Saltar para o conteúdo

Igreja do Corpo Santo de Massarelos

Fonte: Porto Barroco
Revisão em 16h31min de 29 de março de 2025 por Joana (discussão | contribs) (+correção erros)
(dif) ← Revisão anterior | Revisão atual (dif) | Revisão seguinte → (dif)
Vista Exterior da Igreja do Corpo Santo de Massarelos
Fachada da Igreja do Corpo Santo de Massarelos
Pormenor da entrada para a Igreja do Corpo Santo de Massarelos
Sacristia da Igreja do Corpo Santo de Massarelos
Parte exterior da Igreja do Corpo Santo de Massarelos voltada ao Rio Douro
Vista interior da Igreja do Corpo Santo de Massarelos
Pormenor da vista interior da Igreja
Interior da Igreja do Corpo Santo de Massarelos, Lado do Evangelho
Pormenor a granito da divisão da nave e da capela-mor
Interior da Igreja do Corpo Santo de Massarelos, Lado da Epístola
Retábulo da capela-mor revestido a talha dourada
Pormenor do orgão presente no templo religioso

Identificação[editar | editar código-fonte]

Designação Igreja do Corpo Santo de Massarelos
Localização Rua da Restauração, 4050-467 -

Massarelos, Largo do Adro, Porto

Cronologia Fundação: Século XIV; Intervenção Barroca: Século XVIII
Autor(es) Desconhecido
Classificação Zona Histórica da cidade do Porto
Horário de Funcionamento Terça-Feira e Sábado

Estado de Arte[editar | editar código-fonte]

A Igreja do Corpo Santo de Massarelos, como objeto de estudo teve o seu ápice de tratamento e inclusão nos estudos académicos nos finais do século XX e inícios do século XXI. Teses de mestrado como a de Jorge Rodrigues, datada de 2002 fazem uma menção especial neste campo de estudo, com a sua dissertação “A Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos e suas Congéneres de Mareantes”.

Obras como o “Inventário Artístico de Portugal, Cidade do Porto” (1995), pertencente à Academia Nacional de Belas Artes, revelou-se de grande interesse, bem como as memórias paroquiais remetentes a 1778, mostraram-se ser uma importante fonte pela abordagem histórica das vivências em torno da confraria e do templo.

A revista “O Tripeiro”, possui um artigo referente à Igreja do Corpo Santo de Massarelos, datada de 1958 e permitiu criar um ponto entre o passado e o Contemporâneo, vivenciado atualmente. Semelhante com o caso da obra "Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto" de Agostino Rebello da Costa do ano de 1788.

A obra consultada com cronologia mais atual pertence á autoria de Germano Silva intitulada de "Porto Nos Atalhos da História" (2009). A obra apenas dispõe de uma breve menção ao templo religioso, tal como é comum nas restantes obras consultadas, revelando assim falta de bibliografia integral contemporânea sobre a arquitetura.

Finalizando com a obra de Natália Alves, “A Arte da Talha no Porto na época Barroca” importante para o estudo do interior da igreja, também pouco estudado e abordado. Nesta obra deu-se a conhecer o nome de um dos artistas que trabalharam no retábulo do altar-mor.

Enquadramento[editar | editar código-fonte]

Em contexto de enquadramento patrimonial físico próximo, a Igreja do Corpo Santo de Massarelos, situa-se junto ao Museu do Carro Elétrico do Porto.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Situada junto à margem com vista para o rio Douro, a Igreja do Corpo Santo localiza-se no Largo do Adro, na freguesia de Massarelos. A história do templo inicia-se no século XIV em torno da devoção de um conjunto de marinheiros provenientes da cidade do Porto.

Data para o ano de 1394 quando o galeão “S. Pedro” que transportava vinte e sete homens, vindos de Londres com destino à cidade do Porto, foi surpreendido por uma tempestade durante a viagem marítima. Para superar essa dificuldade, os marinheiros devotos recorreram a S. Telmo, advogado dos mareantes e marinheiros, para que ele os ajudasse a chegar a terra seguros.

Como as suas preces foram ouvidas, no dia seguinte à tormenta ultrapassada deslocaram-se a Tuy, descalços. Na cidade espanhola pediram esmola e, diante do corpo de S. Telmo, juraram edificar um pequeno templo de devoção pelo milagre ocorrido, caso chegassem à cidade do Porto, em Portugal, seguros.

A 20 de dezembro de 1394 chegaram ao Porto e uma ermida de pequenas dimensões foi edificada, como tinha sido prometido, com S. Pedro Gonçalves Telmo eleito como santo padroeiro. O templo religioso foi construído num terreno que pertencia ao Capitão do Galeão.

Para além desta ermida, posteriormente foi criada uma confraria ao mesmo padroeiro, para tratarem e cuidarem da capela e dos marinheiros.

A confraria do Corpo Santo de Massarelos era responsável pelos serviços de apoio prestados não só aos náufragos, como aos marinheiros falecidos no decorrer das suas atividades marítimas. Para além deste apoio aos mareantes, a ajuda também chegava aos menos afortunados, como viúvas e órfãos, em posses. Estes fundos eram angariados através de uma caixa de esmolas que se encontrava dentro da igreja.

Esta vertente humanitária, e o espírito de solidariedade que envolvia diversas pessoas, fez com que a Confraria das Almas estivesse ligada a instituições como Cruz Vermelha, Bombeiros Voluntários e Socorro a Náufragos, num registo mais recente.

Durante a sua história de funcionamento, foram cedidos vários favores e virtudes provenientes quer de Papas quer de Reis.

Os favores estavam geralmente ligados aos navios da confraria, como é o caso do privilégio e isenção marítima aos navios que ancorassem no “pavilhão das Almas do Corpo Santo, em todos os nossos portos e seus domínios”, (Lanhoso, 1958), concedido a 6 de maio de 1643 pelo rei D. João IV. Também ofertas e promessas eram feitas.

No decorrer da sua atividade, foram realizadas duas grandes intervenções em torno da igreja, para além da construção primária da ermida, interpretada como a primeira intervenção. A segunda intervenção, datada do século XVI, remete a uma ampliação e requalificação.

A terceira intervenção responsável pela ampliação do corpo principal do antigo templo ocorreu em 1776. Como fruto deste projeto de requalificação e de expansão de dimensões, começou a surgir o que viria a ser muito da estrutura da Igreja do Corpo Santo de Massarelos que atualmente pode ser observada.

Como foi uma requalificação de maior grau, coloca-se a igreja numa cronologia barroca por excelência em termos construtivos e ornamentais. Como motivo surge a alteração profunda do corpo da igreja que na altura passou a receber diversos fundos monetários. Como tal, justificam-se as obras associadas e a necessidade de adaptação a um novo tempo e a uma nova linguagem.

Os arquitetos responsáveis pelas alterações permanecem sem identificação, tal como acontece nas intervenções anteriores. Esta reforma terá sido trabalhada e executada com a ajuda dos integrantes da confraria, “sob a direção do Juiz e do Provedor”, (Lanhoso, 1958).

Fruto da última reconstrução, sobressai-se uma nave única de planta longitudinal com uma capela-mor retangular visível a partir das margens do rio Douro. Apresenta ainda volumes diferenciados articulados entre si e com um telhado de duas águas.

A fachada principal atualmente apresenta uma estereotomia acompanhada de granito e de azulejos com decoro azul e branco em motivos geométricos e florais estilizados, posteriormente colocados.

Destaca-se o uso do granito a reforçar os cunhais com um objetivo não só de reforço mas também ornamental, como era comum nas construções no Porto. O corpo central é separado visualmente do corpo das torres sineiras pelo uso de quatro pilastras colossais que se estendem até ao nível do óculo frontal de iluminação que, por sua vez, está incluído no frontão triangular e separa assim outro corpo.

Verifica-se ainda a utilização do granito a emoldurar os vãos de iluminação, que apresentam motivos ondulantes no inferior e superior da moldura e fazem-se colmatar no topo com um motivo concheado, remetendo ao mar. O motivo é comum no conjunto de fenestração e, a delimitar cada uma, encontra-se um gradeado férreo, semelhante ao que vai ser usado no óculo central de iluminação.

A porta de entrada ornamentada pelo granito apresenta duas colunas, de uma proveniência da ordem coríntia, a ladear o único acesso ao templo. Sobre as colunas existe um pequeno friso com motivos ondulantes que dá espaço para o frontão interrompido.

Incluído no espaço do frontão, sobressai-se uma estrutura que remete e imita o espaço da entrada para a igreja com a estrutura em granito de tamanho mais reduzido. O espaço atualmente serve para albergar uma pequena escultura de S. Telmo. A estrutura, à semelhança das janelas, termina com o mesmo motivo concheado.

Na fachada principal, destaca-se o óculo de iluminação circular que apresenta motivos ondulantes e concheados como a restante linguagem ornamental do edifício. Sobre o óculo está presente um frontão triangular rematado com uma cruz de granito e dois outros acrotérios com motivos decorativos vegetalistas.

Destacam-se também as duas torres sineiras com remates ondulantes, cuja ornamentação colmata-se com uma cruz de ferro posteriormente colocada em relação à terceira intervenção. Em cada torre sineira existe um relógio.

Junto ao corpo principal da igreja, que já se encontra despido de azulejos, destaca-se a casa da sacristia. As paredes são de alvenaria rebocada e pintadas de branco, tal como é visível no restante corpo do templo com os cunhais, as molduras das fenestras e o frontão sobre a porta de entrada em granito. A sacristia foi aumentada depois da intervenção de 1776.

Na parte virada ao rio Douro, salienta-se a capela-mor, com uma cruz azul assinalada sobre um painel de azulejos proveniente da "Fábrica de Louça de Devezas" e assinado por Mendes da Silva.

O painel retrata a figura do infante D. Henrique, associado ao milagre do Galeão de S. Pedro,  num ambiente marítimo, remetendo para o local em que o milagre terá sucedido, com a aparição de S. Telmo, o benfeitor do milagre.

O interior da Igreja do Corpo Santo de Massarelos é destacado pelo teto pintado, com pormenores de estuque ornamentados por motivos vegetalistas e geométricos combinados na cor azul.

Destacam-se duas capelas no lado do Evangelho, com o Orago sendo o Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora das Dores. Já no lado da Epístola, dispõe de outros dois altares com a invocação de Santo António e a Imaculada Conceição da Virgem Maria.

Os altares possuem talha dourada, sem exceção, e a ornamentação parece comunicar-se entre si, à semelhança com o que acontece no exterior. Cada altar tem colunas a ladear o espaço de inserção da imagem da devoção. Algumas das colunas são torsas e dispõem de elementos ondulantes que acentuam a cenografia das capelas.

O transepto revela-se inscrito com pormenores decorativos e trabalhados a granito, sobressaindo-se um óculo de iluminação quadriforme e dois nichos com remate concheado na composição. Este transepto também dispõe de dois altares inseridos na sua largura, um referente à Nossa Senhora de Fátima com dois pastorinhos e o outro a S. José.

A capela-mor retangular é rematada com um retábulo proeminente todo revestido de talha dourada, remetente ao estilo Joanino. Ainda com uma menção do pintor “Francisco Mesquita”, (Alves, 1989) que eventualmente terá trabalhado no douramento do retábulo mor.

O retábulo mor dispõe de pormenores ondulantes por toda a composição e o Espírito Santo ladeado por dois anjos no plano superior do retábulo, um a segurar uma cruz e o outro uma âncora. Como significado simbólico destes atributos que são carregados pelos anjos, será uma menção à confraria de marinheiros e mareantes indissociáveis deste templo.

No interior da igreja do Corpo Santo de Massarelos existe um órgão e uma pintura a óleo situada no lado do Evangelho, junto à entrada do templo. Nesta pintura pode ser lido: “Triumpho da Grassa sobre A Natureza” que representa a separação do terreno e do divino. Cristo apresenta-se sentado ao lado direito de Deus, a segurar uma cruz, com o espírito santo ao meio, simbolizando assim a Santíssima Trindade.

Destaca-se ainda uma figura feminina a segurar uma âncora, fazendo ligação com o lado terreno em que S. Pedro Gonçalves Telmo se encontra a segurar a corda desta âncora. No lado inferior do quadro são  visíveis uma custódia, e uma chama que pode ser associada ao “fogo de S. Telmo.”

A Igreja do Corpo Santo de Massarelos sempre usufruiu de um cargo importante, não só pela confraria responsável pelo templo, como também pelos milagres realizados por S. Telmo e suas relíquias. Estes motivos atraíram desde cedo peregrinos, tal como é descrito nas Memórias Paroquiais de 1758, “Vem de romagem a este santo muita gente, com ofertas grandiosas, especialmente os marítimos”.

No final do século XVIII, foi requerido pelos confrades ao bispo de Tuy uma relíquia do Corpo Santo de S. Telmo, desejo que lhes foi concedido. A obtenção da relíquia contribuiu assim para a propagação do culto neste templo.

Em 1862, após a igreja da Boa Viagem, na altura possuidora do cargo de Igreja Matriz de Massarelos, ameaçar ruína, a Igreja do Corpo Santo passou a ser a Igreja Paroquial de Massarelos, como há muito era desejado pela confraria. Em 1924 deixou de possuir esse cargo, tal como nos dias de hoje se mantém.

Atualmente a Igreja está sob a alçada da proteção remetida aos edifícios incluídos na Zona Histórica do Porto. Encontra-se aberta ao público às Terças-Feiras e Sábados, e possui um Núcleo Museológico visitável a cargo da Confraria das Almas.


FONTES E BIBLIOGRAFIA[editar | editar código-fonte]

Academia Nacional de Belas Artes. (1995). Inventário Artístico de Portugal, Cidade do Porto. Lisboa;

ALVES, Natália M. F., A Arte da Talha no Porto na época Barroca (Artistas e Clientela, Materiais e Técnica), I Volume, Arquivo Histórico Câmara Municipal do Porto;

CAPELA, J. V. & BORRALHEIRO, H. M. R.. (2009). AS FREGUESIAS DO DISTRITO DO PORTO NAS MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758: Memórias, História e Património. Vol. 5, Braga;

COSTA, Agostino Rebello da. (1788). Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, Oficina Antonio Alvarez Ribeiro, p. 111;

JOAQUIM, Jaime B. F. A.. (2005). Ensaio sobre a arquitectura barroca e neoclássica a norte da bacia do Douro, Revista da Faculdade de Letras Ciências e Técnicas do Património, Porto;

LAMEIRA, Francisco. (2013). O retábulo no mundo português: tipologias e modelos compositivos Francisco Lameira FCHS, Universidade do Algarve, CHAIA, Universidade de Évora, 2013.

LANHOSO, Adriano Coutinho. (Janeiro, 1958). A Confraria das Almas do Corpo Santo , de Massarelos, in O Tripeiro, V Série, Ano XIII, nº9;

LEAL, Augusto S. A. B. Pinho. (1875). Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, p. 121;

PEREIRA, Paulo. (1989). Dicionário da Arte Barroca em Portugal. Lisboa: Editorial Presença;

RODRIGUES, Jorge M. C., A. (2002). Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos e suas Congéneres de Mareantes, Porto.

SALTEIRO, Ilídio O. P. S.. (2005). Do Retábulo, Ainda aos Novos Modos de o Fazer e Pensar, Universidade de Lisboa;

SILVA, Germano. (2009). Porto nos Atalhos da História, Casa das Letras.


Observações

S. Pedro Gonçalves Telmo ou Corpo Santo, como também é conhecido, apareceu em Portugal com influência do culto galego lá prestado. Após a sua canonização e associação a Guimarães e Tuy, tornou-se numa devoção ainda mais cultuada em Portugal.

O Padroeiro da Igreja do Corpo Santo de Massarelos estaria ligado a um milagre, em que terá ordenado aos ventos para pararem durante uma das suas pregações, ficando assim associado aos ventos e tempestades que muitas vezes atormentavam os marinheiros.