Convento de Santa Ana de Viana do Castelo

Identificação
| Designação | Convento de Santa Ana, Atual Congregação de Nossa Senhora da Caridade |
| Localização | Rua dos Bombeiros, Viana do Castelo, Portugal |
| Cronologia | Século XVI |
| Autor(es) | Pêro Galego (mestre pedreiro); Domingos Gonçalves do Rego (1696-99; arquiteto); António Adelino Magalhães Moutinho (1895-1904; arquiteto) |
| Classificação | Arquitetura religiosa; unidade monástica feminina; arquitetura assistencial |
Estado da Arte
A obra História Mundial da Arte: do Barroco ao Romantismo (1965), da autoria de Everard M. Upjohn, Paul S. Wingert e Jane Gaston Mahler, originalmente publicada pela Universidade de Oxford, fornece uma contextualização abrangente das principais correntes estéticas do período barroco na Europa, evidenciando como os valores do movimento – teatralidade, dinamismo e espiritualidade – se manifestaram na arquitetura religiosa.
No contexto português, a História da Arte Portuguesa: da estética barroca ao fim do classicismo (2007), da direção de Paulo Pereira, aprofunda a especificidade do barroco nacional, destacando as influências italianas e espanholas, bem como o papel da Contrarreforma na configuração dos espaços religiosos.
Da autoria de Paula Noé, a página no website SIPA, intitulada Mosteiro de Santa Ana / Edifício da Congregação da Caridade, constitui uma fonte documental e descritiva que permite cruzar dados arquitetónicos com a história institucional do edifício.
Já o estudo de Manuel Joaquim Moreira da Rocha sobre unidades monásticas, História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar (2023), oferece uma perspetiva sobre a organização espacial, simbólica e funcional dos conventos femininos, salientando as particularidades da vida enclausurada e o modo como estas se traduziram na arquitetura.
Enquadramento

O antigo Convento de Santa Ana apresenta planta retangular regular, desenvolvida à volta de claustro de igual forma, integrando uma igreja longitudinal de nave única e capela-mor. Encontra-se inserido num contexto urbano, ainda que se mantenha isolado no interior da sua própria cerca. Situa-se na extremidade norte do centro histórico de Viana do Castelo, no sopé do monte de Santa Luzia, e a delimitação do seu perímetro é feita, a norte e a nascente, pela linha ferroviária, que atravessa terrenos que outrora integraram a cerca conventual (NOÉ, 2005).
O conjunto é rodeado por um muro elevado nas fachadas oeste e norte; nas fachadas sul e nascente, a vedação apresenta um muro mais baixo. O portal central, frente à igreja, conduz a um percurso em calçada portuguesa que termina na escadaria de acesso ao templo. Na fachada posterior desenvolvem-se corpos anexos, de menor altura, destinados a funções de serviço. Do lado nascente, numa cota superior, subsiste parte da antiga cerca, acessível através de um pano de muro que integra o portal manuelino da igreja (NOÉ, 2005).
No interior da cerca subsistem também várias estruturas de apoio ao funcionamento da comunidade, sendo que, em frente ao convento, ergue-se o Palácio dos Viscondes da Carreira, e nas suas proximidades localiza-se o Teatro Sá de Miranda (NOÉ, 2005).
Descrição
Objeto Arquitetónico
As Fachadas

A fachada principal da igreja do Convento de Santa Ana, voltada a sul, foi construída entre 1735-38. É da autoria de Frei Luís de São José em colaboração com o coronel Manuel Pinto Vilalobos (ROCHA, 1999: 289). No centro da fachada destaca-se um nicho com a imagem de Santa Ana, esculpida pelo mestre entalhador Francisco de Oliveira. A fachada apresenta estilo barroco expressivo, marcado pelo pano central mais elevado. Apresenta portal de verga reta e cornija com a imagem da padroeira e com as armas nacionais (esfera armilar, à esquerda, e cruz de Cristo, à direita). O portal é enquadrado por duas cartelas retangulares com inscrições.
A fachada oeste corresponde à portaria do convento. Foi reformada entre 1738 e 1741 pelos mestres Manuel Álvares Martins e António Lopes Trindade. O corpo central exibe um portal em arco de volta perfeita, assente em pilastras toscanas e envolto por elementos decorativos. Acima do portal, encontra-se imagem da Senhora da Caridade. A composição é coroada por platibanda em alvenaria rebocada, com frontão curvo em cantaria que integra um brasão nacional (ROCHA, 1999: 296). O corpo esquerdo mais avançado inclui torreões.
As fachadas resultantes das reformas do século XIX apresentam uma notável regularidade e simetria. Os dois pisos são separados por cunhais e remates em friso, com cornija encimada por beiral. No piso inferior, abrem-se janelas de peitoril; no superior, janelas de sacada, com bandeira e molduras compostas por friso e cornija reta (NOÉ, 2005).
Quanto às restantes fachadas, a lateral leste é organizada em três panos: os dois primeiros têm janelas de peitoril em ambos os pisos, enquanto o terceiro corpo em cantaria apresenta arcos abatidos no piso térreo e uma varanda fechada no piso superior. A fachada posterior, voltada a norte, revela-se mais simples, marcada por janelas de peitoril com molduras despojadas. (NOÉ, 2005)

A igreja do Convento de Santa Ana revela uma planta longitudinal, constituída por nave única, capela-mor e coros baixo e alto.
A nave data do século XVI e apresenta paredes interiores revestidas de azulejos e cobertura em falsa abóbada de berço. O teto forma quarenta e cinco caixotões, emoldurados em talha e pintados, e painéis que representam momentos da vida de Santa Ana e da Virgem. Neles trabalharam o entalhador António Araújo (1671) e os pintores António Luís (1677), Domingos Meira e Ventura Álvares Lima (1735-1741) (NOÉ, 2005).
Dos lados esquerdo e direito, existe um cadeiral assente em pés de madeira exótica e policromo, datado dos séculos XVII e XVIII e encimado por espaldar com painéis representativos das obras da Misericórdia. Do lado direito, existe um guarda-vento em madeira, que protege o portal, ladeado pelo púlpito (1741) e pela pia de água benta (NOÉ, 2005).
Antes da entrada na capela-mor, observam-se quatro retábulos da autoria dos obreiros Manuel Ambrósio Coelho e Manuel Álvares Martins: à esquerda, Bom Jesus das Chagas e Nossa Senhora das Dores; à direita, Santa Ana e Santíssima Trindade (ou Altar da Parentela).
Os Coros
A parede fundeira é dividida em dois registos: coro-baixo e coro-alto que separavam as religiosas dos fiéis. Ambos são marcados por três aberturas em arco abatido, encimados por cartelas e pelas insígnias da Ordem Beneditina. O coro-baixo apresenta um cadeiral com representações iconográficas das misericórdias; acima, segue um espaldar que enquadra pinturas alusivas à Paixão de Cristo. O teto é formado por trinta e dois caixotões em madeira. O coro-alto apresenta também um cadeiral e o teto em madeira é composto por vinte caixotões. Do lado do Evangelho, surge o órgão, possivelmente comprado em 1690 ao padre Manuel Madris, e, na parede posterior, vê-se o retábulo de S. Martinho (NOÉ, 2005).
A Capela-mor

A capela-mor evidencia uma linguagem barroca notável. Terá sido reformada entre 1707 e 1708 e o teto, de perfil curvo, formado por quarenta e dois caixotões, é atribuído ao ensamblador Manuel de Azevedo.
Nas paredes existem quatro painéis, inicialmente localizados na nave da igreja. As pinturas retratam os quatro doutores da Igreja – Santo Ambrósio e São Jerónimo, do lado do Evangelho, São Gregório e Santo Agostinho, do lado da Epístola. As molduras são atribuídas a Manuel Ambrósio Coelho. Sobre o supedâneo assentam dois anjos tocheiros de madeira estufada, em barroco joanino, consertados em 1789. (NOÉ, 2005)
Pela parede esquerda é feito o acesso ao corredor, espaço correspondente à antiga sacristia reformada entre 1735 e 1738. A atual sacristia, reformada entre 1895 e 1905, corresponde à antiga Casa do Capítulo. Esta apresenta um teto plano com quinze caixotões decorados com motivos circulares policromados que envolvem florões centrais, executado por Miguel Coelho (ROCHA, 1999: 294). No topo norte, estão as imagens de São José (esquerda), de Cristo crucificado (centro) e de Nossa Senhora (direita), sendo que as que ladeiam a cruz se inserem num nicho de talha, ladeado por pilastras. Já na parede nascente existe o retábulo da Glorificação da Senhora do Rosário, ladeado pelas sepulturas do Dr. António Correia e das primeiras três abadessas do Convento, Margarida, Isabel e Brites de Sousa. (NOÉ, 2005)
O Claustro

O claustro apresenta dois pisos com arcada de volta perfeita. No primeiro piso, os arcos repousam sobre colunas com capitéis decorados com elementos fitomórficos, carrancas ou lisos; o segundo é inteiramente em cantaria, com galeria envidraçada e janelas de peitoril com caixilharia de guilhotina. (NOÉ, 2005)
As alas do primeiro piso são revestidas com azulejos enxaquetados, formando silhar que reproduz o padrão da igreja, assente sobre embasamento de cantaria. As portas são de verga reta, molduradas e com bandeira. (NOÉ, 2005)

Na ala sul do primeiro piso insere-se a antiga torre-sineira manuelina, composta por dois registos. O primeiro registo apresenta, na face frontal, um vão em arco de volta perfeita, sobreposto por outro de igual perfil com adufa. Acima, encontram-se dois escudos, seguidos de um relógio, outro escudo nacional e um óculo com adufa, repetido nas outras faces. No registo superior, abre-se em cada face um vão sineiro também com adufa. A torre é rematada por cornija, platibanda rendilhada nos cunhais, e coruchéu piramidal. A estrutura interior original, incluindo as escadas, desapareceu, encontrando-se atualmente oca, com novo acesso. (NOÉ, 2005)
No segundo piso, inserem-se nas paredes seis oratórios de talha dourada.
No centro da quadra ajardinada situa-se uma fonte com tanque circular, assente em soco de três degraus. A fonte é composta por uma coluna galbada, taça circular com quatro bicas, e encimada por esfera armilar e cogulho fitomórfico (NOÉ, 2005).
Em redor do claustro encontram-se as diversas dependências do atual lar.

Património Integrado
O retábulo-mor inserido na capela-mor da igreja do Convento de Santa Ana foi executado na segunda metade do século XVII, mas reformado em 1721. Apresenta planta reta, talha dourada e uma estrutura tripartida delimitada por colunas torsas. À esquerda, encontra-se a imagem de Santa Ana, à direita, a de São Bento, e as colunas são adornadas por motivos antropomórficos e vegetalistas. O teto do eixo central forma caixotões relevados e é ocupado por uma tribuna com abertura. O interior é adornado por motivos vegetalistas e antropomórficos, destacando o trono escalonado, encimado pelo resplendor. (NOÉ, 2005)

O ático é formado por três arquivoltas convergentes, entre as quais se inserem painéis com folhas de acanto em relevo e mitra encimada por querubim. O banco do retábulo é composto por painéis esculpidos. Ao centro, localiza-se o sacrário, rematado por um espaldar ornado pela pomba do Espírito Santo em cartela, fénices laterais e uma cruz; a porta exibe o Agnus Dei. O altar é paralelepipédico, em talha dourada policromada; o seu frontal é decorado por elementos vegetalistas em relevo e apresenta o sudário de Verónica. (NOÉ, 2005)
Fruto da Contrarreforma, em 1741, a boca da tribuna recebe um painel com o tema Trânsito de Santa Ana, pintado por Francisco Mendes Lima. O painel revela uma temática típica da iconografia promovida pela Contrarreforma e representa a morte da mãe da Virgem Maria. Procura inspirar piedade e oferecer modelos de virtude cristã.
Imagens e Iconografia do Objeto
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Teto da nave
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Espaldar da nave, lado esquerdo
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Teto da capela-mor
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Púlpito, lado esquerdo da nave
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Retábulo do Bom Jesus das Chagas
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Retábulo da Nossa Senhora das Dores
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Retábulo de Santa Ana
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Retábulo da Santíssima Trindade (ou Altar da Parentela)
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Parede fundeira da nave
Coros
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Coro-baixo
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Espaldar e painéis do coro-baixo
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Órgão
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Retábulo de S. Martinho
Sacristia
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Teto da atual sacristia
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Parede norte da atual sacristia
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Parede nascente da atual sacristia
Fontes e Bibliografia
Fontes
Arquivo Distrital de Braga. (s.d.). Mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo. Consultado a 03.03.2025. https://bit.ly/4isdZKz
Olhar Viana do Castelo. (2008). Viana do Castelo – Congregação da Nª Sª da Caridade. Consultado a 03.03.2025. https://bit.ly/3DgE6W3
SIPA (2005) – Mosteiro de Santa Ana / Edifício da Congregação da Caridade. Consultado a 23.04.2025. https://bit.ly/4lA4Odk
Bibliografia
CAMPOS, Leandro Ramos (2018) – Estudo Monográfico de Monumentos do Centro Histórico de Viana do Castelo. Porto: Universidade do Porto. [Tese de mestrado]
FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. Ferreira (2005) – Ensaio sobre a arquitetura barroca e neoclássica a norte da bacia do Douro. «Revista da Faculdade de Letras – Ciências e Técnicas do Património», I série, vol. IV, pp. 135-153.
PEREIRA, Paulo (dir.) (2007) – História da Arte Portuguesa: da estética barroca ao fim do classicismo. Lisboa: Círculo de Leitores, 10 vols.
PINHO, Isabel Maria Ribeiro Tavares de (2010) – Os mosteiros beneditinos femininos de Viana do Castelo – Arquitetura monástica dos séculos XVI ao XIX. Vol. I. Porto: Universidade do Porto. [Tese de doutoramento]
ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, coord. (2018) – História da Arquitetura – Perspetivas Temáticas. Porto: Sersilito – Empresa Gráfica. Lda.
ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (2023) – Investigação sobre unidades monásticas. In ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da, coord.; MONTERROSO MONTERO, Juan Manuel, coord. – História da Arquitetura. Perspetivas Temáticas (II). Mosteiros e Conventos: Formas de (e para) Habitar. Porto: Sersilito – Empresa Gráfica. Lda., pp. 5-8.
ROCHA, Manuel Joaquim Moreira da (1999) – Obras no Convento de Santa Ana de Viana do Castelo (séculos XVII-XVIII): os autores dos projectos de intervenção. Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras, pp. 289-301.
TEIXEIRA, Francisco Manuel de Almeida Correia (2007) – A arquitectura monástica e conventual feminina em Portugal, nos séculos XIII e XIV. Faro: Universidade do Algarve. [Tese de doutoramento]
UPJOHN, Everard M.; WINGERT, Paul S.; MAHLER, Jane Gaston (1965) – História mundial da arte: do Barroco ao Romantismo. Amadora: Bertrand, 6 vols.