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Fonte das Virtudes

Fonte: Porto Barroco
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1. IDENTIFICAÇÃO

Designação Fonte das Virtudes
Localização Calçada das Virtudes, Miragaia, Porto
Cronologia 1619
Autor(es) Pantaleão de Seabra e Sousa
Classificação Monumento Nacional desde 23 Junho 1910
Como chegar https://maps.app.goo.gl/pXmFNAP4z6xp3CsV7
Horário de Funcionamento Horário de Verão (abril - setembro): 09h – 19h

Horário de Inverno (outubro - março): 09h – 18h

2. ESTADO DA ARTE

Fonte das Virtudes

A Fonte das Virtudes é uma obra inserida no Jardim das Virtudes, com raízes no antigo Horto das Virtudes e que é composto por uma variedade de fontes, chafarizes e lagos, tais como a fonte de Neptuno e o chafariz das Esfinges (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 156).

A construção da Fonte remonta a 1619 (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 156) e o projeto é da autoria de Pantaleão de Seabra e Sousa (CMP, 2018), com trabalho dos mestres pedreiros António de Sousa, Pantaleão Pereira e Gonçalo Vaz, a partir de 16178 (Teixeira, 2018, p. 257 apud Alves, 1997, p. 55).

A importância da construção da Fonte das Virtudes foi além do papel que prestava à população – para que o seu acesso fosse facilitado, abriu-se uma espaçosa calçada que ficou conhecida como “Calçada da Fonte das Virtudes” e se tornou o destino favorito de passeio da elite da cidade pela vista privilegiada.  A encosta foi enrelvada e, do lado direito da calçada, foram colocados bancos para descanso dos visitantes. No final do século XVIII o espaço foi ainda mais monumentalizado com a construção de um paredão que acabou por ruir, mas foi prontamente substituído por outro, que subsiste até aos dias de hoje (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 157).


3. ENQUADRAMENTO

Contexto físico patrimonial de proximidade  

Fonte de Neptuno; Chafariz das Esfinges; Mosteiro de São Bento da Vitória; Igreja e Torre dos Clérigos


4. DESCRIÇÃO

A Fonte das Virtudes (Monumento Nacional desde 23 Junho 1910) é uma obra emblemática inserida na deslumbrante zona verde da cidade do Porto conhecida como Jardim das Virtudes. Este jardim tem raízes no antigo Horto das Virtudes, um local enriquecido pela natureza e pela história e é composto por uma variedade impressionante de fontes, chafarizes e lagos e é adornado por elementos como a imponente fonte de Neptuno e o majestoso lago/chafariz das Esfinges (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 156).

A área das Virtudes é abençoada por uma nascente de generoso caudal que fluía pela encosta. Essa nascente era reforçada pelas águas do Rio Frio, que antigamente corria livremente pela região, antes de ser canalizado devido ao crescimento urbanístico da cidade. O Rio Frio tem a sua origem nas proximidades da atual rua da Torrinha, passando pelo local onde agora se ergue o Hospital de Santo António, deslizando ao longo do litoral de Miragaia e desaguando finalmente nas águas do rio Douro, próximo da atual Alfândega Nova. Além do Rio Frio, as águas de várias minas a céu aberto também contribuíam para o fluxo que alimentava a zona, embora nem sempre fossem aproveitadas de forma adequada (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 156). Este rio, juntamente com o rio da Vila, foi, durante séculos, o principais curso que abastecia a cidade do Porto (Teixeira, 2018, p. 248).

A construção da Fonte das Virtudes remonta a 1619, foi financiada pelo imposto sobre a comercialização do vinho do porto (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 156), sendo o seu projeto da autoria de Pantaleão de Seabra e Sousa, Fidalgo da Casa Real e Regedor da cidade (CMP, 2018), com trabalho dos mestres pedreiros António de Sousa, Pantaleão Pereira e Gonçalo Vaz, a partir de 16178 (Teixeira, 2018, p. 257 apud Alves, 1997, p. 55).

Inicialmente conhecida como Fonte do Rio Frio, esta fonte logo ganhou fama devido às supostas propriedades medicinais (“virtudes”) das suas águas, tendo assim ficado conhecida como Fonte das Virtudes (Silva, 2000, p. 82). O que se revela curioso, pois o usual era a consagração e construção de uma fonte somente depois de se verificarem as propriedades medicinais da nascente de água (Teixeira, 2018, p. 254).

Foi erguida no coração de um amplo espaço habitado pela próspera comunidade judaica. Nas proximidades, o "almocávar", ou cemitério judaico, testemunhava a presença marcante desse grupo. O bairro judaico estendia-se desde as margens do rio, próximo ao local de origem do Convento de Monchique, ascendendo pela encosta até à Bandeirinha, e continuava para além das muralhas, que foram erguidas durante o reinado de D. Afonso IV e concluídas no final do século XIV, sob o reinado de D. Fernando, até alcançar a Fonte da Colher. Vestígios dessa ocupação persistem na toponímia local, como a rua e as escadas do Monte dos Judeus. Porém, a comunidade judaica foi posteriormente realocada por ordem de D. João I para um novo espaço, próximo à Porta do Olival, onde permaneceram até serem expulsos por D. Manuel I. Após a expulsão dos judeus, o local passou por um processo de reabilitação (Silva, 2000, p. 82).

Construída em granito, de alto espaldar com três corpos distintos, é considerada uma das obras de cantaria mais notáveis da cidade naquela época, destacando-se pela sua beleza e pela mestria dos artesãos que a ergueram (Silva, 2000, p. 82). Merecem destaque o frontão quebrado, onde se encontram as armas reais, bem como a inscrição (atualmente ilegível) no entablamento. Abaixo deste, dois castelos em alto-relevo ladeiam um nicho atualmente vazio, mas que, em pleno século XVII teria uma estátua da Nossa Senhora das Virtudes (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 157).

O corpo central, ladeado por pilastras com folhas de acanto, possui placa de mármore rosa inscrita em latim:

«Fonte com nome honroso das virtudes brota com abundância:

Quem tiver sede, beba sem temor desta água.

Até há bem pouco tempo, a água nascia entre pedras:

O barro e as silvas impediam o acesso.

O empenho público colocou as águas ao alcance de todos.

Possibilitou que corressem por melhor caminho.

Depois aplanou o caminho, e colocou ordenadamente assentos,

Para que as águas agradecidas pudessem correr livremente».

(Tradução de Fausto Sanches Martins, in Santos, Pacheco, Girão & Clare (2017, 158), apud Teixeira (2011, 89), apud Ferreira-Alves (1997, 56)  

A água brotava de forma copiosa (Silva, 2000, p. 82) de duas carrancas em forma de grotescos algo peculiares, com orelhas pontiagudas e uma farta e detalhada barba enrolada em canudos para os tanques, entretanto assoreados, que serviriam também a população para a lavagem da roupa (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 159).

A construção desta fonte está plenamente enquadrada na conjuntura sociocultural da Época Moderna, pois é então que principiam as grandes obras de abastecimento público, cada vez mais necessários devido ao aumento demográfico e à necessidade de água potável eu já se faziam sentir na primeira metade do século XVI (Teixeira, 2018, p. 250). Não obstante, a monumentalização destes equipamentos de abastecimento de água foi um processo que se acentuou na Europa a partir do Renascimento, e em Portugal apenas a partir do século XVII, de forma lenta, sendo que, até então, a maior parte destes equipamentos eram aparelhos simples, sem qualquer decoração e adossados a edifícios (Teixeira, 2018, p. 254).

A Fonte das Virtudes, seguindo a tradição antiga dos seus pares como espaços de ajuntamento, confraternização e negócio (Teixeira, 2018, p. 254), era de tal forma importante que a rodearam de bancos, entretanto também eles desaparecidos (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 160).

A importância da construção da Fonte das Virtudes foi além do papel que prestava à população – para que o seu acesso fosse facilitado, abriu-se uma espaçosa calçada que ficou conhecida como “Calçada da Fonte das Virtudes” e se tornou o destino favorito de passeio da elite da cidade pela vista privilegiada.  A encosta foi enrelvada e, do lado direito da calçada, foram colocados bancos para descanso dos visitantes. No final do século XVIII o espaço foi ainda mais monumentalizado com a construção de um paredão que acabou por ruir, mas foi prontamente substituído por outro, que subsiste até aos dias de hoje (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 157).

Também no tapete verde da Virtudes se encontra outra fonte monumental de espaldar, a “Fonte de Neptuno”, datada de 1679. A diferença principal entre esta e a das Virtudes é que a fonte de Neptuno está implantada num patamar rodeada de muros altos com bancos laterais e dá acesso a um tanque posicionado a um nível inferior, permitindo que a água seja aproveitada em cada um dos patamares que conduzem ao vale e alimente outros tanques e minas (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 173 apud Velasques, 2001, p. 176).

A carranca esculpida com um grotesco decorado com uma folha de acanto esculpida na fronte e a barba que parece imitar uma guelra. O corpo central da fonte também possui um nicho, atualmente vazio, mas deste nada de sabe, tampouco que figura acolheria (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 172). A água que brota da carranca é depositada numa taça em forma de concha, que simboliza o reino feminino (Santos, Pacheco, Girão, & Clare, 2017, p. 173).

Num outro patamar, o Chafariz das Esfinges, mas este encontra-se degradado e amputado, pois faltam-lhe as cabeças dos elementos que dão o nome ao chafariz.


Bibliografia

CMP. (21 de 03 de 2018). Percurso Cultural aproveita o Dia Mundial da Água para ir à descoberta do Rio Frio. Porto. [Consul. a 02 abril de 24]. Disponível em: https://www.porto.pt/pt/noticia/percurso-cultural-aproveita-o-dia-mundial-da-agua-para-ir-a-descoberta-do-rio-frio

Santos, A., Pacheco, L., Girão, M., & Clare, R. (2017). As Nossas Memórias - As Fontes do Porto (vol. II). Porto: Edições Afrontamento.

Sereno, I., Leão, M., Noé, P. (1994). Fonte do Rio Frio/ Fonte das Virtudes in Monumentos - Sistema de Informação para o Património Arquitetónico. Noé, P. (1997) (actualização). [Consul. a 02 abril de 24]. Disponível em: www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5546

Sereno, I. (1996). Passeio das Virtudes / Jardim das Virtudes in Monumentos - Sistema de Informação para o Património Arquitetónico. [Consul. a 02 abril de 24]. Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5502

Silva, G. (2000). Fontes e Chafarizes do Porto. Porto: SMAS Porto.

Teixeira, D. E. (2018). Equipamentos de Abastecimento de Água na Cidade do Porto - Alguns Exemplos de Manaciais, Fontes e Chafarizes. Em M. J. Moreira da Rocha (coord.), História da Arquitetura – Perspetivas Temáticas (pp. 243-262). Porto: CITCEM. doi:https://doi.org/10.21747/9789898351937/his