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Clérigos: A caixa de música e o campanário

Fonte: Porto Barroco
Revisão em 08h28min de 9 de dezembro de 2025 por Ltrigo (discussão | contribs) (A planta)

1. IDENTIFICAÇÃO

Designação Igreja e Torre dos Clérigos
Localização Rua dos Clérigos, Porto
Cronologia Séc. XVIII (1732 - 1763)
Autor(es) Nicolau Nasoni
Classificação Monumento Nacional (1910)

2. ESTADO DA ARTE

Os dois estudos que julgo mais recentes e relevantes são os produzidos por Pedro Xavier  (3032), sobre o tema da minha abordagem) e de Beatriz Hierro Lopes/Francisco Queiroz sobre o edifício em si (2013).  

3. ENQUADRAMENTO

O complexo situa-se a Norte na proximidade da Livraria Lello e de dois edifícios marcantes do Arq. Marques da Silva (as 4 estações e Palacete Conde de Vizela); a poente confina praticamente com o edifício da Reitoria e, um pouco mais adiante com o Centro Português ide Fotografia (ex cadeia da Relação) e com Convento de S. Bento da Vitória.

4. DESCRIÇÃO

Igreja dos Clérigos e Torre dos Clérigos

Antecedentes

Históricos

A Irmandade dos Clérigos, fundada no início do século XVIII com o objetivo de prestar assistência ao clero, resulta da fusão de três confrarias portuenses: a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia dos Clérigos Pobres, aCongregação de São Filipe Néri e a Irmandade de São Pedro «ad Vincula» (São Pedro acorrentado). A Irmandade dos Clérigos teria como padroeiros Nossa Senhora da Assunção (padroeira principal), São Pedro e São Filipe Néri, o que se espelha na configuração do brasão da Irmandade, que conjuga o monograma de Maria (AM), as chaves e a tiara papal de São Pedro e a açucena de S. Filipe Néri.

Arquitectónicos

A tradição italiana e a Torre de la Seo (Sede) do Salvador de Saragoça

Sendo uma larga tradição a presença de “Campanários” em Italia, de que são ilustres exemplares o campanário de Giotto em Florença, a Torre de Pisa ou ocampanário de São Marcos em Veneza, a Torre de la Seo de Saragoça,construída sobre um projecto desenhado em Roma em 1683 pelo arquitectoGiovanni Battista Contini (1641-1723), com o objetivo de adoptar um estilomoderno e internacional e substituir a antiga torre mudéjar é, na minha opiniãotambém fundamentada na observação de Victor Serrão, a torre sineira quemais se assemelha à “nossa” Torre dos Clérigos, seguindo igualmente os cânones do barroco romano, mas adoptando uma planta muito diferente. Não é absolutamente nada provável que Nicolau Nasoni conhecesse a Torre de Saragoça, atendendo às circunstâncias da sua vida e ao percurso que fez até chegar ao Porto.

João Pedro Xavier nas suas “Lições de Arquitectura argumenta, porém, que a fonte primária de Nasoni no traçado da oval dos Clérigos terá sido a imposta da base oval da cúpula de San Carlino, com a qual coincide quaseintegralmente, oval que Borromini repetirá no cortile do Palazzo Carpegna. Insistindo na tese da influência de Borromini, como não olhar para a oval da actual Academia de San Luca, na Igreja de San Carlino alle Quattro Fontane?

Musicais

No projecto revisto de Nasoni estariam previstos dois órgãos, embora no projecto primitivo pareçam localizar-se no coro-alto o que implicaria não estar previsto mais do que um. Com a ampliação terá surgido, então, a ideia dos órgãos duplos na capela- mor (do lado da epistola - o lunar; do lado do evangelho - o solar), tal como na Sé do Porto e na Sé de Lamego, outros projectos em que Nasoni tinha estado envolvido. Há que ter em conta que só com órgãos duplos se garante a correspondência da simetria axial da arquitectura, experienciada por meio da visualidade, com a simetria musical intensamente explorada na altura, Aliás, nada mais conveniente e ajustado àtradição da música espacial, com raizes em Itália, nomeadamente na Basilica de São Marcos ou na Igreja de Gesù, entre outras igrejas venezianas e romanas, tradição que se reacendera na Peninsula Ibérica no inicio desetecentos, na Catedral de Santiago de Compostela, e que teve réplicassignificativas em diversos locais, com particular exuberância na Sé de Braga.Ao contrário de Braga, porém, a subtileza da inserção dos fachadas, denota um modo de fazer à romana perfeitamente ajustado ao perfil de Nasoni e em linha com as suas experiências anteriores”.

Nicolau Nasoni empresta traços verdadeiramente únicos na arquitectura portuguesa à Igreja e Torre dos Clérigos,, partindo das sérias difculdades deimplantação e de fundação do edificio, já que é obrigado a vencer umdesnivel significativo e a instalá-lo num terreno longitudinal, o que implicou a projecção de uma fachada relativamente estreita, que acentua a sua altura e monumentalidade e apresenta uma composição cenográfica que encobre o corpo da igreja e tira partido de um amplo leque de elementos decorativo. É antecedida por uma escadaria dupla de lanços cruzados..

Encimada por um frontão pontuado pela Cruz Papal de três braços e pelomonograma de Maria, a fachada integra, na zona superior, uma janela ladeadapor dois nichos com as imagens de S. Pedro e S. Filipe Néri.

A esta bela fachada, que funciona como ecran colocado num ponto médio daencosta e que se oferece como um espetáculo virtuoso da arquitetura e da escultura, sucede o corpo da igreja com planta elíptica, paredes duplas e corredores de passagem em serventia rodeando a nave e dando acesso à parte posterior do edificio.

Por fim, Nasoni, que abdica das torres ladeando a fachada, e coloca a única e grande torre sineira, não de forma separada do edifício como habitualmenteacontece em Itália, mas na sua face posterior.

Se o edificio oferece uma monumentalidade impar, isso deve ao facto de sercomo que uma soberba e faustosa peça de mobiliário como que um grandecofre enunciando um tesouro que ali se encerrasse.


“Se houver que escolher um ex-libris monumental para a cidade do Porto, a Igreja e Torre dos Clérigos são, sem dúvida, os edifícios que mais se destacam,quer pela sua originalidade, quer pela sua implantação na paisagem urbana de uma cidade densa e, até certo ponto, já por isso «barroca». O edifício assumeainda maior protagonismo pela forma como foi trabalhada a pedra que lhe serve de estrutura, com um esmero sofisticado, quase um trabalho de talha comvalores pictóricos”, Paulo Pereira.

A planta

A igreja dos Clérigos (mesmo com alteracões posteriores) é, possivelmente a mais marcante igreja elíptica existente em Portugal e uma das que melhorostenta o formulário barroco, uma vez que o assume na sua decoração e naplanta em que assenta. A adopção desta planta, seria o resultado da concepção neoplatónica de busca da harmonia (como Bramante previra para a Basílica de São Pedro).

Muito relevante é também a influência dos padres oratorianos na Irmandade do Clérigos, o que explica a valorização do papel da música e da festa barroca,função a que tão bem se aplica a planta elíptica.

Embora o interior da nave da Igreja dos Clérigos seja elíptico, os alçados lateraisapenas vagamente sugerem essa forma. Os estreitos corredores, que ladeiam a nave e a capela-mor, acabam por regularizar o traçado dos limites exteriores da igreja, que se apresentam com chanfros.

Num dos extremos do eixo longitudinal da elipse temos a capela-mor, bastanteprofunda se comparar com o comprimento da nave (embora devamos ter emconta que a capela- mor primitiva seria razoavelmente mais curta que a actual).

No extremo oposto do eixo longitudinal, existe uma galilé rectangular, cujo acessoé feito pelos flancos para onde diverge a escadaria exterior de acesso à igreja.

No interior da Igreja dos Clérigos, a nave elíptica é orlada por quatro capelascolaterais, embutidas em arcos de volta perfeita com molduras simples e os seus respectivos retábulos e sobrepujadas por sanefas em talha dourada.

As paredes das naves são ritmadas por pilastras em granito, mas as moldurasexistentes entre as pilastras são estucadas, imitando o granito sobre um fundo de mármore rosa.

Este desenho é já neoclássico e, de alguma forma, diminui o protagonismo daspilastras.

“A arquitectura como música petrificada” (1)

A arquitectura dos Clérigos, pensada como instrumento musical, temverdadeiramente no seu âmago a Igreja que funciona como uma caixa acústicaresultante da planta oval da nave e da abóbada correspondente, com um coração- a abside - onde palpitam dois órgãos de tubos, cuja sonoridade preenche o espaço por si só e que, quando conjugada com coro e orquestra, fazdeste templo um instrumento musical portentoso.

Os alçados

A fachada principal da igreja dos Clérigos é excepcional na carga decorativa e no aparato cenográfico, cuja profusão de ornamentos cria o jogo de luz e sombra, característico do barroco. Apresenta dois registos horizontais, sobrepondo-se-lhes um frontão interrompido, tudo separado por cornijas com molduras muito elaboradas. Verticalmente, a frontaria divide-se em trêsregistos marcados por pilastras e ressaltos.


O primeiro registo horizontal da frontaria da Igreja dos Clérigos, quecorresponde interiormente à galilé, contém três vãos, sendo maior o central,que é simultâneamente o maior vão de toda a fachada e fica imediatamente acima do frontispicio em arco

da Capela de Nossa Senhora da Lapa, sendo a sua pedra de chave decorada com folhagem de acanto e sobrepujada por uma consola comenrolamentos, grinaldas e festão, unidos por fita,

Os vãos que se posicionam lateralmente e cujas ilhargas apresentam dupla pilastra, são de verga, sobre consolas, sendo sobrepujados por feixesvegetalistas afrontados e unidos por fita (bem ao gosto de Nicolau Nasoni), eainda por enrolamentos e folhas de acanto, que funcionam como peanha de apoio a um vaso com volumosas grinaldas a pender das asas.


No entablamento deste primeiro registo horizontal, além da iconografia da Irmandade dos Clérigos, encontramos, ao centro, uma composição sobre almofada com raios com a tiara papal. Já nos registos laterais encontramosalfaias litúrgicas (um turibulo, flanqueado por uma naveta e um livro, e, do outro lado, uma caldeira e um hissope, cobertos por panejamento)


O segundo registo horizontal da frontaria da Igreja dos Clérigos édefinido por um frontão curvo interrompido que remata a parte central do primeiro. Este frontão é bastante aberto, para que o eixo forme uma espéciede consola com folhagens ao

centro e florões dos lados, ladeada por feixes vegetalistas. Acima, temos uma peanha com concha central e grinalda de folhagens nos flancos, sobre a qual existe uma almofada que suporta uma espécie de urna com a tiara papal, vendo-se atrás as chaves de São Pedro entrecruzadas, sobrepostas por estola.


O frontão, triangular, interrompido e profundamente recortado, possuimolduras complexas, grinaldas e festões, e apresenta ao centro do timpano um emblema com monograma mariano, sobrepujado por dossel com borlasmetálicas. Uma cruz papal à frente de um feixe vegetalista faz o remate central,.

No alinhamento das pilastras, existem fogaréus, de dois tipos diferentes.Um outro modelo de fogaréu, com panejamentos no bojo, remata váriaspartes dos alçados laterais da igreja. Estes alçados laterais, simétricos entre si, apresentam profusa decoração na parte correspondente à galilé, mas são algo despojados na parte correspondente à nave da igreja, e à capela-mor.


Interior

Altar-mor

O altar é um foco de opulência barroca, com talha dourada e uma abundância de decoração que inclui colunas salomónicas, anjos, e motivos vegetalistas. No centro,a imagem do Crucifixo sugere a centralidade do sacrifício de Cristo na fé cristã.

Imagens e Estátuas: As diversas imagens e estátuas dentro da igreja representam santos e figuras bíblicas, cada uma escolhida para comunicardiferentes aspectos da fé e da moral cristã. A presença dessas figuras em pontos estratégicos da igreja guia os fiéis em uma jornada espiritual através dos ensinamentos e eventos da vida de Cristo.

Azulejos

Embora menos predominantes do que em outras igrejas barrocas portuguesas, os azulejos presentes exibem cenas bíblicas e são um elemento crucial do designinterior, adicionando cor e detalhe narrativo ao espaço sagrado.

Órgão de tubos

Situado estrategicamente, o órgão não apenas complementa a estética barroca com sua ornamentação complexa, mas também desempenha um papel crucialnas práticas litúrgicas e na criação de uma atmosfera contemplativa.

Efeitos urbanisticos da construção da Igreja dos Clérigos

O desfasamento entre a carga decorativa do alçado principal e grande parte dos alcados laterais, revela a preocupação que Nasoni teve com o efeito cenográfico da igreja dos Clérigos, ainda reforçado pela escadaria de aparato. Aigreja foi erigida num terreno relativamente exíguo, desnivelado, encaixado entre um edifício conventual e um improvisado cemitério encostado à muralha medieval da cidade. Para que a igreja dos Clérigos se destacasse, era necessário proceder a alguns arranjos urbanísticos, sincluindo a demolição departe da velha muralha, a regularizaçao (e eventual recuo) do muro do Adro dos Enforcados e a retirada de uma antiga cruz da Via Sacra.


A Torre

A Torre dos Clérigos, que se ergue-se a uma altura de 75 metros está escalonada em seis andares de dimensão diversa e termina num belo e audacioso coroamento. Na fachada frontal abre-se a porta de entrada, encimada por um nicho com a imagem de São Paulo. Possui dois campanários e um carrilhão com 49 sinos, um dos maiores do país (adquirido em 1995). A comunicação vertical realiza-se através de uma escada interior com um total de 225 degraus, que dá acesso a dois varandins, em níveis diferenciados, de onde se disfruta uma ampla vista panorâmica sobre a cidade do Porto e arredores. ATorre dos Clérigos é incontestavelmente o ex-líbris da cidade, e um excelente miradouro sobre esta.

Construída em granito, possui uma escada interna de 225 degraus, e eleva-sesobre uma base com cerca de 7,7mX8,1m e é escalonada em 6 andares deescalas diversas que terminam no audacioso coroamento.

Na fachada frontal abre-se a porta de entrada, encimada por um nicho com a imagem de São Paulo. Possui dois campanários e um carrilhão com 49 sinos. Asubida faz-se por uma escada interior com um total de 225 degraus, que dáacesso a dois varandins, em níveis diferenciados, de onde se disfruta uma extraordinária sobre a cidade que se estende até ao rio..

O alçado poente é o principal, ao passo que os alçados norte e sul, são praticamente simétricos entre si.

No último registo da torre, mais recuado, abrem-se quatro sineiras em cada face,com grande profusão de folhagens, molduras complexas, penachos e formas em concha que já lembram a efusividade do barroco final.

Este registo é encimado por uma cúpula de secção quadrada, com três secções progressivamente recuadas. Os quatro cantos rematam com fogaréus.

No topo, existe um globo de cobre e, por cima, a cruz de ferro.

Para além de servir como torre sineira, esta edificação teve outras utilizações ao longo dos anos: serviu para marcar o tempo (através de um disparo diário de pólvora seca que assinalava o meio dia); foi telégrafo comercial; foi utilizada como marco de orientação para as embarcações que rumavam no rio Douro;serviu para hastear uma bandeira quando chegava o “paquete” para que os comerciantes soubessem da sua aproximação; foi ponto estratégico para combates militares e políticos; e nos dias de hoje é uma das mais importantes atrações turísticas da cidade do Porto.