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Igreja do Colégio de Nossa Senhora da Esperança

Fonte: Porto Barroco
Revisão em 07h49min de 21 de maio de 2024 por A valentim (discussão | contribs)

1. IDENTIFICAÇÃO

Designação Igreja do Colégio de Nossa Senhora da Esperança
Localização Avenida Rodrigues de Freitas 339, Sé 4222-222 Porto
Cronologia Século XVIII (1746-1763)
Autor(es) Mestre-pedreiro António Pereira; Nicolau Nasoni
Classificação Classificado como IIP - Imóvel de Interesse Público

2. ESTADO DA ARTE

O século XVIII vai trazer, juntamente com as riquezas das colônias - como o ouro do Brasil -, a explosão da corrente Barroca por todo o País e a Igreja de Nossa Senhora da Esperança é o exemplo desse novo gosto artístico que já circulava muito antes pela Europa.

A Igreja de Nossa Senhora Da Esperança é uma joia do período Barroco no Porto e esta atrai os olhares de quem por lá passa. Está integrada ao Colégio (antigo Recolhimento de Órfãs) de Nossa Senhora Da Esperança - propriedade da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que nos seus primórdios, enquanto Recolhimento, acolheu, educou e alimentou meninas órfãs.

A origem de sua fundação remonta ao início do século XVIII, com o falecimento do Tesoureiro-mor da insigne Colegiada de Cedofeita. O Padre Manuel de Passos Castro, falecido em 28 de agosto de 1718, em seu testamento que deixara à Misericórdia do Porto, explicitava o desejo de que aplicassem o remanescente desse legado em obras pias e de caridade.

Foi nesse contexto que o antigo recolhimento teve aprovação Real em 1722 para ser erigido e principiou as suas construções em dois de setembro de 1724; o Mestre de Obras que esteve encarregado foi António Pereira.

O fim das obras do recolhimento aconteceu no ano de 1743, quando começou então, em 1746, a construção da Igreja dedicada a Nossa Senhora da Esperança, no mesmo local onde havia uma antiga capela de menor dimensão dedicada a São Lázaro. A respeito da autoria do arquiteto por trás das obras da nova igreja, Roberth Smith em seu livro “Nicolau Nasoni: arquitecto do Porto” nos conta que a nível da Igreja, o contrato foi celebrado entre o então provedor da Santa Casa da Misericórdia e um grupo de seis mestres pedreiros.

Embora o nome do arquiteto italiano Nicolau Nasoni não se faça presente no contrato, para Smith a autoria de Nasoni é clara, dentro e fora do edifício, devido as inegáveis evidências estilísticas produzidas pelo mesmo em diversos outros edifícios pelo Porto. Assinala também a possibilidade do arquiteto italiano ter estado ocupado com as outras obras como as de Matosinhos e Vila Nova de Gaia e nesse contexto criasse a planta sem se associar à construção da mesma. Sendo então, a única obra com participação de Nasoni na zona oriental da cidade do Porto. E em 1763 ocorreu a cerimônia de inauguração do templo.


3. ENQUADRAMENTO

Contexto físico patrimonial de proximidade  

A Igreja de Nossa Senhora da Esperança situa-se em frente ao Jardim Marques de Oliveira, também conhecido como Jardim de São Lázaro, cuja criação e inauguração em abril de 1834 (após o período das guerras liberais) lhe rendeu o título de mais antigo jardim público do Porto. O jardim foi traçado e plantado por João José Gomes, o primeiro jardineiro municipal. Com um traçado geométrico, dispõe de canteiros de formas regulares ao redor de uma fonte histórica para ali transferida em 1838; este é fechado por quatro portões e gradeamento, estando a sua visitação sujeita a horários predefinidos.

Em 1869, o Jardim sofreu transformações de Emilio David mas manteve seu carácter formal.

O nome oficial desta área verde hoje é Jardim de Marques de Oliveira devido a uma homenagem prestada pela Câmara do Porto ao pintor nascido em 1853 no Porto, onde faleceu em 1927.

A poucos metros da Igreja e do Jardim, encontra-se o edifício do antigo Convento de Santo António, atual Biblioteca Pública Municipal do Porto. Fundado em 1783 por Religiosos Menores Reformados da Conceição, foi mandado construir a partir de uma capela, casas e seus respetivos terrenos; a serventia inicial era abrigar um hospício conforme a necessidade da província. Sob a classificação de hospício regular, serviria não só como moradia para os religiosos que viviam na cidade como também de abrigo a quem estivesse de passagem. Em 1790, o hospício passa a ser então Convento e Casa Capitular.

O convento, ao fundar-se a partir de uma estrutura pré-existente, insere-se na corrente classificada como tardobarroca pelo autor Joaquim J. B. Ferreira-Alves.

O edifício possui um grandioso claustro quadrado, formado por sete arcos de cada lado e chamam atenção as janelas na vertical, cuja primeira dispõe de uma sacada e um frontão de gosto “barroquizante” que aparece em outros edifícios contemporâneos como o novo Palácio Episcopal.

Em quatro de abril de 1842, foi instalada definitivamente a Real Biblioteca Pública do Porto, aquando dado a extinção das Ordens Religiosas em Portugal, recebeu uma finalidade cultural.


4. DESCRIÇÃO

Objeto arquitetónico

O conjunto arquitetónico é composto por dois blocos, estando a igreja ao centro ligeiramente adiantada e delimitada por pilastras cunhais. A fachada do templo possui 12,05 metros de largura e sua portada encontra-se no eixo central. O portal é encimado por um frontão interrompido pelo nicho com a figura da padroeira da instituição, a Nossa Senhora da Esperança. Nas suas laterais uma novidade, dois janelões emoldurados preenchem a fachada, juntamente com um óculo que interrompe o entablamento ao meio. No tímpano do frontão ergue-se o brasão real de Portugal do próprio óculo.

Na última parte da fachada, encontramos linhas ondulares que provocam a sensação de um grande movimento. No remate final, erguem-se dois enormes castiçais de granito, juntamente com duas jarras com flores – fazendo lembrar as composições que as freiras tinham o costume de confecionar para enfeite dos altares. No eixo central da portada, ergue-se uma cruz enorme, que de acordo com SMITH, é típica de Nasoni. Além das decorações habituais como as folhas de acanto, é possível ainda encontrarmos novos elementos escultóricos como flores apertadamente atadas.

Na planta, Igreja de Nossa Senhora da Esperança possui o carácter longitudinal e é consideravelmente rica no seu enquadramento interior. É composta de nave única, capela-mor com seu riquíssimo retábulo e aberta lateralmente por duas portas, quatro capelas (nichos) laterais e coro-alto com um órgão de tubos em estilo inglês. Toda a nave é revestida de abóbada de berço com florões em estuque.

As paredes laterais da capela-mor são revestidas de azulejo relevado, amarelo e branco, e possuem sobre mísulas as figuras, à esquerda Santo André e, à direita, São Gonçalo. Do lado direito do altar-mor, pode-se ver uma janela baixa gradeada, que servia de confessionário para as educandas.

Por toda esta extensão da igreja, vemos também uma cornija de granito que levanta-se sobre quatro janelões, de cada banda.


Património integrado

O retábulo-mor, de talha rococó, é composto por um tronco, ladeado de colunas salomónicas, engrinaldadas, tendo ao centro o sacrário, enquadrado por um baldaquino. No alto do trono está inserida a imagem da padroeira, Nossa Senhora da Esperança e, em baixo, entre as colunas salomónicas, à esquerda Santa Madalena e São José e, à direita, Santa Marta e São Lázaro. No retábulo-mor, encontra-se uma explosão de motivos vegetais, figuras de anjinhos por todo o lado e o dourado do ouro que quase cega quem o admira.

Ao longo da igreja podemos admirar quatro retábulos: Senhora das Dores e Senhora do Socorro, do lado do evangelho. Coração de jesus e Santa Ana, do lado da epístola.


Objeto ou conjunto em destaque

Ao entrar pela porta da frente da igreja, automaticamente nosso olhar é capturado pela grandiosidade do retábulo-mor, que, todavia, não há documentação sobre o seu autor.

O que chamas mais atenção são as colunas salomónicas aqui introduzidas (quatro) que nos remete ao baldaquino do interior da Basílica de São Pedro no Vaticano, um programa arquitetónico/escultórico grandiosíssimo e de enorme beleza produzido pelo escultor e arquitecto Bernini.


5. IMAGENS E ICONOGRAFIA DO OBJETO


6. FONTES E BIBLIOGRAFÍA

Fontes

  • Arnaldo Soares. ([Antes de 1910]). Porto [Material gráfico]: Recolhimento das Orphas [Bilhete postal]. Porto. (J.N.B.; 328) Atualmente Colégio de Nossa Senhora da Esperança. Disponível em: https://arquivodigital.cm-porto.pt/Conteudos/Conteudos_BPMP/PIp/PIp%20253/PIp%20253.htm Acesso em: 25.04.2024
  •   Ferreira, A. G. T. (1879 – [1892]). Planta topográfica da cidade do Porto: [quadrícula 300]. Escala 1:500. [Mapa]: Arquivo Histórico. Disponível em: https://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/519663/ Acesso em: 25.04.2024
  • Porto [Material gráfico]: Jardim de S. Lazaro e Avenida Rodrigues de Freitas. ([ca 1910?]). [Portugal]: [s.n.]. Disponível em: https://arquivodigital.cm-porto.pt/Conteudos/Conteudos_BPMP/PIp/PIp%20142/PIp%20142.htm Acesso em: 25.04.2024
  • Porto : Jardim de São Lazaro e Avenida Rodrigues de Freitas (Cerca de 1910) [Bilhete postal]. [S.l.]: [s.n.]. Disponível em: https://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/53422/ Acesso em: 25.04.2024

Bibliografia

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  • Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA). Recolhimento das Meninas Órfãs de Nossa Senhora da Esperança / Igreja e Colégio de Nossa Senhora da Esperança. Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5562
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  • Smith, R. C. (1966). Nicolau Nasoni: arquitecto do Porto. Pp. 115-120, 178, 179. Lisboa: Livros Horizonte.