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Mosteiro de Lorvão: diferenças entre revisões

Fonte: Porto Barroco
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Identificação
 
== Identificação ==
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!'''Designação'''
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|Localização
|Localização
|Concelho de Penacova, Distrito de Coimbra. Coordenadas geográficas: 40°15'34"N 8°19'2"O
|Freguesia do Lorvão. Concelho de Penacova, Distrito de Coimbra.  
Coordenadas geográficas: 40°15'34"N 8°19'2"O
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|Cronologia
|Cronologia
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1887, falecimento da última monja
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|Classificação
|Classificação
|Mosteiro feminino cisterciense, Monumento Nacional
|Mosteiro feminino cisterciense. Classificação como Monumento Nacional em 1910, por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário da República sob o nº 136 de 23 de junho. IPA.00001598
ZEP: Portaria de 12-11-1960, publicada no DG, II Série, n.º 269, de 18-11-1960
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== Enquadramento ==
== Enquadramento ==
[[File:Plantas do povoamento do Lorvão.jpg|alt=Plantas do povoamento do Lorvão. Em: Nogueira F., 2015|thumb|182x182px|'''Plantas do povoamento do Lorvão. Em: Nogueira F., 2015''']]
O mosteiro situa-se num vale profundo, rodeado de montanhas e na proximidade da ribeira do Lorvão. Encontra-se rodeado por paisagem verdejante, com grande quantidade de arvoredo onde se destacam os loureiros, pinheiros, oliveiras e acácias. A geografia agreste dificultou a fixação de população, sendo o mosteiro, pelas relações económicas, sociais, culturais e religiosas, um fator agregador e de auxílio ao povoamento local.
O mosteiro situa-se num vale profundo, rodeado de montanhas e na proximidade da ribeira do Lorvão. Encontra-se rodeado por paisagem verdejante, com grande quantidade de arvoredo onde se destacam os loureiros, pinheiros, oliveiras e acácias. A geografia agreste dificultou a fixação de população, sendo o mosteiro, pelas relações económicas, sociais, culturais e religiosas, um fator agregador e de auxílio ao povoamento local.


== Descrição ==
== Descrição ==
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No final do século XII, o scriptorium do Lorvão alcançou grande notoriedade cultural com a produção de manuscritos iluminados. Esta dependência era de grande importância nos mosteiros beneditinos, não só pela necessidade de livros destinados ao ofício divino, mas também de outros de promoção do desenvolvimento espiritual e cultural dos monges (Borges, 1992, p. 140).  São seis os códices laurbanenses recolhidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O “Antifonário”, o “Martirológio ou Lendas de Santos”, ambos muito incompletos, o “Leccionário”, o “Livro das Aves”, de 1183, provável adaptação do bestiário De Bestiis et aliis rebus, escrito por Hugo de Folietono no século XII, o “Comentário de Santo Agostinho aos salmos”, de 1184, e o “Comentário ao Apocalipse” de 1189, cópia do original da autoria do monge asturiano Beato de Liébana. No entanto, no século seguinte, um processo de litígio entre os monges negros e D. Teresa, filha de D. Sancho I, levaria ao afastamento dos beneditinos do seu habitat. D. Teresa, que viu o seu casamento com o rei Afonso IX de Leão anulado pelo papa, por laços de consanguinidade, refugiou-se na vida monástica e tornou-se protetora e administradora das suas propriedades. O prestígio do mosteiro, digno da ex-rainha de Leão, levou a que, em 1211, com autorização papal, a princesa, acompanhada por quarenta religiosas, ocupassem o mosteiro do Lorvão, sob o estatuto da ordem de Cister. O poderio económico e social foi em crescendo, que não é alheio ao acolhimento das suas próprias irmãs, D. Sancha e D. Mafalda, e de senhoras da alta nobreza. Com doações, heranças e aquisições, tornou-se numa das mais ricas casas monásticas do reino. Foi descrito como “de vida fervorosa e regular” pelo abade de Claraval, aquando da sua visita ao mosteiro no ano de 1532, e considerado como sobrelotado de freiras. No entanto, as condições de vida foram-se degradando, particularmente com o atingimento pela peste negra, levando a que no século XVI o número de religiosas diminuísse de forma considerável. Restaram apenas nove monjas, que com o seu empenho permitiram a sobrevivência e a recuperação do estatuto perdido (Fábio Nogueira, 2015). No século seguinte, a reabertura dos noviciários dá um novo alento às instituições cistercienses, que possibilita a renovação moderna, que se distribuiu por duas fases: a do Barroco, cuja maior empreitada foi iniciada em 1630 e que incluiu a construção de novos espaços como a igreja, o coro, o dormitório e a enfermaria, e a do Rococó, presente no coro e na igreja e terminada em 1795 (Borges, 1992). Toda esta expansão e os melhoramentos instituídos no complexo determinaram um crescimento do número de religiosas e, consequentemente, da demografia do lugar do Lorvão. O empenho em conseguir de Roma o reconhecimento do culto das infantas D. Teresa e D. Sancha, em consonância com as disposições tridentinas, levou à beatificação das duas irmãs, em 1705, e ao ímpeto renovador de dignificação dos seus espaços (ANTT, 2024). Em meados do século XVIII, Lorvão afirma-se como o mosteiro cisterciense feminino mais rico em território nacional (Borges, 1992, p. 194), tornando-se uma das principais escolhas de clausura por parte da aristocracia. As reformas ocorridas na Ordem de Cister e substituição do regime de abadessado perpétuo pelo trienal, levaram a uma profunda modificação funcional e  administrativa nessas casas. Remodelações das estruturas existentes e criação de outras dependências ocorreram de forma a albergar novas professas e a atualizar os complexos monásticos de ponto de vista estilístico. A primeira abadessa trienal do Lorvão foi eleita em 1603, no entanto, o programa de reformas já se tinha iniciado em 1597, com a renovação do claustro principal.
No final do século XII, o scriptorium do Lorvão alcançou grande notoriedade cultural com a produção de manuscritos iluminados. Esta dependência era de grande importância nos mosteiros beneditinos, não só pela necessidade de livros destinados ao ofício divino, mas também de outros de promoção do desenvolvimento espiritual e cultural dos monges (Borges, 1992, p. 140).  São seis os códices laurbanenses recolhidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O “Antifonário”, o “Martirológio ou Lendas de Santos”, ambos muito incompletos, o “Leccionário”, o “Livro das Aves”, de 1183, provável adaptação do bestiário De Bestiis et aliis rebus, escrito por Hugo de Folietono no século XII, o “Comentário de Santo Agostinho aos salmos”, de 1184, e o “Comentário ao Apocalipse” de 1189, cópia do original da autoria do monge asturiano Beato de Liébana. No entanto, no século seguinte, um processo de litígio entre os monges negros e D. Teresa, filha de D. Sancho I, levaria ao afastamento dos beneditinos do seu habitat. D. Teresa, que viu o seu casamento com o rei Afonso IX de Leão anulado pelo papa, por laços de consanguinidade, refugiou-se na vida monástica e tornou-se protetora e administradora das suas propriedades. O prestígio do mosteiro, digno da ex-rainha de Leão, levou a que, em 1211, com autorização papal, a princesa, acompanhada por quarenta religiosas, ocupassem o mosteiro do Lorvão, sob o estatuto da ordem de Cister. O poderio económico e social foi em crescendo, que não é alheio ao acolhimento das suas próprias irmãs, D. Sancha e D. Mafalda, e de senhoras da alta nobreza. Com doações, heranças e aquisições, tornou-se numa das mais ricas casas monásticas do reino. Foi descrito como “de vida fervorosa e regular” pelo abade de Claraval, aquando da sua visita ao mosteiro no ano de 1532, e considerado como sobrelotado de freiras. No entanto, as condições de vida foram-se degradando, particularmente com o atingimento pela peste negra, levando a que no século XVI o número de religiosas diminuísse de forma considerável. Restaram apenas nove monjas, que com o seu empenho permitiram a sobrevivência e a recuperação do estatuto perdido (Fábio Nogueira, 2015). No século seguinte, a reabertura dos noviciários dá um novo alento às instituições cistercienses, que possibilita a renovação moderna, que se distribuiu por duas fases: a do Barroco, cuja maior empreitada foi iniciada em 1630 e que incluiu a construção de novos espaços como a igreja, o coro, o dormitório e a enfermaria, e a do Rococó, presente no coro e na igreja e terminada em 1795 (Borges, 1992). Toda esta expansão e os melhoramentos instituídos no complexo determinaram um crescimento do número de religiosas e, consequentemente, da demografia do lugar do Lorvão. O empenho em conseguir de Roma o reconhecimento do culto das infantas D. Teresa e D. Sancha, em consonância com as disposições tridentinas, levou à beatificação das duas irmãs, em 1705, e ao ímpeto renovador de dignificação dos seus espaços (ANTT, 2024). Em meados do século XVIII, Lorvão afirma-se como o mosteiro cisterciense feminino mais rico em território nacional (Borges, 1992, p. 194), tornando-se uma das principais escolhas de clausura por parte da aristocracia. As reformas ocorridas na Ordem de Cister e substituição do regime de abadessado perpétuo pelo trienal, levaram a uma profunda modificação funcional e  administrativa nessas casas. Remodelações das estruturas existentes e criação de outras dependências ocorreram de forma a albergar novas professas e a atualizar os complexos monásticos de ponto de vista estilístico. A primeira abadessa trienal do Lorvão foi eleita em 1603, no entanto, o programa de reformas já se tinha iniciado em 1597, com a renovação do claustro principal.
== Reformas da época Barroca ==
[[File:Claustro piso superior 04-2025.jpg|alt=Claustro|thumb|207x207px|Claustro com sobreclaustro]]
[[File:Claustro piso superior 04-2025.jpg|alt=Claustro|thumb|207x207px|Claustro com sobreclaustro]]
[[File:Claustro galeria 04-2025.jpg|alt=Galeria do claustro|thumb|276x276px|Galeria do claustro]]
[[File:Claustro galeria 04-2025.jpg|alt=Galeria do claustro|thumb|276x276px|Galeria do claustro]]


=== Claustro ===
=== Claustro ===
Para a casa de Cister, o claustro funciona como local estruturador da vida monástica, estabelecendo a ligação entre todas as partes do edifício. Na perfeição moral idealizada pela Ordem, esta dependência assume-se como o local de onde emana e para onde confluem as energias funcionais e espirituais da congregação. Em estado de visível degradação, o claustro românico foi sofrendo modificações e arranjos desde o início das grandes campanhas de renovação moderna. O claustro do Lorvão, da família da Renascença Coimbrã (Borges, 1992, p. 337), tem uma forma trapezoidal irregular, em que nenhum dos lados é igual, mas esta estranha configuração não é percetível pelas correções óticas impostas pela arquitetura. O claustro divide-se em dois pisos, o térreo de origem medieval e o sobreclaustro, construído em 1677, de acordo com a sensibilidade estética do barroco. A primeira fase de remodelação dá-se no piso térreo, com manutenção da volumetria existente mas com melhoria arquitetónica e de iluminação. Os escritos da religiosa D. Margarida de Vasconcelos atestam a demolição de uma antiga torre para a construção da torre dos sinos e o achado de ossadas aquando o revolvimento de terras para rebaixamento do pátio central. Data desta primeira fase, a construção de três capelas devocionais, entre 1601 e 1603, e pouco mais tarde o assentamento de azulejos murários (Borges, 1992, p. 324). A fase de maior remodelação do claustro dá-se na segunda metade do século XVII, mas os livros de contabilidade monástica reportam despesas associadas a esta dependência durante todo o século XVIII e parte do XIX. Sem barreiras a separar as galerias do pátio central, cada lanço é dividido em três tramos, separados por pilastras estruturais e com aberturas em arco de volta perfeita apoiados em colunas dóricas. O piso superior, com o mesmo número de tramos que o inferior, possui colunas toscanas que apoiam sobre pedestais à altura da balaustrada (Borges, 1992, p. 343). As colunas e balaústres e os telhados avançados, conferem algum caráter de arquitetura militar que se virá a observar em outros claustros portugueses (Borges, 1992, p. 345). O refeitório e cozinha, caracteristicamente na galeria oposta à da igreja, para que os ruídos e os aromas daí emanados não perturbassem quem estava em oração no local de culto, excecionalmente situam-se no piso superior e encontram-se a ser alvo de intervenção. No lado oriental do claustro e lateral à igreja, situa-se a sala do capítulo. Esta designação deve-se ao facto de ser nesta dependência onde diariamente se lia e explicava um dos capítulos da Regra de São Bento. A sua remodelação data de meados do século XVII, tem planta trapezoidal e as paredes decoradas com azulejo seiscentista de fabrico lisboeta. O teto em madeira de carvalho é decorado com caixotões e possui retábulo dedicado a São Bento e São Bernardo (Borges, 1992, p. 374). Em Lorvão, apenas a sala do capítulo e o coro das monjas tem abertura direta para o claustro baixo. O pavimento das galerias térreas do claustro possui cerca de duzentas lápides funerárias com inscrições muito simples, maioritariamente o ano da sepultura (Borges, 1992, p. 383). O pátio central, ajardinado, contem uma fonte em forma de obelisco sobre pedestal, decorado com carrancas, rodeada por um tanque de configuração circular, provavelmente contemporâneo com a grande reforma do século XVII. O tanque foi substituído em 1794-1795 (Borges, 1992).
Para a casa de Cister, o claustro funciona como local estruturador da vida monástica, estabelecendo a ligação entre todas as partes do edifício. Na perfeição moral idealizada pela Ordem, esta dependência assume-se como o local de onde emana e para onde confluem as energias funcionais e espirituais da congregação. Em estado de visível degradação, o claustro românico foi sofrendo modificações e arranjos desde o início das grandes campanhas de renovação moderna. O claustro do Lorvão, da família da Renascença Coimbrã (Borges, 1992, p. 337), tem uma forma trapezoidal irregular, em que nenhum dos lados é igual, mas esta estranha configuração não é percetível pelas correções óticas impostas pela arquitetura. O claustro divide-se em dois pisos, o térreo de origem medieval e o sobreclaustro, construído em 1677, de acordo com a sensibilidade estética do barroco. A primeira fase de remodelação dá-se no piso térreo, com manutenção da volumetria existente mas com melhoria arquitetónica e de iluminação. Os escritos da religiosa D. Margarida de Vasconcelos atestam a demolição de uma antiga torre para a construção da torre dos sinos e o achado de ossadas aquando o revolvimento de terras para rebaixamento do pátio central. Data desta primeira fase, a construção de três capelas devocionais, entre 1601 e 1603, e pouco mais tarde o assentamento de azulejos murários (Borges, 1992, p. 324). A fase de maior remodelação do claustro dá-se na segunda metade do século XVII, mas os livros de contabilidade monástica reportam despesas associadas a esta dependência durante todo o século XVIII e parte do XIX. Sem barreiras a separar as galerias do pátio central, cada lanço é dividido em três tramos, separados por pilastras estruturais e com aberturas em arco de volta perfeita apoiados em colunas dóricas. O piso superior, com o mesmo número de tramos que o inferior, possui colunas toscanas que apoiam sobre pedestais à altura da balaustrada (Borges, 1992, p. 343). As colunas e balaústres e os telhados avançados, conferem algum caráter de arquitetura militar que se virá a observar em outros claustros portugueses (Borges, 1992, p. 345). O refeitório e cozinha, caracteristicamente na galeria oposta à da igreja, para que os ruídos e os aromas daí emanados não perturbassem quem estava em oração no local de culto, excecionalmente situam-se no piso superior e encontram-se a ser alvo de  
[[File:Pátio central do claustro com fonte 04-2025.jpg|alt=Fonte no pátio central do claustro|thumb|277x277px|Fonte no pátio central do claustro]]
intervenção. No lado oriental do claustro e lateral à igreja, situa-se a sala do capítulo. Esta designação deve-se ao facto de ser nesta dependência onde diariamente se lia e explicava um dos capítulos da Regra de São Bento. A sua remodelação data de meados do século XVII, tem planta trapezoidal e as paredes decoradas com azulejo seiscentista de fabrico lisboeta. O teto em madeira de carvalho é decorado com caixotões e possui retábulo dedicado a São Bento e São Bernardo (Borges, 1992, p. 374). Em Lorvão, apenas a sala do capítulo e o coro das monjas tem abertura direta para o claustro baixo. O pavimento das galerias térreas do claustro possui cerca de duzentas lápides funerárias com inscrições muito simples, maioritariamente o ano da sepultura (Borges, 1992, p. 383). O pátio central, ajardinado, contem uma fonte em forma de obelisco sobre pedestal, decorado com carrancas, rodeada por um tanque de configuração circular, provavelmente contemporâneo com a grande reforma do século XVII. O tanque foi substituído em 1794-1795 (Borges, 1992).


=== Capela de São João Batista ===
=== Capela de São João Batista ===
[[File:Pormenor capela de São João Batista 04-2025.jpg|alt=Pormenor da capela de São João Batista|thumb|278x278px|'''Pormenor da capela de São João Batista''']]
[[File:Capela de São Joao Batista.jpg|alt=Capela de São Joao Batista|thumb|279x279px|'''Capela de São Joao Batista''']]
São treze as capelas que se vão construindo ao longo do século XVII, número excecionalmente elevado quando se compara com os outros edifícios monásticos. Este facto deve-se ao posicionamento da cozinha, refeitório e antigos dormitórios no piso superior. De realçar a capela construída em 1602, e dedicada a São João Batista, pela sua monumentalidade e por ser a mais próxima do acesso ao coro da igreja. A entrada desta capela faz-se por um portal em arco de volta perfeita, assente em capiteis e pilastras decorados com motivos vegetalistas, zoomórficos e querubins. O entablamento é apoiado em pilastras com plinto alto, mantendo o mesmo padrão decorativo. Acima do entablamento, observa-se uma placa com inscrição, rodeada por homens desnudados, aparentemente índios do Brasil, que seguram aves exóticas. No fecho do arco surge um brasão com o cordeiro místico. Nas cantoneiras, dois medalhões vazados, adornados com pequenos cordeiros, auxiliavam a iluminação do espaço. No interior, as paredes laterais encontram-se forradas a azulejo branco e azul escuro, de motivo geométrico e provável fabrico coimbrão. O teto abobadado, recoberto por caixotões de madeira, apresenta rica ornamentação em que predominam mascarões, flores e motivos alusivos ao orago (Borges, 1992, p. 352).  
São treze as capelas que se vão construindo ao longo do século XVII, número excecionalmente elevado quando se compara com os outros edifícios monásticos. Este facto deve-se ao posicionamento da cozinha, refeitório e antigos dormitórios no piso superior. De realçar a capela construída em 1602, e dedicada a São João Batista, pela sua monumentalidade e por ser a mais próxima do acesso ao coro da igreja. A entrada desta capela faz-se por um portal em arco de volta perfeita, assente em capiteis e pilastras decorados com motivos vegetalistas, zoomórficos e querubins. O entablamento é apoiado em pilastras com plinto alto, mantendo o mesmo padrão decorativo. Acima do entablamento, observa-se uma placa com inscrição, rodeada por homens desnudados, aparentemente índios do Brasil, que seguram aves exóticas. No fecho do arco surge um brasão com o cordeiro místico. Nas cantoneiras, dois medalhões vazados, adornados com pequenos cordeiros, auxiliavam a iluminação do espaço. No interior, as paredes laterais encontram-se forradas a azulejo branco e azul escuro, de motivo geométrico e provável fabrico coimbrão. O teto abobadado, recoberto por caixotões de madeira, apresenta rica ornamentação em que predominam mascarões, flores e motivos alusivos ao orago (Borges, 1992, p. 352).


=== As zonas de fronteira ===


A maior campanha de remodelação iniciou-se durante o abadessado de D. Serafina Câmara, em 1677 (Borges, 1992, p. 322), com a requalificação dos locais de maior vulnerabilidade e que podiam fazer perigar o regime de clausura: a portaria, o locutório e o portal da igreja. A portaria e o locutório, situados na ala nordeste, ficaram integrados num novo corpo do edifício, de forma retangular com três pisos e vãos regulares de sacada e moldura em pedra. Este edifício foi destinado ao noviciado, já que a procura de Lorvão por elementos da nobreza estava novamente a aumentar. O noviciado, obrigatório a partir do século XIII, é o período de iniciação à vida monástica, que através de um percurso de provação, contemplação e perfeição evangélica põe à prova a vocação das candidatas e assegura a livre opção por uma vida dedicada a alcançar a visão celestial de Deus (Borges, 1992, p. 691-692). As obras de construção do novo noviciário iniciam-se no abadessado de D. Filipa da Cunha Meneses, quando em 1728, é mandado vir de Arouca para desenhar as plantas o arquiteto de Cister Fr. Alexandre de São João. O edifício teria de prover às noviças todas as dependências necessárias: celas, sala de estudo e aula, sala capitular, capela, cozinha, refeitório e instalações para higiene pessoal (Borges, 1992, p. 701-704). Esta ala do mosteiro, harmonizava com a fachada do dormitório e com a sua orgânica espacial. O noviciário foi inaugurado e benzido pelo D. Abade Geral, Fr. Nuno Mascarenhas, em 22 de agosto de1737 (Borges, 1992, p. 709).
A maior campanha de remodelação iniciou-se durante o abadessado de D. Serafina Câmara, em 1677 (Borges, 1992, p. 322), com a requalificação dos locais de maior vulnerabilidade e que podiam fazer perigar o regime de clausura: a portaria, o locutório e o portal da igreja. A portaria e o locutório, situados na ala nordeste, ficaram integrados num novo corpo do edifício, de forma retangular com três pisos e vãos regulares de sacada e moldura em pedra. Este edifício foi destinado ao noviciado, já que a procura de Lorvão por elementos da nobreza estava novamente a aumentar. O noviciado, obrigatório a partir do século XIII, é o período de iniciação à vida monástica, que através de um percurso de provação, contemplação e perfeição evangélica põe à prova a vocação das candidatas e assegura a livre opção por uma vida dedicada a alcançar a visão celestial de Deus (Borges, 1992, p. 691-692). As obras de construção do novo noviciário iniciam-se no abadessado de D. Filipa da Cunha Meneses, quando em 1728, é mandado vir de Arouca para desenhar as plantas o arquiteto de Cister Fr. Alexandre de São João. O edifício teria de prover às noviças todas as dependências necessárias: celas, sala de estudo e aula, sala capitular, capela, cozinha, refeitório e instalações para higiene pessoal (Borges, 1992, p. 701-704). Esta ala do mosteiro, harmonizava com a fachada do dormitório e com a sua orgânica espacial. O noviciário foi inaugurado e benzido pelo D. Abade Geral, Fr. Nuno Mascarenhas, em 22 de agosto de1737 (Borges, 1992, p. 709).
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=== Dormitório ===
=== Dormitório ===
O grande dormitório do Lorvão, de orientação nascente-poente, é um exemplo da modernização destas dependências. Com a publicação da bula ''In Suprema'', pelo papa Alexandre VII, em 1666, os cistercienses têm autorização para construir celas individuais nos dormitórios. Essa modificação foi adotada aquando do início da sua construção no Lorvão, em 1681. A localização das celas deveria estar na proximidade da igreja para facilitar o acesso ao coro das monjas nos ofícios noturnos. De grande fachada majestosa voltada para a povoação, com três pisos, o novo dormitório possui linhas marcadamente horizontais, ritmadas por múltiplas janelas com grades de ferro avançadas. As extensas alas de celas contíguas e paralelas abrem-se para um corredor central. Entre cada bloco de oito celas surge um corredor perpendicular, do tipo de um transepto, com amplas janelas envidraçadas nos topos, para permitir a iluminação das áreas comuns. Os corredores são de cobertura abobadada de berço, em tijolo, e na zona de cruzamento com o "transepto", de abóbada de arestas com florão pétreo central. O pavimento é em ladrilho de tijolo. As celas, de dimensões variáveis em largura, apresentavam uma cobertura em madeira de carvalho em caixotões e pavimento ladrilhado em tijolo. Possuíam, adicionalmente, um catre, estantes em alvenaria e uma janela. Da responsabilidade do mestre de obras Fr. João Salvado, este grande dormitório foi terminado em 1691, no abadessado de D. Teófila de Alvim (Borges, 1992, p. 483-512).
O grande dormitório do Lorvão, de orientação nascente-poente, é um exemplo da modernização destas dependências. Com a publicação da bula ''In Suprema'', pelo papa Alexandre VII, em 1666, os cistercienses têm autorização para construir celas individuais nos dormitórios. Essa modificação foi adotada aquando do início da sua construção no Lorvão, em 1681. A localização das celas deveria estar na proximidade da igreja para facilitar o acesso ao coro das monjas nos ofícios noturnos. De grande fachada majestosa voltada para a povoação, com três pisos, o novo dormitório possui linhas marcadamente horizontais, ritmadas por múltiplas janelas com grades de ferro avançadas. As extensas alas de celas contíguas e paralelas abrem-se para um corredor central. Entre cada bloco de oito celas surge um corredor perpendicular, do tipo de um transepto, com amplas janelas envidraçadas nos topos, para permitir a iluminação das áreas comuns. Os corredores são de cobertura abobadada de berço, em tijolo, e na zona de cruzamento com o "transepto", de abóbada de arestas com florão pétreo central. O pavimento é em ladrilho de tijolo. As celas, de dimensões variáveis em largura, apresentavam uma cobertura em madeira de carvalho em caixotões e pavimento ladrilhado em tijolo. Possuíam, adicionalmente, um catre, estantes em alvenaria e uma janela. Da responsabilidade do mestre de obras Fr. João Salvado, este grande dormitório foi terminado em 1691, no abadessado de D. Teófila de Alvim (Borges, 1992, p. 483-512).
[[File:Portal da igreja 04-2025.jpg|alt=Portal da igreja|thumb|284x284px|'''Portal da igreja''']]
[[File:Arca tumular direita Santa Rainha 04-2025.jpg|alt=Arca tumular de Santa Rainha|thumb|287x287px|Arca tumular em prata, retábulo em talha dourada]]


=== Igreja ===
=== Igreja ===
A igreja do mosteiro do Lorvão, de grande complexidade na evolução das suas formas arquitetónicas e decorativas, é atualmente, o resultado do traço do arquiteto Mateus Vicente de Oliveira, que em 1747-1748 iniciou a segunda grande remodelação da igreja medieval. O acesso ao cenóbio faz-se pelo extremo nordeste da fachada principal, na continuidade da fachada do dormitório. Um portal em arco abatido, profundo, apoiado em pilastras e ladeado por outras pilastras geminadas rematadas por bolas monumentaliza a entrada. A encimar o arco, surge uma pedra de armas sobrepujada com coroa e, sobre ela, um nicho ocupado por escultura de vulto, centrado por janelas engradadas e com frontões triangulares. No seu interior, a igreja de nave única e planta longitudinal, divide-se em dois tramos, aos quais se segue um transepto inscrito e a capela-mor. A nave de cobertura abobadada, possui altares laterais com retábulos enquadrados por arcos de volta perfeita, sobre os quais corre uma galeria com tribunas gradeadas. No cruzeiro, abre-se uma cúpula semicircular, com lanternim e oito janelas no tambor. A capela-mor tem uma grande exuberância arquitetónica e influência do barroco joanino do convento de Mafra, em cujo estaleiro Mateus Vicente de Oliveira foi discípulo e arquiteto (Queiroz, 2013).  O altar-mor, em pedra, é ladeado colunas isentas que suportam frontão triangular ondulante, ao gosto borrominiano, e o tímpano está preenchido por cabeças de querubins esculpidas acompanhadas pelo seu resplendor. Acima do frontão ergue-se um Cristo na cruz. Lateralmente às colunas, abrem-se vãos de iluminação abaixo da cornija, também ela com movimento de projeção e recuo. Nos muros laterais da capela-mor situam-se os retábulos dedicados às Santas Rainhas, com as urnas em prata de D. Teresa e D. Sancha, fabricados em 1714-1715, pelo ourives portuense Manuel Carneiro da Silva. Estes retábulos, em talha dourada, são enquadrados por colunas torsas e pilastras e recobertos por arco contracurvado, rematado pelas armas das infantas.
A igreja do mosteiro do Lorvão, de grande complexidade na evolução das suas formas arquitetónicas e decorativas, é


A nave da igreja encontra-se separada do coro das monjas por grade de ferro e bronze em losangos. Esta zona reservada às enclausuradas, de planta retangular, cobertura abobadada e área semelhante à da igreja, é atribuída ao Mestre Gaspar Ferreira, entalhador de Coimbra, que, em 1747, teria já terminado o cadeiral das religiosas. Este cadeiral, em madeira de jacarandá e nogueira, com mascarões e figuras de santos esculpidas, é composto por 102 cadeiras em duas ordens e espaldar alto dividido por pilastras com mísulas. A iluminação do coro é feita por grande janela termal e vãos ritmados acima do cadeiral.  Na transição entre a nave e o coro e acima da arcada que enquadra o gradeamento, eleva-se um monumental órgão de dupla fachada. (Fig. 17)
[[File:Portal da igreja 04-2025.jpg|alt=Portal da igreja|thumb|284x284px|'''Portal da igreja''']]
atualmente, o resultado do traço do arquiteto Mateus Vicente de Oliveira, que em 1747-1748 iniciou a segunda grande remodelação da igreja medieval. O acesso ao cenóbio faz-se pelo extremo nordeste da fachada principal, na continuidade da fachada do dormitório. Um portal em arco abatido, profundo, apoiado em pilastras e ladeado por outras pilastras geminadas rematadas por bolas monumentaliza a entrada. A encimar o arco, surge uma pedra de armas sobrepujada com coroa e, sobre ela, um nicho ocupado por escultura de vulto, centrado por janelas engradadas e com frontões triangulares. No seu interior, a igreja de nave única e planta longitudinal, divide-se em dois tramos, aos quais se segue um transepto inscrito e a capela-mor. A nave de cobertura abobadada, possui altares laterais com retábulos enquadrados por arcos de volta perfeita, sobre os quais corre uma galeria com tribunas gradeadas. No cruzeiro, abre-se uma cúpula semicircular, com lanternim e oito janelas no tambor. A capela-mor tem uma grande exuberância arquitetónica e influência do barroco joanino do convento de Mafra, em cujo estaleiro Mateus Vicente de Oliveira foi discípulo e arquiteto (Queiroz, 2013).  O altar-mor, em pedra, é ladeado colunas isentas que suportam frontão triangular ondulante, ao gosto borrominiano, e o tímpano está preenchido por cabeças de querubins esculpidas acompanhadas pelo seu resplendor. Acima do frontão ergue-se um Cristo na cruz. Lateralmente às colunas, abrem-se vãos de iluminação abaixo da cornija, também ela com movimento de projeção e recuo. Nos muros laterais da capela-mor situam-se os retábulos dedicados às Santas Rainhas, com as urnas em prata de D. Teresa e D. Sancha,  [[File:Arca tumular direita Santa Rainha 04-2025.jpg|alt=Arca tumular de Santa Rainha|thumb|287x287px|Arca tumular em prata, retábulo em talha dourada]]fabricados em 1714-1715, pelo ourives portuense Manuel Carneiro da Silva. Estes retábulos, em talha dourada, são enquadrados por colunas torsas e pilastras e recobertos por arco contracurvado, rematado pelas armas das infantas.A nave da igreja encontra-se separada do coro das monjas por grade de ferro e bronze em losangos. Esta zona reservada às enclausuradas, de planta retangular, cobertura abobadada e área semelhante à da igreja, é atribuída ao Mestre Gaspar Ferreira, entalhador de Coimbra, que, em 1747, teria já terminado o cadeiral das religiosas. Este cadeiral, em madeira de jacarandá e nogueira, com mascarões e figuras de santos esculpidas, é composto por 102 cadeiras em duas ordens e espaldar alto dividido por pilastras com mísulas. A iluminação do coro é feita por grande janela termal e vãos ritmados acima do cadeiral.  Na transição entre a nave e o coro e acima da arcada que enquadra o gradeamento, eleva-se um monumental órgão de dupla fachada. (Fig. 17)  


A igreja que hoje se encontra é o somatório de uma primeira transformação do cenóbio medieval, iniciada no abadessado de D. Margarida da Silveira, com as reformas do século XVIII. Esta inicial requalificação constou, essencialmente, de melhoramentos no seu interior, de forma a ser consentânea com o gosto estilístico da época. Para esta empreitada, em que a igreja sofreu tratamento com azulejo, pintura e retábulos com talha, foram contratados artífices de grande qualidade e com experiência em importantes estaleiros de obra a nível nacional, nomeadamente no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, e no colégio de São Lourenço, no Porto. A reformulação começou com a criação de um arco em pedra de Ançã para colocação dos túmulos pétreos de D. Teresa e D. Sancha, o portal da grade do coro e a execução do retábulo, pinturas e talha na capela-mor. Com D. Maria de Sousa, pelo ano de 1632, procedeu-se ao revestimento azulejar da igreja e do coro. Os azulejos, fabricados em Lisboa, eram do tipo de tapete e com padronagem azul, amarela e branca, dos quais existem apenas vestígios (Borges, 1992, pp. 455-456). Novos retábulos foram realizados, sendo de salientar o da Nossa Senhora da Vida, pela primazia de devoção da comunidade e o da capela de São João Batista. Estando em curso o processo de beatificação das rainhas D. Teresa e D. Sancha, o culto destas santas tornou-se central no mosteiro. Ergueu-se de um retábulo com painéis pintados a englobar o arco que continha os sarcófagos e a criação das imagens das santas em madeira pintada e estofada, ainda presentes na igreja (Borges, 1992, p. 459). A iluminação, escassa na igreja medieval, foi reforçada com a compra de castiçais, lampadários e de um candelabro de grandes dimensões, com setenta lumes, em 1675. Na pintura, salientam-se o óleo sobre madeira, subjugado ao tema do Pentecostes, que plagia uma obra homónima de Vasco Fernandes, executada em 1534-1535 para o mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra, um óleo sobre tela com o tema da Conversão de São Paulo, baseado nos frescos de Miguel Ângelo para a capela Paulina e dois exemplares atribuídos ao pintor André Reinoso, Santa Franca e ''Lactatio'' de São Bernardo, com tratamento de luz muito próximo a Zurbaran (Borges, 1992, pp. 458-469). Pratas em frontais de altares, nas grades do comungatório, lampadários, adornos das santas e alfaias litúrgicas completavam o muito extenso património artístico da época barroca do mosteiro, do qual já pouco subsiste. A empreitada de obras da igreja, desenvolvida em meados do século XVIII, levou a uma grande reforma arquitetónica, mas também artística, que se enquadrava no gosto e na forma de sentir dos crentes. Apelando aos sentidos da visão, da audição e do olfato, o espetáculo religioso compelia à participação fervorosa do espectador. Desta forma, os douramentos em talha tornaram-se uma prioridade e aos anteriores retábulos adicionaram-se múltiplos novos elementos. A principal transformação deu-se, em 1698 na capela-mor, com a substituição do retábulo criado 75 anos antes, por um trono eucarístico, da responsabilidade do Fr. João do Espírito Santo, cisterciense de Alcobaça, do mestre entalhador leiriense Manuel Ferreira e do dourador Francisco Pereira, de Coimbra (Borges, 1992, p. 575).  
A igreja que hoje se encontra é o somatório de uma primeira transformação do cenóbio medieval, iniciada no abadessado de D. Margarida da Silveira, com as reformas do século XVIII. Esta inicial requalificação constou, essencialmente, de melhoramentos no seu interior, de forma a ser consentânea com o gosto estilístico da época. Para esta empreitada, em que a igreja sofreu tratamento com azulejo, pintura e retábulos com talha, foram contratados artífices de grande qualidade e com experiência em importantes estaleiros de obra a nível nacional, nomeadamente no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, e no colégio de São Lourenço, no Porto. A reformulação começou com a criação de um arco em pedra de Ançã para colocação dos túmulos pétreos de D. Teresa e D. Sancha, o portal da grade do coro e a execução do retábulo, pinturas e talha na capela-mor. Com D. Maria de Sousa, pelo ano de 1632, procedeu-se ao revestimento azulejar da igreja e do coro. Os azulejos, fabricados em Lisboa, eram do tipo de tapete e com padronagem azul, amarela e branca, dos quais existem apenas vestígios (Borges, 1992, pp. 455-456). Novos retábulos foram realizados, sendo de salientar o da Nossa Senhora da Vida, pela primazia de devoção da comunidade e o da capela de São João Batista. Estando em curso o processo de beatificação das rainhas D. Teresa e D. Sancha, o culto destas santas tornou-se central no mosteiro. Ergueu-se de um retábulo com painéis pintados a englobar o arco que continha os sarcófagos e a criação das imagens das santas em madeira pintada e estofada, ainda presentes na igreja (Borges, 1992, p. 459). A iluminação, escassa na igreja medieval, foi reforçada com a compra de castiçais, lampadários e de um candelabro de grandes dimensões, com setenta lumes, em 1675. Na pintura, salientam-se o óleo sobre madeira, subjugado ao tema do Pentecostes, que plagia uma obra homónima de Vasco Fernandes, executada em 1534-1535 para o mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra, um óleo sobre tela com o tema da Conversão de São Paulo, baseado nos frescos de Miguel Ângelo para a capela Paulina e dois exemplares atribuídos ao pintor André Reinoso, Santa Franca e ''Lactatio'' de São Bernardo, com tratamento de luz muito próximo a Zurbaran (Borges, 1992, pp. 458-469). Pratas em frontais de altares, nas grades do comungatório, lampadários, adornos das santas e alfaias litúrgicas completavam o muito extenso património artístico da época barroca do mosteiro, do qual já pouco subsiste. A empreitada de obras da igreja, desenvolvida em meados do século XVIII, levou a uma grande reforma arquitetónica, mas também artística, que se enquadrava no gosto e na forma de sentir dos crentes. Apelando aos sentidos da visão, da audição e do olfato, o espetáculo religioso compelia à participação fervorosa do espectador. Desta forma, os douramentos em talha tornaram-se uma prioridade e aos anteriores retábulos adicionaram-se múltiplos novos elementos. A principal transformação deu-se, em 1698 na capela-mor, com a substituição do retábulo criado 75 anos antes, por um trono eucarístico, da responsabilidade do Fr. João do Espírito Santo, cisterciense de Alcobaça, do mestre entalhador leiriense Manuel Ferreira e do dourador Francisco Pereira, de Coimbra (Borges, 1992, p. 575).  
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Para o douramento restante de toda a igreja e do coro, foi contratado o mestre Mateus Nunes de Oliveira, do Porto, em 1708. Outra das obras marcantes do mosteiro é o órgão de dupla face, que monumentaliza a zona nobre das religiosas e a nave da igreja. De tradição cisterciense enraizada, a música teve uma presença muito forte no Lorvão, com monjas que muito se distinguiram nessa arte (Borges, 1992, p. 600). Graças aos aperfeiçoamentos técnicos, o órgão rapidamente substituiu os pequenos instrumentos no esplendor das cerimónias litúrgicas. Um pequeno órgão de armário (realejo) do século XVII, com portas pintadas por João Alves, em 1773, ainda se encontra na sacristia do mosteiro. Contudo, a grandiosidade religiosa exigia um órgão de igual imponência, pelo que a abadessa D. Cecília Sá e Castro contratou, em 1719, os mestres organeiros de Monção, Calisto de Barros Pereira e Francisco João, e mais tarde, Teodósio Hensberg e complementados com o risco da nova caixa do arquiteto Gaspar Ferreira e de entalhadores vindos da Universidade de Coimbra (Borges, 1992, pp. 607-618). No século XVIII, deu-se o triunfo do Barroco no Mosteiro do Lorvão.  
Para o douramento restante de toda a igreja e do coro, foi contratado o mestre Mateus Nunes de Oliveira, do Porto, em 1708. Outra das obras marcantes do mosteiro é o órgão de dupla face, que monumentaliza a zona nobre das religiosas e a nave da igreja. De tradição cisterciense enraizada, a música teve uma presença muito forte no Lorvão, com monjas que muito se distinguiram nessa arte (Borges, 1992, p. 600). Graças aos aperfeiçoamentos técnicos, o órgão rapidamente substituiu os pequenos instrumentos no esplendor das cerimónias litúrgicas. Um pequeno órgão de armário (realejo) do século XVII, com portas pintadas por João Alves, em 1773, ainda se encontra na sacristia do mosteiro. Contudo, a grandiosidade religiosa exigia um órgão de igual imponência, pelo que a abadessa D. Cecília Sá e Castro contratou, em 1719, os mestres organeiros de Monção, Calisto de Barros Pereira e Francisco João, e mais tarde, Teodósio Hensberg e complementados com o risco da nova caixa do arquiteto Gaspar Ferreira e de entalhadores vindos da Universidade de Coimbra (Borges, 1992, pp. 607-618). No século XVIII, deu-se o triunfo do Barroco no Mosteiro do Lorvão.  


'''Imagens'''<gallery>
== Imagens ==
File:Claustro 04-2025.jpg|'''Claustro'''
=== Fachada ===
File:Coro 04-2025.jpg|'''Coro'''
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File:Fachada 04-2025.jpg|'''Fachada do mosteiro'''
File:Fachada do dormitório 04-2025.jpg|'''Fachada do dormitório'''
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=== Claustro ===
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File:Claustro 04-2025.jpg|'''Pátio central'''
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File:Claustro- capela devocional1 04-2025.jpg|'''Capela devocional'''
File:Claustro- capela devocional 04-2025.jpg|'''Capela devocional'''
File:Claustro- capela devocional2 04-2025.jpg|'''Capela devocional'''
</gallery><gallery>
File:Claustro-capela de Sâo João Batista 04-2025.jpg|'''Capela de Sâo João Batista'''
File:Cobertura da capela São João Batista.jpg|'''Cobertura da capela de São João Batista'''
File:Pormenor capela de São João Batista 04-2025.jpg|'''Pormenor da capela de São João Batista'''
File:Claustro-Capela São João Batista 04-2025.jpg|'''Vista do claustro a partir da capela São João Batista'''
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=== Igreja ===
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File:Igreja 04-2025.jpg|'''Igreja'''
File:Igreja 04-2025.jpg|'''Igreja'''
File:Fachada 04-2025.jpg|'''Fachada'''
File:Fachada do dormitório 04-2025.jpg|'''Fachada do dormitório'''
File:Retábulo da capela-mor 04-2025.jpg|'''Retábulo da capela-mor'''
File:Retábulo da capela-mor 04-2025.jpg|'''Retábulo da capela-mor'''
File:Cúpula 04-2025.jpg|'''Cúpula'''
File:Grade do coro 04-2025.jpg|'''Grade que separa a igreja do coro'''
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=== Coro ===
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File:Coro 04-2025.jpg|'''Coro'''
File:Coro das monjas com cadeiral 04-2025.jpg|'''Cadeiral do coro'''
File:Coro- vista através da grade 04-2025.jpg|'''Coro- vista através da grade'''
File:Orgão, vista do coro 04-2025.jpg|'''Orgão, vista do coro'''
File:Orgão, vista do coro 04-2025.jpg|'''Orgão, vista do coro'''
File:Grade do coro 04-2025.jpg|'''Grade do coro'''
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File:Claustro-capela de Sâo João Batista 04-2025.jpg|'''Claustro-capela de Sâo João Batista'''
 
File:Cobertura da capela São João Batista.jpg|'''Cobertura da capela São João Batista'''
=== Sacristia ===
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File:Claustro-Capela São João Batista 04-2025.jpg|'''Claustro-Capela São João Batista'''
File:Sacristia 04-2025.jpg|'''Sacristia'''
File:Claustro- capela devocional 04-2025.jpg|'''Claustro- capela devocional'''
File:Realejo 04-2025.jpg|'''Realejo com portas pintadas na sacristia'''
File:Claustro- capela devocional1 04-2025.jpg|'''Claustro- capela devocional'''
File:Retábulo da sacristia 04-2025.jpg|'''Retábulo de painéis pintados na sacristia'''
File:Coro das monjas com cadeiral 04-2025.jpg|'''Coro das monjas com cadeiral'''
</gallery>
File:Realejo 04-2025.jpg|'''Realejo'''
</gallery>'''Bibliografia'''


=== '''Bibliografia''' ===
ANTT. (2024). ''Mosteiro do Lorvão.'' Obtido de Arquivo Nacional Torre do Tombo: <nowiki>https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381036</nowiki>
ANTT. (2024). ''Mosteiro do Lorvão.'' Obtido de Arquivo Nacional Torre do Tombo: <nowiki>https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381036</nowiki>



Edição atual desde as 17h22min de 31 de maio de 2025

Identificação[editar | editar código-fonte]

Designação Mosteiro do Lorvão
Localização Freguesia do Lorvão. Concelho de Penacova, Distrito de Coimbra.

Coordenadas geográficas: 40°15'34"N 8°19'2"O

Cronologia Data de fundação incerta. Considerado o ano de 547, após a descoberta de uma pedra visigótica lavrada, em 1983.

Século XI, mosteiro masculino com adoção da regra beneditina

Século XIII, mosteiro feminino com adoção da regra cisterciense

Séculos XVII e XVIII, grandes reformas arquitetónicas

1834, extinção das ordens monásticas em Portugal, encerramento do noviciário

1887, falecimento da última monja

Classificação Mosteiro feminino cisterciense. Classificação como Monumento Nacional em 1910, por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário da República sob o nº 136 de 23 de junho. IPA.00001598

ZEP: Portaria de 12-11-1960, publicada no DG, II Série, n.º 269, de 18-11-1960

Estado da Arte[editar | editar código-fonte]

O Mosteiro do Lorvão é um edifício monástico cisterciense que representa o que de melhor se fazia do ponto de vista artístico e arquitetónico na época barroca. A este facto que não é alheia a presença da mais alta aristocracia portuguesa entre os seus muros, que contribuía económica e intelectualmente para o esplendor do seu cenóbio. Em meados do século XVIII, é considerado o mosteiro cisterciense feminino mais rico em Portugal.

Foi, na sua fase beneditina durante o século XII, um importante centro de produção de manuscritos iluminados. Alberga os túmulos em prata de Santa Teresa, fundadora do mosteiro feminino do Lorvão, no século XIII, e de Santa Sancha, sua irmã e fundadora do mosteiro de Celas, em Coimbra.

A extinção das ordens religiosas, em 1834, levou à decadência do mosteiro, que passou por múltiplas funções. Foi um dos primeiros edifícios a ser classificado como Monumento Nacional, em 1910. Em meados do século XX, na vigência do Estado Novo, foi transformado em hospital psiquiátrico por Bissaya Barreto. Em 1992, o edifício foi afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico e, em 2016, passou a integrar a lista de imóveis a concessionar a privados para unidades hoteleiras, com previsão de início das obras de requalificação ainda em 2025. O recém-criado Centro Interpretativo do Mosteiro do Lorvão, situado num recuado sobre o primeiro piso do claustro, vai tentando preservar algumas das peças artísticas e a memória daquilo que foi este grandioso edifício.

Enquadramento[editar | editar código-fonte]

Plantas do povoamento do Lorvão. Em: Nogueira F., 2015
Plantas do povoamento do Lorvão. Em: Nogueira F., 2015

O mosteiro situa-se num vale profundo, rodeado de montanhas e na proximidade da ribeira do Lorvão. Encontra-se rodeado por paisagem verdejante, com grande quantidade de arvoredo onde se destacam os loureiros, pinheiros, oliveiras e acácias. A geografia agreste dificultou a fixação de população, sendo o mosteiro, pelas relações económicas, sociais, culturais e religiosas, um fator agregador e de auxílio ao povoamento local.


Descrição[editar | editar código-fonte]

A data de fundação do Mosteiro do Lorvão tem sido alvo de discórdia, mas a descoberta de uma pedra visigótica lavrada, em 1983, tornou o ano de 547 o mais consensual. Após a conquista de Coimbra, por Afonso III de Leão, em 878, o domínio e riqueza de cenóbio foi aumentando até finais do século X, quando a invasão de Almansor o fez perder parte dos seus bens e entrar em declínio. Com a adoção da regra beneditina, em 1086, o mosteiro foi progressivamente recuperando o seu prestígio e agregando património fundiário, passando a ter a possibilidade de atribuir carta de foral aos povoadores que ali se quisessem fixar.

No final do século XII, o scriptorium do Lorvão alcançou grande notoriedade cultural com a produção de manuscritos iluminados. Esta dependência era de grande importância nos mosteiros beneditinos, não só pela necessidade de livros destinados ao ofício divino, mas também de outros de promoção do desenvolvimento espiritual e cultural dos monges (Borges, 1992, p. 140).  São seis os códices laurbanenses recolhidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O “Antifonário”, o “Martirológio ou Lendas de Santos”, ambos muito incompletos, o “Leccionário”, o “Livro das Aves”, de 1183, provável adaptação do bestiário De Bestiis et aliis rebus, escrito por Hugo de Folietono no século XII, o “Comentário de Santo Agostinho aos salmos”, de 1184, e o “Comentário ao Apocalipse” de 1189, cópia do original da autoria do monge asturiano Beato de Liébana. No entanto, no século seguinte, um processo de litígio entre os monges negros e D. Teresa, filha de D. Sancho I, levaria ao afastamento dos beneditinos do seu habitat. D. Teresa, que viu o seu casamento com o rei Afonso IX de Leão anulado pelo papa, por laços de consanguinidade, refugiou-se na vida monástica e tornou-se protetora e administradora das suas propriedades. O prestígio do mosteiro, digno da ex-rainha de Leão, levou a que, em 1211, com autorização papal, a princesa, acompanhada por quarenta religiosas, ocupassem o mosteiro do Lorvão, sob o estatuto da ordem de Cister. O poderio económico e social foi em crescendo, que não é alheio ao acolhimento das suas próprias irmãs, D. Sancha e D. Mafalda, e de senhoras da alta nobreza. Com doações, heranças e aquisições, tornou-se numa das mais ricas casas monásticas do reino. Foi descrito como “de vida fervorosa e regular” pelo abade de Claraval, aquando da sua visita ao mosteiro no ano de 1532, e considerado como sobrelotado de freiras. No entanto, as condições de vida foram-se degradando, particularmente com o atingimento pela peste negra, levando a que no século XVI o número de religiosas diminuísse de forma considerável. Restaram apenas nove monjas, que com o seu empenho permitiram a sobrevivência e a recuperação do estatuto perdido (Fábio Nogueira, 2015). No século seguinte, a reabertura dos noviciários dá um novo alento às instituições cistercienses, que possibilita a renovação moderna, que se distribuiu por duas fases: a do Barroco, cuja maior empreitada foi iniciada em 1630 e que incluiu a construção de novos espaços como a igreja, o coro, o dormitório e a enfermaria, e a do Rococó, presente no coro e na igreja e terminada em 1795 (Borges, 1992). Toda esta expansão e os melhoramentos instituídos no complexo determinaram um crescimento do número de religiosas e, consequentemente, da demografia do lugar do Lorvão. O empenho em conseguir de Roma o reconhecimento do culto das infantas D. Teresa e D. Sancha, em consonância com as disposições tridentinas, levou à beatificação das duas irmãs, em 1705, e ao ímpeto renovador de dignificação dos seus espaços (ANTT, 2024). Em meados do século XVIII, Lorvão afirma-se como o mosteiro cisterciense feminino mais rico em território nacional (Borges, 1992, p. 194), tornando-se uma das principais escolhas de clausura por parte da aristocracia. As reformas ocorridas na Ordem de Cister e substituição do regime de abadessado perpétuo pelo trienal, levaram a uma profunda modificação funcional e administrativa nessas casas. Remodelações das estruturas existentes e criação de outras dependências ocorreram de forma a albergar novas professas e a atualizar os complexos monásticos de ponto de vista estilístico. A primeira abadessa trienal do Lorvão foi eleita em 1603, no entanto, o programa de reformas já se tinha iniciado em 1597, com a renovação do claustro principal.

Reformas da época Barroca[editar | editar código-fonte]

Claustro
Claustro com sobreclaustro
Galeria do claustro
Galeria do claustro

Claustro[editar | editar código-fonte]

Para a casa de Cister, o claustro funciona como local estruturador da vida monástica, estabelecendo a ligação entre todas as partes do edifício. Na perfeição moral idealizada pela Ordem, esta dependência assume-se como o local de onde emana e para onde confluem as energias funcionais e espirituais da congregação. Em estado de visível degradação, o claustro românico foi sofrendo modificações e arranjos desde o início das grandes campanhas de renovação moderna. O claustro do Lorvão, da família da Renascença Coimbrã (Borges, 1992, p. 337), tem uma forma trapezoidal irregular, em que nenhum dos lados é igual, mas esta estranha configuração não é percetível pelas correções óticas impostas pela arquitetura. O claustro divide-se em dois pisos, o térreo de origem medieval e o sobreclaustro, construído em 1677, de acordo com a sensibilidade estética do barroco. A primeira fase de remodelação dá-se no piso térreo, com manutenção da volumetria existente mas com melhoria arquitetónica e de iluminação. Os escritos da religiosa D. Margarida de Vasconcelos atestam a demolição de uma antiga torre para a construção da torre dos sinos e o achado de ossadas aquando o revolvimento de terras para rebaixamento do pátio central. Data desta primeira fase, a construção de três capelas devocionais, entre 1601 e 1603, e pouco mais tarde o assentamento de azulejos murários (Borges, 1992, p. 324). A fase de maior remodelação do claustro dá-se na segunda metade do século XVII, mas os livros de contabilidade monástica reportam despesas associadas a esta dependência durante todo o século XVIII e parte do XIX. Sem barreiras a separar as galerias do pátio central, cada lanço é dividido em três tramos, separados por pilastras estruturais e com aberturas em arco de volta perfeita apoiados em colunas dóricas. O piso superior, com o mesmo número de tramos que o inferior, possui colunas toscanas que apoiam sobre pedestais à altura da balaustrada (Borges, 1992, p. 343). As colunas e balaústres e os telhados avançados, conferem algum caráter de arquitetura militar que se virá a observar em outros claustros portugueses (Borges, 1992, p. 345). O refeitório e cozinha, caracteristicamente na galeria oposta à da igreja, para que os ruídos e os aromas daí emanados não perturbassem quem estava em oração no local de culto, excecionalmente situam-se no piso superior e encontram-se a ser alvo de

Fonte no pátio central do claustro
Fonte no pátio central do claustro

intervenção. No lado oriental do claustro e lateral à igreja, situa-se a sala do capítulo. Esta designação deve-se ao facto de ser nesta dependência onde diariamente se lia e explicava um dos capítulos da Regra de São Bento. A sua remodelação data de meados do século XVII, tem planta trapezoidal e as paredes decoradas com azulejo seiscentista de fabrico lisboeta. O teto em madeira de carvalho é decorado com caixotões e possui retábulo dedicado a São Bento e São Bernardo (Borges, 1992, p. 374). Em Lorvão, apenas a sala do capítulo e o coro das monjas tem abertura direta para o claustro baixo. O pavimento das galerias térreas do claustro possui cerca de duzentas lápides funerárias com inscrições muito simples, maioritariamente o ano da sepultura (Borges, 1992, p. 383). O pátio central, ajardinado, contem uma fonte em forma de obelisco sobre pedestal, decorado com carrancas, rodeada por um tanque de configuração circular, provavelmente contemporâneo com a grande reforma do século XVII. O tanque foi substituído em 1794-1795 (Borges, 1992).

Capela de São João Batista[editar | editar código-fonte]

Capela de São Joao Batista
Capela de São Joao Batista

São treze as capelas que se vão construindo ao longo do século XVII, número excecionalmente elevado quando se compara com os outros edifícios monásticos. Este facto deve-se ao posicionamento da cozinha, refeitório e antigos dormitórios no piso superior. De realçar a capela construída em 1602, e dedicada a São João Batista, pela sua monumentalidade e por ser a mais próxima do acesso ao coro da igreja. A entrada desta capela faz-se por um portal em arco de volta perfeita, assente em capiteis e pilastras decorados com motivos vegetalistas, zoomórficos e querubins. O entablamento é apoiado em pilastras com plinto alto, mantendo o mesmo padrão decorativo. Acima do entablamento, observa-se uma placa com inscrição, rodeada por homens desnudados, aparentemente índios do Brasil, que seguram aves exóticas. No fecho do arco surge um brasão com o cordeiro místico. Nas cantoneiras, dois medalhões vazados, adornados com pequenos cordeiros, auxiliavam a iluminação do espaço. No interior, as paredes laterais encontram-se forradas a azulejo branco e azul escuro, de motivo geométrico e provável fabrico coimbrão. O teto abobadado, recoberto por caixotões de madeira, apresenta rica ornamentação em que predominam mascarões, flores e motivos alusivos ao orago (Borges, 1992, p. 352).

As zonas de fronteira[editar | editar código-fonte]

A maior campanha de remodelação iniciou-se durante o abadessado de D. Serafina Câmara, em 1677 (Borges, 1992, p. 322), com a requalificação dos locais de maior vulnerabilidade e que podiam fazer perigar o regime de clausura: a portaria, o locutório e o portal da igreja. A portaria e o locutório, situados na ala nordeste, ficaram integrados num novo corpo do edifício, de forma retangular com três pisos e vãos regulares de sacada e moldura em pedra. Este edifício foi destinado ao noviciado, já que a procura de Lorvão por elementos da nobreza estava novamente a aumentar. O noviciado, obrigatório a partir do século XIII, é o período de iniciação à vida monástica, que através de um percurso de provação, contemplação e perfeição evangélica põe à prova a vocação das candidatas e assegura a livre opção por uma vida dedicada a alcançar a visão celestial de Deus (Borges, 1992, p. 691-692). As obras de construção do novo noviciário iniciam-se no abadessado de D. Filipa da Cunha Meneses, quando em 1728, é mandado vir de Arouca para desenhar as plantas o arquiteto de Cister Fr. Alexandre de São João. O edifício teria de prover às noviças todas as dependências necessárias: celas, sala de estudo e aula, sala capitular, capela, cozinha, refeitório e instalações para higiene pessoal (Borges, 1992, p. 701-704). Esta ala do mosteiro, harmonizava com a fachada do dormitório e com a sua orgânica espacial. O noviciário foi inaugurado e benzido pelo D. Abade Geral, Fr. Nuno Mascarenhas, em 22 de agosto de1737 (Borges, 1992, p. 709).

Portaria
Portaria

A portaria traduzia a imagem exterior da instituição, pelo que era, em regra, de grande cuidado arquitetónico. A entrada da portaria é antecedida por uma galeria abobadada com caixotões quadrados com moldura e na fila central, com rosetões. Acede-se a este espaço por abertura em arco abatido apoiado em pilastras dóricas e encimado pela pedra de armas do mosteiro. Ao fundo, porta é sobrepujada por frontão curvo interrompido por nicho central, ocupado por imagem esculpida de São Bernardo. Dois outros pequenos nichos a ladear a porta, acolhem a imagem de D. Teresa, à esquerda e D. Sancha, à direita (Simoes, 2018).

Na mesma cronologia, foi construída a vedação murária que separava o mosteiro dos terrenos envolventes e a cerca.

A necessidade de reduzir o rigor da clausura imposta no pós-Trento imediato, levou à construção de dependências que proporcionassem alguma recreação e espairecimento às monjas. Assim, empreendeu-se a construção de torreões em pontos altos próximos às portarias, com janelas múltiplas, mas protegidas por gelosias, de forma a evitar a visualização das religiosas pelo exterior. A celebração do contrato de edificação do mirante do Lorvão com o mestre de obras Manuel Mesquita, aconteceu em 1636, e a construção deu-se no lugar da antiga torre medieval. Contudo, a construção do novo edifício do dormitório, meio século depois, levou ao seu desaparecimento.

Dormitório[editar | editar código-fonte]

O grande dormitório do Lorvão, de orientação nascente-poente, é um exemplo da modernização destas dependências. Com a publicação da bula In Suprema, pelo papa Alexandre VII, em 1666, os cistercienses têm autorização para construir celas individuais nos dormitórios. Essa modificação foi adotada aquando do início da sua construção no Lorvão, em 1681. A localização das celas deveria estar na proximidade da igreja para facilitar o acesso ao coro das monjas nos ofícios noturnos. De grande fachada majestosa voltada para a povoação, com três pisos, o novo dormitório possui linhas marcadamente horizontais, ritmadas por múltiplas janelas com grades de ferro avançadas. As extensas alas de celas contíguas e paralelas abrem-se para um corredor central. Entre cada bloco de oito celas surge um corredor perpendicular, do tipo de um transepto, com amplas janelas envidraçadas nos topos, para permitir a iluminação das áreas comuns. Os corredores são de cobertura abobadada de berço, em tijolo, e na zona de cruzamento com o "transepto", de abóbada de arestas com florão pétreo central. O pavimento é em ladrilho de tijolo. As celas, de dimensões variáveis em largura, apresentavam uma cobertura em madeira de carvalho em caixotões e pavimento ladrilhado em tijolo. Possuíam, adicionalmente, um catre, estantes em alvenaria e uma janela. Da responsabilidade do mestre de obras Fr. João Salvado, este grande dormitório foi terminado em 1691, no abadessado de D. Teófila de Alvim (Borges, 1992, p. 483-512).

Igreja[editar | editar código-fonte]

A igreja do mosteiro do Lorvão, de grande complexidade na evolução das suas formas arquitetónicas e decorativas, é

Portal da igreja
Portal da igreja

atualmente, o resultado do traço do arquiteto Mateus Vicente de Oliveira, que em 1747-1748 iniciou a segunda grande remodelação da igreja medieval. O acesso ao cenóbio faz-se pelo extremo nordeste da fachada principal, na continuidade da fachada do dormitório. Um portal em arco abatido, profundo, apoiado em pilastras e ladeado por outras pilastras geminadas rematadas por bolas monumentaliza a entrada. A encimar o arco, surge uma pedra de armas sobrepujada com coroa e, sobre ela, um nicho ocupado por escultura de vulto, centrado por janelas engradadas e com frontões triangulares. No seu interior, a igreja de nave única e planta longitudinal, divide-se em dois tramos, aos quais se segue um transepto inscrito e a capela-mor. A nave de cobertura abobadada, possui altares laterais com retábulos enquadrados por arcos de volta perfeita, sobre os quais corre uma galeria com tribunas gradeadas. No cruzeiro, abre-se uma cúpula semicircular, com lanternim e oito janelas no tambor. A capela-mor tem uma grande exuberância arquitetónica e influência do barroco joanino do convento de Mafra, em cujo estaleiro Mateus Vicente de Oliveira foi discípulo e arquiteto (Queiroz, 2013).  O altar-mor, em pedra, é ladeado colunas isentas que suportam frontão triangular ondulante, ao gosto borrominiano, e o tímpano está preenchido por cabeças de querubins esculpidas acompanhadas pelo seu resplendor. Acima do frontão ergue-se um Cristo na cruz. Lateralmente às colunas, abrem-se vãos de iluminação abaixo da cornija, também ela com movimento de projeção e recuo. Nos muros laterais da capela-mor situam-se os retábulos dedicados às Santas Rainhas, com as urnas em prata de D. Teresa e D. Sancha,

Arca tumular de Santa Rainha
Arca tumular em prata, retábulo em talha dourada

fabricados em 1714-1715, pelo ourives portuense Manuel Carneiro da Silva. Estes retábulos, em talha dourada, são enquadrados por colunas torsas e pilastras e recobertos por arco contracurvado, rematado pelas armas das infantas.A nave da igreja encontra-se separada do coro das monjas por grade de ferro e bronze em losangos. Esta zona reservada às enclausuradas, de planta retangular, cobertura abobadada e área semelhante à da igreja, é atribuída ao Mestre Gaspar Ferreira, entalhador de Coimbra, que, em 1747, teria já terminado o cadeiral das religiosas. Este cadeiral, em madeira de jacarandá e nogueira, com mascarões e figuras de santos esculpidas, é composto por 102 cadeiras em duas ordens e espaldar alto dividido por pilastras com mísulas. A iluminação do coro é feita por grande janela termal e vãos ritmados acima do cadeiral.  Na transição entre a nave e o coro e acima da arcada que enquadra o gradeamento, eleva-se um monumental órgão de dupla fachada. (Fig. 17)

A igreja que hoje se encontra é o somatório de uma primeira transformação do cenóbio medieval, iniciada no abadessado de D. Margarida da Silveira, com as reformas do século XVIII. Esta inicial requalificação constou, essencialmente, de melhoramentos no seu interior, de forma a ser consentânea com o gosto estilístico da época. Para esta empreitada, em que a igreja sofreu tratamento com azulejo, pintura e retábulos com talha, foram contratados artífices de grande qualidade e com experiência em importantes estaleiros de obra a nível nacional, nomeadamente no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, e no colégio de São Lourenço, no Porto. A reformulação começou com a criação de um arco em pedra de Ançã para colocação dos túmulos pétreos de D. Teresa e D. Sancha, o portal da grade do coro e a execução do retábulo, pinturas e talha na capela-mor. Com D. Maria de Sousa, pelo ano de 1632, procedeu-se ao revestimento azulejar da igreja e do coro. Os azulejos, fabricados em Lisboa, eram do tipo de tapete e com padronagem azul, amarela e branca, dos quais existem apenas vestígios (Borges, 1992, pp. 455-456). Novos retábulos foram realizados, sendo de salientar o da Nossa Senhora da Vida, pela primazia de devoção da comunidade e o da capela de São João Batista. Estando em curso o processo de beatificação das rainhas D. Teresa e D. Sancha, o culto destas santas tornou-se central no mosteiro. Ergueu-se de um retábulo com painéis pintados a englobar o arco que continha os sarcófagos e a criação das imagens das santas em madeira pintada e estofada, ainda presentes na igreja (Borges, 1992, p. 459). A iluminação, escassa na igreja medieval, foi reforçada com a compra de castiçais, lampadários e de um candelabro de grandes dimensões, com setenta lumes, em 1675. Na pintura, salientam-se o óleo sobre madeira, subjugado ao tema do Pentecostes, que plagia uma obra homónima de Vasco Fernandes, executada em 1534-1535 para o mosteiro de Santa Cruz, de Coimbra, um óleo sobre tela com o tema da Conversão de São Paulo, baseado nos frescos de Miguel Ângelo para a capela Paulina e dois exemplares atribuídos ao pintor André Reinoso, Santa Franca e Lactatio de São Bernardo, com tratamento de luz muito próximo a Zurbaran (Borges, 1992, pp. 458-469). Pratas em frontais de altares, nas grades do comungatório, lampadários, adornos das santas e alfaias litúrgicas completavam o muito extenso património artístico da época barroca do mosteiro, do qual já pouco subsiste. A empreitada de obras da igreja, desenvolvida em meados do século XVIII, levou a uma grande reforma arquitetónica, mas também artística, que se enquadrava no gosto e na forma de sentir dos crentes. Apelando aos sentidos da visão, da audição e do olfato, o espetáculo religioso compelia à participação fervorosa do espectador. Desta forma, os douramentos em talha tornaram-se uma prioridade e aos anteriores retábulos adicionaram-se múltiplos novos elementos. A principal transformação deu-se, em 1698 na capela-mor, com a substituição do retábulo criado 75 anos antes, por um trono eucarístico, da responsabilidade do Fr. João do Espírito Santo, cisterciense de Alcobaça, do mestre entalhador leiriense Manuel Ferreira e do dourador Francisco Pereira, de Coimbra (Borges, 1992, p. 575).

Orgão, vista da igreja
Orgão, vista da igreja

Para o douramento restante de toda a igreja e do coro, foi contratado o mestre Mateus Nunes de Oliveira, do Porto, em 1708. Outra das obras marcantes do mosteiro é o órgão de dupla face, que monumentaliza a zona nobre das religiosas e a nave da igreja. De tradição cisterciense enraizada, a música teve uma presença muito forte no Lorvão, com monjas que muito se distinguiram nessa arte (Borges, 1992, p. 600). Graças aos aperfeiçoamentos técnicos, o órgão rapidamente substituiu os pequenos instrumentos no esplendor das cerimónias litúrgicas. Um pequeno órgão de armário (realejo) do século XVII, com portas pintadas por João Alves, em 1773, ainda se encontra na sacristia do mosteiro. Contudo, a grandiosidade religiosa exigia um órgão de igual imponência, pelo que a abadessa D. Cecília Sá e Castro contratou, em 1719, os mestres organeiros de Monção, Calisto de Barros Pereira e Francisco João, e mais tarde, Teodósio Hensberg e complementados com o risco da nova caixa do arquiteto Gaspar Ferreira e de entalhadores vindos da Universidade de Coimbra (Borges, 1992, pp. 607-618). No século XVIII, deu-se o triunfo do Barroco no Mosteiro do Lorvão.

Imagens[editar | editar código-fonte]

Fachada[editar | editar código-fonte]

Claustro[editar | editar código-fonte]

Igreja[editar | editar código-fonte]

Coro[editar | editar código-fonte]

Sacristia[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

ANTT. (2024). Mosteiro do Lorvão. Obtido de Arquivo Nacional Torre do Tombo: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381036

Borges, N. C. (1992). A arte monástica em Lorvão. Sombras e realidade. Coimbra: Faculdade de Letras Universidade de Coimbra.

Caldeira, A. M. (2021). Mulheres enclausuradas. As ordens religiosas femininas em Portugal nos séculos XVI a XVIII. Alfragide: Casa das Letras.

Fábio Nogueira, C. F. (2015). A evolução do mosteiro e o condicionalismo que impôs ao lugar de Lorvão. Início do processo de regeneração/reabilitação urbana. A Obra Nasce. Revista de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Fernando Pessoa, 9-21.

Freitas, M. N. (2017). O mosteiro como programa funcional e simbólico. Em O experienciar da arquitetura religiosa. Mosteiro de Oseira e Convento do Louriçal. Coimbra: Universidade de Coimbra.

João Cravo, H. B. (2013). Mosteiro de Lorvão. Obtido de Sistema de Informação para o Património Arquitetónico: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1598

Mattoso, J. (2012). O monaquismo medieval português. Monasticon: História e Memória. Livro do VII Encontro Cultural São Cristóvão de Lafões. Lafões: Associação dos Amigos do Mosteiro de São Cristóvão de Lafões.

Maza, C. M. (2018). La dificil convivencia entre hombres y mujeres en el cristianismo primitivo. Em R. T. José Ángel Garcia Cortázar, El monasterio medieval como célula social y espacio de convivencia (pp. 11-31). Aguilar de Campoo: Fundación Santa Maria la Real del Patrimonio Histórico.

Osswald, W. (2012). Mosteiros Cistercienses em Portugal. Pequeno roteiro. Porto: Edições Afrontamento.

Queiroz, M. R. (2013). O arquiteto Mateus Vicente de Oliveira (1706-1785). Uma práxis original na arquitetura portuguesa setecentista. Lisboa: Universidade de Lisboa.

Silva, A. R. (2022). A vida conventual feminina em Portugal nos séculos XVI e XVII: um panorama historiográfico. São Carlos, Brasil: Universidade Federal de São Carlos.

Simoes, D. (2018). Mosteiro de Santa Maria do Lorvão. Memória artística e histórica do imóvel. Programa Revive.