Utilizador:202207088
Igreja da Misericórdia do Porto
| Designação | Igreja da Misericórdia no Porto |
| Localização | R. das Flores 15, 4050-542 Porto |
| Cronologia | XVI e XVIII |
| Estilo Dominante | Barroco |
| Autor(es) | Mestre Manuel Luís, Manuel Álvares Martins e Nicolau Nasoni. |
| Classificação | Imóvel de Interesse Públicodecreto nº 129/77, DR, 1ª série, n.º 226 de 29 setembro 1977. |
| Como chegar | GPSLatitude 41.1443 (41º 8' 39'' N) Longitude -8.6129 (8º 36' 46'' W) De Metro Linha Amarela (D) De autocarro (linhas STCP) 207, 303, 400, 500, 900, 901, 904, 905, 906, 1M, 10M, 11M |
| Horário de Funcionamento | 10h00 às 18h30 (horário de verão) - entre 1 de abril e 30 de setembro. 10h00 às 17h30 (horário de inverno) - entre 1 de outubro e 31 de março. |
Designada como Igreja da Misericórdia do Porto e localizada na Rua das Flores nº 15, na freguesia da Sé – desde 2013 integrada na União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória - no concelho e distrito do Porto, esta Igreja é uma obra profundamente marcante da arquitetura barroca no Porto nos séculos XVI e XVIII. Inicialmente construída na segunda metade do século XVI por projeto do Mestre Manuel Luís e aberta para culto em 1568[1]. Posteriormente, a igreja conta com uma grande reconstrução, que marca o que conhecemos da Igreja atualmente, entre 1749 e 1754 por Manuel Álvares Martins e o grande arquiteto que deixou um rico legado nesta cidade Nicolau Nasoni.
Através das notas biográficas e análises do contrato de obra, plantas e desenhos conservados, é possível compreender a importância deste objeto no contexto da arquitetura barroca portuguesa. Nicolau Nasoni, renomado arquiteto italiano, desempenhou um papel crucial na reconstrução da Igreja da Misericórdia do Porto a partir de 1749, sob a direção do provedor da Santa Casa, Bento Luís Correia de Melo. O contrato de obra entre o provedor e Domingos da Costa especificou que Nasoni seria responsável pela nova fachada, concedendo-lhe a liberdade para criar os desenhos e moldes necessários, conforme sua visão arquitetónica. Os desenhos originais de Nasoni, conservados no arquivo da Santa Casa, são os únicos sobreviventes de suas obras portuguesas, proporcionando uma visão clara de sua contribuição para a arquitetura barroca do período. A fachada da Misericórdia apresenta elementos típicos do estilo barroco, adaptados por Nasoni de maneira majestosa e imponente, ele introduziu um novo tipo de decoração, influenciado pelo rococó, evidenciado nas linhas finas e nervosas dos desenhos, especialmente nas conchas e tarjas ornamentais, no entanto, Nasoni nunca abandonou completamente o estilo barroco, mantendo elementos como cascas, festões e florões, que predominam na fachada, demonstrando sua habilidade em adaptar o estilo às características do granito, material predominante na região. A fachada da Misericórdia é considerada uma das obras mais proeminentes de Nasoni, destacando-se pela riqueza escultural e pela opulência decorativa, comparável apenas ao Palácio do Freixo. Através de suas esculturas e ornamentos, Nasoni alcançou um alto grau de expressão artística, harmonizando elementos barrocos com influências mais contemporâneas, como o rococó. Além da fachada, Nasoni também contribuiu com elementos em madeira para a nave da igreja, incluindo o arco do coro e esculturas de pedra para o arco cruzeiro e a zona da cornija. No entanto, sua intervenção na área do coro gerou controvérsias devido à desarmonia entre os ornamentos esculturais e a austeridade da arquitetura circundante, evidenciando uma falta de respeito pelo caráter pré-existente do ambiente. A análise crítica das notas biográficas e documentos relacionados revela a importância da fachada da Igreja da Misericórdia do Porto no contexto da arquitetura barroca dos séculos XVII e XVIII, destacando o papel de Nicolau Nasoni como um dos principais arquitetos do período em Portugal.

A Igreja da Misericórdia do Porto se torna tão fundamental principalmente por se encontrar no centro da cidade, ladeada também por outros edifícios patrimoniais de tamanha importância para a história da cultura arquitetónica da cidade do Porto. Edifícios como o Mosteiro de S. Bento – também atribuído a Nicolau Nasoni, um importante monumento barroco; A Sé Catedral do Porto – igreja construída no século XII, com influência gótica e românica e também teve as mãos de Nicolau Nasoni na sua arquitetura; A Igreja e Torre dos Clérigos – uma arquitetura barroca projetada por Nicolau Nasoni e um dos marcos da sua arquitetura no Porto; o Museu do Centro Português de Fotografia – projetada por Joaquim da Costa Lima Júnior em 1806, este edifício foi instalado em uma antiga prisão e oferece exposições fotográficas e também se preserva equipamentos fotográficos históricos; O famoso edifício do Palácio da Bolsa – conhecido principalmente por sua influência árabe na Sala Árabe, é um edifício do século XIX projetado também por Joaquim da Costa Lima Júnior; O Museu da Ordem de São Francisco – um antigo convento franciscano que exibe arte sacra e túmulos góticos; Museu da Cidade Casa do Infante – o local de nascimento de Infante D. Henrique, neste museu é abrigado o Arquivo Histórico Municipal e ocorre exposições sobre a história do Porto; também há o Paço Episcopal do Porto – a sua arquitetura remonta ao período medieval, e foi residência episcopal desde o século XII.
Nicolau Nasoni estabeleceu uma relação estreita e multifacetada com a Misericórdia do Porto devido ao seu notável trabalho como arquiteto na reconstrução da sua Igreja Primitiva. Além disso, também teve envolvimento na conceção e construção da Igreja de Nossa Senhora da Esperança. O primeiro contato profissional registado entre Nasoni e a Misericórdia do Porto ocorreu em 7 de fevereiro de 1740, quando o Provedor Duarte Cláudio Huet Soutomaior expressou preocupação com a evidente ruína que ameaçava a igreja no século XVIII. Sabe-se por um documento de 2 de março de 1748, que uma pedra caiu da abóboda[2]. A Igreja, com cerca de duzentos anos na época, construído na segunda metade do século XVI, exigia intervenção urgente. No entanto, a capela-mor, desenhada pelo Mestre Manuel Luís, erguida uns dezasseis anos mais tarde[3] resistiu bem até aos nossos dias. Após uma análise das paredes e da abóboda da igreja, concluiu-se que era necessário intervir em ambas as paredes, tanto a ocidental quanto a nascente, que abria para o pátio, a segunda parede devia ser reforçada com uma nova parede de sacada, até à arquitrave, com oito palmos, apoiada por três botaréus nos sítios mais convenientes, finalmente, a frontaria do templo deveria ser beneficiada, uma vez que também era evidente o seu estado de degradação[4]. Os arquitetos, mestres e pedreiros concordaram com a urgência da situação e propuseram soluções para reforçar e estabilizar a estrutura. Apesar das recomendações dos especialistas, houve hesitação por parte de alguns membros da Irmandade, por isso, os arquitetos e mestres foram chamados novamente em 17 de fevereiro de 1740 para confirmar a urgência da obra. Após o juramento, reafirmaram a necessidade de intervenção imediata na igreja. Nos anos seguintes, pouco se fez para resolver o problema da igreja e somente em 1748, após a queda de uma pedra da abóboda, foi reconhecida a urgência da situação, sendo decidido então demolir a abóboda e, possivelmente, reconstruir as paredes. Após várias reuniões e análises, em 1749, foi autorizada a reconstrução da igreja, com destaque para uma nova fachada, projetada por Nasoni. O contrato da obra de pedraria, lavrado entre o Provedor da Santa Casa, Bento Luís Correia de Melo e Domingos da Costa, especifica para a reconstrução as responsabilidades de Manuel Álvares Martins na reconstrução do corpo da igreja e de Nasoni na nova fachada declarando que «poderia fazer os riscos desenhos e moldes que forem necessários que pelo confuso da plante se não perceber bem…» Os pedreiros «desmancharão o frontispício velho» recebendo toda a pedra. Deviam fazer a nova fachada «de boa pedra, limpa e branca, sem falhas nem quebraduras... na forma que mostra o risco»[5]

Os desenhos de Nasoni para a fachada, preservados no arquivo da Santa Casa, revelam as diferentes fases do projeto e as adaptações realizadas durante a execução da obra. Além da fachada, Nasoni também contribuiu com elementos em madeira para o interior da igreja, incluindo o arco do coro e esculturas em pedra para o arco cruzeiro e a cornija. No entanto, sua intervenção no arco cruzeiro resultou em uma composição que destoava da sobriedade da estrutura, comprometendo sua harmonia. A Igreja foi concebida com uma planta longitudinal, com uma nave única precedida por uma galilé, capela-mor curva, claustro e outras dependências, essa disposição espacial demonstra uma organização cuidadosa e uma consideração pela funcionalidade litúrgica e cerimonial. Os painéis do retábulo-mor também foram revestidos por azulejos relevados da Fábrica Carvalhinho, e um retábulo neoclássico foi instalado no local originalmente ocupado pelo sacrário e pelo painel central do segundo nível. Os altares e retábulos, esculpidos em talha dourada, são verdadeiras obras de arte, refletindo a habilidade e devoção dos mestres entalhadores da época. A fachada principal é toda em cantaria, com dois registos separados por frisos e três corpos delimitados por pilastras sobrepujados por elementos decorativos, a igreja também possui um importante acervo de escultura e pintura, bem como um revestimento de azulejos de padrão com temas eucarísticos. O retábulo-mor, uma peça belíssima e com um grande significado religioso, com sua profusão de ornamentos e símbolos sacros. O interior da igreja apresenta uma única nave com abóbada de tijolo recoberto de estuques e paredes revestidas de azulejos azuis e brancos, substituindo os originais em 1866. A capela-mor, coberta por uma abóbada barroco-jesuítica decorada em granito, possui uma riqueza de detalhes, incluindo e nichos com imagens dos evangelistas encimados por janelas com grades de ferro dourado no primeiro registo, e ritmada por colunas coríntias no segundo registo. O claustro abriga retratos de pintores portugueses e uma lápide comemorativa do antigo hospital de D. Lopo, evidenciando o compromisso histórico da Misericórdia com a assistência social. O arquivo histórico e o museu da Santa Casa guardam valiosas peças de ourivesaria e pinturas, incluindo o célebre quadro "Fons Vitae", datado do início do século XVI e doado por D. Manuel I. Um dos objetos que se destaca na Igreja da Misericórdia do Porto é a sua fachada, projetada por Nicolau Nasoni. Destaca-se este elemento arquitetónico devido à sua importância histórica, estética e simbólica. A fachada é um exemplo emblemático da arquitetura barroca, caracterizada por sua exuberância e ornamentação elaborada, Nasoni considerado O arquiteto do barroco no Porto combinou elementos decorativos como estátuas, colunas salomónicas, relevos e ornamentos em pedra para criar uma composição visualmente impressionante, mas para além de sua beleza estética, a fachada da Misericórdia do Porto reflete o contexto histórico e cultural da época em que foi construída, contendo então registos sobre a sociedade e a religiosidade do período barroco em Portugal. A preservação deste elemento arquitetónico ao longo dos séculos torna-o não apenas um marco histórico, mas também uma mostra do talento e da visão de Nicolau Nasoni, destacando-se como uma das obras mais significativas da sua carreira.
[1] Francisco Ribeiro da Silva “O tripeiro”, 7ª série, Ano XLII, nº 8 (agosto 2023) – pp. 232-236
[2] AHSCMP, “Livro 5º de Lembranças”, D, B.co 8, nº 7, fl.126
[3] Artur de Magalhães Basto “História da Santa Clara da Misericórdia do Porto”, I vol. 2ªed., Porto, 1997, pp.389-392.
[4] AHSCMP, “Livro 5º de Lembranças”, D, B.com 8, nº 7, fl. 20v.
[5] AHSCMP, “Livro 5º de Lembranças”, D, B.co 8, nº 15, fls.12-15