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Os Conventos Franciscanos que o Tempo Apagou

Fonte: Porto Barroco
Revisão em 08h19min de 25 de maio de 2025 por Danielafernandes02 (discussão | contribs)


Introdução

Este artigo analisa a história e a arquitetura de três conventos femininos franciscanos atualmente em ruínas ou já completamente desaparecidos. Localizados no norte de Portugal, estes cenóbios são: o Convento de Santa Clara de Amarante, o Convento de Nossa Senhora dos Remédios de Braga e o Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto.

O estudo deste tema revela-se essencial para compreender a história das unidades monásticas em Portugal e torna-se um importante contributo para a preservação da memória das instituições religiosas que desapareceram por consequência da extinção das ordens monásticas em 1834 ou afetadas pelas Invasões Napoleónicas ou a Guerra Civil, condenadas a entrar em ruína e a cair no esquecimento por não terem sido reconvertidas a novas funções.

Convento de Santa Clara de Amarante

Identificação

Designação Convento de Santa Clara de Amarante
Localização Largo de Santa Clara, Amarante
Cronologia Séc. XII (fundação), Sécs. XVI/XVII/XVIII (restauro e criação de novos espaços)
Autor(es)
Classificação Em ruínas

Estado da Arte

A pesquisa realizada sobre o Convento de Santa Clara de Amarante foi essencialmente baseada na dissertação de mestrado em História de Daniel Ribeiro, intitulada de “Mosteiro de Santa Clara de Amarante: História, Património e Musealização” e no artigo do mesmo autor com o título de “Os Espaços Monásticos de Santa Clara de Amarante na Época Moderna”, ambos trabalhos bastante completos e fundamentais para a criação deste breve trabalho.

A tese de mestrado foi útil para uma compreensão mais geral e total do contexto socioeconómico e histórico deste cenóbio ao longo dos séculos, desde a sua criação à sua destruição e estado atual. Já o artigo apresentou-se fundamental para a descrição detalhada dos espaços monásticos na época moderna, sendo assim possível criar uma imagem mental da dimensão do Convento de Santa Clara de Amarante. Também foi aqui mencionado o destino das variadas dependências deste local religioso.

E, por último, ainda é importante referir os websites do SIPA, importante para o entendimento da cronologia do convento, do Amarante Tourism, embora mais generalizado importante para uma primeira abordagem do trabalho e, ainda o blog Amarante Magazine, com um artigo publicado por Daniel Ribeiro, intitulado de O Mosteiro de Santa Clara de Amarante, bastante mais completo a nível de informação que o anteriormente referido, sendo fundamental para um entendimento mais abrangente do convento.

Enquadramento

O convento de Santa Clara de Amarante, situado relativamente próximo do centro histórico da cidade e do Mosteiro de São Gonçalo de Amarante, teve a sua origem, segundo a tradição, ainda no século XII, onde foi fundado por Dona Mafalda, infanta de Portugal. No seu início era apenas um pequeno grupo de mantelatas[1] sendo depois convertido para a Ordem de Santa Clara. Devido às várias transformações e destruições sucessivas ao longo dos séculos, hoje passa totalmente despercebido, mesmo com a sua aparição no traçado urbano, causando o desconhecimento deste monumento aos visitantes desta cidade.


[1] As mantelatas tiverem a sua origem na idade média, tendo sido a primeira santa desta ordem a Santa Juliana Falconieri, descendente de uma família importante de Florença. Ficaram reconhecidas por este nome devido ao hábito que utilizavam, um manto sobre a cabeça.


Descrição

A arquitetura do Convento de Santa Clara de Amarante é definida pelo reflexo da evolução estilística que se foi desenvolvendo ao longo dos séculos. A estrutura inicial deste cenóbio contava com um traço gótico, apresentando-se na atualidade bastante transformado com a predominância de elementos maneiristas e barrocos, resultado de intervenções posteriores. A fachada sul da igreja (virada para o atual Largo de Santa Clara), era caracterizada pela sua simplicidade sendo composta pelo portal de entrada, como em todos os conventos femininos estava presente na lateral do edifício, emoldurado por duas colunas torsas e encimado por um nicho, e três janelões retangulares. No seu perímetro estava presente uma cornija.

No seu interior, a capela-mor era antecedida por um arco cruzeiro que continha o escudo de armas de D. Tomé de Sousa, símbolo desta família que hipotecou a Quinta de Ponte de Veiga, em Unhão (Felgueiras), para a construção da zona mais sagrada da igreja. Neste mesmo local, estava presente um retábulo em talha dourada, com sacrário e tribuna. Estariam presentes as imagens de Santa Clara, Nossa Senhora da Conceição e do Menino Jesus. Também é fundamental realçar a decoração do teto deste edifício, sendo esto abobadado com rompentes (leão figurado, no escudo, de perfil e aprumado), espigão ao centro e florões nos painéis tudo em pedra escodada e fina (RIBEIRO, 2013, 8).

Esta dependência representa tanta importância nesta breve análise e contextualização do Convento de Santa Clara de Amarante pois é uma das únicas partes que ainda subsiste in loco até aos dias de hoje, nomeadamente os restos renascentistas da capela lateral a Norte, uma pequena memória deste espaço monástico.

Extinção e desaparecimento

O Convento de Santa Clara de Amarante sofreu um incêndio ateado pelos franceses, no momento das invasões que realizavam ao país, no dia 18 de abril de 1809, sobrevivendo apenas a igreja do espaço monástico. A extinção das ordens monásticas em 1834 também contribuiu para o desaparecimento parcial deste cenóbio.

Imagens e iconografia do objeto

Convento de Nossa Senhora dos Remédios de Braga

Identificação

Designação Convento de Nossa Senhora dos Remédios, Piedade e Madre de Deus
Localização Braga
Cronologia Século XVI
Autor António Pinto de Sousa (Igreja)
Classificação Desaparecido

Estado da arte

No âmbito do estudo sobre o antigo Convento de Nossa Senhora dos Remédios, o artigo O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, da autoria de Rui Ferreira revelou-se uma referência fundamental. Esse trabalho constitui um contributo significativo para o conhecimento do Convento dos Remédios, abordando diversos aspetos, desde a sua fundação até à extinção, incluindo ainda uma ficha de inventário do seu património móvel.

A obra Em lembrança da extinta Igreja dos Remédios de Braga, publicada por Martins Capella, em 1913, representa um dos primeiros esforços sistemáticos de preservação da memória deste edifício religioso desaparecido. Escrita num tom evocativo e memorialista, reflete o interesse histórico do autor, mas também a sensibilidade de uma época preocupada com a perda do património religioso e urbano, ao reunir descrições, documentos e testemunhos visuais.

O artigo A adoção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles: diálogos artísticos, de Manuel Joaquim Moreira da Rocha, publicado em 2001, resume-se num estudo essencial para compreender a evolução artística e arquitetónica de três instituições religiosas femininas de Braga – Remédios, Salvador e Conceição – no início século XVIII. Ao se centrar no papel reformador e encomendador de D. Rodrigo de Moura Teles, o autor analisa os mecanismos de difusão do barroco no contexto conventual feminino, articulando a arquitetura com os programas decorativos e o património integrado. Esta abordagem permite compreender não só as opções estéticas da época, mas também os discursos simbólicos e funcionais subjacentes à configuração dos espaços sagrados femininos.

Enquadramento

O Convento de Nossa Senhora dos Remédios foi o primeiro convento feminino erigido na cidade de Braga, destinado a uma nova comunidade religiosa que seguia a regra de S. Francisco de Assis. Mais tarde, o convento seria incorporado na Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, e as suas religiosas teriam de fazer votos de obediência, castidade, pobreza e de clausura.[1] De acordo com uma visita do arcebispo D. José de Bragança, concretizada em 1743, o convento contava com 101 religiosas, o que lhe tornava no recolhimento mais populoso de Braga.[2]

Este instituto religioso foi erguido nas imediações da cidade, extramuros, no espaço de um dos palácios em que residia o bispo fundador e em outros terrenos por ele adquiridos, os quais proporcionaram a área necessária para a construção da igreja e das restantes oficinas conventuais. Localizava-se no antigo rossio de São Marcos, junto à porta de São João e ocupava quase todo o recinto demarcado pelas ruas de São Marcos, a norte, das Águas, atual Avenida da Liberdade, a este, do Campo dos Remédios, atual largo Carlos Amarante, a oeste, e pela cangosta da rua das Águas, a sul, uma via inexistente no atual cenário urbano. A sua vasta frontaria preenchia todo o lado oriental do Campo dos Remédios, desde a rua de São Marcos, até à atual de São Lázaro.[3]


[1] RIBEIRO, Vítor Manuel Pereira, 2015. A Contabilidade no Convento de Nossa Senhora dos Remédios em Braga nos Séculos XVIII e XIX, 59

[2] FERREIRA, Rui, 2014. O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, 94

[3] FERREIRA, op. cit, 95-96

Descrição

A entrada principal nas igrejas conventuais femininas é sempre feita por uma porta lateral, uma vez que o espaço oposto à capela-mor é ocupado pelo coro, onde as religiosas assistem ao ofício litúrgico sem quebrarem a sua clausura, permanecendo ocultas aos fiéis que assistem à celebração na nave.

O portal da fachada lateral da igreja dos Remédios possuía uma estrutura complexa, disposto em três andares.[4] A porta, retangular e bem proporcionada, era flanqueada por um par de colunas torsas com capitéis compósitos. Nos intercolúnios encontravam-se imagens em granito de religiosas terciárias, coroadas e assentes em mísulas: à direita de quem entra, a de Santa Isabel, rainha de Hungria e matriarca da Ordem, com o livro da regra na mão; à esquerda, a de Santa Isabel, rainha de Portugal, com o olhar voltado para o regaço onde, segundo a lenda, as esmolas se transformaram em rosas.[5] O segundo registo mantém o estilo do corpo anterior, com quatro colunas torsas a ladear janelas e um nicho central em arco, onde se encontrava uma imagem da Piedade em calcário, flanqueada por duas outras imagens de granito: à direita, a de São João Evangelista; à esquerda, a de São João Batista. O último andar dispunha unicamente de um par de colunas torsas que delimitavam um nicho enquadrado por aletas, no qual se encontrava uma imagem em granito de São Francisco de Assis. O remate do conjunto do portal ultrapassava a cornija do edifício, e era composto pela pedra de armas de São Francisco de Assis, ornamentada com motivos vegetalistas, volutas e uma concha, e ladeada por anjos de feição barroquizante, do tipo putti, que seguravam uma grinalda de flores.[6]

O interior da igreja dos Remédios seguia uma estrutura volumétrica e planimétrica semelhante à das restantes igrejas conventuais femininas. Estes templos estruturam-se em torno de um eixo central que conecta os coros, a nave, a capela-mor e a sacristia, evidenciando uma espacialidade longitudinal. A planta resulta da justaposição de vários retângulos, dos quais o que define o corpo da igreja constitui o paralelepípedo de maior volume.[7] A igreja dos Remédios, de nave única, estendia-se de norte a sul, com a sua fachada e entrada principal voltada a oeste.[8]


[4] ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, 2001. A adoção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles: diálogos artísticos, 53-54

[5] CAPELLA, Martins, 1913. Em lembrança da extinta Igreja dos Remédios de Braga, 55-56

[6] ROCHA, A adoção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles: diálogos artísticos, 54 e FERREIRA, Rui, 2014. O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, 115-117

[7] ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, 2001. A adoção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles: diálogos artísticos, 52-53

[8] Ibidem, 55

Património Integrado

A capela-mor dispunha de um retábulo-mor e tribuna em madeira dourada, de arquitetura antiga, com a imagem de Nossa Senhora da Piedade ladeada pelas de Nossa Senhora da Graça e de São Francisco. As suas paredes laterais eram forradas por quatro painéis da autoria de Carlos Antonio Leoni[9] que representavam os passos da vida de Nossa Senhora.

Junto ao muro do arco cruzeiro existiam ainda dois retábulos colaterais: num venerava-se a imagem do Seráfico Patriarca, São Francisco de Assis, e no outro, a de São João Evangelista.[10]

As paredes laterais da nave estavam revestidas, até meia altura, com azulejos que representavam alguns episódios da vida de São Francisco de Assis. Até à cornija do templo, encontravam-se quadros que ilustravam os principais atos de santidade do Santo enquanto Penitente, dispostos entre as janelas, decoradas com madeira recortada e dourada.[11]

Parte do espólio da Igreja e do Convento dos Remédios encontra-se disperso em alguns locais da cidade de Braga, assegurando a sua preservação física e herança artística. Esta dispersão contribui para a manutenção da memória do convento, ainda que de forma descentralizada, uma vez que a população pode ter contacto com fragmentos do passado, mesmo fora do seu enquadramento original.

O legado do Convento dos Remédios disperso pela cidade de Braga[12]
Designação Proveniência Autoria Época Local atual
Esculturas graníticas da Rainha Santa Isabel da Hungria, da Rainha Santa Isabel de Portugal, de São João Evangelista e de São Francisco de Assis Fachada nobre da Igreja dos Remédios Desconhecida 1724-25 Parque da Ponte, junto ao cruzeiro de de D. Frei Bartolomeu dos Mártires
Conjunto arquitetónico de São João Batista Fachada nobre da Igreja dos Remédios Desconhecida 1724-25 Fachada posterior da capela de São João da Ponte
Escultura da Nossa Senhora da Piedade Fachada nobre da Igreja dos Remédios Desconhecida 1724-25 Tesouro-Museu da Sé de Braga
Retábulo mor, tribuna e sanefas Capela-mor da Igreja dos Remédios Marceliano de Araújo, com Francisco Machado de Landim, Bento Ferreira e Manuel Silva 1726-27 Capela de Santa Marta do Leão na Falperra
Conjunto de quatro painéis dos Passos de Nossas Senhora Capela-mor da Igreja dos Remédios Carlos Antonio Leoni 1733-41 Arquivo Distrital de Braga
Figuras de Nossa Senhora das Graças, de São Francisco Xavier e de São Francisco de Assis Igreja dos Remédios, Altar de Nossa Senhora Desconhecida Século XIX Capela de Santa Rita de Cássia, Igreja do Pópulo
Fonte de Santa Bárbara Claustro do Convento dos Remédios Desconhecida 1725-1750 Jardim de Santa Bárbara

[9] «Pintor florentino que exerceu a sua actividade em Lisboa, no século XVIII, no reinado de D. José I, e já porventura no de D. João V. Parece ter-se dedicado especialmente ao retrato, como o provam diversas composições suas n'este género.» (VITERBO, 1903, 99)

[10] ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, 2001. A adoção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles: diálogos artísticos, 61-62

[11] Ibidem, 67

[12] Esta tabela foi elaborada tendo em base a obra de FERREIRA, RUI, 2014. O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, 110-120

Extinção e desaparecimento

Após o decreto de 1834 que determinou a extinção de todas as casas das ordens religiosas regulares, em 1890, ainda sobreviviam duas freiras no convento dos Remédios. A extinção do convento dos Remédios deu-se a 7 de maio de 1898, com o óbito da última freira professa, Madre Narcisa Emília Leite.[13]

Ainda antes do falecimento da última freira, em 1896, o Estado cedeu o convento à Câmara Municipal de Braga para a instalação de um asilo de expostos e cegos, embora tal obra assistencial nunca tenha chegado a concretizar-se no local.[14] Anos mais tarde, no ano administrativo de 1907-1908, a Câmara Municipal delineava um plano de diversos melhoramentos para a cidade, que incluía a abertura de uma avenida de nome Concelheiro João Franco, o que exigia o alargamento da antiga rua das Águas e da rua da Ponte. Para executar o projeto era necessário que os terrenos do Convento dos Remédios fossem cedidos à Câmara. A 7 de setembro de 1907, o governo promulgou um decreto com força de lei, concedendo à Câmara os edifícios, a cerca e as dependências do dito convento para a ampliação e alinhamento da Rua do Concelheiro João Franco.[15]

A Câmara planeava igualmente abrir uma rua transversal pela cerca do convento, desde a avenida João Franco até ao Largo Carlos Amarante. Para que esta artéria ficasse alinhada com a fachada da igreja de São Marcos, seria necessário cortar a igreja dos Remédios ao meio, o que comprometia gravemente a integridade desta estrutura arquitetónica.[16] A demolição deste complexo monástico exemplifica como, no início do século XX, as decisões urbanísticas privilegiaram o desenvolvimento urbano e a modernização da cidade em detrimento da conservação do património histórico. A 3 de abril de 1911, celebrou-se a última missa e, pouco tempo depois, consumou-se o processo de demolição.[17]

A sua destruição permitiu a construção de novos edifícios, como o Teatro Circo, cuja edificação teve início em 1911 e terminou em 1915, no gaveto da Rua Gonçalo Sampaio com a Avenida da Liberdade, e o Shopping Santa Cruz, situado na esquina entre a mesma rua e o Largo Carlos Amarante. Voltados para o largo encontram-se ainda o edifício da Junta de Freguesia de S. José de S. Lázaro e S. João do Souto, bem como diversos estabelecimentos comerciais.


[13] FERREIRA, Rui, 2014. O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, 96 e 107

[14] OLIVEIRA, Eduardo Pires de, 1999. Arte religiosa e artistas em Braga e sua região (1870-1920), 103

[15] CASTRO, Maria de Fátima, 2005. O princípio e o fim do Convento dos Remédios, 135-137

[16] FERREIRA, RUI, 2014. O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios, 107. Esta artéria seria a atual Rua Dr. Gonçalo Sampaio.

[17] Ibidem, 108

Imagens e iconografia do objeto

Convento da Madre de Deus de Monchique

Identificação

Designação Convento da Madre de Deus de Monchique
Localização Porto
Cronologia Século XVI
Autor(es) Diogo de Castilho
Classificação Em ruínas

Estado da arte

O estudo do Convento da Madre de Deus de Monchique foi significativamente baseado no artigo de Joaquim Jaime Ferreira Alves Elementos para a história do Convento da Madre de Deus de Monchique, publicado em 2002 no primeiro volume da Revista da Faculdade de Letras, no Porto. Por sua vez, Joaquim Jaime recorreu a documentação como o contrato de construção emitido em 1533 e a descrições como as de João Baptista Ribeiro. A compreensão histórica e cronológica do monumento tornou-se possível através da leitura do artigo O Desenho Digital e as Paisagens Patrimoniais: Convento da Madre de Deus de Monchique, no Porto de Tiago Trindade Cruz.

A nível de recursos digitais, é empírico referir a consulta realizada à plataforma SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, de onde foram retirados dados arquitectónicos do convento e a plataforma Digital Heritage, que permitiu uma melhor compreensão visual de como seria, no seu tempo, a unidade conventual.

Enquadramento

Fundado na primeira metade do séc. XVI, pertenceu à Ordem de São Francisco, tendo sido a sua fundação autorizada a 12 de novembro de 1535 pelo Papa Paulo III[1]. Os seus fundadores, Pedro da Cunha Coutinho e sua mulher D. Beatriz de Vilhena, eram grandes nobres residentes na cidade do Porto, sendo a base do edifício conventual primitivo a casa senhorial dos mesmos[2].

Na realidade, o local escolhido para erguer o convento em estudo já seria previamente santificado, tendo dado lugar (antes da construção do paço nobre dos fundadores), a uma sinagoga. Esta sinagoga marcava o epicentro de uma comunidade judaica no séc. XIV[3].

Após a dissolução das ordens religiosas, no ano de 1834, as monjas foram realojadas no Convento de São Bento de Ave-maria[4], marcando assim a desocupação do Convento da Madre de Deus de Monchique. Observaram-se, no entanto, o aparecimento de outros usos como o comércio e a indústria, sendo que alguns elementos arruinados convivem atualmente com uma unidade hoteleira recente[5] .

Retirando a cronologia presente na entrada deste monumento na plataforma SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, entrada esta escrita por Ana Filipe em 2008, conseguimos focalizar algumas datas que ajudam à construção da história do objeto em estudo.

1503 D. Manuel I autoriza Pedro Coutinho a viver na cidade, através de carta enviada à Câmara do Porto
1533 É pedida autorização ao papa para a fundação de um convento feminino no lugar de Monchique. Antes de chegar a autorização papal, é assinado contrato com Diogo de Castilho para construção da igreja e são iniciadas as obras necessárias para transformar a casa nobre dos Cunha Coutinho em residência conventual
1669 Assinatura de contrato com o mestre Manuel Vieira para transformação da capela-mor. Morte de Manuel Vieira
1700 Assinatura de um novo contrato com Manuel Moreira e João Moreira para as obras da capela-mor. Na primeira metade do séc. XVII, dá-se o revestimento do interior com talha dourada
1870 Requerimento da Confraria de S. Pedro de Miragaia a solicitar ao rei D. Luís a talha que restava na igreja do convento de Monchique para a igreja de Miragaia
1872 O convento é vendido em hasta pública
1887 Segundo Pinho Leal, nesta data a igreja servia de serralharia
1908 D. Ignez Martins Guimarães, capitalista portuense, compra grande parte dos edifícios do convento; é instalada em parte do convento uma fábrica ligada à produção de cortiça de Clemente Menéres, Ldª que se mantém até hoje
2009 Realização de um projeto para a recuperação do Convento de Monchique prevê a construção de uma unidade hoteleira, integrada naquela zona nobre da cidade. O projeto é da autoria do arquitecto José Paulo dos Santos

[1] FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime (2002). Elementos para a história do Convento da Madre de Deus de Monchique. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património, vol. 1, p.130

[2] Idem. Ibidem

[3] Idem. Ibidem

[4] CRUZ, Tiago Trindade (2021). O desenho digital e as paisagens patrimoniais. Convento da Madre Deus de Monchique, no Porto. CEM Cultura, Espaço e Memória. p. 62 e 63

[5] FILIPE, Ana (2008). SIPA http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=25034

Descrição

Recorrendo à plataforma SIPA e ao texto de Ana Filipe sabemos que o convento teria grandes dimensões, com uma planta composta e volumes escalonados, sendo que os diferentes níveis do edifício comunicavam entre si através de escadas.  

O conjunto conventual era composto por uma igreja de planta longitudinal, nave única iluminada por quatro janelas e cobertura em abóbada de cruzaria de ogivas, e capela-mor retangular. O seu coro era alto e baixo e ligava-se à nave através de dois arcos sobrepostos. Contava ainda com uma sacristia e um campanário.

O pórtico principal da igreja era manuelino de arco pleno, emoldurado por pilastras e colunas. Era ainda rematado por um frontão triangular interrompido com duas coroas de espinhos colocadas junto dos vértices do triângulo.

O edifício conventual era de planta retangular e tinha três pisos, sendo o primeiro destinado ao refeitório que contava com cerca de quarenta metros de comprimento e três naves formadas por duas alas.

Esta obra contava com dois claustros, estando o principal localizado nas costas do coro da igreja. O segundo claustro, de menores dimensões, contava também com arcos e colunas (de tijolo), e tinha um chafariz ao centro.

Património Integrado

Apesar do seu estado atual não nos permitir uma compreensão total do seu interior, há relatos e contratos nos quais nos podemos apoiar para uma leitura fiel do património integrado que em tempos integrou o Convento da Madre de Deus de Monchique.

Sabemos que em 1669, a 24 de setembro, se deu a contração de um contrato com o mestre pedreiro Manuel Vieira, que intencionava a reforma da capela-mor[1]: “Em primeiro lugar, teriam que levantar uma parede «tosqua» de forma a isolar a nave da capela-mor, da qual retiraria o azulejo que a revestia, «com sentido que não quebre e se arumara em parte segura», assim como o retábulo «que he de pedra».” (FERREIRA-ALVES, 2002), informação que nos remete para a existência de azulejaria e retábulos.

João Baptista Ribeiro (1790-1868), descreve o interior da igreja da seguinte forma: “Mal se pode explicar a summa profusão de riqueza que ostenta esta igreja; toda ella he recamada de lavor em qye a paciencia, o genio e o dinheiro se reunirão para fazer prova do que podem. Contém sete altares de jum carater riquíssimo pelo immenso lavor de talha, irnatos, relevos e figuras que apresenta, sendo quaze tudo dourado e o resto pintado e estofado por modos mui variados. (…) Notão-se quatro tribunas do lado poente, tapadas com grades de ferro fingindo renda (…)”.[2]

Segundo uma descrição de Sousa Reis, os coros tinham: “as paredes em que se firmão as grades de ferro, igualmente cobertas de molduras de madeira dourada no gosto, forma e disposição de todo o templo (…) Note-se porem que esta entalha apenas chega até ao pinto das paredes, aonde começa a soberba e bem construída abobeda de pedra.”[3]


[1] FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime (2002). Elementos para a história do Convento da Madre de Deus de Monchique. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património, vol. 1, p.136 e 137

[2] VITORINO, Pedro (1927). Monchique. Notabilizava-se sobremaneira pela obra de talha da sua igreja. O Tripeiro, 3ª série, nº44 (164), p. 313

[3] FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime (2002). Elementos para a história do Convento da Madre de Deus de Monchique. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património, vol. 1, p.146

Imagens e iconografia do objeto

Fontes e Bibliografia

CAPELA, José Viriato, MATOS, Henrique, BORRALHEIRO, Rogério, 2009. As freguesias do Distrito do Porto, nas Memórias Paroquiais de 1758

CAPELLA, Martins, 1913. Em lembrança da extinta Igreja dos Remédios de Braga. Braga: Typ. a vapor dos “Echos do Minho”

CASTRO, Maria de Fátima, 2005. O princípio e o fim do Convento dos Remédios. Misericórdia de Braga: revista da Santa Casa da Misericórdia de Braga. Braga: S.C.M, 1 (2005), 129-144. ISSN 1646-3188

CRUZ, Tiago Trindade, 2021. O desenho digital e as paisagens patrimoniais. Convento da Madre Deus de Monchique, no Porto. CEM Cultura, Espaço & Memória

ESPERANÇA, Frei Manuel da, 1666. História Seráfica dos frades menores de S. Francisco na província de Portugal.

FERREIRA, Rui, 2014. O legado do extinto Convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios. Misericórdia de Braga: revista da Santa Casa da Misericórdia de Braga. Braga: S.C.M, 10 (2014) 93-140. ISSN 1646-3188

FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime, 2002. Elementos para a história do Convento da Madre de Deus de Monchique. Revista da Faculdade de Letras: Ciências e Técnicas do Património, vol. 1

FREITAS, Bernardino José de Senna, 1850. Memórias de Braga. Tomo II. Braga: Imprensa Catholica

MILHEIRO, Maria Manuela, 1991. As gravuras dos livros do Convento de Nossa Senhora dos Remédios de Braga in Actas do I Congresso Internacional do Barroco, II Volume. Porto: Reitoria da Universidade do Porto, Governo Civil do Porto

OLIVEIRA, Eduardo Pires de, 1999. Arte religiosa e artistas em Braga e sua região (1870-1920). Braga: APPACDM

RIBEIRO, Daniel José Soares, 2011. Mosteiro de Santa Clara de Amarante. História, Património e Musealização

RIBEIRO, Daniel José Soares, 2013. Os Espaços Monásticos de Santa Clara de Amarante na Época Moderna

RIBEIRO, Vítor Manuel Pereira, 2015. A Contabilidade no Convento de Nossa Senhora dos Remédios em Braga nos Séculos XVIII e XIX. Dissertação de Mestrado, Universidade do Minho

ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, 1996. Manuel Fernandes da Silva Mestre e Arquitecto de Braga 1693-1751. Porto: Coleção Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão

ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, 2001. A adoção do barroco nas igrejas conventuais femininas de Braga no pontificado de D. Rodrigo de Moura Teles: diálogos artísticos in Poligrafia nº9/10 (2000-2001), 41-73, ISSN: 0872-4490. Arouca: Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão

ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, e MONTERO, Juan Manuel Monterroso, coord., 2023, História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar. Porto: CITCEM.

VITORINO, Pedro, 1927. Monchique. Notabilizava-se sobremaneira pela obra de talha da sua igreja. O Tripeiro, 3ª série, nº44 (164)

Webgrafia

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