Convento do Salvador de Braga: diferenças entre revisões
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Em ''História da Arquitetura – Perspectivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar'', coordenada por Manuel Joaquim Moreira da Rocha e Juan Manuel Monterroso Montero, o livro oferece uma visão abrangente sobre o tema, desde a chegada das irmandades monásticas ao território português e a sua vivência em comunidades fechadas, até à sua extinção com a laicização do Estado. | Em ''História da Arquitetura – Perspectivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar'', coordenada por Manuel Joaquim Moreira da Rocha e Juan Manuel Monterroso Montero, o livro oferece uma visão abrangente sobre o tema, desde a chegada das irmandades monásticas ao território português e a sua vivência em comunidades fechadas, até à sua extinção com a laicização do Estado. | ||
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São de grande importância fontes importantes como ''Mulheres enclausuradas: as ordens religiosas femininas em Portugal durante os séculos XVI a XVIII'', de Arlindo Manuel Caldeira, e ''Cister no Douro'', coordenado por Luís Sebastian e Nuno Resende. | São de grande importância fontes importantes como ''Mulheres enclausuradas: as ordens religiosas femininas em Portugal durante os séculos XVI a XVIII'', de Arlindo Manuel Caldeira, e ''Cister no Douro'', coordenado por Luís Sebastian e Nuno Resende. | ||
[[File:Portada da igreja do antigo Convento do Salvador.jpg|thumb|Portada da igreja do antigo Convento do Salvador]] | |||
Para entender a importância do património integrado no estudo de um edifício, é essencial a leitura do volume 4 da revista ''Património Estudos'', dedicado ao tema ''Conservação e Restauro de Património Móvel e Integrado: Património integrado ou a alma dos monumentos'', com textos de Luís Ferreira Calado, Joaquim Passos Leite e Paulo Pereira. | Para entender a importância do património integrado no estudo de um edifício, é essencial a leitura do volume 4 da revista ''Património Estudos'', dedicado ao tema ''Conservação e Restauro de Património Móvel e Integrado: Património integrado ou a alma dos monumentos'', com textos de Luís Ferreira Calado, Joaquim Passos Leite e Paulo Pereira. | ||
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== Enquadramento == | == Enquadramento == | ||
O antigo Convento do Salvador, fundado no século XVI em Braga, constitui um exemplo significativo da arquitetura religiosa portuguesa do Barroco, evidenciando a transição entre os estilos manuelino e maneirista. O convento reflete a influência das reformas tridentinas, expressando uma crescente preocupação com a funcionalidade litúrgica e a austeridade estética. A sua implantação urbana e a relação com o tecido histórico de Braga reforçam a importância do edifício enquanto marcador simbólico e institucional da presença religiosa feminina, num período de expansão das ordens monásticas em Portugal. O Convento do Salvador foi ainda | O antigo Convento do Salvador, fundado no século XVI em Braga, constitui um exemplo significativo da arquitetura religiosa portuguesa do Barroco, evidenciando a transição entre os estilos manuelino e maneirista. O convento reflete a influência das reformas tridentinas, expressando uma crescente preocupação com a funcionalidade litúrgica e a austeridade estética. A sua implantação urbana e a relação com o tecido histórico de Braga reforçam a importância do edifício enquanto marcador simbólico e institucional da presença religiosa feminina, num período de expansão das ordens monásticas em Portugal. O Convento do Salvador foi ainda um modelo para outras fundações religiosas da época, sendo um testemunho valioso da consolidação de uma linguagem arquitetónica própria, que alia tradição construtiva local com influências clássicas. | ||
Fundado como mosteiro de monjas, da ordem beneditina, na passagem do século XVI para o seguinte. Em 1893 o Governo atribuiu-o ao Asilo de Mendicidade de Braga, iniciado nove anos antes. | Fundado como mosteiro de monjas, da ordem beneditina, na passagem do século XVI para o seguinte. Em 1893 o Governo atribuiu-o ao Asilo de Mendicidade de Braga, iniciado nove anos antes. | ||
Sem datas exatas sobre a criação deste mosteiro, a partir de informações retiradas do Arquivo Distrital de Braga, temos a indicação que em 1175 este convento seria de monges (masculino) e em 1220 já se teria tornado um convento feminino. | Partindo do livro de Eduardo Pires de Oliveira, temos a informação que precedente ao Convento do Salvador, existiria um convento em Ponte de Lima, denominado de Convento do Vitorino (OLIVEIRA; 1994: 29). Sem datas exatas sobre a criação deste mosteiro, a partir de informações retiradas do Arquivo Distrital de Braga, temos a indicação que em 1175 este convento seria de monges (masculino) e em 1220 já se teria tornado um convento feminino. | ||
D. Frei Agostinho de Jesus começou em 1592, «com maior empenho, a tratar da transferência das monjas». O convento do Vitorino, encontrava-se a esta data, num estado de simplicidade das suas instalações, enquanto a sua comunidade vivia em pobreza. Acrescentando a estas característica, o convento não seguia as normas impostas pelo Tratado de Trento, não apresentando um muro de separação entre as religiosas e a população. | D. Frei Agostinho de Jesus começou em 1592, «com maior empenho, a tratar da transferência das monjas». O convento do Vitorino, encontrava-se a esta data, num estado de simplicidade das suas instalações, enquanto a sua comunidade vivia em pobreza. Acrescentando a estas característica, o convento não seguia as normas impostas pelo Tratado de Trento, não apresentando um muro de separação entre as religiosas e a população (OLIVEIRA; 1994: 32). | ||
Com o decreto de 1834, «inserido na “Reforma geral eclesiástica”» que «extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.» Sabe-se ainda que em 1873 o Convento do Salvador de Braga ainda se encontrava habitado por três freiras e que em 1893 foi instalado o Asilo nesse edifício. A evolução deste edifício continua passando a Clínica Conde Agrolongo e posteriormente já com o nome de Instituto e Lar, substituindo a anterior clínica, em 1981. | Com o decreto de 1834, «inserido na “Reforma geral eclesiástica”» que «extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.» (ARQUIVO DISTRITAL DE BRAGA; Mosteiro do Salvador de Braga). Sabe-se ainda que em 1873 o Convento do Salvador de Braga ainda se encontrava habitado por três freiras e que em 1893 foi instalado o Asilo nesse edifício. A evolução deste edifício continua passando a Clínica Conde Agrolongo e posteriormente já com o nome de Instituto e Lar, substituindo a anterior clínica, em 1981. | ||
== Descrição == | == Descrição == | ||
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A Igreja do Convento do Salvador de Braga apresenta uma tipologia encontrada nas igrejas dos conventos femininos da época: uma planta retangular, dividida em capela-mor com passagem para a sacristia e outra que liga ao claustro, seguida por um arco triunfal que liga à nave, que por sua vez apresenta o púlpito, o órgão e o pórtico dos fiéis, pelo lado Sul. A nave apresenta uma cobertura em abóbada de berços adornada com caixotões pintados. Dividido do espaço reservado aos fiéis, encontra-se o coro-baixo, sobreposto pelo coro-alto, ambos reservados para as religiosas. | A Igreja do Convento do Salvador de Braga apresenta uma tipologia encontrada nas igrejas dos conventos femininos da época: uma planta retangular, dividida em capela-mor com passagem para a sacristia e outra que liga ao claustro, seguida por um arco triunfal que liga à nave, que por sua vez apresenta o púlpito, o órgão e o pórtico dos fiéis, pelo lado Sul. A nave apresenta uma cobertura em abóbada de berços adornada com caixotões pintados. Dividido do espaço reservado aos fiéis, encontra-se o coro-baixo, sobreposto pelo coro-alto, ambos reservados para as religiosas. | ||
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(OLIVEIRA; 1994: 44) | |||
Derivado da longa cronologia deste edifício, é expectável a existência de alterações, desde os elementos arquitetónicos, o património integrado e do revestimento parietal. | Derivado da longa cronologia deste edifício, é expectável a existência de alterações, desde os elementos arquitetónicos, o património integrado e do revestimento parietal. | ||
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No lado direito, encontramos um arcossólio com a arca tumular do Conde de Agrolongo. | No lado direito, encontramos um arcossólio com a arca tumular do Conde de Agrolongo. | ||
[[File:Vista da igreja do Salvador, a partir do trono do retábulo-mor.jpg|left|thumb|279x279px|Vista da igreja do Salvador, a partir do trono do retábulo-mor]] | |||
O arco triunfal apresenta uma continuação visual do retábulo-mor, sendo emoldurado por talha, com duas arquivoltas, que por sua vez são fechadas por um nicho circular com a representação do Calvário. O arco triunfal encontra-se ladeado por dois retábulos, em talha dourada, com a representação do Sagrado Coração de Jesus e do Senhor dos Passos, do lado esquerdo e direito respetivamente. | O arco triunfal apresenta uma continuação visual do retábulo-mor, sendo emoldurado por talha, com duas arquivoltas, que por sua vez são fechadas por um nicho circular com a representação do Calvário. O arco triunfal encontra-se ladeado por dois retábulos, em talha dourada, com a representação do Sagrado Coração de Jesus e do Senhor dos Passos, do lado esquerdo e direito respetivamente. | ||
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=== Objeto Arquitetónico === | === Objeto Arquitetónico === | ||
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File:Planta do primeiro pavimento.jpg|Planta do primeiro pavimento | |||
File:Planta do segundo pavimento.jpg|alt=Plantas dos Pavimentos|Planta do segundo pavimento | |||
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File:Roda da igreja do Salvador de Braga, vista do coro-baixo.jpg|Roda da igreja, vista do coro-baixo | |||
File:Órgão - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Órgão | |||
File:Arco triunfal - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Arco triunfal | |||
File:Interior do coro-alto - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Interior do coro-alto | |||
File:Interior do coro-baixo - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Interior do coro-baixo | |||
File:Teto da capela-mor - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Teto da capela-mor | |||
File:Teto da nave em caixotões pintados - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Teto da nave em caixotões pintados | |||
File:Pormenor do fecho do arco triunfal, em nicho com a representação do Calvário - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Pormenor do fecho do arco triunfal, em nicho com a representação do Calvário | |||
File:Divisão entre a igreja de fora e a igreja de dentro – nave da igreja, coro-baixo e coro-alto da igreja do Salvador de Braga.jpg|Divisão entre a igreja de fora e a igreja de dentro – nave da igreja, coro-baixo e coro-alto | |||
File:Painéis de madeira representando a Circuncisão e a Adoração dos Reis Magos - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Painéis de madeira representando a Circuncisão e a Adoração dos Reis Magos | |||
File:Painéis de madeira representando a Anunciação e a Adoração dos Pastores. Arcossólio com a arca tumular do Conde de Agrolongo - Igreja do Salvador de Braga.jpg|Painéis de madeira representando a Anunciação e a Adoração dos Pastores. Arcossólio com a arca tumular do Conde de Agrolongo | |||
File:Púlpito - Convento do Salvador de Braga.jpg|Púlpito | |||
</gallery><gallery mode="packed-hover" caption="Claustro"> | |||
File:Vista do claustro do Lar Conde de Agrolongo, antigo Convento do Salvador de Braga.jpg|Vista do claustro do Lar Conde de Agrolongo, antigo Convento do Salvador de Braga | |||
File:Torre sineira - vista do claustro.jpg|Torre sineira - vista do claustro | |||
File:Fonte do claustro e pormenor das arcadas.jpg|Fonte do claustro e pormenor das arcadas | |||
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=== Património Integrado === | === Património Integrado === | ||
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File:Retábulo-mor.jpg|Retábulo-mor | |||
File:Retábulo de Nossa Senhora da Abadia.jpg|Retábulo de Nossa Senhora da Abadia | |||
File:Retábulo de Nossa Senhora de Lourdes.jpg|Retábulo de Nossa Senhora de Lourdes | |||
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== Fontes e Bibliografia == | == Fontes e Bibliografia == | ||
Edição atual desde as 04h55min de 27 de maio de 2025

Identificação[editar | editar código-fonte]
| Designação | Convento do Salvador, Antigo Convento do Salvador |
| Localização | Praça Conde de Agrolongo, antiga freguesia de São João do Souto, atual freguesia de Braga (São José de São Lázaro e São João do Souto), cidade e município de Braga, distrito de Braga |
| Cronologia | Século XVI |
Estado da Arte[editar | editar código-fonte]

Em História da Arquitetura – Perspectivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar, coordenada por Manuel Joaquim Moreira da Rocha e Juan Manuel Monterroso Montero, o livro oferece uma visão abrangente sobre o tema, desde a chegada das irmandades monásticas ao território português e a sua vivência em comunidades fechadas, até à sua extinção com a laicização do Estado.
No texto O monaquismo – dos primórdios ao Séc. VII, de Maria Ester Vargas, onde se apresenta uma definição clara e acessível sobre o significado de alguns conceitos-chave, como o monaquismo e as ordens monásticas. Já sobre as ordens monásticas, foi necessário ir mais além de uma simples definição – procurámos perceber que tipos de ordens e irmandades existiram em Portugal e a sua história, com especial destaque para as femininas.
São de grande importância fontes importantes como Mulheres enclausuradas: as ordens religiosas femininas em Portugal durante os séculos XVI a XVIII, de Arlindo Manuel Caldeira, e Cister no Douro, coordenado por Luís Sebastian e Nuno Resende.

Para entender a importância do património integrado no estudo de um edifício, é essencial a leitura do volume 4 da revista Património Estudos, dedicado ao tema Conservação e Restauro de Património Móvel e Integrado: Património integrado ou a alma dos monumentos, com textos de Luís Ferreira Calado, Joaquim Passos Leite e Paulo Pereira.
Por fim, o texto de Eduardo Pires de Oliveira, O Edifício do Convento do Salvador: De Mosteiro de Freiras ao Lar Conde Agrolongo, ajuda-nos a perceber a origem e a evolução deste convento em Braga. É uma peça fundamental para entender as razões da sua implantação, o desenvolvimento do edifício ao longo do tempo, e a dinâmica da sua comunidade religiosa.
Enquadramento[editar | editar código-fonte]
O antigo Convento do Salvador, fundado no século XVI em Braga, constitui um exemplo significativo da arquitetura religiosa portuguesa do Barroco, evidenciando a transição entre os estilos manuelino e maneirista. O convento reflete a influência das reformas tridentinas, expressando uma crescente preocupação com a funcionalidade litúrgica e a austeridade estética. A sua implantação urbana e a relação com o tecido histórico de Braga reforçam a importância do edifício enquanto marcador simbólico e institucional da presença religiosa feminina, num período de expansão das ordens monásticas em Portugal. O Convento do Salvador foi ainda um modelo para outras fundações religiosas da época, sendo um testemunho valioso da consolidação de uma linguagem arquitetónica própria, que alia tradição construtiva local com influências clássicas.
Fundado como mosteiro de monjas, da ordem beneditina, na passagem do século XVI para o seguinte. Em 1893 o Governo atribuiu-o ao Asilo de Mendicidade de Braga, iniciado nove anos antes.
Partindo do livro de Eduardo Pires de Oliveira, temos a informação que precedente ao Convento do Salvador, existiria um convento em Ponte de Lima, denominado de Convento do Vitorino (OLIVEIRA; 1994: 29). Sem datas exatas sobre a criação deste mosteiro, a partir de informações retiradas do Arquivo Distrital de Braga, temos a indicação que em 1175 este convento seria de monges (masculino) e em 1220 já se teria tornado um convento feminino.
D. Frei Agostinho de Jesus começou em 1592, «com maior empenho, a tratar da transferência das monjas». O convento do Vitorino, encontrava-se a esta data, num estado de simplicidade das suas instalações, enquanto a sua comunidade vivia em pobreza. Acrescentando a estas característica, o convento não seguia as normas impostas pelo Tratado de Trento, não apresentando um muro de separação entre as religiosas e a população (OLIVEIRA; 1994: 32).
Com o decreto de 1834, «inserido na “Reforma geral eclesiástica”» que «extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.» (ARQUIVO DISTRITAL DE BRAGA; Mosteiro do Salvador de Braga). Sabe-se ainda que em 1873 o Convento do Salvador de Braga ainda se encontrava habitado por três freiras e que em 1893 foi instalado o Asilo nesse edifício. A evolução deste edifício continua passando a Clínica Conde Agrolongo e posteriormente já com o nome de Instituto e Lar, substituindo a anterior clínica, em 1981.
Descrição[editar | editar código-fonte]
Objeto Arquitetónico[editar | editar código-fonte]
A Igreja[editar | editar código-fonte]

A Igreja do Convento do Salvador de Braga apresenta uma tipologia encontrada nas igrejas dos conventos femininos da época: uma planta retangular, dividida em capela-mor com passagem para a sacristia e outra que liga ao claustro, seguida por um arco triunfal que liga à nave, que por sua vez apresenta o púlpito, o órgão e o pórtico dos fiéis, pelo lado Sul. A nave apresenta uma cobertura em abóbada de berços adornada com caixotões pintados. Dividido do espaço reservado aos fiéis, encontra-se o coro-baixo, sobreposto pelo coro-alto, ambos reservados para as religiosas.
O pórtico da capela encontra-se na lateral do edifício. Destacam-se as diferentes volumetrias, com avanços e recuos, assim como o uso de vários elementos da arquitetura clássica para a sua composição e decoração. Esta pequena descrição refere-se ao atual pórtico, não se assemelhando às descrições de 1777. Com as descrições e desenhos de 1777 conseguimos ainda indicar que constituiriam o pórtico quatro colunas encimadas por capitéis, depositadas entre as colunas uma imagem de São Bento e de Santa Escolástica, do lado direito e esquerdo respetivamente. Estaria presente sob estas colunas «uma forte trave de pedra», ao centro com «um nicho com seu frontão triangular». Nesse nicho encontrava-se uma figura de Cristo, enquanto na “trave de pedra” se encontrava a «data de factura» deste conjunto «Anno 1616». No extremo dessa mesma trave encontravam-se grupos de pirâmides. Era ainda visível a seguinte gravura:
SALVA NOS SALVATOR MUNDI
DE VITORINO AUGUSTINUS TRANSIT OLIM
1602
STRUXIT AB ALMEIDA DOMNA MARIA MODO
1616
(OLIVEIRA; 1994: 44)
Derivado da longa cronologia deste edifício, é expectável a existência de alterações, desde os elementos arquitetónicos, o património integrado e do revestimento parietal.
A capela-mor que era anteriormente elevada, sendo necessários cinco degraus para a aceder, hoje encontra-se ao mesmo nível que o corpo da igreja.
O teto da capela-mor apresenta uma cobertura em «abóbada de berço de madeira pintada, com cartela central representando a Santíssima Trindade, recebendo São Bento e Santa Escolástica» (SIPA; Convento do Salvador/Lar Conde de Agrolongo.). As paredes laterais são abertas por janelões intercalados por «painéis de talha, com telas pintadas, representando a Anunciação, a Adoração dos Pastores, a Adoração dos Reis Magos e a Circuncisão» (SIPA; Convento do Salvador/Lar Conde de Agrolongo.).
No lado direito, encontramos um arcossólio com a arca tumular do Conde de Agrolongo.

O arco triunfal apresenta uma continuação visual do retábulo-mor, sendo emoldurado por talha, com duas arquivoltas, que por sua vez são fechadas por um nicho circular com a representação do Calvário. O arco triunfal encontra-se ladeado por dois retábulos, em talha dourada, com a representação do Sagrado Coração de Jesus e do Senhor dos Passos, do lado esquerdo e direito respetivamente.
O interior desta igreja é coberto por azulejos desde cerca de 1630, apresentam padrão formando tapetes, encomendados em Lisboa. O adornamento está também presente em talha dourada, no já referido retábulo-mor e nos retábulos laterais, assim como, no púlpito, órgão, coro alto e baixo.
O teto do corpo da igreja é decorado por quarenta painéis quadrados com moldura dourada, onde estão representados, em óleo sobre madeira, os Passos da Paixão de Cristo.
O Mosteiro[editar | editar código-fonte]
Eduardo Pires de Oliveira afirma que «o Convento do Salvador não foge ao comum» (OLIVEIRA; 1994: 79.). Este edifício possui uma estrutura semelhante aos outros edifícios da mesma tipologia, cujas dependências não se alastram muito mais do que «o claustro, sempre com sua fonte, as capelas que existiam nas zonas dos claustros e cerca; a sala do capítulo» (OLIVEIRA; 1994: 79.); refeitório; dormitório e entre outras.
Cita que o mosteiro passou por várias transformações ao longo do tempo conforme a capacidade monetária da própria comunidade. Havia insatisfação de muitas freiras com as infraestruturas, que se «queixavam de que o arcebispo Dom Frei Agostinho de Jesus lhe prometera uma casa grande e lhes dera uma pequena que de imediato necessitava de obras de crescimento» (OLIVEIRA; 1994: 79.). Numa primeira etapa, o convento é descrito como uma «construção baixa, apenas de dois pisos exceto, naturalmente, no local do mirante, que tinha mais um piso» (OLIVEIRA; 1994: 79.): no que diz respeito ao mirante, encontrava-se no fim do coro da igreja e está um pouco abaixo do nível da torre sineira.
Relativamente a torre sineira do convento bracarense, Eduardo Pires de Oliveira não assinala nenhuma característica marcante e procede a descrever detalhadamente a estrutura como uma torre «encimada por uma grimpa que tem a forma do símbolo da ordem beneditina» (OLIVEIRA; 1994: 85.) - representação do cajado de São Bento, o leão e a mitra em folhas de flandres. Sabe-se que a sua construção foi levada a cabo no ano de 1738 por mestres pedreiros com José Pereira de Palmeira, João da Costa e Domingos Fernandes de Adaúfe.
A planta do claustro e das suas galerias mantiveram o traçado original mesmo depois de várias reformas e transformações realizadas na obra ao longo dos séculos. O rés-do-chão o claustro apresenta arcarias plenas assentes em pilares toscanos, e no piso superior estas galerias sugerem uma guarda em balaustrada de granito, intercalada por plintos onde assentam colunas bojudas que suportam arcaria abatida datadas no período do Conde de Agrolongo. No interior das galerias revestiu-se as paredes com azulejos industriais e os tetos com madeira. Ao centro do pátio ergue-se entre quadras jardinadas um chafariz de tanque retangular com relevos almofadados e com um remate de uma coluna bojuda com a imagem de Santa Catarina ao centro numa espécie de “gaiola”. Existe também outra fonte de água, de tanque quadrado, com a imagem de São Bento, num pequeno pátio que correspondia ao primitivo claustro. Em 1777 existiam no claustro o registo de diversas capelas – devido a descrição presente na torre do tombo – que hoje, infelizmente, já não existem.
No século XVIII, o edifício sofreu diversas reformas, sentidas mais a Este do que Oeste das dependências. À nascente do claustro encontrava-se a sacristia e logo a seguir uma zona de celas para aprisionamento, o que evidência a complexidade e totalidade destas tipologias.
A cerca também era um item essencial para a funcionalidade do mosteiro, já que auxiliava tanto na clausura das monjas do mundo exterior, como também as defendia de possíveis ameaças. Do que se tem registo sabe-se que a cerca do convento do Salvador foi diminuindo conforme o passar dos anos, principalmente em 1893, quando o governo cedeu o edifício do mosteiro para a Associação Beneficência com a condição de dar uma parte de terreno da cerca à câmara municipal, que consequentemente se tornar na conhecida Praça do Comércio.
Património Integrado[editar | editar código-fonte]
O retábulo-mor da Igreja do Convento do Salvador foi desenhado pelo monge Bernardo Frei Luís de São José e entalhado pelo mestre Gabriel Rodrigues. Esta obra «ocupava toda a testeira da capela-mor» (OLIVEIRA; 1994: 48.), sendo em estilo nacional. O retábulo apresenta uma planta reta e três eixos, adornados com talha dourada. É fechado com uma «grande cartela com o brasão da Ordem». Ao centro, a tribuna é «cerrada por cortina, com o Crucificado» (SIPA; Convento do Salvador/Lar Conde de Agrolongo.). Ladeando a tribuna encontram-se dois nichos com a imagem de São Bento, no lado do Evangelho, e de São Francisco, no lado da Epístola.
No lado do Evangelho, entre o órgão e púlpito, encontramos dois retábulos. O dedicado a Nossa Senhora da Abadia, que ladeia o órgão, é em talha policromada, com uma prevalência do branco, com detalhes em azul e dourado. O dedicado a Nossa Senhora de Lourdes é inscrito num «arco pleno, com sanefa e altar de talha dourada (…), com simulação de gruta» (SIPA; Convento do Salvador/Lar Conde de Agrolongo.).
Imagens e Iconografia do Objeto[editar | editar código-fonte]
Objeto Arquitetónico[editar | editar código-fonte]
- Plantas dos Pavimentos
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Planta do primeiro pavimento
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Planta do segundo pavimento
- Igreja
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Roda da igreja, vista do coro-baixo
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Órgão
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Arco triunfal
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Interior do coro-alto
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Interior do coro-baixo
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Teto da capela-mor
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Teto da nave em caixotões pintados
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Pormenor do fecho do arco triunfal, em nicho com a representação do Calvário
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Divisão entre a igreja de fora e a igreja de dentro – nave da igreja, coro-baixo e coro-alto
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Painéis de madeira representando a Circuncisão e a Adoração dos Reis Magos
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Painéis de madeira representando a Anunciação e a Adoração dos Pastores. Arcossólio com a arca tumular do Conde de Agrolongo
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Púlpito
- Claustro
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Vista do claustro do Lar Conde de Agrolongo, antigo Convento do Salvador de Braga
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Torre sineira - vista do claustro
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Fonte do claustro e pormenor das arcadas
Património Integrado[editar | editar código-fonte]
-
Retábulo-mor
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Retábulo de Nossa Senhora da Abadia
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Retábulo de Nossa Senhora de Lourdes
Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]
Fontes[editar | editar código-fonte]
- Arquivo Distrital de Braga (s.d.). Mosteiro do Salvador de Braga. Retirado de Archeevo. Consultado a 23/02/2025. https://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1194883
- Arquivo Nacional Torre do Tombo (2016). Processos de Extinção das Casas Religiosas Femininas em Portugal. Retirado de Arquivo Nacional Torre do Tombo. Consultado a 23/02/2025. https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4224345
- Arquivo Nacional Torre do Tombo (2023). Mosteiro do Salvador de Braga. Retirado de Arquivo Nacional Torre do Tombo. Consultado a 23/02/2025. https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4224345
- Asseiceiro, José F. M. (1994). As Ordens Militares e Religiosas em Portugal. Ordens Monásticas. Retirado de RTP ARQUIVOS. Consultado a 23/02/2025. https://arquivos.rtp.pt/conteudos/ordens-monasticas/
- Sereno, Isabel; Santos, João (1993).; & Gonçalves, Joaquim. (2005). Convento do Salvador / Lar Conde de Agrolongo. Retirado de SIPA. Consultado em 23/02/2025. http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=46
- Wikipédia (2024). Convento do Salvador (Braga). Retirado de Wikipédia. Consultado a 23/02/2025. https://pt.wikipedia.org/wiki/Convento_do_Salvador_(Braga)
Bibliografia[editar | editar código-fonte]
- Calado, Luís Ferreira; Leite, Joaquim Passos; Pereira, Paulo. (2003). Conservação e Restauro de Património Móvel e Integrado: Património integrado ou a alma dos monumentos. «Património estudos», vol. 4, p. 5-15. Instituto Português do Património Arquitectónico. Lisboa.
- Caldeira, Arlindo Manuel. (2021). Mulheres enclausuradas: as ordens religiosas femininas em Portugal durante os séculos XVI a XVIII. Alfragide. Casa das Letras. 462 pp.
- Oliveira, Eduardo Pires de. (1994). O Edifício do Convento do Salvador: De Mosteiro de Freiras ao Lar Conde Agrolongo. Lar Conde de Agrolongo. Braga.
- Rocha, Manuel Joaquim Moreira da. Arquitectura Religiosa Barroca em Braga. Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património. Porto, vol. IX-XI, 2010-2012, pp. 331-373.
- Rocha, Manuel Joaquim Moreira da; MONTERO, Juan Manuel Monterroso, coord. (2023). História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar. Porto: CITCEM. 292 pp.
- Sebastian, Luís; Resende, Nuno coord. (2015). Cister no Douro. Direcção Regional de Cultura do Norte. Museu de Lamego.
- Vargas, Maria Ester. (1999). O monaquismo - dos primórdios ao Séc. VII. Instituto Politécnico de Viseu. Viseu.