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Convento de Santa Ana de Viana do Castelo

Fonte: Porto Barroco

Identificação

Designação Convento de Santa Ana, Atual Congregação de Nossa Senhora da Caridade
Localização Rua dos Bombeiros, Viana do Castelo, Portugal
Cronologia Século XVI
Autor(es) Pêro Galego; Domingos Gonçalves do Rego; António Adelino Magalhães Moutinho
Classificação Arquitetura religiosa; unidade monástica feminina; arquitetura assistencial

Estado da Arte

A obra História Mundial da Arte: do Barroco ao Romantismo (1965), da autoria de Everard M. Upjohn, Paul S. Wingert e Jane Gaston Mahler, originalmente publicada pela Universidade de Oxford, fornece uma contextualização abrangente das principais correntes estéticas do período barroco na Europa, evidenciando como os valores do movimento – teatralidade, dinamismo e espiritualidade – se manifestaram na arquitetura religiosa.

No contexto português, a História da Arte Portuguesa: da estética barroca ao fim do classicismo (2007), da direção de Paulo Pereira, aprofunda a especificidade do barroco nacional, destacando as influências italianas e espanholas, bem como o papel da Contrarreforma na configuração dos espaços religiosos.

Da autoria da Dr.ª Paula Noé, a página no website SIPA, intitulada Mosteiro de Santa Ana / Edifício da Congregação da Caridade, constitui uma fonte documental e descritiva que permite cruzar dados arquitetónicos com a história institucional do edifício.

Já o estudo do Dr. Manuel Joaquim Moreira da Rocha sobre unidades monásticas, História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar (2023), oferece uma perspetiva sobre a organização espacial, simbólica e funcional dos conventos femininos, salientando as particularidades da vida enclausurada e o modo como estas se traduziram na arquitetura.

Enquadramento

O antigo Convento de Santa Ana apresenta planta retangular regular, desenvolvida à volta de claustro de igual forma, integrando uma igreja longitudinal de nave única e capela-mor. Encontra-se inserido num contexto urbano, ainda que se mantenha isolado no interior da sua própria cerca. Situa-se na extremidade norte do centro histórico de Viana do Castelo, no sopé do monte de Santa Luzia, e a delimitação do seu perímetro é feita, a norte e a nascente, pela linha ferroviária, que atravessa terrenos que outrora integraram a cerca conventual.

O conjunto é rodeado por um muro elevado nas fachadas oeste e norte; nas fachadas sul e nascente, a vedação apresenta um muro mais baixo. O portal central, frente à igreja, conduz a um percurso em calçada portuguesa que termina na escadaria de acesso ao templo. Na fachada posterior desenvolvem-se corpos anexos, de menor altura, destinados a funções de serviço. Do lado nascente, numa cota superior, subsiste parte da antiga cerca, acessível através de um pano de muro que integra o portal manuelino da igreja.

No interior da cerca subsistem também várias estruturas de apoio ao funcionamento da comunidade, sendo que, em frente ao convento, ergue-se o Palácio dos Viscondes da Carreira, e nas suas proximidades localiza-se o Teatro Sá de Miranda.

Descrição

Objeto Arquitetónico

As Fachadas

A fachada principal da igreja do Convento de Santa Ana, voltada a sul, foi construída entre 1735-38. É da autoria de Frei Luís de São José em colaboração com o coronel Manuel Pinto Vilalobos. No centro da fachada destaca-se um nicho com a imagem de Santa Ana, esculpida pelo mestre entalhador Francisco de Oliveira. A fachada apresenta estilo barroco expressivo, marcado pelo pano central mais elevado. Apresenta portal de verga reta e cornija com a imagem da padroeira e com as armas nacionais (esfera armilar, à esquerda, e cruz de Cristo, à direita). O portal é enquadrado por duas cartelas retangulares com inscrições.

A fachada oeste corresponde à portaria do convento. Foi reformada entre 1738 e 1741 pelos mestres Manuel Álvares Martins e António Lopes Trindade. O corpo central exibe um portal em arco de volta perfeita, assente em pilastras toscanas e envolto por elementos decorativos. Acima do portal, encontra-se imagem da Senhora da Caridade. A composição é coroada por platibanda em alvenaria rebocada, com frontão curvo em cantaria que integra um brasão nacional. O corpo esquerdo mais avançado inclui torreões.

As fachadas resultantes das reformas do século XIX apresentam uma notável regularidade e simetria. Os dois pisos são separados por cunhais e remates em friso, com cornija encimada por beiral. No piso inferior, abrem-se janelas de peitoril; no superior, janelas de sacada, com bandeira e molduras compostas por friso e cornija reta.

Quanto às restantes fachadas, a lateral leste é organizada em três panos: os dois primeiros têm janelas de peitoril em ambos os pisos, enquanto o terceiro corpo em cantaria apresenta arcos abatidos no piso térreo e uma varanda fechada no piso superior. A fachada posterior, voltada a norte, revela-se mais simples, marcada por janelas de peitoril com molduras despojadas.

A Nave

Nave da igreja do Convento de Santa Ana

A igreja do Convento de Santa revela uma planta longitudinal, constituída por nave única, capela-mor e coros baixo e alto.

A nave data do século XVI e apresenta paredes interiores revestidas de azulejos e cobertura em falsa abóbada de berço. O teto forma quarenta e cinco caixotões, emoldurados em talha e pintados, e painéis que representam momentos da vida de Santa Ana e da Virgem. Neles trabalharam o entalhador António Araújo (1671) e os pintores António Luís (1677), Domingos Mieira e Ventura Álvares Lima (1735-1741).

Dos lados esquerdo e direito, existe um cadeiral assente em pés de madeira exótica e policromo, datado dos séculos XVII e XVIII e encimado por espaldar com painéis representativos das obras da Misericórdia. Do lado direito, existe um guarda-vento em madeira, que protege o portal, ladeado pelo púlpito (1741) e pela pia de água benta.

Antes da entrada na capela-mor, observam-se quatro retábulos da autoria dos obreiros Manuel Ambrósio Coelho e Manuel Álvares Martins: à esquerda, Bom Jesus das Chagas e Nossa Senhora das Dores; à direita, Santa Ana e Santíssima Trindade (ou Altar da Parentela).

Os Coros

A parede fundeira é dividida em dois registos: coro-baixo e coro-alto que separavam as religiosas dos fiéis. Ambos são marcados por três aberturas em arco abatido, encimados por cartelas e pelas insígnias da Ordem Beneditina. O coro-baixo apresenta um cadeiral com representações iconográficas das misericórdias; acima, segue um espaldar que enquadra pinturas alusivas à Paixão de Cristo. O teto é formado por trinta e dois caixotões em madeira. O coro-alto apresenta também um cadeiral e o teto em madeira é composto por vinte caixotões. Do lado do Evangelho, surge o órgão, possivelmente comprado em 1690 ao padre Manuel Madris, e, na parede posterior, vê-se o retábulo de S. Martinho.

A Capela-mor

A capela-mor evidencia uma linguagem barroca notável. Terá sido reformada entre 1707 e 1708 e o teto, de perfil curvo, formado por quarenta e dois caixotões, é atribuído ao ensamblador Manuel de Azevedo.

Nas paredes existem quatro painéis, inicialmente localizados na nave da igreja. As pinturas retratam os quatro doutores da Igreja – Santo Ambrósio e São Jerónimo, do lado do Evangelho, São Gregório e Santo Agostinho, do lado da Epístola. As molduras são atribuídas a Manuel Ambrósio Coelho. Sobre o supedâneo assentam dois anjos tocheiros de madeira estufada, em barroco joanino, consertados em 1789.      

Pela parede esquerda é feito o acesso ao corredor, espaço correspondente à antiga sacristia reformada entre 1735 e 1738. A atual sacristia, reformada entre 1895 e 1905, corresponde à antiga Casa do Capítulo. Esta apresenta um teto plano com quinze caixotões decorados com motivos circulares policromados que envolvem florões centrais, executado por Miguel Coelho. No topo norte, estão as imagens de São José (esquerda), de Cristo crucificado (centro) e de Nossa Senhora (direita), sendo que as que ladeiam a cruz se inserem num nicho de talha, ladeado por pilastras. Já na parede nascente existe o retábulo da Glorificação da Senhora do Rosário, ladeado pelas sepulturas do Dr. António Correia e das primeiras três abadessas do Convento, Margarida, Isabel e Brites de Sousa.

O Claustro

Claustro do Convento de Santa Ana

O claustro apresenta dois pisos com arcada de volta perfeita. No primeiro piso, os arcos repousam sobre colunas com capitéis decorados com elementos fitomórficos, carrancas ou lisos; o segundo é inteiramente em cantaria, com galeria envidraçada e janelas de peitoril com caixilharia de guilhotina.

As alas do primeiro piso são revestidas com azulejos enxaquetados, formando silhar que reproduz o padrão da igreja, assente sobre embasamento de cantaria. As portas são de verga reta, molduradas e com bandeira.

Torre-sineira

Na ala sul insere-se a antiga torre-sineira manuelina, composta por dois registos. O primeiro registo apresenta, na face frontal, um vão em arco de volta perfeita, sobreposto por outro de igual perfil com adufa. Acima, encontram-se dois escudos, seguidos de um relógio, outro escudo nacional e um óculo com adufa, repetido nas outras faces. No registo superior, abre-se em cada face um vão sineiro também com adufa. A torre é rematada por cornija, platibanda rendilhada nos cunhais, e coruchéu piramidal. A estrutura interior original, incluindo as escadas, desapareceu, encontrando-se atualmente oca, com novo acesso.

No segundo piso, inserem-se nas paredes seis oratórios de talha dourada.

No centro da quadra ajardinada situa-se uma fonte com tanque circular, assente em soco de três degraus. A fonte é composta por uma coluna galbada, taça circular com quatro bicas, e encimada por esfera armilar e cogulho fitomórfico.

Em redor do claustro encontram-se as diversas dependências do atual lar.

Património Integrado

Retábulo-mor

O retábulo-mor inserido na capela-mor da igreja do Convento de Santa Ana foi executado na segunda metade do século XVII, mas reformado em 1721. Apresenta planta reta, talha dourada e uma estrutura tripartida delimitada por colunas torsas. À esquerda, encontra-se a imagem de Santa Ana, à direita, a de São Bento, e as colunas são adornadas por motivos antropomórficos e vegetalistas. O teto do eixo central forma caixotões relevados e é ocupado por uma tribuna com abertura. O interior é adornado por motivos vegetalistas e antropomórficos, destacando o trono escalonado, encimado pelo resplendor.

Painel do retábulo-mor, 1741

O ático é formado por três arquivoltas convergentes, entre as quais se inserem painéis com folhas de acanto em relevo e mitra encimada por querubim. O banco do retábulo é composto por painéis esculpidos. Ao centro, localiza-se o sacrário, rematado por um espaldar ornado pela pomba do Espírito Santo em cartela, fénices laterais e uma cruz; a porta exibe o Agnus Dei. O altar é paralelepipédico, em talha dourada policromada; o seu frontal é decorado por elementos vegetalistas em relevo e apresenta o sudário de Verónica.        

Fruto da Contrarreforma, em 1741, a boca da tribuna recebe um painel com o tema Trânsito de Santa Ana, pintado por Francisco Mendes Lima. O painel revela uma temática típica da iconografia promovida pela Contrarreforma e representa a morte da mãe da Virgem Maria. Procura inspirar piedade e oferecer modelos de virtude cristã.

Imagens e Iconografia do Objeto

Nave


Coros

Sacristia

Fontes e Bibliografia

Fontes

  • Arquivo Distrital de Braga. (s.d.). Mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo. Consultado a 03.03.2025. https://bit.ly/4isdZKz
  • Olhar Viana do Castelo. (2008). Viana do Castelo – Congregação da Nª Sª da Caridade. Consultado a 03.03.2025. https://bit.ly/3DgE6W3
  • SIPA (2005) – Mosteiro de Santa Ana / Edifício da Congregação da Caridade. Consultado a 23.04.2025. https://bit.ly/4lA4Odk

Bibliografia

  • CAMPOS, Leandro Ramos (2018) – Estudo Monográfico de Monumentos do Centro Histórico de Viana do Castelo. Porto: Universidade do Porto. [Tese de mestrado]
  • FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. Ferreira (2005) – Ensaio sobre a arquitetura barroca e neoclássica a norte da bacia do Douro. «Revista da Faculdade de Letras – Ciências e Técnicas do Património», I série, vol. IV, pp. 135-153.
  • PEREIRA, Paulo (dir.) (2007) – História da Arte Portuguesa: da estética barroca ao fim do classicismo. Lisboa: Círculo de Leitores, 10 vols.
  • PINHO, Isabel Maria Ribeiro Tavares de (2010) – Os mosteiros beneditinos femininos de Viana do Castelo – Arquitetura monástica dos séculos XVI ao XIX. Vol. I. Porto: Universidade do Porto. [Tese de doutoramento]
  • ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, coord. (2018) – História da Arquitetura – Perspetivas Temáticas. Porto: Sersilito – Empresa Gráfica. Lda.
  • ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (2023) – Investigação sobre unidades monásticas. In ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, coord.; MONTERROSO MONTERO, Juan Manuel, coord. – História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar. Porto: Sersilito – Empresa Gráfica. Lda., pp. 5-8.
  • ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (1999) – Obras no Convento de Santa Ana de Viana do Castelo (séculos XVII-XVIII): os autores dos projectos de intervenção. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras, pp. 289-301.
  • TEIXEIRA, Francisco Manuel de Almeida Correia (2007) – A arquitectura monástica e conventual feminina em Portugal, nos séculos XIII e XIV. Faro: Universidade do Algarve. [Tese de doutoramento]
  • UPJOHN, Everard M.; WINGERT, Paul S.; MAHLER, Jane Gaston (1965) – História mundial da arte: do Barroco ao Romantismo. Amadora: Bertrand, 6 vols.