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Convento da Madre de Deus Guimarães

Fonte: Porto Barroco
Revisão em 08h53min de 25 de maio de 2025 por Vânia Oliveira (discussão | contribs)
Designação Convento da Madre de Deus - Guimarães
Localização Rua de D. Domingos da Silva Gonçalves
Cronologia Séculos XVIII
Arquiteto Desconhecido
Classificação Categoria: IIP - Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 8/83, DR, I Série, 19 de 24 janeiro 1983 / Incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães (v. PT010308340101)

A historiografia e o lugar do Convento na História da Arte

A arquitetura religiosa feminina em Portugal desempenhou, sobretudo a partir do Concílio de Trento, um papel fundamental na organização do espaço urbano, na afirmação simbólica do catolicismo e na gestão social da clausura. O Convento da Madre de Deus de Guimarães inscreve-se nesse universo, revelando, na sua trajetória arquitetónica e funcional, os mecanismos de poder espiritual, familiar e urbano que moldaram o património monástico ao longo da modernidade.

A historiografia dos conventos femininos em Portugal evoluiu de meros registos patrimoniais para abordagens críticas mais integradas, que hoje reconhecem o valor arquitetónico, social e simbólico destas instituições. (Pereira 2020. pp. 124-131) O interesse pelos conventos femininos começou muitas vezes por motivos práticos: inventários patrimoniais (especialmente após extinção das ordens religiosas em 1834) para registar bens e obras de arte. Posteriormente, nos séculos XIX-XX, começou-se a olhar para estes conventos não apenas como “depósitos” de arte, mas como elementos arquitetónicos e sociais. Atualmente há alguns estudos mais críticos que ligam os conventos à história urbana, ao papel das mulheres e às dinâmicas de poder. No entanto, os conventos femininos ainda estão menos estudados que os masculinos.

As determinações do Concílio de Trento (1545–1563) instituíram um novo modelo para a vida religiosa feminina, impondo clausura rigorosa como forma de garantir a pureza doutrinal e moral. Esta mudança refletiu-se profundamente na arquitetura conventual, que passou a privilegiar espaços fechados, controlando o contacto com o exterior (Conde 2015, pp. 235-257). Em Portugal, país marcadamente católico, essas orientações foram seguidas com grande zelo, levando à adaptação de conventos existentes e à fundação de novas casas segundo os princípios tridentinos (Jacquinet 2024, pp. 4-23). As ordens religiosas femininas ganharam novo protagonismo, funcionando como agentes de ortodoxia e como espaços de contenção social. As mulheres da nobreza, frequentemente destinadas à vida religiosa por motivos de devoção ou conveniência familiar, eram acolhidas em conventos que asseguravam educação básica, reforço moral e prestígio social às suas famílias. Servindo muitas vezes como "depósito" de filhas de famílias nobres que não casavam, garantindo alianças políticas e económicas.

A extinção das ordens religiosas em 1834 (Oliveira 2015, p.17; Silva 2000), decretada no contexto das reformas liberais que colocaram fim ao Antigo Regime, marcou um ponto de rutura na história do Convento da Madre de Deus de Guimarães. As ordens, tanto masculinas como femininas, foram progressivamente extintas, os seus bens confiscados e os espaços conventuais encerrados (Veiga 2019, pp. 113-120). Como em muitas outras casas religiosas, os bens móveis (livros, imagens, objetos litúrgicos) foram dispersos, vendidos ou simplesmente pilhados. A partir da segunda metade do século XIX, muitos conventos foram adaptados a funções civis (escolas, quartéis, prisões, armazéns ou habitação). Estas reutilizações, quase sempre alheias a qualquer preocupação de preservação histórica, resultaram em descaracterizações graves. A história do convento espelha, de forma paradigmática, os ciclos ideológicos que moldaram Portugal. Nos séculos XVII e XVIII, a construção conventual atinge o seu auge, alimentada por uma religiosidade oficial que servia também a construção de uma identidade nacional. Com a ascensão do Liberalismo no século XIX, verifica-se uma ofensiva sobre o património religioso, enquanto símbolo de um poder a combater.

Bases históricas para a análise arquitectónica

Claustro Convento
Claustro Convento

O Convento da Madre de Deus, localizado em Guimarães, atravessou diversas fases marcadas por sucessivas transformações e intervenções, impulsionadas por figuras de grande relevância. Em junho de 1672, D. Catarina de Chagas chegou a Vale de Donas, acompanhada de um grupo de religiosas, iniciando então a recolha de fundos que possibilitaram, em 1683, a sua instalação definitiva no local, então conhecido como Rosal de Santa Isabel (Caldas 1881, p. 206; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). Com o objetivo de conferir uma regra canónica à comunidade, partiu para Roma entre 1690 e 1693, disfarçada com trajes masculinos, na tentativa de obter a Regra de Santa Clara. No entanto, faleceu durante a viagem de regresso e as normas por si adquiridas nunca chegaram a ser implementadas. Mais tarde, em janeiro de 1716, através de Breve D. Rodrigo de Moura Teles, arcebispo de Braga (Oliveira 1977, p. 112), figura de grande influência e promotor de várias instituições religiosas no norte do país (Rocha 2009, pp. 1-8), envolvendo também membros da nobreza e da alta burguesia urbana, como era comum, motivados tanto pela salvação da alma como pelo prestígio social, nomeia, sua irmã Soror Luísa Maria da Conceição (então recolhida no Mosteiro da Madre de Deus de Lisboa), primeira abadessa da nova fundação (SIPA 2025; Oliveira 2011, vol. I, p. 379). A sua entrada solene no convento de Guimarães ocorreu a 13 de abril do mesmo ano. Até ao seu falecimento, a 1 de abril de 1739, dedicou-se intensamente ao engrandecimento do edifício, promovendo ampliações e melhorias que permitiram elevar o número de recolhidas a trinta e três. A vida conventual era marcada pela clausura rigorosa, a oração e a educação feminina básica (Silva 2019, p. 352), esta prática de fundação conventual respondia ao modelo pós-tridentino, onde o mecenato religioso reforçava a autoridade familiar e a devoção institucional.                        

O século XIX marcou o início do seu declínio. A interdição do noviciado, em 1833, e a consequente incorporação do convento nos bens da Fazenda Nacional, no ano seguinte, levaram à redução progressiva da comunidade. O falecimento da última religiosa, Soror Maria de São José, em 1888, marcou o encerramento da vida conventual (DIGITARQ 2025). O edifício permaneceu ao abandono, sofrendo atos de vandalismo em 1910. Foi apenas em 1918 que o espaço conheceu nova função, quando D. Domingos da Silva Gonçalves, fundador das Oficinas de São José, arrendou o antigo convento com a intenção de o transformar num internato para jovens rapazes em situação de carência (SIPA 2025). Em 1983, o edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público, nos termos do Decreto n.º 8/83, publicado no Diário da República, n.º 19, de 24 de janeiro (Oliveira 2011, vol. I, p. 383). Sob a liderança de D. Domingos, realizaram-se obras significativas de reabilitação e ampliação, adaptando o conjunto às novas exigências pedagógicas. À data da sua morte, a 4 de junho de 1960, o convento encontrava-se em pleno funcionamento, albergando diversas atividades formativas e educativas.

Arquitetura

Porta de acesso à igreja

O Convento, é também conhecido como Igreja do Convento das Capuchinhas ou Centro Juvenil de S. José, atualmente classificado pelo SIPA e protegido como Imóvel de Interesse Público. Está ainda incluído na Zona Especial de Proteção do Núcleo Urbano da Cidade de Guimarães.

Constata-se que, do antigo convento, apenas a igreja e o claustro subsistem sem alterações significativas. As restantes áreas foram alvo de sucessivas transformações, adequando-se às novas funções impostas pelo uso contemporâneo do espaço. O edifício apresenta uma arquitetura de traço austero, refletindo os princípios da chamada Arquitetura Chã, uma linguagem formal marcada pela simplicidade volumétrica, pela contenção decorativa e pelo funcionalismo. George Kubler teorizou esta tendência em A Arquitectura Portuguesa Chã – Entre as Especiarias e os Diamantes – 1521-1706, relacionando-a com os ideais pós-tridentinos de modéstia e recato, especialmente evidentes nas ordens religiosas femininas reformadas (Paiva 2014, p. 73). Esta linguagem, amplamente disseminada na arquitetura religiosa portuguesa, distingue-se por uma depuração formal, ausência de ornamentos supérfluos e soluções construtivas sóbrias (Pereira 1992, p. 24). Tais características estão bem evidenciadas no Convento da Madre de Deus, cuja planta retangular, volumes simples e fachadas despojadas conferem expressividade sobretudo pelo equilíbrio e proporção.

A igreja apresenta uma planta longitudinal, com nave única e capela-mor mais estreita e ligeiramente elevada. A configuração corresponde ao tipo de “igreja-caixa” da Arquitetura Chã, caracterizada por volumes paralelepipédicos e ausência de compartimentação interna, com cobertura em abóbada e transição entre nave e capela-mor marcada por um arco triunfal. Este último elemento, de origem clássica, desempenha uma função simbólica significativa, assinalando a passagem entre espaços de estatuto litúrgico distinto (Rocha 2017, p. 95). O teto da nave é constituído por caixotões de madeira pintados. O púlpito, utilizado para a pregação, localiza-se do lado da Epístola e assenta numa mísula de cantaria, com guarda plena em madeira. De acordo com Pedro Miguel Oliveira Paiva, existiria um acesso direto entre a sacristia e o púlpito, posteriormente entaipado. “A igreja teria perdido o acesso ao púlpito e duas janelas da capela-mor em virtude da construção das escadas de acesso para o segundo piso” (Paiva 2014, p. 95). Entre a sacristia e a capela-mor encontra-se uma pia de pedra destinada à purificação ritual das mãos pelo celebrante antes do momento da consagração litúrgica. A capela-mor, centro simbólico do espaço sagrado, acolhe o momento da transubstanciação, ou seja, a conversão do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, num ritual exclusivamente mediado pelo clero masculino (Rocha 2017, p. 95).

Exteriormente, o edifício distingue-se pela predominância de panos murários lisos, sem elementos decorativos, à exceção do portal principal. Este apresenta uma composição mais elaborada, com volutas, pináculos e espaldar de cantaria encimado por uma cruz latina, sinalizando uma discreta influência do gosto barroco. A estrutura decorativa da entrada revela referências à arquitetura clássica, entablamento e cornija saliente, com pilastras de capitéis que reinterpretam a ordem toscana. O portal principal, com verga saliente, insere-se numa composição simétrica, sendo ladeado por duas janelas gradeadas de verga recta. Sobre o portal, ergue-se um nicho em arco de volta perfeita, que acolhe uma imagem devocional, rematado lateralmente por dois pináculos de cantaria que conferem verticalidade e sobriedade ao conjunto.

Nos conventos femininos, o acesso à igreja pelas religiosas fazia-se geralmente por um percurso autónomo, a partir do interior do claustro, conduzindo ao coro-alto (em certos casos, ao coro-baixo). Estas estruturas permitiam às religiosas assistir à missa através de grades, preservando o anonimato e a clausura, sem contacto direto com os fiéis que acediam pela entrada lateral da igreja (Paiva 2014, p. 165).

O conjunto de equipamentos organiza-se em torno de um claustro central de planta retangular. No piso térreo, apresenta arcadas retas com fachadas em granito aparente; no piso superior, abrem-se janelas com varandins em ferro. O claustro assume aqui o seu papel tradicional de espaço de recolhimento, silêncio e oração (Rocha 2017, p. 93). No seu centro destaca-se um chafariz em pedra, datado do século XVIII. Este elemento cumpre funções simbólicas e práticas: além do abastecimento de água, representava purificação e, segundo Pereira (1992, p. 82), reforçava o dramatismo cénico próprio da estética barroca. A estrutura conventual articulava-se em torno deste núcleo, com acesso às diversas dependências (dormitórios, refeitório, cozinha, enfermaria e noviciado), que foram adaptadas ao longo do tempo, sem anular completamente a memória das suas funções originais (Paiva 2014, p. 45).

Há ainda a referir, a existência de um terreiro com um cruzeiro datado de 1775, alinhado com a antiga Calçada das Capuchinhas, e pátios ajardinados que integram fontes decoradas com motivos fitomórficos, testemunho discreto da linguagem barroca. No contexto do Barroco, os cruzeiros assumiam-se como elementos de forte carga simbólica, demarcando o território da fé e integrando o espaço público enquanto sinais da presença religiosa, muitas vezes com funções devocionais e cenográficas (Pereira 2022, p. 20). A fachada orientada a nordeste, estabelecia uma ligação visual direta com a muralha e com a torre da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, reforçando o papel simbólico do convento na paisagem monumental de Guimarães (Paiva 2014, p. 71). Esta intencionalidade espacial foi comprometida, no século XIX, pela chegada da linha férrea e pela construção de pavilhões industriais que obscureceram a leitura urbana do edifício. A arquitetura conventual, mais do que mera funcionalidade, deve ser entendida como um discurso simbólico, um verdadeiro “texto tridimensional” que articula valores religiosos, sociais e políticos através do espaço construído.

Mestres de obra identificados

Atualmente podem observar-se marcas que remetem para as várias fases e épocas construtivas que o edifício atravessou. O edifício preserva, na sua estrutura, os vestígios das intervenções sucessivas de mestres-de-obras, arquitetos e pedreiros, que ao longo do tempo foram moldando o traçado, os volumes e a forma do conjunto, testemunhando assim as diversas fases de transformação e adaptação que marcaram a sua história. Embora não existam documentos que nos consigam levar ao conhecimento do arquiteto responsável pela obra, a tese de doutoramento de António José de Oliveira “Clientelas e Artistas em Guimarães nos séculos XVII e XVIII” (2011), permite identificar os principais mestres construtores responsáveis pelas campanhas construtivas mais relevantes do convento durante os séculos XVII e XVIII.

André Machado, mestre pedreiro de Arões, foi contratado em 1701 para "acabar e aperfeiçoar toda a obra de pedraria que faltava por acabar neste convento", incluindo paredes, portas, janelas, pilares e escadas, segundo a traça definida pelas religiosas. A pedra seria proveniente da Quinta de Vila Nova ou do Montinho de São Roque. O contrato previa uma remuneração de 450$000 réis, com cláusulas específicas de prazo, qualidade e penalizações.

António de Oliveira, pedreiro residente no lugar da Cividade (freguesia de São Salvador de Joane), foi contratado em 1719 para a construção de um novo dormitório conventual, pelo valor de 615$000 réis.

Manuel da Silva, carpinteiro residente na freguesia de Ruivães, assumiu a execução da carpintaria do mesmo dormitório (portas, janelas, ferragens), pelo valor de 385$000 réis. Ambos os contratos mencionam a existência de plantas e apontamentos fornecidos pelas religiosas, e a necessidade de revisão da obra por outros oficiais antes do pagamento final.

Retábulo Capela-Mor

O património integrado do Convento da Madre de Deus de Guimarães

O Convento é um exemplo de como a articulação entre arquitetura religiosa e património integrado, entendendo-se este último como o conjunto de bens cuja existência e função estão intrinsecamente ligadas ao edifício onde se encontram inseridos, formam com ele uma unidade indivisível (Calado et al. 2003, p. 5). Entre os elementos integrados mais relevantes, que estão conservados no convento, sobressai o conjunto de azulejaria figurativa setecentista da capela-mor. Composto por seis grandes painéis azuis e brancos, que representam episódios centrais da vida da Sagrada Família (Paiva 2014, p. 99): a Anunciação, o Sonho de São José, a Apresentação no Templo, a Fuga para o Egipto, o Casamento da Virgem e a Adoração dos Pastores e dos Magos (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Estes painéis não só exemplificam a qualidade técnica da produção azulejar lisboeta do século XVIII (Paiva 2014, p. 167), como revelam uma clara intenção pedagógica e devocional, em linha com os ideais pós-tridentinos de catequese visual.

O retábulo-mor, em talha policroma a branco, cinza e dourado, apresenta uma composição tripartida, com tribuna central, colunas coríntias e decoração vegetalista (SIPA 2025), sendo um testemunho do barroco contido adaptado à sensibilidade franciscana capucha. A presença deste elemento exibe uma contenção ornamental equilibrada com a solenidade litúrgica, preservando o ideal de pobreza decorativa sem abdicar do esplendor do espaço sagrado. Outros retábulos dourados atualmente existentes nas laterais da nave pintados por António Luís e Luís Lopes Pimenta (1739) (Oliveira 2011, p. 382) — dedicados a São José e a Nossa Senhora, não são originais do convento, tendo sido transferidos da Igreja de Santa Clara de Guimarães no século XX (Oliveira 2011, vol. I, p. 382). Ainda assim, a sua integração posterior mostra bem os desafios contemporâneos na gestão e salvaguarda do património integrado: como defende o IPPAR, a dispersão ou substituição destes bens compromete a coerência simbólica e material do espaço arquitetónico (Calado et al. 2003, p. 14).

A compreensão do património integrado do convento exige também uma consciência crítica dos processos históricos de perda e alienação de bens, particularmente após a extinção das ordens religiosas em 1834. Neste contexto, muitos objetos litúrgicos e artísticos foram removidos ou substituídos, comprometendo a “alma do monumento” — isto é, a unidade simbólica entre espaço, objeto e função (Calado et al. 2003, p. 8). A manutenção e valorização dos elementos ainda preservados, como os azulejos e o retábulo-mor, assume, por isso, particular importância no reconhecimento da identidade do edifício. Neste sentido, o Convento da Madre de Deus de Guimarães oferece-se hoje como um exemplo de património religioso onde a persistência de elementos integrados (apesar das vicissitudes institucionais e funcionais), permite ainda uma leitura coerente da sua função original, simbólica e artística.

Do Complexo de Noé à mercantilização: o património entre memória e função

A intervenção no edificado, ilustra de forma clara as tensões entre a preservação patrimonial e a funcionalização contemporânea de edifícios históricos. Ao longo do século XX, alterações urbanas como a abertura de novas avenidas e a formação de núcleos industriais contribuíram para a descaracterização do entorno conventual. O edifício perdeu a sua relação visual e simbólica com o centro histórico, especialmente com a torre da Colegiada da Oliveira, uma rutura paisagística que compromete o valor monumental da sua implantação original. Internamente, o edifício sofreu intervenções que levantam dilemas clássicos do restauro: conservar o original ou reconstituir o passado? A introdução de betão armado e divisórias em materiais modernos, apontam para uma lógica de adaptação funcional, mais do que de conservação criteriosa. Esta realidade insere-se numa crítica mais ampla à chamada “mercantilização do património”, onde edifícios históricos são descontextualizados em nome da utilidade contemporânea. Por outro lado, alguns teóricos apontam ainda para o Complexo de Noé, ou seja, a tendência de querer salvar tudo sem qualquer hierarquia de valores, (Zerbetto 2007) poderia diluir o verdadeiro significado do património. A reconversão do Convento insere-se numa tendência mais ampla de reutilização de património religioso desativado, comum em Portugal com abordagens diversas, oscilando entre a conservação e a descaracterização profunda.

O Convento como palimpsesto: Leitura crítica do espaço atual

O edificado configura-se hoje como um verdadeiro palimpsesto arquitetónico, (Quintão 2023, pp. 29-34) no qual elementos barrocos originais coexistem com intervenções contemporâneas, ora integradas com sensibilidade, ora contrastantes ou dissonantes. A arquitetura contemporânea sobreposta ao espaço conventual manifesta uma relação dialética com a pré-existência: nalguns pontos, respeita a memória do lugar; noutros, obscurece ou apaga os seus significados. Este fenómeno coloca em causa os princípios da intervenção patrimonial, como os estabelecidos na Carta de Veneza ou nas teorias do restauro crítico, que defendem a distinção clara entre o novo e o antigo, preservando a legibilidade histórica dos conjuntos. Neste sentido, o convento pode ser lido como um espaço de memória em disputa, onde algumas marcas resistem (a estrutura, a função simbólica da clausura, os vestígios artísticos), enquanto outras se perderam ou foram reinterpretadas.

Inserção urbana e função social do convento na cidade de Guimarães

Inserido no denso tecido urbano de Guimarães (cidade de forte tradição religiosa e sede de numerosos conventos masculinos e femininos), o Convento da Madre de Deus não funcionava apenas como espaço de clausura, mas também como instrumento de ordenação social, moral e simbólica. A sua localização, ainda que integrada na malha urbana, criava uma espécie de “ilha de clausura”, separada fisicamente, mas influente espiritualmente. De acordo com alguns autores (Oliveira 2011, pp. 379–387), este tipo de conventos femininos reforçava a autoridade da Igreja sobre o espaço urbano, projetando valores de disciplina, recolhimento e pureza sobre o quotidiano das populações. Esta rede prolongava-se até Braga, sede do arcebispado, onde figuras como D. Rodrigo de Moura Teles promoveram ativamente fundações religiosas. O convento de Guimarães poderá assim ser entendido como parte de uma estratégia episcopal mais ampla, com objetivos devocionais, sociais e políticos.

Centro Juvenil São José 2025

O Centro Juvenil de São José (CJSJ) é atualmente uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) sem fins lucrativos, cuja origem remonta às antigas Oficinas de São José, fundadas em 1915 no Convento das Capuchinhas, em Guimarães.

Hoje, o CJSJ dedica-se ao acolhimento e à inserção social de crianças e jovens sem apoio familiar ou em risco de exclusão social. As suas principais respostas sociais incluem uma Casa de Acolhimento e um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), ambos sediados em Guimarães, bem como uma creche localizada em Felgueiras. Paralelamente, desenvolve projetos como o “Bons Pais, Bons Filhos” e mantém um Alojamento Local (AL), cujas receitas contribuem para a sustentabilidade das suas atividades sociais. Este AL, tem como objetivo principal apoiar jovens oriundos dos PALOP, que se encontram em dificuldades financeiras, ajudando-os a ajustarem-se à realidade económica e social portuguesa.

A missão do Centro assenta na intervenção para a reintegração social, colocando as necessidades da criança e do jovem no centro da sua ação, promovendo a sua inclusão e bem-estar. Embora o edifício tenha perdido o seu contexto religioso original, permanece impregnado de espiritualidade e do compromisso com o próximo, valores fundamentais da doutrina cristã que continuam vivos. Este espaço assume-se, assim, como um lugar de memória histórica, sustentado por princípios de fé, de purificação da alma e de amor ao próximo.