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Santuário de Santa Rita

Fonte: Porto Barroco

1. IDENTIFICAÇÃO[editar | editar código-fonte]

Imagem Noturna Fachada do Santuário de Santa Rita
Designação Igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho da Mão Poderosa e de Santa Rita / Santuário de Santa Rita
Localização Quinta da Formiga 4445-485 Ermesinde, Porto; 41°12'24"N 8°32'21"O
Cronologia Séculos XVIII/ XIX
Autor(es) Desconhecido
Classificação Em estudo

2. ESTADO DE ARTE[editar | editar código-fonte]

O Santuário de Santa Rita, também conhecido como Igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho da Mão Poderosa e de Santa Rita, situado em Ermesinde, cidade do distrito do Porto, em Portugal, é um dos pontos de peregrinação mais visitados da região norte e centro do país [1]. A Igreja seria dedicada à Beata Virgem Maria, mas com invocação à Nossa Senhora do Bom Despacho, também desde o início, à referência a Santa Rita de Cássia, que desde sempre foi venerada pela Congregação dos Eremitas Descalços de Santo [2]. Este local também desempenha um papel crucial na vida comunitária e cultural da localidade de Ermesinde.

A construção do convento foi sido iniciada a 1749, mais precisamente a 12 de outubro (Camilo, 1982). No entanto, tudo começou em 1745 quando Francisco Silva Guimarães, capitalista portuense, e a sua esposa fizeram uma doação da sua quinta de recreio que tinha como nome Quinta da Mão Poderosa à Congregação dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho. Essa doação vinha com a condição de aí fundarem uma igreja e um convento ou hospício, em que os mesmo e os seus descendentes seriam sepultados e onde rezariam duas missas diárias em seus nomes. Inicialmente foram construídos os Dormitórios do Convento, de seguida foi erguida a Igreja, sob as ordens do Frei António da Anunciação, doutor de Teologia e professor da Rainha D. Vitória. A escritura terá sido realizada a 6 de julho de 1745 tendo como outorgantes os doadores e Dr. Frei José do Nascimento, como procurador do Rev. P. e Mestre Dr. Frei António da Anunciação, Vigário Geral da Congregação (Beça, 1921; Colégio de Ermesinde, 2020).

Muito possivelmente já existia uma ermida no local por volta de 1745, mas nos fins do séc. XVIII e inícios do séc. XIX foi substituída pelo atual Santuário de Santa Rita. Em 1747, após Francisco Aranha Ferreira contestar uma doação, foi preciso solicitar autorização ao rei D. João V e em gratidão pelo apoio real, a congregação decidiu colocar o convento sob a proteção da rainha D. Maria Ana d'Áustria, por isso colocaram como homenagem, uma águia bicéfala e o brasão imperial da casa de Áustria na fachada da igreja e em muitos outros locais ao redor do santuário e inclusive na zona de refeitório do convento.

Devido ao apoio dado por D. João V nessa época, podemos observar a arquitetura barroca da época deste rei por toda a sua estrutura.

3. ENQUADRAMENTO[editar | editar código-fonte]

A escolha do local e o design do santuário foram influenciados tanto pela necessidade funcional quanto pela intenção de criar um espaço que refletisse a devoção e o respeito pela santa.

Durante o cerco do Porto entre 1832-33, este convento e igreja teve um papel muito importante para o concelho, pois serviu como hospital às tropas miguelistas, conhecido como hospital da formiga (Silva, 2011). Sabe-se que o próprio D Miguel esteve no local várias vezes em visita às suas tropas (Teixeira, 2017). No adro da igreja podemos encontrar uma inscrição que diz: “Aqui repouzam os restos mortais de humildes e desconhecidos soldados que sacrificados nas lutas liberaes entre D. Pedro e D. Miguel  pela ocasião do Cerco do Porto (1832-1834) foram sepultados em vala comum no adro d’esta egreja. R.I.P”, por isso sabe-se que em frente à entrada da igreja vários foram os soldados depositados em vala comum durante a guerra civil (Cabrita e Silva 1973).

Este espaço terá servido para diferentes funções ao longo dos séculos, inicialmente apenas como igreja e convento, mais tarde como hospital (Colégio de Ermesinde, 2020). A 30 de maio de 1834, com a extinção das ordens religiosas, foi encerrado o Real Convento de Nossa Senhora do Bom Despacho da Mão Poderosa, o que fez anos mais tarde, em 1842,  José Joaquim da Silva Pinto adquirir o convento em um leilão público e fundando assim o Colégio da Formiga no local. Em 1848, esse colégio foi fechado. Em 1877, o antigo convento passou a ter um secção masculina do Colégio de Paço de Sousa, mudando de nome para Colégio do Espírito Santo. Durante todos estes anos a igreja pertencia ao Estado, no entanto em 1877 foi integrada ao colégio quando reabriu. Em 1910, o Colégio do Espírito Santo foi encerrado e a 28 de dezembro de 1912, através de um despacho presidencial, foi autorizada a instalação de um ensino privado secundário no edifício, que passou a chamar-se Colégio de Ermesinde, onde até hoje é conhecido por esse nome e se encontra ainda aberto.

A 1948 a igreja e santuário passam a ser propriedade da diocese do Porto, onde até hoje lhe pertence. Desde a sua fundação, o santuário tem sido um centro de atividades religiosas e sociais (Silva, 2015). Este local atrai peregrinos durante todo o ano, especialmente em torno da festa de Santa Rita em 22 de maio, mas também é utilizado para diversos eventos comunitários, como concertos, palestras e encontros. O Santuário de Santa Rita faz parte da rota do peregrino, rota esta criada pelo município de Valongo, em que vários peregrinos todos os dias a realizam. Este local foi alvo de diferentes manutenções. A arte sacra e os elementos decorativos do santuário, como retábulos, pinturas e esculturas também são cuidadosamente preservados. Sabemos que na década de setenta de século XX, refez-se todo o piso da Igreja, mesa do altar e colocou-se novas portas e janelas. A estrutura do coro alto por não estar muito segura e, pensando já na possibilidade de um futuro órgão de tubos, refez-se em betão.

O Santuário de Santa Rita é um marco arquitetónico muito importante não só para a cidade como para o distrito. Onde até hoje pessoas de todos lugares vêm visitá-lo não só pela sua arquitetura barroca como pela sua história. Um marco muito importante para este edíficio aconteceu a 26 de novembro de 1956, quando D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto declara este espaço como Santuário Diocesano [3] . Embora o Santuário de Santa Rita seja um marco arquitetónico e histórico essencial para Ermesinde e para o distrito do Porto, curiosamente, até hoje não foi oficialmente classificado como monumento protegido.

4. DESCRIÇÃO[editar | editar código-fonte]

A arquitetura do Santuário de Santa Rita é de estilo barroco, da época de D. João V, com o interior com influências neoclássicas. O edifício total do convento é constituído por três vastos corpos, sendo que o quarto é a igreja.  Edifício de linhas sóbrias e austeras, sem muitas decorações, duas torres sineiras, simétricas, em tons de branco e bege, com materiais como cal e granito. A sua construção terá sido iniciada pelas fachadas poente e norte, uma vez que a igreja e a fachada nascente a sul são mais recentes (Beça, 1921).

Inicialmente, segundo o primeiro diretor do colégio, o convento não teria uma igreja, mas sim uma pequena capela na ponta sul a poente, mas foi rapidamente substituída pela igreja, construída nos séc. XVIII e XIX. Edifício amplo de planta longitudinal, com apenas uma nave [4]. A entrada da igreja é antecedida por uma grande escadaria que nos leva à fachada principal de linhas simples, o granito realça os três portais, molduras e acabamentos, criando uma contraposição com as paredes lisas e brancas. O portal principal contém um frontão triangular, interrompido e encimado por nicho com uma escultura  em pedra de Santo Agostinho. Mais acima podemos observar a Águia Bicéfala, símbolo da Casa Imperial da Áustria. (SOARES, 1988) No bico das cabeças da águia, vemos à esquerda, um tinteiro com caneta de pena, símbolos da Regra dos Agostinhos Descalços e à direita, um cinto de cabedal com fivela. A fachada é adornada por janelas, duas delas janelas retangulares emolduradas, nas extremidades podemos observar um óculo em cada lado.

Planta de nave única é complementada por capelas laterais, e uma capela-mor de forma retangular, mais baixa e estreita que a nave, teto em abóbada de berço .

Ao longo de todo o exterior do edifício podemos observar elementos arquitetónicos como cornijas em remate, molduras dos vãos, grades das janelas em ferro e cobertura exterior em telha.

Atualmente entrando na igreja podemos logo observar os belíssimos azulejos azuis e amarelos, que tendo em conta uma análise de antiga fotografias, podemos perceber que foram colocados no séc. XX ou XIX.

O interior com um amplo espaço, seis altares laterais, inicialmente com as capelas do lado esquerdo de Jesus o senhor da Cruz, S. José e Altar do Coração de Maria e do lado direito de S. Pedro de Alcântara, Coração de Jesus e Santa Rita de Cássia. (Beça, 1921). Atualmente podemos encontrar:

  • Altar do Senhor na Cruz;
  • Altar de S. José;
  • Altar de Nossa Senhora de Fátima;
  • Altar do Sagrado Coração de Jesus;
  • Altar de Santo António;
  • Altar de S. Nicolau de Tolentino;

Na parte superior da igreja, junto ao clerestório, vemos seis pinturas com a vida de Santo Agostinho, pintadas no séc XVIII interrompidas por amplas janelas, adornadas no topo com sanefas de talha dourada (Reis, 1904). Há entrada, na parte superior vemos um coro com caxetões, no entanto esta zona sofreu diversas alterações, tendo inicialmente colunas usadas como suporte, mais tarde sendo retiradas e substituindo por completo devido à insegurança da estrutura. Na cabeceira podemos observar um arco triunfal, com o símbolo da coroa real devido ao patrocínio do rei para a construção do convento e da igreja.

O altar principal foi construído mais tarde, no final do século XIX. Inicialmente, estava pintado de branco com detalhes finos que imitavam dourado, mas mais tarde recebeu uma camada de pintura castanha que fazia lembrar madeira [5]. No entanto na década de setenta do século XX acabou por ser substituída por um tom verde que agora podemos observar quando visitamos o santuário. Neste altar-mor existia apenas uma ára, onde se elevava uma estátua de madeira, de um tamanho um pouco maior que o normal, da nossa senhora do Bom despacho.

Atualmente no retábulo da capela-mor vemos as figuras de Santo Agostinho à esquerda, representado com os símbolos episcopais e um coração ardente na mão, e à direita temos Santa Mónica, sua mãe. Ao centro, destaca-se a imagem de Nossa Senhora do Bom Despacho.

Na capela-mor, inicialmente existiam dois enormes quadros com seis metros de altura e três de largura, de autor desconhecido, onde um deles nos apresentava a família sagrada e outras com as figuras de S. José Joaquim e do Profeta Zacarias.

Ao longo do edifício podemos observar vários pormenores, como as sanefas em madeira a imitar mármore e em talha, os dois púlpitos com talha dourada e as pias à entrada do espaço.

O objeto que se destaca neste edifício são os azulejos que podemos ver ao redor da igreja, do século XX ou XXI. A azulejaria tem um papel muito importante para o nosso distrito e para o nosso país, por isso, ter uma igreja em que os azulejos se destacam e servem como grande parte do revestimento do interior do edifício, destaca-se bastante no local.

Atualmente a parte mais importante  para todos os peregrinos é a estatuária do séc. XVIII, de Santa Rita de Cássia, com o estigma na fronte, palma com três coroas e crucifixo na mão esquerda. De modo a destacar esta estatuária, adaptou-se um espaço no séc. XX, em que foi necessário reforçar toda a estrutura do telhado, que estava em risco de desabar devido ao estado de deterioração das vigas principais que o sustentam.

5. IMAGENS E ICONOGRAFIA DO OBJETO[editar | editar código-fonte]


6. FONTES E BIBLIOGRAFIA[editar | editar código-fonte]

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=29974 https://www.santuariodesantarita.pt/santuario/historia/ https://www.cm-valongo.pt/descobrir/marcas-de-valongo/santuario https://www.jf-ermesinde.pt/pages/600?poi_id=19 Beça, Umberto, (1921) Ermezinde Monografia, Companhia Portugueza Editora; Cabrita, António; Silva; Maria, (1973) Monografia do Concelho de Valongo; Câmara Municipal de Valongo, Concelho de Valongo; Câmara Municipal de Valongo, (2000/2001) Anuário Municipal 2000/2001; Camilo, Joaquim, (1982) História de Valongo; Cleto, Joel, (2024) O Vale Sagrado - Património Religioso no Concelho de Valongo, 1º edição; Colégio de Ermesinde, (2020) Plano Educativo 2020-2024; Reis, Joaquim, (1904) A Villa de Vallongo; Silva, Avelino, (2015) Santuário de Santa Rita: Igreja e Convento dos Agostinhos : uma história de gerações, Ermesinde : Colégio de Ermesinde; Silva, Susana, (2011) Conceção de itinerário de turismo religioso para a cidade de Valongo, Universidade de Aveiro; Soares Jacinto, (1988) Boletim Municipal, Ermesinde Um Pouco da sua Remota História, julho- setembro; Teixeira, Joana, (2017) O Turismo Geocultural como estratégia para a valorização territorial do Concelho de Valongo, Faculdade de Letras da Universidade do Porto;