Corpus Christi: diferenças entre revisões
Sem resumo de edição |
Sem resumo de edição |
||
| (Há 4 revisões intermédias de 2 utilizadores que não estão a ser apresentadas) | |||
| Linha 20: | Linha 20: | ||
'''2. ESTADO DA ARTE''' | '''2. ESTADO DA ARTE''' | ||
OO Convento de Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, tem sido objeto de estudo sobretudo no âmbito da arquitetura religiosa pós-tridentina, da história da arte portuguesa e da transformação de espaços monásticos femininos. A literatura académica existente sublinha a singularidade deste edifício dominicano feminino, quer pelo seu valor arquitetónico, quer pela riqueza do seu património artístico integrado. | |||
As investigações focam-se, em grande parte, nas transformações ocorridas após o Concílio de Trento, período em que os espaços religiosos foram profundamente adaptados às novas exigências da clausura monástica, da ortodoxia católica e das funções pedagógicas e devocionais próprias da espiritualidade da Contrarreforma (Marçal, 2011; Ferreira Alves, 1984). A igreja de planta centralizada octogonal, concebida pelo padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, e o Coro Alto, com o seu cadeiral ricamente ornamentado, são elementos centrais na análise das obras de reforma e reafirmação da identidade dominicana. | |||
Luísa Rodrigues e, sobretudo, Fernando Manuel Campos de Sá Mota constituem referências incontornáveis para a compreensão da evolução do convento. A obra de Mota (2016), em particular, conjuga a análise arquitetónica com a leitura histórico-religiosa, oferecendo uma perspetiva abrangente sobre as diversas fases de construção, ampliação e reconfiguração do espaço, bem como sobre o papel desempenhado pelas religiosas dominicanas na vida espiritual e educativa da cidade de Gaia. | |||
Paralelamente, autores como Raúl Rolo, Rute Rodrigues e Geraldo Dias têm vindo a aprofundar o estudo do monaquismo e das unidades monásticas femininas em Portugal, contribuindo para uma melhor contextualização do Convento de Corpus Christi no panorama mais vasto das instituições religiosas femininas. Estes estudos sublinham a função social e educativa dos conventos, a par do seu papel na consolidação do catolicismo pós tridentino. | |||
A reconversão contemporânea do convento em espaço cultural e museológico tem também despertado interesse no domínio da reabilitação patrimonial e da valorização de imóveis classificados. Investigadores como Helena Marçal (2011) têm contribuído com estudos focados na conservação e restauro da talha dourada do cadeiral do Coro Alto, demonstrando a relevância do convento enquanto testemunho artístico e devocional do barroco conventual. | |||
Além disso, autores como Joaquim Ferreira Alves (1984) analisam as campanhas artísticas e decorativas do século XVII, realçando a colaboração de mestres como Gregório Fernandes, responsável por elementos do mobiliário litúrgico, e a influência posterior de Nicolau Nasoni na fachada da igreja. Estas contribuições permitem uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas artísticas que moldaram o espaço ao longo do tempo. | |||
Assim, o conjunto de estudos disponíveis permite construir uma visão integrada do Convento de Corpus Christi — não apenas enquanto monumento artístico, mas como síntese de vivências religiosas, sociais e culturais, cuja leitura exige um diálogo entre arquitetura, história, arte e espiritualidade. | |||
'''3. ENQUADRAMENTO''' | '''3. ENQUADRAMENTO''' | ||
| Linha 33: | Linha 45: | ||
'''4. DESCRIÇÃO''' | '''4. DESCRIÇÃO''' | ||
Os estudos relativos ao | Os estudos relativos ao Convento de Corpus Christi destacam a importância do espaço dominicano feminino e as várias obras e modificações por que passou ao longo do tempo, nomeadamente devido às grandes cheias do rio Douro. Segundo Marçal, “desde a sua fundação, o convento sofreu as consequências da proximidade do rio Douro. Em inúmeras ocasiões as cheias impediram a utilização da igreja, afetaram dormitórios, claustro e cerca, provocando problemas estruturais e elevados custos em reparações que abalam as precárias finanças das religiosas” (Marçal, 2011, p. 103). Entre as cheias que ocorreram, destacam-se as de 1625, que cobriu parte da igreja, dormitórios e claustros, e a de 1727. Com a degradação do edifício, sentiu-se a necessidade urgente de realizar obras profundas, que acabaram por alterar significativamente as linhas originais do convento e até o local onde este se encontrava inicialmente instalado. | ||
A primitiva igreja do convento sofreu uma degradação gradual devido às constantes cheias do rio Douro, o que motivou a construção de um novo templo na segunda metade do século XVII. A traça foi concebida pelo padre '''Pantaleão da Rocha de Magalhães''', uma figura com várias intervenções arquitetónicas no Porto e seus arredores (Ferreira Alves, 1984, p. 250). A nova igreja seguiu o modelo do Mosteiro do Bom Sucesso de Santa Maria de Belém, em Lisboa, também da Ordem Dominicana, com adaptações ao espaço disponível e às necessidades da comunidade religiosa, nomeadamente nos coros, atribuídas a '''Gregório Fernandes''' (Ferreira Alves, 1984, p. 253). No século XVIII, foi construída a fachada barroca que antecede o portal da igreja, onde é notória a influência de Nicolau Nasoni. | |||
A | A nova igreja, agora edificada em cota mais elevada (ainda que em área mais reduzida), permitiu ao arquiteto a concretização de uma planta centralizada octogonal, abobadada ao centro, com capela-mor a nascente e coros a poente — solução arquitetónica que adapta o espaço à geometria simbólica do octógono, figura associada à ressurreição e à Nova Criação Redimida (Coelho, 1997, pp. 134–135). A organização interna é marcada pela presença de uma nave única e dois coros, permitindo a participação das religiosas nos ofícios religiosos, mesmo em regime de clausura (Marçal, 2011, p. 103). Esta configuração reflete não apenas a funcionalidade, mas também os valores simbólicos e espirituais da vivência conventual dominicana. | ||
A igreja | A sobriedade das fachadas exteriores contrasta com a riqueza decorativa do interior da igreja. Destaca-se o coro alto, de traça barroca, com um notável cadeiral em talha dourada, pintura mural e retábulos. O esforço construtivo para garantir a suspensão da cúpula de pedra exigiu muros robustos, capazes de suportar o empuxo da abóbada, ao mesmo tempo que se pretendia manter uma sensação de leveza espacial. Além da talha, merece destaque a pintura ilusionista que decora as pilastras, o entablamento e a abóbada, conferindo brilho e complexidade a um espaço que, de outro modo, seria decorativamente comedido (Rodrigues, 1998, p. 71). De facto, trata-se de um dos melhores exemplos do barroco conventual no norte do país, pela qualidade do programa decorativo integrado (Ferreira Alves, 1984, p. 250). | ||
Segundo inventários realizados antes da extinção do convento, havia cerca de 90 imagens ou conjuntos de imagens, bem como mais de 30 quadros, distribuídos não só pelos cinco altares fixos da igreja, mas também pelos altares dos coros, pelos claustros e pela portaria (Ferreira Alves, 1984, p. 251). | |||
A fachada da igreja | A fachada da igreja constitui a estrutura mais elaborada em termos decorativos, refletindo o gosto artístico vivido no Porto durante o século XVIII. Nicolau Nasoni, chegado à cidade em 1725, influenciou fortemente a arquitetura portuense com obras como a Igreja dos Clérigos, o Palácio do Freixo, a fachada da Santa Casa da Misericórdia e a Igreja de Santa Marinha, todas próximas do Convento de Corpus Christi. Vários investigadores atribuem-lhe a autoria da fachada da igreja, concluída por volta de 1745 (Mota, 2016, p. 73). | ||
O elemento mais relevante do património integrado do convento é o Coro Alto, | O elemento mais relevante do património integrado do convento é, sem dúvida, o Coro Alto, tanto pelo seu valor litúrgico como pela sua excecional riqueza artística. O cadeiral, atribuído ao entalhador Domingos Lopes, é executado em madeira de nogueira de Bordéus e compõe-se de três séries de assentos levadiços, decorados com misericórdias figurativas: animais, seres fantásticos e figuras humanas. Estes elementos refletem não só a criatividade artística, mas também possíveis influências do imaginário do Império Ultramarino, visíveis na representação de negros, exóticos e elementos vegetais (Ferreira Alves, 1984, pp. 250–252; C.M. Vila Nova de Gaia, 2025). | ||
O espaldar do cadeiral é constituído por catorze telas com temática dominante dominicana, incluindo representações de Santo António de Lisboa e Santa Joana Princesa. O espaço é guarnecido por talha vegetalista e o teto é composto por 49 caixotões pintados a óleo sobre madeira. Estes apresentam figuras de santos da Ordem Dominicana e de outras ordens, sendo os quinze painéis centrais alusivos aos Mistérios do Rosário — tema de particular devoção na espiritualidade dominicana (C.M. Vila Nova de Gaia, 2025; Ferreira Alves, 1984, p. 253). | |||
A pintura e a imaginária da igreja — visíveis no espaldar, nos caixotões e nos retábulos — inserem-se plenamente no contexto da espiritualidade da Ordem, representando os principais temas devocionais: o Santo Rosário, o Nome de Jesus e a Eucaristia (Ferreira Alves, 1984, pp. 253–254). Este programa iconográfico, coerente e intencional, expressa a função pedagógica e meditativa dos espaços conventuais, em consonância com o espírito da Contrarreforma. | |||
A preservação destes elementos ao longo das sucessivas intervenções reflete o cuidado com a conservação do património artístico integrado do convento, espelhando um equilíbrio entre o respeito pelo legado histórico e a adaptação às necessidades contemporâneas (SIPA, 2008). | |||
. | . | ||
'''5. IMAGENS E ICONOGRAFIA DO OBJETO''' | '''5. IMAGENS E ICONOGRAFIA DO OBJETO''' | ||
[[File:Coro alto do convento Corpus Christi.jpg|left|thumb|283x283px|Coro Alto]] | [[File:Coro alto do convento Corpus Christi.jpg|left|thumb|283x283px|Coro Alto]] | ||
[[File:Pinturas do Coro Alto do Convento de Corpus Christi.jpg|thumb|227x227px|Pinturas do Coro Alto|center]] | |||
[[File:Altar-mor do convento de Corpus Christi.jpg|left|thumb|Altar-mor]] | |||
[[File:Igreja do Convento de Corpus Christi.jpg|thumb|284x284px|Interior da igreja]]<br /> | |||
| Linha 66: | Linha 85: | ||
| Linha 124: | Linha 142: | ||
19. FERREIRA ALVES, Joaquim J. B'''.''' ''Algumas obras seiscentistas no Convento de Corpus Christi''. | 19. FERREIRA ALVES, Joaquim J. B'''.''' ''Algumas obras seiscentistas no Convento de Corpus Christi''. | ||
{{DEFAULTSORT:Convento de Corpus Christi}} | |||
Edição atual desde as 10h13min de 31 de maio de 2025

TRABALHO DE PESQUISA
1. IDENTIFICAÇÃO
| Designação | Convento de Corpus Christi |
| Localização | Vila Nova de Gaia |
| Cronologia | século XIV |
| Autor(es) | D. Maria Mendes Petite |
| Classificação | Convento Feminino |
2. ESTADO DA ARTE
OO Convento de Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, tem sido objeto de estudo sobretudo no âmbito da arquitetura religiosa pós-tridentina, da história da arte portuguesa e da transformação de espaços monásticos femininos. A literatura académica existente sublinha a singularidade deste edifício dominicano feminino, quer pelo seu valor arquitetónico, quer pela riqueza do seu património artístico integrado.
As investigações focam-se, em grande parte, nas transformações ocorridas após o Concílio de Trento, período em que os espaços religiosos foram profundamente adaptados às novas exigências da clausura monástica, da ortodoxia católica e das funções pedagógicas e devocionais próprias da espiritualidade da Contrarreforma (Marçal, 2011; Ferreira Alves, 1984). A igreja de planta centralizada octogonal, concebida pelo padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, e o Coro Alto, com o seu cadeiral ricamente ornamentado, são elementos centrais na análise das obras de reforma e reafirmação da identidade dominicana.
Luísa Rodrigues e, sobretudo, Fernando Manuel Campos de Sá Mota constituem referências incontornáveis para a compreensão da evolução do convento. A obra de Mota (2016), em particular, conjuga a análise arquitetónica com a leitura histórico-religiosa, oferecendo uma perspetiva abrangente sobre as diversas fases de construção, ampliação e reconfiguração do espaço, bem como sobre o papel desempenhado pelas religiosas dominicanas na vida espiritual e educativa da cidade de Gaia.
Paralelamente, autores como Raúl Rolo, Rute Rodrigues e Geraldo Dias têm vindo a aprofundar o estudo do monaquismo e das unidades monásticas femininas em Portugal, contribuindo para uma melhor contextualização do Convento de Corpus Christi no panorama mais vasto das instituições religiosas femininas. Estes estudos sublinham a função social e educativa dos conventos, a par do seu papel na consolidação do catolicismo pós tridentino.
A reconversão contemporânea do convento em espaço cultural e museológico tem também despertado interesse no domínio da reabilitação patrimonial e da valorização de imóveis classificados. Investigadores como Helena Marçal (2011) têm contribuído com estudos focados na conservação e restauro da talha dourada do cadeiral do Coro Alto, demonstrando a relevância do convento enquanto testemunho artístico e devocional do barroco conventual.
Além disso, autores como Joaquim Ferreira Alves (1984) analisam as campanhas artísticas e decorativas do século XVII, realçando a colaboração de mestres como Gregório Fernandes, responsável por elementos do mobiliário litúrgico, e a influência posterior de Nicolau Nasoni na fachada da igreja. Estas contribuições permitem uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas artísticas que moldaram o espaço ao longo do tempo.
Assim, o conjunto de estudos disponíveis permite construir uma visão integrada do Convento de Corpus Christi — não apenas enquanto monumento artístico, mas como síntese de vivências religiosas, sociais e culturais, cuja leitura exige um diálogo entre arquitetura, história, arte e espiritualidade.
3. ENQUADRAMENTO
O Convento de Corpus Christi, também chamado de Mosteiro de S. Domingos das Donas de Vila Nova de Gaia e Instituto do Bom Pastor, localiza-se na zona histórica de Vila Nova de Gaia, junto à margem do rio Douro, sendo uma referência patrimonial de grande relevância no tecido urbano da cidade. A sua implantação estratégica na frente ribeirinha reforça a importância histórica e simbólica do conjunto, relacionando-se visualmente com o Mosteiro da Serra do Pilar e a cidade do Porto (MARÇAL, 2011, p. 102). A zona envolvente tem passado por significativas transformações ao longo do tempo, mas o convento manteve a sua centralidade e identidade arquitetónica.
O mosteiro foi fundado em 1345 por D. Maria Mendes Petite, uma fidalga de Gaia, filha de Soeiro Mendes Petite (foi um nobre e cavaleiro medieval), e mãe de Pero Coelho, um dos responsáveis pelo assassínio de D. Inês de Castro, ela conhecida como “huma Dona muitorica, e nobre” (SOUSA,199, p.603) D. Maria Mendes Petite dedicou o mosteiro ao Augusto Sacramento da Eucaristia, dotou-o de avultados bens e entregou-o à Ordem de São Domingos. Durante a guerra civil de 1832-1834, as monjas de Corpus Christi foram obrigadas a deixar o convento e a refugir-se no Mosteiro de Vairão (1833), regressando ainda em 1834, após o Cerco do Porto. Foi em 1894 que a última residente de Corpus Christi faleceu e todo o edifício passou para a tutela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Domingos de Gusmão. (MOTA,2016, p.43) Sobre a tutela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Domingos de Gusmão e ainda no ano de 1894, passaram a funcionar neste espaço escolas primárias para ambos os sexos, projeto dinamizado pelas irmãs franciscanas hospitaleiras. As funções conventuais extinguiram-se em 1894 com a morte da última freira, Marcelina Cândida Viana.
No ano de 1922, um Alvará do Governo Civil manda encerrar o convento e dissolver a Irmandade, permanecendo este espaço sem qualquer utilização até final da década de 20. Na sequência da reforma do sistema de educação de menores, o Instituto Corpus Christi encerra definitivamente em 2002, revertendo para a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 2003, o convento sofreu recentes obras de remodelação, albergando agora um espaço cultural - o Espaço Corpus Christi - e ainda um pólo de mestrado da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Hoje, é usado como objeto de fruição cultural (exposições de arte, concertos, conferências literárias), mas também de fruição económica e comercial (apresentação de produtos comerciais, de empresas, etc.) - resultou de um complexo edificado ao longo de séculos, ao serviço de uma comunidade de mulheres dedicadas ao sobrenatural e religioso. (MOTA,2016, p.18) Está também classificada como Imóvel de Interesse Público desde 2012.
4. DESCRIÇÃO
Os estudos relativos ao Convento de Corpus Christi destacam a importância do espaço dominicano feminino e as várias obras e modificações por que passou ao longo do tempo, nomeadamente devido às grandes cheias do rio Douro. Segundo Marçal, “desde a sua fundação, o convento sofreu as consequências da proximidade do rio Douro. Em inúmeras ocasiões as cheias impediram a utilização da igreja, afetaram dormitórios, claustro e cerca, provocando problemas estruturais e elevados custos em reparações que abalam as precárias finanças das religiosas” (Marçal, 2011, p. 103). Entre as cheias que ocorreram, destacam-se as de 1625, que cobriu parte da igreja, dormitórios e claustros, e a de 1727. Com a degradação do edifício, sentiu-se a necessidade urgente de realizar obras profundas, que acabaram por alterar significativamente as linhas originais do convento e até o local onde este se encontrava inicialmente instalado.
A primitiva igreja do convento sofreu uma degradação gradual devido às constantes cheias do rio Douro, o que motivou a construção de um novo templo na segunda metade do século XVII. A traça foi concebida pelo padre Pantaleão da Rocha de Magalhães, uma figura com várias intervenções arquitetónicas no Porto e seus arredores (Ferreira Alves, 1984, p. 250). A nova igreja seguiu o modelo do Mosteiro do Bom Sucesso de Santa Maria de Belém, em Lisboa, também da Ordem Dominicana, com adaptações ao espaço disponível e às necessidades da comunidade religiosa, nomeadamente nos coros, atribuídas a Gregório Fernandes (Ferreira Alves, 1984, p. 253). No século XVIII, foi construída a fachada barroca que antecede o portal da igreja, onde é notória a influência de Nicolau Nasoni.
A nova igreja, agora edificada em cota mais elevada (ainda que em área mais reduzida), permitiu ao arquiteto a concretização de uma planta centralizada octogonal, abobadada ao centro, com capela-mor a nascente e coros a poente — solução arquitetónica que adapta o espaço à geometria simbólica do octógono, figura associada à ressurreição e à Nova Criação Redimida (Coelho, 1997, pp. 134–135). A organização interna é marcada pela presença de uma nave única e dois coros, permitindo a participação das religiosas nos ofícios religiosos, mesmo em regime de clausura (Marçal, 2011, p. 103). Esta configuração reflete não apenas a funcionalidade, mas também os valores simbólicos e espirituais da vivência conventual dominicana.
A sobriedade das fachadas exteriores contrasta com a riqueza decorativa do interior da igreja. Destaca-se o coro alto, de traça barroca, com um notável cadeiral em talha dourada, pintura mural e retábulos. O esforço construtivo para garantir a suspensão da cúpula de pedra exigiu muros robustos, capazes de suportar o empuxo da abóbada, ao mesmo tempo que se pretendia manter uma sensação de leveza espacial. Além da talha, merece destaque a pintura ilusionista que decora as pilastras, o entablamento e a abóbada, conferindo brilho e complexidade a um espaço que, de outro modo, seria decorativamente comedido (Rodrigues, 1998, p. 71). De facto, trata-se de um dos melhores exemplos do barroco conventual no norte do país, pela qualidade do programa decorativo integrado (Ferreira Alves, 1984, p. 250).
Segundo inventários realizados antes da extinção do convento, havia cerca de 90 imagens ou conjuntos de imagens, bem como mais de 30 quadros, distribuídos não só pelos cinco altares fixos da igreja, mas também pelos altares dos coros, pelos claustros e pela portaria (Ferreira Alves, 1984, p. 251).
A fachada da igreja constitui a estrutura mais elaborada em termos decorativos, refletindo o gosto artístico vivido no Porto durante o século XVIII. Nicolau Nasoni, chegado à cidade em 1725, influenciou fortemente a arquitetura portuense com obras como a Igreja dos Clérigos, o Palácio do Freixo, a fachada da Santa Casa da Misericórdia e a Igreja de Santa Marinha, todas próximas do Convento de Corpus Christi. Vários investigadores atribuem-lhe a autoria da fachada da igreja, concluída por volta de 1745 (Mota, 2016, p. 73).
O elemento mais relevante do património integrado do convento é, sem dúvida, o Coro Alto, tanto pelo seu valor litúrgico como pela sua excecional riqueza artística. O cadeiral, atribuído ao entalhador Domingos Lopes, é executado em madeira de nogueira de Bordéus e compõe-se de três séries de assentos levadiços, decorados com misericórdias figurativas: animais, seres fantásticos e figuras humanas. Estes elementos refletem não só a criatividade artística, mas também possíveis influências do imaginário do Império Ultramarino, visíveis na representação de negros, exóticos e elementos vegetais (Ferreira Alves, 1984, pp. 250–252; C.M. Vila Nova de Gaia, 2025).
O espaldar do cadeiral é constituído por catorze telas com temática dominante dominicana, incluindo representações de Santo António de Lisboa e Santa Joana Princesa. O espaço é guarnecido por talha vegetalista e o teto é composto por 49 caixotões pintados a óleo sobre madeira. Estes apresentam figuras de santos da Ordem Dominicana e de outras ordens, sendo os quinze painéis centrais alusivos aos Mistérios do Rosário — tema de particular devoção na espiritualidade dominicana (C.M. Vila Nova de Gaia, 2025; Ferreira Alves, 1984, p. 253).
A pintura e a imaginária da igreja — visíveis no espaldar, nos caixotões e nos retábulos — inserem-se plenamente no contexto da espiritualidade da Ordem, representando os principais temas devocionais: o Santo Rosário, o Nome de Jesus e a Eucaristia (Ferreira Alves, 1984, pp. 253–254). Este programa iconográfico, coerente e intencional, expressa a função pedagógica e meditativa dos espaços conventuais, em consonância com o espírito da Contrarreforma.
A preservação destes elementos ao longo das sucessivas intervenções reflete o cuidado com a conservação do património artístico integrado do convento, espelhando um equilíbrio entre o respeito pelo legado histórico e a adaptação às necessidades contemporâneas (SIPA, 2008).
.
5. IMAGENS E ICONOGRAFIA DO OBJETO




6. FONTES E BIBLIOGRAFIA
1. Livro História da Arquitetura Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar, Coord. Manuel Joaquim Moreira da Rocha/Juan Manuel Monterroso Montero. CITCEM, 2023.
2. Serrão, V. História da arte em Portugal – O Barroco. Editorial Presença, 2003.
3. Rocha, A. M. O barroco. Paralelo Editora, 1998.
4. Pinto, A. L., Meireles, F., & Cambotas, M. C. Arte Portuguesa. Porto Editora, 2010.
5. Pereira, J. F. Arquitectura barroca em Portugal. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.
6. GOMES, Francisco José Silva, “PEREGRINATIO E STABILITAS: Monaquismo e Cristandade Ocidental do Século VI a VIII”, Textos de História, vol. 9, nº 1-2, Universidade de Brasília, 2001.
7. ROLO, Raúl A., “Monjas Dominicanas” in Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. II, dir., Carlos Azevedo, Centro de Estudos de História Religiosa, Círculo de Leitores, 2000.
8. PENTEADO, Pedro, “Confrarias”, Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. I, dir. Carlos Azevedo, Centro de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Círculo de Leitores.
9. DIAS, Geraldo J. A. Coelho Dias. “Perspectivas Bíblicas da Mulher e Monaquismo Medieval Feminino”, Revista da Faculdade de Letras, Universidade do Porto. 1995.
10. SILVA, António Martins, “Extinção das Ordens Religiosas” in Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. II, dir. Carlos Azevedo, Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, Círculo de Leitores, 2000. 19
11. https://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0212063_05_cap_06.pdf - Tese PUC- Rio: Desenvolvimento Histórico do Monaquismo e Surgimento do Diálogo Inter-Religioso Monástico.
12. RODRIGUES, Luísa Fernanda Ferreira. O Mosteiro de Corpus Christi de Vila Nova de Gaia, 2016.
13. CAMPO BELLO, Conde (D. Henrique), “O Mosteiro de Corpus Christi de Gaia”, Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol. I, Fasc. III, Porto, setembro - 1938.
14. “Mosteiro de Corpus Christi” in História de Gaia, fasc. 24, vol. II, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, Camara Municipal de Vila Nova de Gaia.
15. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves, “O Mosteiro de S. Domingos de Donas de Vila Nova de Gaia ou Convento de Corpus Christi: breve resenha histórica”, Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, nº 75, 12º vol., Vila Nova de Gaia, dezembro de 2012.
16. Sá Mota, F. M. C. de. Convento Corpus Christi de Gaia: Novos usos do património [Dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto], 2016.
17. Marçal, H. Diacronia da ocupação do Convento Corpus Christi, Vila Nova de Gaia, 2011.
18. COELHO, Gustavo Neiva, “Igrejas de Planta Octogonal: o Simbolismo Barroco em Goiás no Século XVIII”, Locus, revista de história, Juiz de Fora, vol. 3, nº 1. 19. http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/sipa.aspx?id=5341 - SIPA- Sistema de Informação para o Património Arquitectónico: Igreja da Misericórdia de Aveiro, 2008. 20. Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Espaço Corpus Christi, 2025.
19. FERREIRA ALVES, Joaquim J. B. Algumas obras seiscentistas no Convento de Corpus Christi.