;&#039;&#039;. Ambos os contratos mencionam a existência de plantas e apontamentos fornecidos pelas religiosas, e a necessidade de revisão da obra por outros oficiais antes do pagamento final.[[File:Retábulo capela mor.jpg|thumb|Retábulo Capela-Mor|275x275px]]&lt;br /&gt;
=== O património integrado do Convento da Madre de Deus de Guimarães ===&lt;br /&gt;
O Convento é um exemplo de como a articulação entre arquitetura religiosa e património integrado, entendendo-se este último como o conjunto de bens cuja existência e função estão intrinsecamente ligadas ao edifício onde se encontram inseridos, formam com ele uma unidade indivisível (Calado et al., 2003, p. 5). Entre os elementos integrados mais relevantes, que estão conservados no convento, sobressai o conjunto de &#039;&#039;&#039;azulejaria figurativa setecentista&#039;&#039;&#039; da capela-mor. Composto por seis grandes painéis azuis e brancos, que representam episódios centrais da vida da Sagrada Família (Paiva, 2014, p. 99): a Anunciação, o Sonho de São José, a Apresentação no Templo, a Fuga para o Egipto, o Casamento da Virgem e a Adoração dos Pastores e dos Magos (Oliveira, vol. I, 2011, p. 382). Estes painéis não só exemplificam a qualidade técnica da produção azulejar lisboeta do século XVIII (Paiva, 2014, p. 167), como revelam uma clara intenção pedagógica e devocional, em linha com os ideais pós-tridentinos de catequese visual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;retábulo-mor&#039;&#039;&#039;, em talha policroma a branco, cinza e dourado, apresenta uma composição tripartida, com tribuna central, colunas coríntias e decoração vegetalista (SIPA, 2025), sendo um testemunho do barroco contido adaptado à sensibilidade franciscana capucha. A presença deste elemento exibe uma contenção ornamental equilibrada com a solenidade litúrgica, preservando o ideal de pobreza decorativa sem abdicar do esplendor do espaço sagrado. Outros retábulos dourados atualmente existentes nas laterais da nave pintados por António Luís e Luís Lopes Pimenta (1739) (Oliveira, 2011, p. 382) — dedicados a São José e a Nossa Senhora, não são originais do convento, tendo sido transferidos da Igreja de Santa Clara de Guimarães no século XX (Oliveira, vol. I, 2011, p. 382). Ainda assim, a sua integração posterior mostra bem os desafios contemporâneos na gestão e salvaguarda do património integrado: como defende o IPPAR, a dispersão ou substituição destes bens compromete a coerência simbólica e material do espaço arquitetónico (Calado et al., 2003, p. 14).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A compreensão do património integrado do convento exige também uma consciência crítica dos processos históricos de perda e alienação de bens, particularmente após a extinção das ordens religiosas em 1834. Neste contexto, muitos objetos litúrgicos e artísticos foram removidos ou substituídos, comprometendo a “alma do monumento” — isto é, a unidade simbólica entre espaço, objeto e função (Calado et al., 2003, p. 8). A manutenção e valorização dos elementos ainda preservados, como os azulejos e o retábulo-mor, assume, por isso, particular importância no reconhecimento da identidade do edifício. Neste sentido, o Convento da Madre de Deus de Guimarães oferece-se hoje como um exemplo de património religioso onde a persistência de elementos integrados (apesar das vicissitudes institucionais e funcionais), permite ainda uma leitura coerente da sua função original, simbólica e artística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Do &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039; à mercantilização: o património entre memória e função&#039;&#039;&#039; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção no edificado, ilustra de forma clara as tensões entre a preservação patrimonial e a funcionalização contemporânea de edifícios históricos. Ao longo do século XX, alterações urbanas como a abertura de novas avenidas e a formação de núcleos industriais contribuíram para a descaracterização do entorno conventual. O edifício perdeu a sua relação visual e simbólica com o centro histórico, especialmente com a torre da Colegiada da Oliveira, uma rutura paisagística que compromete o valor monumental da sua implantação original. Internamente, o edifício sofreu intervenções que levantam dilemas clássicos do restauro: conservar o original ou reconstituir o passado? A introdução de betão armado e divisórias em materiais modernos, apontam para uma lógica de adaptação funcional, mais do que de conservação criteriosa. Esta realidade insere-se numa crítica mais ampla à chamada “mercantilização do património”, onde edifícios históricos são descontextualizados em nome da utilidade contemporânea. Por outro lado, alguns teóricos apontam ainda para o &#039;&#039;Complexo de Noé&#039;&#039;, ou seja, a tendência de querer salvar tudo sem qualquer hierarquia de valores, (Zerbetto, 2007) poderia diluir o verdadeiro significado do património. A reconversão do Convento insere-se numa tendência mais ampla de reutilização de património religioso desativado, comum em Portugal com abordagens diversas, oscilando entre a conservação e a descaracterização profunda. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O Convento como palimpsesto: Leitura crítica do espaço atual&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O edificado configura-se hoje como um verdadeiro palimpsesto arquitetónico, (Quintão, 2023, p. 29-34) no qual elementos barrocos originais coexistem com intervenções contemporâneas, ora integradas com sensibilidade, ora contrastantes ou dissonantes. A arquitetura contemporânea sobreposta ao espaço conventual manifesta uma relação dialética com a pré-existência: nalguns pontos, respeita a memória do lugar; noutros, obscurece ou apaga os seus significados. Este fenómeno coloca em causa os princípios da intervenção patrimonial, como os estabelecidos na &#039;&#039;&#039;Carta de Veneza&#039;&#039;&#039; ou nas teorias do restauro crítico, que defendem a distinção clara entre o novo e o antigo, preservando a legibilidade histórica dos conjuntos. Neste sentido, o convento pode ser lido como um espaço de memória em disputa, onde algumas marcas resistem (a estrutura, a função simbólica da clausura, os vestígios artísticos), enquanto outras se perderam ou foram reinterpretadas.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Inserção urbana e função social do convento na cidade de Guimarães&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inserido no denso tecido urbano de Guimarães (cidade de forte tradição religiosa e sede de numerosos conventos masculinos e femininos), o Convento da Madre de Deus não funcionava apenas como espaço de clausura, mas também como instrumento de ordenação social, moral e simbólica. A sua localização, ainda que integrada na malha urbana, criava uma espécie de “&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;ilha de clausura&#039;&#039;&#039;&#039;&#039;”, separada fisicamente, mas influente espiritualmente. De acordo com alguns autores (Oliveira, 2011, p. 379–387), este tipo de conventos femininos reforçava a autoridade da Igreja sobre o espaço urbano, projetando valores de disciplina, recolhimento e pureza sobre o quotidiano das populações. Esta rede prolongava-se até Braga, sede do arcebispado, onde figuras como D. Rodrigo de Moura Teles promoveram ativamente fundações religiosas. O convento de Guimarães poderá assim ser entendido como parte de uma estratégia episcopal mais ampla, com objetivos devocionais, sociais e políticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Centro Juvenil São José 2025&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O [https://www.cjsj.pt/ Centro Juvenil de São José (CJSJ)] é atualmente uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos, cuja origem remonta às antigas Oficinas de São José, fundadas em 1915 no Convento das Capuchinhas, em Guimarães.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o CJSJ dedica-se ao acolhimento e à inserção social de crianças e jovens sem apoio familiar ou em risco de exclusão social. As suas principais respostas sociais incluem uma Casa de Acolhimento e um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), ambos sediados em Guimarães, bem como uma creche localizada em Felgueiras. Paralelamente, desenvolve projetos como o “Bons Pais, Bons Filhos” e mantém um Alojamento Local (AL), cujas receitas contribuem para a sustentabilidade das suas atividades sociais. Este AL, tem como objetivo principal apoiar jovens oriundos dos PALOP, que se encontram em dificuldades financeiras, ajudando-os a ajustarem-se à realidade económica e social portuguesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A missão do Centro assenta na intervenção para a reintegração social, colocando as necessidades da criança e do jovem no centro da sua ação, promovendo a sua inclusão e bem-estar. Embora o edifício tenha perdido o seu contexto religioso original, permanece impregnado de espiritualidade e do compromisso com o próximo, valores fundamentais da doutrina cristã que continuam vivos. Este espaço assume-se, assim, como um lugar de memória histórica, sustentado por princípios de fé, de purificação da alma e de amor ao próximo.&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>172.68.103.33</name></author>
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