Mosaico da ala este-nordeste do peristilo (Casa dos Repuxos, Conímbriga)

Identificação[editar | editar código-fonte]
| Localização actual | Casa dos Repuxos, Museu Nacional de Conímbriga (até 2023, designado Museu Monográfico de Conímbriga). Freguesias de Condeixa-a-Velha e Condeixa-a-Nova, distrito de Coimbra |
| Localização admin. romana | Ciuitas de Conimbriga, Conuentus Scalabitanus, Província da Lusitânia |
| Cronologia | terceiro quartel do séc. III |
Estado da Arte[editar | editar código-fonte]

A ocupação romana na Península Ibérica é uma tema com um importante lugar na literatura histórica portuguesa, por ser um dos períodos da Antiguidade mais trabalhados neste território.
Em Portugal, em 1907, houve dois nomes que se destacaram no início do estudo de vestígios romanos em Conimbriga. Referimo-nos a António Augusto Gonçalves e Vergílio Correia, tendo sido os responsáveis pelas duas primeiras publicações sobre o assunto em questão, no Diário de Notícias, nesse mesmo ano. Apenas em 1939 voltamos a ter publicações, uma vez mais de Vergílio Correia, mas desta feita no Diário de Coimbra, já preconizando a ideia da fundação de um museu e estudo mais aprofundado desta ciuitas (Bairrão Oleiro, 1992:9-11).
Ao longo do século XX multiplicaram-se as obras acerca do mundo romano. No caso de Portugal, salientamos Jorge de Alarcão ao publicar em 1988 O Domínio Romano em Portugal. Esta obra apresenta uma síntese da romanização no território atual português. Jorge de Alarcão colabora ainda com Robert Etiénne na obra Fouilles de Conimbriga, onde se registam as escavações por si lideradas e publicadas em 1977, trabalho que consagra o maior levantamento arqueológico feito em Conimbriga até à data.
Fora de Portugal a importância de Conímbriga é também notória. Em Espanha, Julián Francisco Martín, com Conquista y Romanización de Lusitania, em 1989, apresenta uma obra de análise e comparação histórica dentro da península. Leonard A. Curchin, autor canadiano, publicou em 1990 The Local Magistrates of Roman Spain, que nos permite conhecer mais do funcionamento do mundo romano na Iberia.
Estes trabalhos são seguidos por António de Oliveira Marques que, em 1990, sintetiza o domínio romano em Portugal no primeiro e terceiro volumes da Nova História de Portugal, obras dirigidas pelo historiador Joel Serrão. Neste último volume nota-se um grande foco no domínio romano do nosso território (pp343 – 489).
José Maria Blázquez com a sua obra Arte y Religión en el Mediterráneo Antiguo (2008), acrescenta às suas variadas obras acerca do império romano na Hispania, uma visão que se estende ao território da Lusitânia.
Devem ser referidos dois congressos: em 1990, o II Congresso Peninsular de História Antiga, realizado em Coimbra, promovido pelo Instituto de Estudos Clássicos; e o segundo em 2005, o X Colóquio Internacional da AIEMA (Association Internacionale pour l’Étude de la Mosaique Antique) publicado com o título Mosaicos de Conimbriga. Este último colóquio trouxe a Portugal um vasto grupo de grandes especialistas mundiais sobre o mosaico romano e elevou a nível internacional o papel de Conimbriga.
Existem ainda duas obras relevantes para o estudo do período romano na Lusitânia. Trata-se de Antiguidade Tardia e Paleocristianismo em Portugal (1996), de Justino Maciel e A Arquitectura doméstica de Conimbriga e as estruturas sociais e económicas da cidade romana (2013), de Virgílio Hipólito Correia, que descreve as várias casas de Conimbriga e suas peculiaridades.
Finalmente, sendo a obra mais pormenorizada, uma vez que incide especificamente no estudo dos mosaicos romanos e que permitiu o seu aprofundamento, de João Manuel Bairrão Oleiro, O Corpus Romano, Mosaicos de Conímbriga: Casas dos repuxos, foi um estudo singular, pioneiro e de fôlego em Portugal, analisando cada mosaico romano existente na casa dos Repuxos na cidade romana de Conimbriga.
Enquadramento/Contextualização Histórica[editar | editar código-fonte]
O Mosaico 1.10, cujo estudo se apresenta, localiza-se na Ala Leste-Nordeste (ENE) do peristilo central da Casa dos Repuxos (figura 4). Durante o período da Antiguidade Clássica e Tardia, esta casa situava-se na Ciuitas de Conimbriga (figura 3), pertencente à província romana de Lusitânia (figura 2), cuja capital era Emérita Augusta, (atual Mérida, Espanha).



Este local era já habitado na era pré-romana, pela tribo dos Cónios. O oppidum de Conimbriga (povoamento pré-romano em local elevado) teve a sua romanização iniciada no século I, sendo inserido na tribo Quirina, a tribo imperial à época. Conimbriga teve, assim, ocupação romana a partir do século I e até ao século VIII, (momento de despovoamento devido a invasões de Suevos e Visigodos) com um crescimento relacionado com a capacidade de produção de vidro, cerâmica e moeda (Libório, Fábio, 2000).
Já a Casa dos Repuxos, datada do século I, deixa de ser ocupada a partir do século IV devido à construção da muralha da Antiguidade Tardia que, para proteção da cidade, a encurtou, deixando esta casa fora do perímetro protegido (Bairrão Oleiro, 1992: 26).
Os primeiros indícios da casa dos Repuxos foram descobertos em 1907, quase uma década após as primeiras escavações e descobertas, sendo que apenas 30 anos mais tarde, durante a construção de uma estrada de acesso a Conimbriga, novas escavações revelaram a dimensão desta domus (Correia, 2013:19). O levantamento do mosaico em estudo, per se, foi apenas feito durante a década de 1950, altura em que o processo de escavações foi consolidado por intervenção da DGEMN (Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais). A configuração conhecida desta casa data de inícios do século II devido a uma remodelação feita que culminou num aumento espacial, relevando a classe social dos seus moradores (Correia, 2013:149).
No espaço ao qual dedicamos este estudo, o peristilo (zona central sem cobertura delimitada por colunas que organiza o espaço doméstico) ocupa um lugar central em termos arquitetónicos e acolhe uma panóplia de mosaico romano em bom estado de conservação, permitindo um estudo mais aprofundado do opus tessellatum em território atualmente português. Este Opus consiste num expolitio (acabamento), neste caso de pavimentação através da organização de tesselas, (Vitrúvio, sec. I a.C.: VII) - pequenas pedras cúbicas assentes sobre uma argamassa - modelo herdado da civilização grega (Plínio, o Velho, séc.I: XXXVI, 184).
O mosaico 1.10, assim numerado por Bairrão Oleiro, (figura 12) localiza-se na Ala Leste-Nordeste do peristilo e foi sujeito a alguns restauros no seu limite sudoeste, possivelmente devido ao traçado de canalização que assegurava o escoamento das águas (Bairrão Oleiro, 1992:21). Este ainda mantém os “remendos” originais e esta grande alteração na qual foram utilizadas partes de outros mosaicos, poderá constituir a razão do padrão aqui mostrado ser único em toda a Casa (Bairrão Oleiro, 1992:58).

Descrição[editar | editar código-fonte]
Decomposição Visual/Gráfica[editar | editar código-fonte]
- Motivos decorativos: Geométricos. (Figuras 7 e 8)
- Composição: Ortogonal. (Figura 7)
- Identificação de cenas iconográficas: Não existem cenas iconográficas.


Descrição verbal[editar | editar código-fonte]
O mosaico da Ala Leste-Nordeste do peristilo da Casa dos Repuxos (figura 5) é um mosaico geométrico de formato retangular irregular. Na parte oeste da composição, o limite é acentuadamente oblíquo com restauro realizado na Antiguidade (figura 6), no século II, altura em que houve uma reconfiguração da casa dos Repuxos.


Neste mosaico encontra-se uma composição ortogonal, visível pela linearidade horizontal de quadrados e retângulos sobrepostos, cortados por duas linhas verticais de quadrados tangentes justapostos (figura 7).
Estando orientado a partir de Oeste, é possível observar que horizontalmente, os retângulos estão separados por filetes duplos pretos; já os quadrados são tangentes, sendo notória a divisão pela alternância de cor (figura 9). Verifica-se uma sequência lateral de retângulos com losangos inscritos que são cortados por quadrados com quadrifólios de losangos (figura 10) entre os quarto e quinto, sexto e sétimo, oitavo e nono retângulos, sendo que numa das linhas horizontais o quadrado central é substituído por dois losangos.

Verticalmente, os quadrados e retângulos são sempre tangentes. Numa primeira linha, a Este, vê-se losangos sobre o vértice correspondente ao ângulo obtuso e triângulos isósceles que delimitam a composição. Existem em seguida linhas de retângulos com quadrado como anteriormente descrito, alternadas por quatro linhas de losangos sobre o vértice correspondente ao ângulo obtuso (“deitados”) inscritos em retângulos pretos. Em cada canto, observam-se dois losangos brancos inscritos num quadrado preto (figura 10).

A composição utiliza apenas motivos geométricos, nomeadamente losangos e triângulos. Este mosaico não contém nenhuma representação iconográfica. Destacam-se motivos como quadrifólios de losangos (figura 10) inscritos em quadrados, organizados em duas linhas verticais, e dois motivos do tipo “ampulheta” ou “clepsidra” (figura 11), criados a partir de quatro triângulos isósceles com o vértice superior orientado para o centro do quadrado.

Existem quatro linhas horizontais contínuas de losangos sobre o vértice correspondente ao ângulo obtuso, uma das quais incompleta. Os restantes retângulos contém losangos inscritos. São utilizadas tesselas amarelas, vermelhas, brancas e negras, sendo as figuras geométricas demarcadas a negro e os motivos de enchimento com as restantes cores, criando assim uma composição com cores contrastantes. As diferentes cores de tesselas permitem a criação de uma sequência de losangos incluídos nos losangos inscritos em quadrados e retângulos, e padrões de alternância.
O painel é completado por uma moldura de linha dupla (a sul e oeste), tripla (a este) e quadrupla (a norte) externa preta.
Finalmente, o mosaico é delimitado a norte e a sul por uma moldura exterior não pertencente especificamente ao painel, mas que é contínua pelo peristilo. Esta é composta por filetes triplos amarelos, sendo emoldurada pela principal moldura de suásticas em meandros que envolve todo o peristilo.
Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]
Alarcão, J. D. (1988). O domínio romano em Portugal.
Correia, V. N. H. (2010). A Arquitectura doméstica de Conimbriga e as estruturas económicas e sociais da cidade romana. Universidade de Coimbra (Portugal).
Encarnação, J. D. (1993). A investigação sobre o Período Romano em Portugal. EVPHROSYNE, (XXI [nova série]), 461-465.
Libório, Fábio (2000). Conimbriga: De oppidum à municipium-século- I d.C. (Área de História Antiga) Monografia.
Oleiro, J. M. B. ( 1992). Corpus dos mosaicos romanos de Portugal – Conventus Scallabitanus, I Conimbriga, Casa dos Repuxos.
Oliveira, Madeira e Linhares (2005). Mosaicos de Conimbriga, X Colóquio Internacional da AIEMA. Instituto Português de Museus, Museu Monográfico de Conimbriga.
Viegas, C., Abraços, F., & Macedo, M. (1993). Dicionário de motivos geométricos no mosaico romano. Liga dos Amigos de Conímbriga.
- https://www.conimbriga.pt/guias2/21/pt - Visitado a 02/12/2024