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Mosteiro de Celas: diferenças entre revisões

Fonte: Porto Barroco
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'''Estado da Arte'''
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[[File:Representação de Santa Sancha.jpg|thumb|248x248px|''Representação de Santa Sancha'']]
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Durante o século XII, assistimos ao aumento demográfico da população, com tendência a um crescente índice de feminilidade. A estrutura familiar unilinear da nobreza, remetia os filhos segundos para heranças menores, um futuro celibatário que muitas vezes passava pelo campo de batalha ou a vida monástica. De igual modo, se a filha mais velha é dotada para casar, as restantes ou permaneciam como tias na casa ou ingressavam nos mosteiros, que se assumem como recursos de segurança demográfica, ajudando a manter o equilíbrio económico. “Se para a mulher o casamento é a meta da sua vida, ele realiza-se agora com Cristo, o esposo espiritual, e toda a abstração do terreno adquire um significado superior.” (COELHO e MARTINS 1993, p. 494). No mosteiro as donas, livres do poder parental ou marital, encontram na superiora uma espécie de mãe, e nas outras irmãs o apoio necessário a uma vida religiosa que as dignifica. Estes mosteiros começam por ser dúplices, mas o aumento da feminilidade vai fazer surgir, na segunda metade do século, mosteiros somente femininos (COELHO e MARTINS 1993, pp. 483-484). É neste contexto que a Ordem de Cister nasce e se expande, reformando a Regra de São Bento[1], surgindo em Portugal cerca de 1140. No início do século XIII os mosteiros cistercienses femininos multiplicam-se, numa ligação com a alta nobreza, tendo primeiras abadias nascido por iniciativa das infantas Teresa, Mafalda e Sancha, filhas do rei D. Sancho I (MORUJÃO 2001, pp. 21-22).
Durante o século XII, assistimos ao aumento demográfico da população, com tendência a um crescente índice de feminilidade. A estrutura familiar unilinear da nobreza, remetia os filhos segundos para heranças menores, um futuro celibatário que muitas vezes passava pelo campo de batalha ou a vida monástica. De igual modo, se a filha mais velha é dotada para casar, as restantes ou permaneciam como tias na casa ou ingressavam nos mosteiros, que se assumem como recursos de segurança demográfica, ajudando a manter o equilíbrio económico. “Se para a mulher o casamento é a meta da sua vida, ele realiza-se agora com Cristo, o esposo espiritual, e toda a abstração do terreno adquire um significado superior.” (COELHO e MARTINS 1993, p. 494). No mosteiro as donas, livres do poder parental ou marital, encontram na superiora uma espécie de mãe, e nas outras irmãs o apoio necessário a uma vida religiosa que as dignifica. Estes mosteiros começam por ser dúplices, mas o aumento da feminilidade vai fazer surgir, na segunda metade do século, mosteiros somente femininos (COELHO e MARTINS 1993, pp. 483-484). É neste contexto que a Ordem de Cister, criada em França nos finais do século XI em oposição à opulência de Cluny (MORUJÃO 2001, p. 21), nasce e se expande, reformando a Regra de São Bento, surgindo em Portugal cerca de 1140. No início do século XIII os mosteiros cistercienses femininos multiplicam-se, numa ligação com a alta nobreza, tendo primeiras abadias nascido por iniciativa das infantas Teresa, Mafalda e Sancha, filhas do rei D. Sancho I (MORUJÃO 2001, pp. 21-22).


''“...proximo a Coimbra, convento de freiras bernardas, fundado em 1210, pela infanta D. Sancha, filha de D. Sancho I, (irman da rainha Santa Mafalda). Tinha a fundadora, na villa d’Alemquer (que era sua) umas mulheres a que chamavam encelladas, ou emparedadas, vivendo em uma pobre casa. Resolveu D. Sancha mudal’as para uma sua quinta, que tinha ao pé de Coimbra, chamada Uuimarães. Fez alli cellas para 30 freiras e mandando vir as beatas d’Alemquer e algumas freiras de Lorvão, para as instruírem, lhes impoz a regra da S. Bernardo, professando tambem aqui a mesma infanta.”'' (PINHO LEAL 1874, II, p. 232).
''“...proximo a Coimbra, convento de freiras bernardas, fundado em 1210, pela infanta D. Sancha, filha de D. Sancho I, (irman da rainha Santa Mafalda). Tinha a fundadora, na villa d’Alemquer (que era sua) umas mulheres a que chamavam encelladas, ou emparedadas, vivendo em uma pobre casa. Resolveu D. Sancha mudal’as para uma sua quinta, que tinha ao pé de Coimbra, chamada Uuimarães. Fez alli cellas para 30 freiras e mandando vir as beatas d’Alemquer e algumas freiras de Lorvão, para as instruírem, lhes impoz a regra da S. Bernardo, professando tambem aqui a mesma infanta.”'' (PINHO LEAL 1874, II, p. 232).
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'''Descrição'''
'''Descrição'''


Uma das características distintivas da arquitetura do Mosteiro de Celas é a sua igreja de planta centralizada[2], única dos conventos femininos portugueses. Esta tipologia foge à tradição cisterciense, caracterizada pela existência de um corpo retangular único, dividido em dois espaços autónomos: a igreja ''de dentro'' ou coro e a igreja ''de'' ''fora'' (GOMES e ROSSA 1996, p. 57). Segundo os autores Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996), a rotunda que hoje vemos pertence ao edifício original do século XIII, tendo sido alvo de melhoramentos e modernização no século XVI, no abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Dessas obras, destaca-se o seu abobadamento em estilo manuelino, sendo necessário reforçar a estrutura original com poderosos contrafortes adossados, incluindo os espaços entretanto criados junto à igreja (FERNANDES 2020, p. 18).
Uma das características distintivas da arquitetura do Mosteiro de Celas é a sua igreja de planta centralizada, única dos conventos femininos portugueses. Todavia, D. Sancha já havia construído, em Alenquer, um edifício de planta redonda, sendo Celas uma réplica em nome e forma (FERNANDES 2020, p. 20). Esta tipologia foge à tradição cisterciense, caracterizada pela existência de um corpo retangular único, dividido em dois espaços autónomos: a igreja ''de dentro'' ou coro e a igreja ''de'' ''fora'' (GOMES e ROSSA 1996, p. 57). Segundo os autores Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996), a rotunda que hoje vemos pertence ao edifício original do século XIII, tendo sido alvo de melhoramentos e modernização no século XVI, no abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Dessas obras, destaca-se o seu abobadamento em estilo manuelino, sendo necessário reforçar a estrutura original com poderosos contrafortes adossados, incluindo os espaços entretanto criados junto à igreja (FERNANDES 2020, p. 18).
[[File:Átrio 02.jpg|thumb|262x262px|Interior da igreja de Celas]]
[[File:Átrio 02.jpg|thumb|262x262px|Interior da igreja de Celas]]
A entrada para o átrio da igreja é feita pelo portal principal, situado a Sul, onde se encontra o antigo pátio de São Germão. A fachada manuelina é encimada pelo miradouro do século XVII, com duas gelosias, podendo ver-se o campanário de origem medieval mais atrás. A nascente, situavam-se a casa da Abadessa, a cozinha e o refeitório, os armazéns e outras dependências de trabalho do mosteiro. O átrio da igreja foi concluído em 1530, como se constata numa inscrição do portal principal, e servia de capela aos leigos. Sobre a porta de acesso à igreja, datada de 1753, podemos ver um alto-relevo renascentista, com o escudo nacional, encimado de elmo com paquife e o timbre do dragão; dois anjos adultos servem de tenentes e, abaixo, dois meninos seguram um letreiro em latim alusivo ao patrocínio de D. João III na construção do templo e à data da sua conclusão.
A entrada para o átrio da igreja é feita pelo portal principal, situado a Sul, onde se encontra o antigo pátio de São Germão. A fachada manuelina é encimada pelo miradouro do século XVII, com duas gelosias, podendo ver-se o campanário de origem medieval mais atrás. A nascente, situavam-se a casa da Abadessa, a cozinha e o refeitório, os armazéns e outras dependências de trabalho do mosteiro. O átrio da igreja foi concluído em 1530, como se constata numa inscrição do portal principal, e servia de capela aos leigos. Sobre a porta de acesso à igreja, datada de 1753, podemos ver um alto-relevo renascentista, com o escudo nacional, encimado de elmo com paquife e o timbre do dragão; dois anjos adultos servem de tenentes e, abaixo, dois meninos seguram um letreiro em latim alusivo ao patrocínio de D. João III na construção do templo e à data da sua conclusão.
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'''O claustro'''
'''O claustro'''
[[File:Portal Nicolau de Chanterene.jpg|thumb|187x187px|Portal de Nicolau de Chanterene]]
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O claustro, com o seu jardim fechado em alegoria ao Paraíso, é o lugar de paz e silêncio, para onde os outros espaços monásticos convergem[3]. Em Celas, o claustro que hoje vemos não corresponderá ao início da construção do mosteiro – de menores dimensões, adequado ao numero de religiosas (FERNANDES 2020, pp. 13-17). As alas Sul e Oeste terão sido as primeiras a ser construídas em pedra, em meados do século XIII, e as alas Norte e Este, com capitéis lisos, terão sido concluídas já no século XVI, durante o abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Das alas com capitéis figurativos, a Sul, pela sua proximidade com o muro da igreja, possui os temas mais relevantes para a iconografia cristã, com cenas cristológias e hagiográficas, complementadas com decoração vegetalista (FERNANDES 2020, pp. 23-24). A arquitetura do claustro apresenta uma estrutura de arcos de volta perfeita – alas Sul e Oeste -, colunas duplas que assentam num murete e capitéis também duplos, assentes em bases circulares, numa disposição mais de acordo com a tradição românica[4]. As alas Norte e Este, seguem o traçado dos claustros da época moderna, aqui com três grupos de dois arcos apoiados em colunas toscanas, separadas por dois contrafortes. A parede da ala Sul possui um lambrim de azulejos do século XVII, idêntico aos da sala do capítulo, e um nicho retangular emoldurado. No centro do jardim um chafariz, instalado no abadessado de D. Teresa de Noronha e reedificado no século XVIII. Segundo Carla Varela Fernandes, a intervenção da DGMEN[5], realizada na década de quarenta do século passado e que substituiu alguns capitéis figurativos deteriorados pela erosão por capitéis lisos, não impede uma leitura abrangente da evolução do claustro, salientando que os capitéis medievais foram feitos para um claustro cisterciense, e não outro, contrariando a ideia de alguns autores[6] que defendem terem sido transferidos de outro espaço para Celas (FERNANDES 2020, pp. 22-23).  
São Bernardo, na sua Epístola 64, refere o claustro como "uma forma terrestre da Jerusalém Celestial, lugar de Luz e de Paz" (FERNANDES 2020, p.13). Com o seu jardim fechado em alegoria ao Paraíso, é o lugar de paz e silêncio, para onde os outros espaços monásticos convergem. Em Celas, o claustro que hoje vemos não corresponderá ao início da construção do mosteiro – de menores dimensões, adequado ao numero de religiosas (FERNANDES 2020, pp. 13-17). As alas Sul e Oeste terão sido as primeiras a ser construídas em pedra, em meados do século XIII, e as alas Norte e Este, com capitéis lisos, terão sido concluídas já no século XVI, durante o abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Das alas com capitéis figurativos, a Sul, pela sua proximidade com o muro da igreja, possui os temas mais relevantes para a iconografia cristã, com cenas cristológias e hagiográficas, complementadas com decoração vegetalista (FERNANDES 2020, pp. 23-24). A arquitetura do claustro apresenta uma estrutura de arcos de volta perfeita – alas Sul e Oeste -, colunas duplas que assentam num murete e capitéis também duplos, assentes em bases circulares, numa disposição mais de acordo com a tradição românica. Maria do Rosário Morujão (1991), refere documentos que remetem as alas Sul e Oeste para cronologia do século XIV, conforme referência documental: “alpendre a par de chafariz da fonte” (© SIPA [consultado 2025-02-18]). As alas Norte e Este, seguem o traçado dos claustros da época moderna, aqui com três grupos de dois arcos apoiados em colunas toscanas, separadas por dois contrafortes. A parede da ala Sul possui um lambrim de azulejos do século XVII, idêntico aos da sala do capítulo, e um nicho retangular emoldurado. No centro do jardim um chafariz, instalado no abadessado de D. Teresa de Noronha e reedificado no século XVIII. Os autores Paulo Varela Gomes e Walter Rossa, referem que o claustro de Celas tinha dois pisos a toda a volta tendo, em data incerta, caído ou sido apeado o andar superior da ala Poente. As obras da DGEMN desmontaram as outras três alas superiores (GOMES e ROSSA 1996, p. 59). Segundo Carla Varela Fernandes, a intervenção da DGMEN, realizada na década de quarenta do século passado e que substituiu alguns capitéis figurativos deteriorados pela erosão por capitéis lisos, não impede uma leitura abrangente da evolução do claustro, salientando que os capitéis medievais foram feitos para um claustro cisterciense, e não outro, contrariando a ideia de Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996, p. 63), que defendem a hipótese de as colunas terem sido feitas para os Estudos Gerais Dionisinos e não para Celas (FERNANDES 2020, pp. 22-23).  
[[File:Claustro Celas 01.jpg|thumb|278x278px|Claustro de Celas]]
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O património integrado engloba todos os bens contidos no edifício, com ele formando uma unidade, tornando-se esses bens uma parte identitária e inalienável do conjunto patrimonial, como as pinturas, retábulos ou alfaias litúrgicas, entre outros. Um edifício sem o seu património integrado é “um monumento ''desalmado''” (CALADO et al. 2003, pp. 5-8). O Mosteiro de Celas possui um vasto património integrado, destacando-se: o retábulo-mor; o retábulo em pedra da sacristia, da autoria de João de Ruão; o quadro da ''Imaculada Conceição'', da autoria de Josefa d’Óbidos; e o retábulo da ''Crucificação,'' atualmente no MNMC, que fazia parte do retábulo-mor juntamente com a representação da ''Anunciação''.  
O património integrado engloba todos os bens contidos no edifício, com ele formando uma unidade, tornando-se esses bens uma parte identitária e inalienável do conjunto patrimonial, como as pinturas, retábulos ou alfaias litúrgicas, entre outros. Um edifício sem o seu património integrado é “um monumento ''desalmado''” (CALADO et al. 2003, pp. 5-8). O Mosteiro de Celas possui um vasto património integrado, destacando-se: o retábulo-mor; o retábulo em pedra da sacristia, da autoria de João de Ruão; o quadro da ''Imaculada Conceição'', da autoria de Josefa d’Óbidos; e o retábulo da ''Crucificação,'' atualmente no MNMC, que fazia parte do retábulo-mor juntamente com a representação da ''Anunciação''.  
[[File:Altar-mor Celas.jpg|thumb|197x197px|Altar-mor]]
[[File:Altar-mor Celas.jpg|thumb|197x197px|Altar-mor]]
O retábulo-mor da igreja do Mosteiro de Celas, datado de meados do século XVIII, foi realizado em madeira, em estilo neoclássico, com dourados e marmoreado nas colunas e nas partes livres da decoração vegetalista dourada. De cada lado, colunas duplas de ordem compósita, uma delas adossada à parede. Na parte superior dos capitéis, um frontão interrompido deixa espaço para uma coroa real, símbolo do poder régio, da qual emanam raios de luz. O retábulo eleva-se sobre uma base contribuindo para o efeito cenográfico. Ao centro, entre as colunas, o trono eucarístico escalonado em dois níveis, ladeado pelas figuras de São Bento e de São Bernardo. No primeiro nível do trono eucarístico, no nicho do lado esquerdo, ''São João Batista'', e no nicho do lado direito, ''São Jorge a matar do dragão''. Ao centro, na porta, uma pintura do cálice divino, com as uvas e as espigas de trigo, as pombas do Espírito Santo e um coração radiante. No nível superior, um nicho com uma ''Crucificação''. Acima do trono eucarístico uma representação de ''Nossa Senhora com o Menino'', num estilo que lembra a exoftalmia das obras de Josefa d’Óbidos e de Baltazar Gomes Figueira.
O retábulo-mor da igreja do Mosteiro de Celas, datado de meados do século XVIII, foi realizado em madeira, em estilo neoclássico, com dourados e marmoreado nas colunas e nas partes livres da decoração vegetalista dourada. De cada lado, colunas duplas de ordem compósita, uma delas adossada à parede. Na parte superior dos capitéis, um frontão interrompido deixa espaço para uma coroa real resplandecente, símbolo do poder régio. O retábulo eleva-se sobre uma base contribuindo para o efeito cenográfico. Ao centro, entre as colunas, o trono eucarístico escalonado em dois níveis, ladeado pelas figuras de São Bento e de São Bernardo. No primeiro nível do trono eucarístico, no nicho do lado esquerdo, ''São João Batista'', e no nicho do lado direito, ''São Jorge a matar do dragão''. Ao centro, na porta, uma pintura do cálice divino, com as uvas e as espigas de trigo, as pombas do Espírito Santo e um coração radiante. No nível superior, um nicho com uma ''Crucificação''. Acima do trono eucarístico uma representação de ''Nossa Senhora com o Menino'', num estilo que lembra a exoftalmia das obras de Josefa d’Óbidos e de Baltazar Gomes Figueira.
[[File:Retábulo sacristia João de Ruão.jpg|thumb|270x270px|Sacristia, retábulo de João de Ruão]]
[[File:Retábulo sacristia João de Ruão.jpg|thumb|270x270px|Sacristia, retábulo de João de Ruão]]
Na sacristia, o retábulo pétreo em baixo-relevo policromado, certamente um dos que a abadessa D. Maria de Távora encomendou a João de Ruão. Na parte superior, o ''Martírio de São João Evangelista'', enquadrado por São Jerónimo e por Santa Madalena; na parte inferior, ladeada por dois ''hermes'', ''São Martinho repartindo o manto com um pobre''.
Na sacristia, o retábulo pétreo em baixo-relevo policromado, certamente um dos que a abadessa D. Maria de Távora encomendou a João de Ruão. Na parte superior, o ''Martírio de São João Evangelista'', enquadrado por São Jerónimo e por Santa Madalena; na parte inferior, ladeada por dois ''hermes'', ''São Martinho repartindo o manto com um pobre''.


No coro, a representação da ''Imaculada Conceição, de'' Josefa d’Óbidos, c. 1670-1680. Óleo sobre tela, com restos de assinatura à direita. Produção da fase final da artista, representa a Virgem de porte jovem, nimbada com estrelas, com traje branco recamado de motivos florais. Destaca-se a representação das flores envolventes, num arranjo gracioso (SERRÃO 1993, p. 220). Ainda no coro, na parede Sul, a representação da ''Anunciação'', 1510-1525. Óleo sobre madeira proveniente da Flandres de autor desconhecido. Esta representação fazia parte do retábulo-mor, juntamente com as quatro tábuas atualmente expostas no MNMC.
No coro, a representação da ''Imaculada Conceição, de'' Josefa d’Óbidos, c. 1670-1680. Óleo sobre tela, com restos de assinatura à direita. Produção da fase final da artista, representa a Virgem de porte jovem, nimbada com estrelas, com traje branco recamado de motivos florais. Destaca-se a representação das flores envolventes, num arranjo gracioso (SERRÃO 1993, p. 220). Ainda no coro, na parede Sul, a representação da ''Anunciação'', 1510-1525. Óleo sobre madeira proveniente da Flandres de autor desconhecido. Esta representação fazia parte do retábulo-mor, juntamente com as quatro tábuas atualmente expostas no MNMC.
----[1] Criada em França nos finais do século XI em oposição à opulência de Cluny (MORUJÃO 2001, p. 21).
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[2] D. Sancha já havia construído, em Alenquer, um edifício de planta redonda, sendo Celas uma réplica em nome e forma (FERNANDES 2020, p. 20).


[3] São Bernardo, na sua Epístola 64, refere o claustro como "uma forma terrestre da Jerusalém Celestial, lugar de Luz e de Paz" (FERNANDES 2020, p.13).
'''Fontes e Bibliografia'''
 
[4] Maria do Rosário Morujão (1991), refere documentos que remetem as alas Sul e Oeste para cronologia do século XIV, conforme referência documental: “alpendre a par de chafariz da fonte” (© SIPA [consultado 2025-02-18]).
 
[5] Paulo Varela Gomes e Walter Rossa, referem que o claustro de Celas tinha dois pisos a toda a volta tendo, em data incerta, caído ou sido apeado o andar superior da ala Poente. As obras da DGEMN desmontaram as outras três alas superiores (GOMES e ROSSA 1996, p.59).
 
[6] Paulo Varela Gomes e Walter Rossa, defendem que as colunas foram feitas para os Estudos Gerais Dionisinos e não para Celas (GOMES e ROSSA 1996, p. 63).
----'''Fontes e Bibliografia'''


CALADO, Luís; LEITE, Joaquim; PEREIRA, Paulo, 2003. ''Património integrado ou a alma dos monumentos.'' IPPAR, Conservação e Restauro de Património Móvel e Imóvel. Caderno, pp. 5-8. ISSN: 1645-2453.
CALADO, Luís; LEITE, Joaquim; PEREIRA, Paulo, 2003. ''Património integrado ou a alma dos monumentos.'' IPPAR, Conservação e Restauro de Património Móvel e Imóvel. Caderno, pp. 5-8. ISSN: 1645-2453.

Edição atual desde as 11h25min de 15 de junho de 2025

Identificação

Designação Mosteiro de Celas
Localização Lugar de Celas, Freguesia de Santo António dos Olivais, Distrito de Coimbra
Cronologia Séculos XIII - XVIII
Autores Nicolau de Chanterene, Gaspar Fernandes, João Português, João de Ruão, Josefa d'Óbidos
Classificação Monumento Nacional, Decreto de 16-06-1910, DG nº. 136 de 23-06-1910 / ZEP, Portaria, DG nº. 7 de 09-01-1960 / Portaria nº. 223/2011, DR, 2ª. série, nº. 11 de 17-01-2011

Mosteiro de Celas

Vista do Mosteiro de Celas, lado Sul.

O Mosteiro de Celas está localizado no Largo de Celas, freguesia de Santo António dos Olivais, Coimbra, Portugal. A sua cronologia construtiva inicia-se no século XIII e prolonga-se até ao século XVIII. A extinção das Ordens Religiosas, em 1834, ditou o encerramento do mosteiro, tendo a última religiosa aí permanecido até 15 de abril de 1883. Muito pouco se conhece sobre a autoria arquitetónica e do património integrado do mosteiro, todavia, chegaram até nós alguns nomes. A Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, do Mosteiro de Celas, faz referência aos arquitetos João Português e Gaspar Fernandes, que trabalharam na igreja redonda, concluída em 1529. No abadessado de D. Leonor de Vasconcelos, Nicolau de Chanterene debuxou o portal de ligação do coro com a sala do capítulo. Ao nível do património integrado, João de Ruão é o autor do retábulo em baixo-relevo policromado da sacristia e Josefa d'Óbidos pintou o quadro da Imaculada Conceição, c. 1670-1680 (SERRÃO 1993, p. 220).

Estado da Arte

Representação de Santa Sancha

Durante o século XII, assistimos ao aumento demográfico da população, com tendência a um crescente índice de feminilidade. A estrutura familiar unilinear da nobreza, remetia os filhos segundos para heranças menores, um futuro celibatário que muitas vezes passava pelo campo de batalha ou a vida monástica. De igual modo, se a filha mais velha é dotada para casar, as restantes ou permaneciam como tias na casa ou ingressavam nos mosteiros, que se assumem como recursos de segurança demográfica, ajudando a manter o equilíbrio económico. “Se para a mulher o casamento é a meta da sua vida, ele realiza-se agora com Cristo, o esposo espiritual, e toda a abstração do terreno adquire um significado superior.” (COELHO e MARTINS 1993, p. 494). No mosteiro as donas, livres do poder parental ou marital, encontram na superiora uma espécie de mãe, e nas outras irmãs o apoio necessário a uma vida religiosa que as dignifica. Estes mosteiros começam por ser dúplices, mas o aumento da feminilidade vai fazer surgir, na segunda metade do século, mosteiros somente femininos (COELHO e MARTINS 1993, pp. 483-484). É neste contexto que a Ordem de Cister, criada em França nos finais do século XI em oposição à opulência de Cluny (MORUJÃO 2001, p. 21), nasce e se expande, reformando a Regra de São Bento, surgindo em Portugal cerca de 1140. No início do século XIII os mosteiros cistercienses femininos multiplicam-se, numa ligação com a alta nobreza, tendo primeiras abadias nascido por iniciativa das infantas Teresa, Mafalda e Sancha, filhas do rei D. Sancho I (MORUJÃO 2001, pp. 21-22).

“...proximo a Coimbra, convento de freiras bernardas, fundado em 1210, pela infanta D. Sancha, filha de D. Sancho I, (irman da rainha Santa Mafalda). Tinha a fundadora, na villa d’Alemquer (que era sua) umas mulheres a que chamavam encelladas, ou emparedadas, vivendo em uma pobre casa. Resolveu D. Sancha mudal’as para uma sua quinta, que tinha ao pé de Coimbra, chamada Uuimarães. Fez alli cellas para 30 freiras e mandando vir as beatas d’Alemquer e algumas freiras de Lorvão, para as instruírem, lhes impoz a regra da S. Bernardo, professando tambem aqui a mesma infanta.” (PINHO LEAL 1874, II, p. 232).

Segundo Maria do Rosário Morujão, não existe documentação que comprove a data exata da fundação do mosteiro de Celas (Coimbra), afirmando que do estudo sistemático da documentação mais antiga do mosteiro, quer em Alenquer ou em Celas, data de 1221, tendo a instalação das monjas ocorrido nesse ano ou no ano seguinte. As primeiras monjas teriam vindo de Lorvão, criado e dirigido pela sua irmã, infanta D. Teresa, de acordo com a regra cisterciense que previa o envio de grupos religiosos para as novas casas. Em janeiro de 1223 todos os clérigos podiam celebrar ofícios em Celas e, em março desse ano, D. Sancha subordinou Celas à Ordem de Cister, autorizada pelo bispo de Coimbra. Sanado, por D. Sancho II, o conflito que opunha as infantas suas tias ao seu pai, D. Afonso II, o pouco tempo passado em Celas pela infanta D. Sancha foi, no entanto, suficiente para assegurar o futuro do mosteiro que, com o seu falecimento em 1229, passou para a proteção da sua irmã D. Teresa, cumprindo a sua vontade (MORUJÃO 2001, pp. 28-29).

Enquadramento

O lugar escolhido para implantação do mosteiro situava-se dentro de uma propriedade da infanta D. Sancha, no vale de Guimarães, também chamado Vale Meão, nos arredores da cidade de Coimbra, era abastecido por cursos de água, numa terra fértil, onde predominava o cultivo de vinhas e oliveiras. Em seu redor nasceu um pequeno burgo que herdou o seu nome e se desenvolveu até aos nossos dias. Com a extinção do mosteiro no século XIX, parte dos equipamentos do mosteiro foram reaproveitados e, dentro da antiga cerca que rodeia a igreja, predomina o estado de ruína. O Mosteiro de Celas foi totalmente remodelado no século XVI, nos abadessados de D. Leonor de Vasconcelos e de D. Maria de Távora, que corresponde ao período esplendoroso da vida do mosteiro, a que se seguiram outras intervenções, que acabaram por substituir a primitiva traça medieval. Dessa fase inicial, subsiste o arco ogival de entrada na sala do capítulo e os capitéis do claustro, datados do século XIII (MORUJÃO 1999, pp. 1083-1084).

Descrição

Uma das características distintivas da arquitetura do Mosteiro de Celas é a sua igreja de planta centralizada, única dos conventos femininos portugueses. Todavia, D. Sancha já havia construído, em Alenquer, um edifício de planta redonda, sendo Celas uma réplica em nome e forma (FERNANDES 2020, p. 20). Esta tipologia foge à tradição cisterciense, caracterizada pela existência de um corpo retangular único, dividido em dois espaços autónomos: a igreja de dentro ou coro e a igreja de fora (GOMES e ROSSA 1996, p. 57). Segundo os autores Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996), a rotunda que hoje vemos pertence ao edifício original do século XIII, tendo sido alvo de melhoramentos e modernização no século XVI, no abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Dessas obras, destaca-se o seu abobadamento em estilo manuelino, sendo necessário reforçar a estrutura original com poderosos contrafortes adossados, incluindo os espaços entretanto criados junto à igreja (FERNANDES 2020, p. 18).

Interior da igreja de Celas

A entrada para o átrio da igreja é feita pelo portal principal, situado a Sul, onde se encontra o antigo pátio de São Germão. A fachada manuelina é encimada pelo miradouro do século XVII, com duas gelosias, podendo ver-se o campanário de origem medieval mais atrás. A nascente, situavam-se a casa da Abadessa, a cozinha e o refeitório, os armazéns e outras dependências de trabalho do mosteiro. O átrio da igreja foi concluído em 1530, como se constata numa inscrição do portal principal, e servia de capela aos leigos. Sobre a porta de acesso à igreja, datada de 1753, podemos ver um alto-relevo renascentista, com o escudo nacional, encimado de elmo com paquife e o timbre do dragão; dois anjos adultos servem de tenentes e, abaixo, dois meninos seguram um letreiro em latim alusivo ao patrocínio de D. João III na construção do templo e à data da sua conclusão.

Dentro da igreja de planta circular destaca-se a capela-mor e no lado oposto o coro. A cobertura em abóbada manuelina, possui nervuras em calcário escuro, apoiadas em colunas torcidas, que contrastam com a pintura branca da superfície. A abobada reparte-se por oito lunetos, tendo cada um caderna e terceletes decorados com chaves de florões, ostentando a chave central o escudo português seguro por duas águias. O espaço é iluminado por um janelão, duas janelas e um óculo. As paredes da igreja possuem um lambrim de azulejos da segunda metade do século XVIII, de fabrico coimbrão, decorados com cenas da Anunciação e da Visitação e, na pequena capela da Piedade, São Marcos e São João Evangelista. A fronteira capela de Santa Sancha abriga um Cristo crucificado. A capela-mor, de meados do século XVIII, apresenta um grande arco, enquadrado por pilastras compósitas, tendo ao centro as armas de Portugal e de Cister. Da mesma época é o arco da porta do coro voltado para a igreja e assente sobre colunas jónicas. Da capela-mor, uma porta do lado direito dá acesso à sacristia e, do lado oposto, outra porta a um espaço de arrumação.

Abóbada arco portal do coro

O acesso ao coro é feito por uma entrada cujo arco possui uma espessura que forma uma pequena abobada manuelina, rematada com as armas dos Vasconcelos. O arco é preenchido com uma grade de ferro forjado em esquema de ovais quebradas e contínuas, do século XVIII, que separava as religiosas do espaço da igreja de fora. O coro de forma retangular, espaçoso e iluminado por três janelões laterais do século XVIII e, no topo, por três janelas e um óculo do século XVI.

Arco ogival acesso sala do capítulo, século XIV

Ao sair do coro em direção ao claustro entramos no ante cabido, espaço que terá sido o centro das primitivas construções. Aqui podemos admirar o magnifico arco projetado por Nicolau de Chanterene para o túmulo – não concretizado - da abadessa D. Leonor de Vasconcelos, que se localizaria na pequena capela poligonal do lado Sul da igreja, sendo o mesmo reaproveitado para a passagem do coro ao ante cabido (GOMES e ROSSA 1996, p.60). Neste espaço central, também se acede à sala do capítulo, através de um arco ogival em pedra do século XIV, com capitéis vegetalistas. A cobertura do espaço é feita em abobada de berço com caixotões, sendo a iluminação garantida por duas janelas e um óculo na parede Oeste, onde dois nichos com as esculturas de São Bento e de São Bernardo ladeiam um arco encimado por frontão triangular interrompido. No centro, uma mísula na parede sustenta uma escultura de Cristo Ressuscitado. As paredes laterais possuem lambrim de azulejos azuis e brancos do século XVII e bancos de pedra corridos.

O claustro

Ficheiro:Portal Nicolau de Chanterene.jpg
Portal de Nicolau de Chanterene

São Bernardo, na sua Epístola 64, refere o claustro como "uma forma terrestre da Jerusalém Celestial, lugar de Luz e de Paz" (FERNANDES 2020, p.13). Com o seu jardim fechado em alegoria ao Paraíso, é o lugar de paz e silêncio, para onde os outros espaços monásticos convergem. Em Celas, o claustro que hoje vemos não corresponderá ao início da construção do mosteiro – de menores dimensões, adequado ao numero de religiosas (FERNANDES 2020, pp. 13-17). As alas Sul e Oeste terão sido as primeiras a ser construídas em pedra, em meados do século XIII, e as alas Norte e Este, com capitéis lisos, terão sido concluídas já no século XVI, durante o abadessado de D. Leonor de Vasconcelos. Das alas com capitéis figurativos, a Sul, pela sua proximidade com o muro da igreja, possui os temas mais relevantes para a iconografia cristã, com cenas cristológias e hagiográficas, complementadas com decoração vegetalista (FERNANDES 2020, pp. 23-24). A arquitetura do claustro apresenta uma estrutura de arcos de volta perfeita – alas Sul e Oeste -, colunas duplas que assentam num murete e capitéis também duplos, assentes em bases circulares, numa disposição mais de acordo com a tradição românica. Maria do Rosário Morujão (1991), refere documentos que remetem as alas Sul e Oeste para cronologia do século XIV, conforme referência documental: “alpendre a par de chafariz da fonte” (© SIPA [consultado 2025-02-18]). As alas Norte e Este, seguem o traçado dos claustros da época moderna, aqui com três grupos de dois arcos apoiados em colunas toscanas, separadas por dois contrafortes. A parede da ala Sul possui um lambrim de azulejos do século XVII, idêntico aos da sala do capítulo, e um nicho retangular emoldurado. No centro do jardim um chafariz, instalado no abadessado de D. Teresa de Noronha e reedificado no século XVIII. Os autores Paulo Varela Gomes e Walter Rossa, referem que o claustro de Celas tinha dois pisos a toda a volta tendo, em data incerta, caído ou sido apeado o andar superior da ala Poente. As obras da DGEMN desmontaram as outras três alas superiores (GOMES e ROSSA 1996, p. 59). Segundo Carla Varela Fernandes, a intervenção da DGMEN, realizada na década de quarenta do século passado e que substituiu alguns capitéis figurativos deteriorados pela erosão por capitéis lisos, não impede uma leitura abrangente da evolução do claustro, salientando que os capitéis medievais foram feitos para um claustro cisterciense, e não outro, contrariando a ideia de Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996, p. 63), que defendem a hipótese de as colunas terem sido feitas para os Estudos Gerais Dionisinos e não para Celas (FERNANDES 2020, pp. 22-23).

Claustro de Celas

Património Integrado

O património integrado engloba todos os bens contidos no edifício, com ele formando uma unidade, tornando-se esses bens uma parte identitária e inalienável do conjunto patrimonial, como as pinturas, retábulos ou alfaias litúrgicas, entre outros. Um edifício sem o seu património integrado é “um monumento desalmado” (CALADO et al. 2003, pp. 5-8). O Mosteiro de Celas possui um vasto património integrado, destacando-se: o retábulo-mor; o retábulo em pedra da sacristia, da autoria de João de Ruão; o quadro da Imaculada Conceição, da autoria de Josefa d’Óbidos; e o retábulo da Crucificação, atualmente no MNMC, que fazia parte do retábulo-mor juntamente com a representação da Anunciação.

Altar-mor

O retábulo-mor da igreja do Mosteiro de Celas, datado de meados do século XVIII, foi realizado em madeira, em estilo neoclássico, com dourados e marmoreado nas colunas e nas partes livres da decoração vegetalista dourada. De cada lado, colunas duplas de ordem compósita, uma delas adossada à parede. Na parte superior dos capitéis, um frontão interrompido deixa espaço para uma coroa real resplandecente, símbolo do poder régio. O retábulo eleva-se sobre uma base contribuindo para o efeito cenográfico. Ao centro, entre as colunas, o trono eucarístico escalonado em dois níveis, ladeado pelas figuras de São Bento e de São Bernardo. No primeiro nível do trono eucarístico, no nicho do lado esquerdo, São João Batista, e no nicho do lado direito, São Jorge a matar do dragão. Ao centro, na porta, uma pintura do cálice divino, com as uvas e as espigas de trigo, as pombas do Espírito Santo e um coração radiante. No nível superior, um nicho com uma Crucificação. Acima do trono eucarístico uma representação de Nossa Senhora com o Menino, num estilo que lembra a exoftalmia das obras de Josefa d’Óbidos e de Baltazar Gomes Figueira.

Sacristia, retábulo de João de Ruão

Na sacristia, o retábulo pétreo em baixo-relevo policromado, certamente um dos que a abadessa D. Maria de Távora encomendou a João de Ruão. Na parte superior, o Martírio de São João Evangelista, enquadrado por São Jerónimo e por Santa Madalena; na parte inferior, ladeada por dois hermes, São Martinho repartindo o manto com um pobre.

No coro, a representação da Imaculada Conceição, de Josefa d’Óbidos, c. 1670-1680. Óleo sobre tela, com restos de assinatura à direita. Produção da fase final da artista, representa a Virgem de porte jovem, nimbada com estrelas, com traje branco recamado de motivos florais. Destaca-se a representação das flores envolventes, num arranjo gracioso (SERRÃO 1993, p. 220). Ainda no coro, na parede Sul, a representação da Anunciação, 1510-1525. Óleo sobre madeira proveniente da Flandres de autor desconhecido. Esta representação fazia parte do retábulo-mor, juntamente com as quatro tábuas atualmente expostas no MNMC.



Fontes e Bibliografia

CALADO, Luís; LEITE, Joaquim; PEREIRA, Paulo, 2003. Património integrado ou a alma dos monumentos. IPPAR, Conservação e Restauro de Património Móvel e Imóvel. Caderno, pp. 5-8. ISSN: 1645-2453.

CRAVEIRO, Maria Lurdes, 2009. A Arquitectura “Ao Romano”. Arte Portuguesa – Da Pré-História ao Século XX. Coord. Dalila Rodrigues. ISBN 978-989-8207-00-5.

COELHO, Maria Helena; MARTINS, Rui, 1993. O monaquismo feminino cisterciense e a nobreza medieval portuguesa (séculos XIII-XIV). In: Theologica, 2ª. Série, pp. 481-506.

FERNANDES, Carla Varela, 2020. Santos, Heróis e Monstros. O Claustro da Abadia de Santa Maria de Celas. Edições Colibri, Lisboa. ISBN: 978-989-689-934-9.

MORUJÃO, Maria do Rosário, 1999. O Mosteiro de Celas em Tempos Medievais. In: Cistercium: revista monástica, nº. 217, pp. 1083-1103.

MORUJÃO, Maria do Rosário, 2001. Um Mosteiro Cisterciense Feminino. Santa Maria de Celas (Século XIII a XV). Coimbra, BGUC.

MORUJÃO, Maria do Rosário; OLAIA, Inês, 2019. O Mosteiro de Celas, Alenquer e Santa Maria Rotunda. In: Cister, Tomo II – História, pp. 227-240.

MONTERROSO MONTERO, Juan; ROCHA, Manuel, dir., 2023. História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: formas de (e para) habitar. CITCEM, Porto. ISBN 978-989-8970-59-6.

RIBEIRO, Ana, 2005. A Comunidade de Eiras em Finais do Século XVIII: estruturas, redes e dinâmicas sociais. Coleção Estudos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

ROSSA, Walter; VARELA GOMES, Paulo, 1996. A Rotunda de Santa Maria de Celas, um caso tipológico singular. Monumentos, nº. 4, pp. 56-65.

RUÃO, Carlos, 2006. “O Eupalinos Moderno” Teoria e Prática da Arquitectura Religiosa em Portugal (1550-1640). Tese de doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 3 Vols.

SERRÃO, Vítor, dir., 1993. Josefa de Óbidos e o Tempo Barroco. IPPC, Lisboa, pp. 220-221.

Recursos digitais

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. [consultado em 2025-02-18]. Disponível em: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=1458715

DGPC. [consultado em 2025-02-18] Disponível em: https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=69791

PINHO LEAL, 1874, Volume II. [consultado em 14-03-2025]. Disponível em:   https://archive.org/details/gri_33125005925470/page/232/mode/2up SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico - DGPC]. [consultado 2025-02-18]. Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6703