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Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa

Fonte: Porto Barroco
Revisão em 04h57min de 27 de maio de 2025 por Albano Campos (discussão | contribs)

Em Portugal, à semelhança de toda a Europa, cedo se formaram comunidades de mulheres religiosas fieis aos princípios da Regra de S. Bento, valorizada por S. Bernardo, e que praticavam uma observância paralela às instituições da própria Ordem. No nosso país, os primeiros mosteiros femininos cistercienses deveram-se à ação e devoção das infantas D.a Teresa; D.a Mafalda e D.a Sancha, filhas de D. Sancho I.

Ainda no decorrer do século XIII foram fundados os mosteiros de Santa Maria de Cós (1241); S. Bento de Cástris (1275); Santa Maria de Almoster (1287) e S. Dinis de Odivelas (1295)38 .

Já na Época Moderna assistiu-se à renovação espiritual da Ordem, fruto da reforma da Igreja iniciada em toda a Europa e fruto do movimento designado de "Recoletas", no que respeita ao ramo feminino Cisterciense. Paralelamente, registou-se a ressurreição e prosperidade dos mosteiros e um melhoramento dos seus edifícios.

A partir dos finais do século XVI, em reunião, o Capítulo Geral da Congregação de Alcobaça delineou todo um plano de reorganização da Ordem e restauração dos seus edifícios, permitindo a fundação de outras instituições entre as quais nos interessam particularmente as fundações femininas de S. Bernardo de Portalegre (1518).

Enquadramento

Nossa Senhora da Assunção de Tabosa (1692), objeto do nosso estudo. Foi, no entanto, durante este período que muitos mosteiros femininos mergulharam em plena decadência moral, tornando-se estritamente necessária a sua recuperação espiritual.

Neste contexto de reforma e recuperação espirituais, salientam-se no século XVII, os mosteiros de Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo e Nossa Senhora da Assunção em Tabosa, conhecidos pela prática de uma rigorosa observância, marcada pelo desejo de uma vida de recolhimento e austeridade, mais austera que a estrita observância cisterciense, numa busca permanente de Deus.

Vista exterior

Designado de "Convento de S. Bernardo" pelo facto de nele as religiosas terem praticado a Regra de S. Bento revista por S. Bernardo mas cuja designação nos aparece plenamente assumida, assim constando do Inventário do Património Arquitectónico da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

Localização

Portugal, Viseu, Sernancelhe, Carregal

O Mosteiro feminino de Nossa Senhora da Assunção 42 fica situado em Tabosa, lugar a Oeste da freguesia do Carregal, concelho de Sernancelhe, distrito de Viseu, comarca de Moimenta da Beira e diocese de Lamego.

A freguesia do Carregal, situada no seio da serra da Lapa a setecentos e vinte e cinco metros de altitude, apresenta fraca densidade populacional tal como toda a região. De clima muito rigoroso e com invernos prolongados, é extremamente pobre em recursos económicos, predominando o sector primário, onde uma agricultura frustrada e a percuária são as principais actividades económicas e a garantia de subsistência para uma gente humilde. As raízes históricas do lugar de Tabosa são muito antigas.

Hoje eclesiasticamente é anexa de Caria e pertence ao bispado de Lamego. Foi pertença de D. Egas Moniz e de seu irmão D. Mem Moniz, já que a antiga Honra de Caria com todo o seu vasto Termo foi deles.

Fundação

O mosteiro, erigido no final do século XVII, destinava-se a recolher religiosas que desejavam praticar a observância ditada pela Regra de S. Bento, renovada por S. Bernardo e inspirada pelas reformas de Santa Teresa de Ávila e S. Pedro de Alcântara, que propunham uma vida mais austera e de maior recolhimento, resultando daqui a designação de "Recoletas".

Surgiu após um período de relaxamento na Ordem, verificado em quase todos os mosteiros dos séculos XIV e seguintes. Destacou-se precisamente pelo rigor da observância que nele se praticou, ganhando fama e prestígio na região e no país em geral. Resultou das circunstâncias da vida de uma nobre senhora, de nome D.a Maria Pereira, e da sua devoção pela Virgem Nossa Senhora da Assunção e pelos patriarcas S. Bento e S. Bernardo cuja Regra foi posta em prática no interior do mosteiro.

Foi a partir da  devoção da fundadora à Senhora da Assunção, que resultou que o mosteiro, assim como, a igreja fossem postos sob o patrocínio de Maria, Senhora da Assunção.

Longe estava o tempo em que a formação da nacionalidade se entrecruzava com a fundação de mosteiros nesta região, pois deles e da ação dos seus monges dependiam o aproveitamento e povoamento das terras que então se conquistavam aos Mouros.

Chegados ao período do Antigo Regime, nada justificava a edificação de um mosteiro sem um objetivo verdadeiramente fundamentado em terras tão distantes de tudo e de pouca importância para o desenvolvimento do país, não fora o facto deste mosteiro ser inteiramente suportado na sua construção e sustento das religiosas pela sua fundadora que nele aplicou todos os seus bens.

Indagamos por isso os motivos que originaram a sua aprovação por parte das instituições e autoridades responsáveis, isto é, a Congregação de Alcobaça, o rei i D. Pedro II e ao bispo de Lamego D. José de Menezes.

Doação, Dotação e Motivação

D.a Maria Pereira era filha de Francisco Rebelo de Carvalho e de Maria Rebela Pereira, casal aristocrata e de prestígio na região. Senhora de sólida formação moral que se refletiu fortemente na sua vida, era natural de Sernancelhe, moradora no Carregal no lugar de Tabosa, na Quinta da Luz, herança de seu primeiro marido Diogo Ribeiro Homem, por morte deste .

Contraíra segundas núpcias com Paulo Homem Teles, senhor de ditoso estatuto social, pois era fidalgo da Casa Real, Tenente-General de Cavalaria e Governador das Armas da Província da Beira.

Dotada de muitas virtudes religiosas e humanas, abastada de bens herdados de seus pais e parentes, e outros que lhe couberam das partilhas feitas com os respectivos herdeiros de seus maridos, respeitada pelos moradores do Carregal, quer pela sua riqueza e ascendência, quer pelo cargo público de seu segundo marido, quis o destino deixar de novo viúva D.a Maria Pereira e sem herdeiros legítimos.

Resolveu a senhora entregar-se à fundação de obras pias pelo que manifestou o desejo de edificar na sua Quinta um mosteiro. Nascia assim o mosteiro de Nossa Senhora da Assunção, produto das circunstâncias da vida da fundadora e, sobretudo, produto da sua grande fé e devoção pelos entendimentos de S. Bento, S. Bernardo e Senhora da Assunção.

Estavam devidamente documentados com procurações que lhes conferiam os poderes e competências necessárias para em nome da Congregação assinarem a 'Escritura" da fundação do mosteiro e tomarem todas as medidas e decisões que entendessem convenientes para a sua efetuação.

Para a instituição de qualquer mosteiro era necessário o consentimento da Congregação, do rei e do Prelado diocesano. Sendo assim, D.a Maria Pereira enviou à Congregação de Alcobaça e ao rei uma "Petição", a fim de obter a respetiva licença para fundação do mosteiro na sua terra.

E "logo pel los ditos Padres Dons Abades (...) foi dito (...) que eles em nome do dito Reverendíssimo Padre Dom Abade Geral e de toda a Congregação (...) podiam e deviam de direito aceitar (...) a Doação e Dotação (...) com todos os encargos, clausulas, condições e obrigações nesta Escritura declaradas"

Sendo as ordens estabelecidas por D.a Maria Pereira para a fundação do mosteiro aceites. O despacho da Congregação foi favorável ao pedido da fundadora e exarado em 1/05/1691.

O mosteiro de Nossa Senhora da Assunção surge-nos como uma forma de consolidação do poder e prestígio pessoal da fundadora, perpetuando no tempo a sua memória mas também como forma de afirmar a sua fé e devoção, motivos que, na verdade, estiveram na origem da fundação do mosteiro. Em 1685 iniciaram-se as obras de construção da igreja de Nossa Senhora da Assunção.

Ingresso e Interesse Aristocrático

O mosteiro servia os interesses da aristocracia provinciana na medida em que preocupada com a educação das suas filhas, encontrava nele o local onde podia colocá-las, podendo estas optar entre seguir a vida religiosa ou abandoná-la. Servia como refúgio das jovens que por qualquer motivo não tinham contraído matrimónio e optaram por "casar" com Deus. Servia para todas as jovens e senhoras que por devoção nele queriam ingressar, desde que reunissem as condições necessárias para o fazerem.

Numa carta de 13/07/1689 o Corregedor informou o rei,

que "(...) entre os "Officiais da Câmara, nobreza dela epovo do dito concelho (...), entre todos não houve um que he de haver inconveniente a se fazer o dito mosteiro, antes sim que era conveniência o houvessem para o que os ditos homens nobres daquelle concelho pudessem com menos custos acomodar nelle suas filhas e irmãs e os pobres houvessem remédio a suas necessidades com as mais esmolas que ali farão as religiosas (...)

A data da fundação do mosteiro, a região e o local de edificação do mesmo, satisfaziam plenamente as necessidades das futuras religiosas que aqui encontravam o silêncio e isolamento necessários para a preparação do seu espírito.

"(...) que tem mais de frio que de quente era um local com muita quantidade de águas (...), grande largueza para cercas, com bosques de árvores frutíferas, e terras para hortaliça com águas nativas dentro das mesmas cercas, (...) era terra provida de alimentos ...)".

O solo dentro da cerca era muito fértil e assegurava diretamente o sustento da comunidade religiosa, contudo, acrescentava o Corregedor, que, tendo conhecimento que a observância praticada pelas religiosas as impedia de consumir carne, tinham estas o peixe fresco que chegava com facilidade aos mercados da região, sobretudo ao mercado da Lapa, trazido do Porto e do rio Douro.

Assim, em 15/11/1689 D.a Maria Pereira viu satisfeito o seu almejado desejo através da concessão do poder régio por D. Pedro II. Abriu-se, deste modo, uma nova página na História do último mosteiro feminino cisterciense em Portugal, com a formalização e oficialização da sua fundação instituída pela "Escritura" realizada em 22/04/1692.

Entre os vários bens que D.a Maria Pereira doou para a fundação do mosteiro de Tabosa podemos mencionar os seguintes:

Bens Doados Para Edificação e Conservação do Mosteiro

Aproximadamente um total de rendimento de 91 #920 reis por ano.

Processo de Encerramento

Foi autorizada em 14/05/1771 a transferência das religiosas e rendas do mosteiro para o Colégio de S. Francisco Xavier em Setúbal bem como a integração dos seus bens nos "próprios" da Coroa.

O  reinado correspondeu a uma época de mudança mental e de valores, marcada pela ação dos "filósofos" que, à sua maneira, se tornaram os principais inimigos da Igreja.

No nosso país mandava o Marquês de Pombal, ministro do rei, muito empenhado em destruir a Companhia de Jesus e expulsar os Jesuítas, acusados de constituírem um obstáculo à afirmação da soberania da Coroa portuguesa sobre as colónias. É neste contexto de "revolução mental" que, pressionado, o Abade Dom Manuel de Mendonça se mostra empenhado em fazer um Inventário dos bens e rendimentos de todos os mosteiros aferindo a viabilidade do sustento das religiosas e a subsistência das próprias casas.

Na perspetiva do Abade o exame dos rendimentos e bens dos mosteiros da Congregação mostrava-lhe que os mosteiros de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa e Nossa Senhora da Nazaré do Mocambo não reuniam condições para subsistirem divididos. Não possuíam a renda necessária ao sustento das religiosas, cuja alimentação sujeita a uma dieta rigorosa, estava em causa, nomeadamente em Tabosa, e que certamente em Setúbal junto ao rio Sado e beira-mar, não lhes faltaria.

Foi a postura de Dom Manuel de Mendonça, ao declarar extintos vários mosteiros e retirar os seus bens, caíram muito mal no seio da comunidade cisterciense custando-lhe posteriormente a destituição do cargo sob a acusação de traição e conspiração relativamente ao governo da Ordem de Cister em Portugal e sua exagerada cumplicidade com o governo do ministro de D. José, o Marquês de Pombal.

A transferência das religiosas para Setúbal com todas as suas rendas e bens foi concretizada e esteve na origem do processo de ruína do mosteiro que, de repente, se viu votado ao abandono.

O encerramento definitivo iria se prolongar por algum tempo mas, devido à ação da rainha D.a Maria I, que entretanto subiu ao trono e pode proceder-se à reabertura deste e outros mosteiros extintos.

Entretanto, a população de Tabosa, essencialmente ocupadas no trabalho duro do campo, viram-se desejosos para ouvirem a palavra de Deus na igreja de Nossa Senhora, ansiando pela reabertura do mosteiro.

Quando as religiosas chegaram de novo a Tabosa não possuíam rendas e os dotes já se haviam esgotado, canalizados para a conclusão do mosteiro de Setúbal. Passaram a viver na dependência das esmolas de quase todos os mosteiros da Ordem, ou seja, da solidariedade institucional.

A rainha foi contactada por responsáveis da Ordem para que intercedesse a seu favor no sentido de deporem do cargo o Abade Geral Dom Manuel de Mendonça que durante nove anos ocupou o cargo de Abade Geral da Congregação, a quem acusavam, de "maus procedimentos no governo da Ordem pelo que, lhe deviam ser abolidos todos os privilégios, graças e isenções e o deviam meter em reclusão na sua cela ". Em 01/11/1777 iniciou-se em Alcobaça uma importante reunião.

O restauro dos mosteiros de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa, foi concretizado devido às verbas, que resultavam das contribuições que cada mosteiro era obrigado a pagar.

Com o final do reinado de D.a Maria I Portugal entrava num período político conturbado que conduziria ao fim do Antigo Regime e ao encerramento definitivo dos mosteiros em 1834 ou após a morte da última religiosa.

No dia 27/03/1850 faleceu a Madre Thomazia Rita, última religiosa que vivia no mosteiro. Em conformidade com decreto, os bens pertenciam a partir desta data à Fazenda Pública Nacional. O mosteiro encerrou definitivamente as suas portas e foi sendo desmantelado.

O século XIX ficou conhecido como o século da exclaustração no domínio da Igreja religiosa, levando ao encerramento definitivo dos mosteiros portugueses.

ARQUITETURA

Arquitetura e Ornamentação do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa: Entre a Tradição Cisterciense e a Expressividade Barroca

A chamada "Arte Cisterciense" não constitui propriamente um estilo artístico com características específicas adaptadas a cada país. Pelo contrário, apresenta grande uniformidade, sendo marcada por sobriedade, austeridade e espiritualidade, em oposição ao luxo decorativo. Essa abordagem reflete os ideais da Ordem de Cister, especialmente os de São Bernardo, que rejeitava a ornamentação na arquitetura religiosa por considerá-la desnecessária à vivência espiritual. Embora se fale em "Arte Cisterciense", muitos estudiosos preferem o termo "tipologia cisterciense", dado que a arte da Ordem manifesta-se mais na forma arquitetónica do que em elementos decorativos. A planta dos mosteiros seguia um modelo típico, com estruturas como igreja, sacristia, claustro, refeitório, entre outras, organizadas de modo funcional e austero. Os edifícios eram geralmente dispostos em torno do claustro principal, que servia como o coração do mosteiro, promovendo silêncio e recolhimento. Os materiais predominantes eram locais, como pedra granítica, e a construção evitava o uso de elementos supérfluos, em favor de proporções equilibradas, iluminação natural suave e linhas retas. Com o tempo, especialmente nos séculos XVII e XVIII, muitos mosteiros, como o de Tabosa, sofreram influências barrocas, incorporando talha dourada, azulejos e pinturas, distanciando-se dos princípios originais de simplicidade. Ainda assim, essas intervenções interiores não descaracterizaram totalmente a tipologia cisterciense.

Planta do Mosteiro

O Mosteiro de Tabosa é um exemplo dessa evolução. De menor dimensão e com planta simples, mantém traços da tradição cisterciense, mas com desvios notáveis, como a disposição das dependências monásticas a oeste e em nível superior ao da igreja — o que contraria os padrões habituais da Ordem. O Mosteiro está situado na região de Lamego, insere-se na tradição cisterciense, embora com particularidades que o distinguem. Fundado no século XVII, num período de renovação espiritual e artística da Ordem de Cister em Portugal, foi construído num terreno doado pela fundadora, obedecendo às suas condições topográficas. A orientação do edifício, o aproveitamento do relevo e a escolha dos materiais foram diretamente influenciados pelas características do local, o que demonstra uma adaptação prática sem perder de vista os princípios monásticos.

A sua arquitetura reflete influências barrocas, com alguma adaptação às exigências do terreno. Apesar de respeitar as funções monásticas comuns à Ordem, a distribuição espacial difere do modelo típico cisterciense, com a igreja situada em plano inferior ao restante complexo conventual, o que contraria a tradição. A igreja, de planta retangular e uma só nave, apresenta-se decorada com talha dourada, pinturas alegóricas e elementos marcadamente barrocos. A fachada da igreja é sóbria mas bem composta, com elementos de cantaria bem talhados, apresentando um equilíbrio entre ornamentação barroca e a contenção típica cisterciense. Destacam-se o Altar-mor, ricamente ornamentado com imagens de Nossa Senhora da Assunção, S. Bento e S. Bernardo, e vários altares laterais com temáticas religiosas distintas. O Coro, dividido em alto e baixo, mantém-se separado do espaço dos fiéis por uma elaborada grade de carvalho. O Coro Alto destinava-se às religiosas era acessível a partir do corpo conventual, com vistas para a nave. A Capela-mor, elevada em relação à nave, permite boa visibilidade às religiosas durante os ofícios. A sacristia, acessível por um corredor com elementos como um lavabo, é simples, com cobertura em madeira. O mosteiro possui ainda vestígios de sistemas hidráulicos que abasteciam o complexo. Estes sistemas demonstram não só a preocupação com o conforto funcional, mas também o avanço técnico da Ordem de Cister, que valorizava a autossuficiência e a organização racional dos espaços. O conjunto evidencia a importância histórica, artística e espiritual deste mosteiro, refletindo a adaptação da tradição cisterciense ao contexto local e às exigências do Barroco português.

O Mosteiro conserva elementos típicos da ordem como o Claustro e a Cerca, embora em estado ruinoso. O Claustro possui colunas renascentistas e restos de uma fonte barroca que outrora embelezava o local. O claustro, de planta quadrada, articulava os principais espaços do convento e era utilizado para meditação, leitura e circulação interna em silêncio. Os monges demonstravam notável engenharia hidráulica, canalizando a água para fins diversos, como abastecimento e esgoto. Reformas ao longo do tempo alteraram parte da estrutura, como a transformação de janelas em portas. Após o Concílio de Trento, a clausura foi reforçada com grades, portas reforçadas e uma cerca protetora, ainda preservada. A Cerca, delimitando os terrenos do mosteiro, incluía hortas, pomares e caminhos de circulação interna, essenciais para a vida autossuficiente da comunidade. A arquitetura do conjunto segue um formato quadrilátero com a igreja a nascente. A fachada principal destaca-se por sua decoração barroca em granito, com portal monumental, frontão, e nicho com São Bernardo e brasão da Congregação de Cister. Este conjunto escultórico é um dos pontos altos da fachada, revelando influências do barroco português e a intenção de afirmar visualmente a identidade da ordem. Outro destaque é o Mirante, estrutura elevada que permitia às religiosas observar o exterior sem violar a clausura. Há ainda um segundo portal de entrada mais simples, dedicado à Nossa Senhora da Assunção. Apesar das ruínas e da falta de documentação sobre os arquitetos, a beleza e detalhe das esculturas em pedra revelam a mestria dos artistas que o ergueram.

Constituição do Mosteiro e Função de Cada Espaço

O Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa era constituído por diversos espaços, cada um com uma função específica que atendia às necessidades monásticas e litúrgicas dos monges cistercienses. A organização do mosteiro seguia uma lógica funcional, refletindo a busca pela simplicidade e eficiência, mas também adaptada às influências barrocas.

Igreja: O edifício mais importante e simbólico do mosteiro, a igreja era o centro da vida espiritual. A nave, com altar-mor e altares laterais, servia para as celebrações litúrgicas, e a Capela-mor, elevada em relação à nave, proporcionava uma boa visibilidade aos monges durante os ofícios. A igreja, com uma só nave, refletia a austeridade cisterciense, enquanto os elementos barrocos no interior, como a talha dourada e as pinturas, eram usados para enriquecer a experiência espiritual.

Claustro

Claustro: Localizado no centro do mosteiro, o claustro era o espaço de circulação entre os diversos edifícios. Ele era fundamental para a vida cotidiana dos monges, servindo como lugar de meditação, leitura e descanso. O claustro também refletia a disciplina cisterciense, com o seu formato simples, mas imponente, cercado por colunas renascentistas e uma fonte barroca.

Aspeto atual do Coro-Alto

Coro: O Coro Alto, separado do espaço dos fiéis por uma grade de carvalho, era um local de oração e canto litúrgico. A sua divisão em alto e baixo permitia uma separação das funções entre as religiosas e os fiéis, promovendo uma maior concentração nas funções litúrgicas e no serviço divino.

Sacristia: Um dos espaços mais práticos do mosteiro, a sacristia era onde os objetos litúrgicos eram guardados e preparados para as missas. A sua simplicidade, com um lavabo e cobertura em madeira, reflete a sobriedade da vida monástica, ao mesmo tempo em que oferece funcionalidade para as necessidades litúrgicas diárias.

Refeitório: O refeitório era um espaço de convivência para os monges, onde se realizavam as refeições em silêncio, respeitando a disciplina cisterciense. Era um local de partilha, essencial para a vida comunitária, permitindo que os monges se nutrissem fisicamente, enquanto refletiam espiritualmente sobre o trabalho e a oração.

Cerca: A cerca era uma estrutura de proteção ao redor do mosteiro, projetada para manter os monges dentro dos limites monásticos, garantindo o isolamento e a clausura, conforme as normas estabelecidas pelo Concílio de Trento. A cerca também incluía espaços para a produção agrícola, como hortas e pomares, fundamentais para a autossuficiência do mosteiro. A presença da cerca também simbolizava a separação do mundo exterior, criando um espaço sagrado e contido.

Mirante: A estrutura elevada que permitia às religiosas observar o exterior sem violar a clausura. Esta característica era importante para manter a separação do mundo exterior, permitindo um contato visual com a natureza e o ambiente ao redor, mas sem comprometer o isolamento.

Fontes e Sistemas Hidráulicos: O mosteiro também se destacava pelo seu sistema hidráulico, que não só abastecia o mosteiro com água para consumo e higiene, mas também era utilizado em práticas religiosas e rituais. Esse sistema refletia a engenharia avançada da Ordem de Cister, conhecida pelo uso eficiente da água em suas construções.

Intervenções no Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa

Década de 1680–1690 — Fundação e primeiras dificuldades

Em 1685 foi lançada a primeira pedra da igreja, a única parte concluída quando, em 1692, chegaram as primeiras sete religiosas vindas do mosteiro do Mocambo. Encontraram apenas onze celas inacabadas e viveram em con

dições precárias, agrupadas por celas e usando a igreja como espaço comum. Apesar do desânimo inicial, começaram logo a melhorar o espaço com os dotes trazidos.

Década de 1690–1700 — Início das obras estruturais e litúrgicas

Em 1695 já estavam prontas as estalas do coro, e iniciou-se a construção da capela-mor com talha dourada. Em 1696 foi colocado o Santíssimo no sacrário e finalizaram-se as decorações principais. Em 1697 decoraram-se arcos e janelas, e entre 1697 e 1699 fez-se o “Tombo” do mosteiro, ajustando receitas e despesas.

Década de 1700–1710 — Expansão das dependências monásticas

Foram construídas a enfermaria, o dormitório e o terreiro em frente ao mosteiro, bem como a escadaria para o mirante. Entre 1703 e 1704 foi edificado o Claustro, importante estrutura para a vida em clausura.

Décadas de 1730–1750 — Conclusão de áreas essenciais e restauros

Em 1737 instalaram-se canalizações de água, e em 1745 foi terminada a Sala do Capítulo. Três anos depois, em 1748, concluiu-se o Sepulcro do Senhor Morto. Em 1750, houve obras de restauro e manutenção, que custaram mais de oito contos, sinal de uma economia ainda estável.

Década de 1770 — Ruína e abandono temporário

Durante o reinado de D. José, o mosteiro entrou em decadência. Em 1771, as religiosas foram transferidas para Setúbal e o edifício começou a ser desmantelado, com materiais vendidos e estruturas abandonadas.

Década de 1780 — Regresso e reconstrução

Em 1777, com D. Maria I no trono, as religiosas regressaram a Tabosa e encontraram o mosteiro em ruínas. Com o apoio da Congregação de Alcobaça e da “Arca da Caridade”, recomeçaram as obras e reconstruíram parte significativa do convento.

Década de 1830 — Extinção das Ordens Religiosas

Em 1834, com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi encerrado. A última religiosa ficou em residência até à sua morte, e o edifício entrou num período de vigilância e abandono.

Década de 1840–1850 — Fim da vida monástica e dispersão dos bens

Em 1844, foi feito o inventário da casa, descrita como segura mas a precisar de reparações. Em 1850 faleceu D. Thom

azia, última religiosa, e os bens do mosteiro foram disputados judicialmente, acabando vendidos em hasta pública.

Pós-1850 — Ruína do edifício e preservação da igreja

Sem fundos nem interesse para reconstrução, o edifício do mosteiro caiu em ruínas. Apenas a igreja foi conservada pela população local e pela Junta de Paróquia, sendo adaptada a templo paroquial e alvo de pequenas intervenções ao longo do tempo.

Estado Atual

O Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção desempenhou um papel fundamental na história e desenvolvimento de Tabosa, sendo não apenas um centro de devoção religiosa, mas também um ponto central na vida social e económica da comunidade local. A sua fundação, em terrenos anteriormente pertencentes à nobreza, demonstra o seu vínculo direto com as elites da região, mas também a intenção de criar um refúgio espiritual e de apoio à população.

Durante séculos, o mosteiro foi um pilar da vida comunitária. A sua função não se limitava apenas à devoção religiosa, mas abrangia também uma série de ações sociais. Muitas mulheres, provavelmente de famílias de menor poder económico ou em busca de uma vida de espiritualidade mais profunda, procuraram refúgio neste convento. O mosteiro era um local onde o bem-estar físico e espiritual se entrelaçavam. Além disso, a distribuição de esmolas aos necessitados garantiu que o mosteiro cumprisse um papel essencial na ajuda social, mantendo um vínculo direto com as camadas mais carenciadas da sociedade de Tabosa.

A importância económica do mosteiro também não pode ser subestimada. Ele funcionava como um centro de produção e sustento para a comunidade local. Com a presença das religiosas, o mosteiro contribuía para a produção agrícola, a educação e até mesmo o comércio local, tornando-se uma força dinamizadora da economia da região. As mulheres que lá residiam, ao longo dos séculos, não só mantinham as tradições religiosas, mas também geravam riqueza, com o apoio da nobreza e das outras classes sociais da época.

No entanto, com o encerramento parcial do mosteiro e a transferência das religiosas para Setúbal, o impacto na comunidade foi profundo. A população ressentiu-se de forma significativa, pois perdeu uma instituição vital para o seu sustento espiritual e financeiro. O mosteiro, que durante tanto tempo fora um símbolo de apoio e segurança, viu-se enfraquecido. A decadência não demorou a chegar. O edifício, antes imponente, foi alvo de disputas judiciais, que acabaram por resultar em abandono e pilhagem. As pedras e madeiras que antes sustentavam a grandiosidade do mosteiro foram reaproveitadas para outras construções na localidade, como uma tentativa de reaproveitamento dos seus recursos materiais.

Com a chegada da República e a consequente venda dos bens em hasta pública, o mosteiro perdeu a sua importância social e patrimonial, sendo adquirido por um único proprietário, abastado, mas que, ao longo do tempo, não soube preservar ou valorizar o património que tinha nas mãos. A família desse proprietário, com o passar dos anos, acabou por dissipar grande parte desse legado, e o que restou foi a inevitável decadência do que outrora fora um grande símbolo da comunidade de Tabosa.

Nos dias de hoje, o que ainda persiste do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção é apenas a sua igreja, que se mantém, apesar do desgaste do tempo, sendo cuidada pela população local e pelo pároco. Este espaço preserva não apenas a memória do que o mosteiro representou, mas também a beleza histórica que o caracteriza. As ruínas ainda visíveis são um testemunho do esplendor de um tempo em que Tabosa era um centro de fé, cultura e riqueza, e elas continuam a recordar à população local as suas origens e a grandiosidade do passado monástico da vila.

Em última análise, a história do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção é uma metáfora da própria evolução de Tabosa: uma ascensão e queda de um símbolo de poder, fé e riqueza, cujas cicatrizes permanecem como recordação de um passado que, embora agora distante, ainda tem um impacto profundo na identidade da vila. A preservação da igreja, embora modesta em comparação ao esplendor original, continua sendo um elo vital com esse passado, e talvez seja uma das últimas formas de garantir que a história do mosteiro e da própria Tabosa não se perca para as gerações futuras.

Infelizmente, até ao momento, não existe documentação conhecida e amplamente divulgada que identifique com precisão os arquitetos, mestres de obras, pintores, azulejistas ou outros trabalhadores que estiveram envolvidos diretamente na construção do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa.

Património Integrado – O Mosteiro de Tabosa Hoje

Embora o antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa tenha sido duramente fustigado pelo tempo, abandono e intervenções humanas, ainda hoje subsistem testemunhos materiais que conservam viva a memória da sua presença e importância. O elemento mais significativo que perdura é a igreja conventual, atualmente convertida em igreja paroquial, onde ainda se celebra o culto religioso. Este edifício, de traça barroca, preserva no seu interior um valioso espólio artístico e litúrgico, nomeadamente retábulos dourados, talha barroca, imagens sacras e elementos decorativos que testemunham a antiga riqueza espiritual e material da comunidade monástica.

A estrutura do mosteiro propriamente dito encontra-se em estado avançado de ruína, mas alguns vestígios arquitetónicos são ainda identificáveis, como partes da antiga clausura, muros perimetrais, zonas de acesso e elementos construtivos característicos da arquitetura cisterciense adaptada ao contexto português. O conjunto encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1971, o que confere um importante estatuto de proteção legal, ainda que não tenha sido objeto de uma reabilitação plena.

O Instituto Português do Património Arquitetónico e Arqueológico (IPPAR) acompanha atualmente um projeto de restauro e requalificação do espaço, com a intenção de transformar as ruínas do mosteiro num hotel de charme, modelo de reutilização patrimonial que visa preservar a memória do edifício e revitalizar a economia local.

A integração do Mosteiro de Tabosa no património da região não se resume ao seu valor material. Ele continua a exercer uma função simbólica e identitária para a comunidade local, sendo frequentemente objeto de visitas culturais, celebrações religiosas e ações de sensibilização patrimonial. A paisagem envolvente, marcada pela serenidade da Serra da Lapa, reforça o caráter contemplativo e espiritual do local, evocando os ideais originais da Ordem de Cister.

Assim, mesmo que parcialmente perdido, o Mosteiro de Tabosa permanece vivo — não apenas nas pedras que resistem, mas na memória, na fé e na identidade cultural de quem habita ou visita este território.

A história do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa é o reflexo vivo da presença marcante da Ordem de Cister em Portugal, especialmente no seu ramo feminino, frequentemente esquecido. Desde a sua fundação pela devota D. Maria Pereira até à sua extinção no século XIX, o mosteiro desempenhou um papel essencial na vida espiritual e social da região, acolhendo religiosas nobres e dedicadas que procuravam uma existência consagrada à fé. Enfrentando dificuldades políticas, económicas e religiosas, nomeadamente durante o governo do Marquês de Pombal, o mosteiro resistiu, ainda que por vezes à custa da sua autonomia e riqueza. A sua ruína física contrasta com a importância espiritual que teve, tanto para a comunidade local como para a Ordem de Cister. Apesar do esquecimento e da degradação a que foi votado, a sua memória persiste, sustentada pela sua igreja paroquial e pelo esforço de alguns em preservar e divulgar o seu legado. Relembrar Tabosa é revalorizar o papel das mulheres cistercienses na história religiosa portuguesa e promover o estudo de um património riquíssimo, ainda pouco explorado, mas digno de maior atenção e reconhecimento.

Bibliografia

Fontes Clássicas e Historiografia Antiga:

ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, Coimbra, 1930.

BRITO, Fr. Bernardo de; BRANDÃO, Fr. António – Monarquia Lusitana, Lisboa, 1715.

BOTELHO, M. Mattos – Sermão de S. Bernardo..., Coimbra, Oficina de Joseph Ferreyra, 1698.

FIGUEIREDO, Frei Manuel de – História Chorográfica da Comarca de Alcobaça, 1785.

Estudos em Portugal:

SANTOS, Maria Luísa Gil dos – O Ciclo Vivencial do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa.

DIAS, Geraldo Coelho – “Cister no Vale do Douro – Irradiação da Espiritualidade e Cultura”, Ed. Afrontamento, 1999.

DIAS, Geraldo Coelho – Perspectivas Bíblicas da Mulher e Monaquismo Medieval Feminino, Porto, Revista de História, Série II, Vol. XII, 1995.

GOMES, Saúl António; SOUSA, Cristina Maria André Pina – Intimidade e Encanto: O Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Cós, Leiria, Magno, 1998.

CARVALHEIRA, Ana Margarida Gonçalves – “Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Aguiar”, in Terras do Côa: os valores do Côa, Agência Estrela-Côa, 1998.

COSTA, Manuel Gonçalves – História do Bispado e Cidade de Lamego, Lamego, s.d., vol. V.

COSTA, Manuel Gonçalves – Convento de S. João de Tarouca: roteiro, Lamego, 1982.

Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa

O Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de Tabosa foi um convento feminino da Ordem de Cister localizado em Tabosa, freguesia de Carregal, concelho de Sernancelhe, no distrito de Viseu, Portugal. Fundado em 1692 por iniciativa de D. Maria Pereira, o mosteiro destacou-se pela sua austeridade espiritual e pelo rigor da observância religiosa, inserindo-se no movimento das Recoletas, ramo reformado do cistercismo feminino durante a Época Moderna.