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Igreja e Mosteiro de São Bento da Vitória do Porto

Fonte: Porto Renascentista
Fotografia da fachada da igreja do mosteiro de São Bento da Vitória do Porto. Esta imagem foi capturada através da Rua de São Bento da Vitória.

Identificação[editar | editar código-fonte]

Designação Mosteiro de São Bento da Vitória
Localização Distrito do Porto, União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, Rua de São Bento da Vitória 45, 4050-542, junto ao edifício do atual Centro Português de Fotografia
Cronologia Séculos XVII-XVIII
Autor(es) Diogo Marques Lucas

O Mosteiro de São Bento da Vitória é uma arquitetura de tipologia religiosa. Pertence à Ordem Beneditina, instituída por S. Bento (480-547) em 529. Foi fundado em 1598 após a ordenação do capítulo Geral, em 1546, celebrada em Tibães, data onde foi tomada a decisão da fundação deste mosteiro. Após longas e complicadas negociações, os monges da Antiga Congregação Beneditina Portuguesa decidiram erguer este edifício como símbolo de presença monástica e ponto de apoio para os monges que viajavam de norte a sul ou vice-versa. Situava-se dentro das muralhas medievais do velho burgo junto à porta do Olival em terrenos cedidos pela Câmara que anteriormente abrigavam parte da judiaria nova. A sua construção teve como base a traça inicial de Diogo Marques Lucas, arquiteto do rei trazido de Lisboa pelo D. Abade Geral. No entanto, a sua construção seria lenta e não contínua, tendo-se prolongado quase ao longo de dois séculos, não só devido a certos entraves, principalmente no que se refere à aquisição dos terrenos, mas também porque os beneditinos nunca deixaram de transformar, ampliar e embelezar o seu mosteiro.[1] As obras iniciaram-se pela igreja em 1604 e a primeira pedra do mosteiro foi benzida pelo bispo D. Jerónimo de Meneses e colocada pelo próprio Abade Geral Frei Baltasar de Braga, ainda no segundo triénio, de 1596 a 1599.[2] Há quem considere que o mosteiro tenha sido concluído em 1646 e a igreja terminada em 1690. Contudo, a enorme extensão do período da execução das obras não permite identificar datas exatas.[3]

Estado da Arte[editar | editar código-fonte]

Este objeto arquitetónico é referido na obra O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos (MORENO, 1997), bastante completa e de carácter geral, que apresenta o contexto histórico e a descrição do mosteiro e igreja. Além disso, as obras S. Bento da Vitória, do Porto, à luz dos «Estados» de Tibães (SMITH, 1950?) e Inventário Artístico de Portugal Cidade do Porto (QUARESMA, 1995) complementam o estudo do património integrado e oferecem descrições da igreja.

As dissertações de mestrado Os Conventos do Porto. Descontinuidades, Transformação e Reutilização (PEREIRA, 2007) e Do Sagrado ao Profano a reutilização adaptativa nos mosteiros portugueses – Mosteiro de Santa Maria do Bouro, Mosteiro de São Bento da Vitória e Mosteiro de Santo Tirso (SOARES, 2021), foram proveitosas no que concerne ao período após a extinção das ordens religiosas, à requalificação e às adaptações que o espaço sofreu. A tese de doutoramento Diálogos imagéticos. Iconografia beneditina em Portugal e a sua conexão com as fontes impressas da Idade Moderna (PAULA, 2023) facilitou o estudo da leitura iconográfica no património integrado, principalmente do cadeiral do coro alto. Relativamente ao cadeiral, a obra Cadeirais de Portugal (SMITH, 1968) e o artigo Hagiografia e iconografia beneditinas: Os “Diálogos” do papa S. Gregório Magno (DIAS, 2020) foram essenciais, tanto para a descrição formal como para a leitura iconográfica. Ainda no património integrado, o livro Obras de talha dourada, ensamblagem, e pintura na cidade e diocese do Porto (BRANDÃO, 1984) garantiu informações sobre autoria, datações e contratos.

Quanto ao estudo do claustro nobre do mosteiro, a tese de mestrado Claustros Serlianos em Portugal 1558 –163 (SILVA, 2012) foi essencial para a descrição e compreensão do mesmo. Por fim, para conhecer o arquiteto responsável da traça inicial deste Mosteiro, a leitura da tese de doutoramento «O Eupalinos Moderno» Teoria e Prática da Arquitectura Religiosa em Portugal 1550-1640 (RUÃO, 2006) e a consulta do Diccionario historico e documental dos architectos, engenheiros e constructores portuguezes ou a serviço de Portugal (VITERBO, 1899) revelaram-se fulcrais, pois apresentam alguns dados biográficos do responsável pelo projeto do edifício.

Enquadramento[editar | editar código-fonte]

Vista da fachada da Igreja de São Bento da Vitória, a partir do Terreiro da Sé do Porto. É possível observar a sua posição paralela ao atual Centro Português de Fotografia (CPF)

O Mosteiro de São Bento da Vitória situa-se no morro da freguesia da Vitória, junto à porta do Olival, dentro de muralhas, sem grande espaço para horta e cerca. Ocupa todo o interior do quarteirão entre a rua das Taipas, travessa das Taipas, rua de S. Bento da Vitória e travessa de S. Bento, paralelo a norte com o edifício da antiga cadeia da Relação, atual Centro Português de Fotografia. Tem um enquadramento urbano, erguendo-se em pleno centro histórico.[4] O facto de estar inserido num quarteirão sem cerca preservou o seu perímetro e a sua configuração exterior até hoje.[5] A fachada monumental da sua igreja está situada no ponto mais alto do conjunto, abrindo-se para uma rua estreita que dificulta uma leitura frontal, exceto através da observação em pontos altos da cidade, como por exemplo, no Terreiro da Sé, já que a fachada se volta na sua direção.

O mosteiro tem uma área total de implantação de cerca de 4.000 m2, desenvolvendo-se ao redor de dois claustros. O próprio edifício faz a transição para o espaço exterior e a entrada principal fazia-se pela portaria que se encontrava ao lado da igreja na galilé na rua de S. Bento da Vitória. O acesso ao conjunto monástico faz-se hoje tanto através da rua das Taipas, onde atualmente se situa o Arquivo Distrital do Porto, como pela rua de S. Bento da Vitória, onde se localiza a fachada da igreja e faz-se o acesso ao mosteiro, agora pertencente ao Teatro Nacional de São João.[6] Nesta mesma rua, a sul, localiza-se a Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Vitória, na confluência com a Rua da Bataria da Vitória. A sul, também se encontra o Miradouro da Vitória, onde os visitantes podem desfrutar de vistas sobre o casario da Vitória, o Rio Douro, a Sé Catedral, o Paço Episcopal, a Ponte Luís I e a zona beira-rio de Gaia.[7]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Objeto arquitetônico[editar | editar código-fonte]

A igreja de São Bento da Vitória é orientada a poente, não seguindo a orientação canónica das igrejas medievais. Isto acontece devido às condicionantes do terreno e à muralha medieval a este.[8] A igreja é de planta cruciforme, longitudinal, de nave única, precedida por uma galilé e transepto saliente. A fachada, toda de cantaria de granito, divide-se em três registos delimitados por cornijas salientes e vários corpos ritmados por pilastras. No primeiro registo, abrem-se cinco vãos para a rua de arco de volta perfeita, todos com gradeamentos de ferro, sendo o central mais alto do que os restantes que ostenta o brasão de armas da Ordem de São Bento e os outros quatro emblemas religiosos. No segundo registo, duas janelas com frontão curvo, flanqueando três nichos, os laterais com frontões triangulares e o central com frontão circular, com sobrecéu em forma de concha e imagens de barro pintado de Santa Escolástica, São Bento e Santa Gertrudes Magna. O terceiro registo, mais estreito e com remate lateral curvo é rasgado por uma janela termal interrompida por pilastras, que permite uma ampla iluminação no coro-alto da igreja. A rematar a fachada, sobre uma cornija, um último registo com frontão circular e um nicho que alberga a imagem de Nossa Senhora da Vitória, em homenagem à freguesia na qual se ergueu esta igreja e mosteiro. As duas torres quadrangulares, em cantaria com duplas pilastras nos cunhais e cobertas com cúpula bolbosas, foram integradas no corpo da igreja por cima das primeiras capelas laterais, depois da galilé.[9]

A cobertura do corpo da igreja é em abóbada de berço com caixotões de granito bem lavrado, que se estende a todo o comprimento sendo intercetada pela abóbada do transepto e cruzeiro.[10] A nave tem seis capelas colaterais intercomunicantes entre si, de arco pleno e cobertura em abóbada de berço com caixotões e com retábulos de talha. Sobre quatro dessas capelas abrem-se janelas gémeas, quatro de cada lado, com varandas de ferro fundido douradas e sanefas de talha. Sobre o arco das restantes, junto ao coro-alto, estão os órgãos de tubos em talha, suportados por atlantes.[11] Apenas o órgão do lado da Epístola é verdadeiro, concebido e construído pelo irmão donato beneditino Fr. Manuel de S. Bento.[12] Junto ao transepto, nas extremidades da nave, estão os púlpitos.[13] Estes erguem-se sobre peanhas ou mísulas de pedra, com grades torneadas de pau preto e são rematados por dois dóceis com imagens de Gabriel Rodrigues executadas em 1722.[14]

O transepto também é coberto por abóbada de canhão com caixotões e o cruzeiro reveste-se por uma abóbada nervurada. Os braços do transepto têm no topo retábulos em talha, sendo ladeados por portas e janelas, coroadas por sanefas de talha e rematados por uma janela termal.[15] A flanquear o arco triunfal, capelas com retábulos em talha encimados por janelas retangulares com sanefas. O arco-triunfal é coroado por uma grandiosa sanefa, em cujo no centro se destaca o escudo da Congregação Beneditina Portuguesa. A capela-mor, retangular e profunda, seguindo a cobertura da nave, é rasgada em cada lado por três janelões com sanefas em talha que encimam o cadeiral e abriga um amplo retábulo de talha em forma de arco de triunfo, enquadrado por duas arquivoltas concêntricas e colunas torsas ou salomónicas que se abre para dar lugar ao trono do Santíssimo Sacramento, escalonado.[16]

A sul da igreja de São Bento da Vitória, levanta-se o vasto bloco conventual, ocupando um espaço retangular entre as ruas paralelas de S. Bento da Vitória a este, das Taipas a oeste e a estreita Travessa das Taipas a sul.[17] A norte, levanta-se a monumental igreja.

O mosteiro de São Bento da Vitória é um conjunto arquitetônico monástico, onde cada parte tem a sua função específica. Reparte-se por dois grupos de corpos ao redor de dois espaços abertos, chamados claustros, separados por um corpo intermédio. A sua construção passou por três fases até chegar ao acabamento total, sendo edificado pouco a pouco, ao longo de mais de dois séculos: a primeira fase corresponde à edificação da ala nascente, parte da ala sul e claustro, ainda que tenha sido concluído mais tarde (1596-1630); a segunda, por sua vez, à igreja nova e anexos (1680-1708); e a terceira, por fim, aos dormitórios novos, ala poente e claustro dos carros (1741-1780).[18]

O edifício conventual, de alvenaria rebocada, apresenta pilastras nos cunhais, coroadas por pináculos. Composto por quatro pisos, a sua fachada é regularmente marcada por janelas, tendo os dois pisos superiores bandeiras.[19]

O claustro nobre, do silêncio ou do cemitério, de planta quadrangular, todo em cantaria, “articula em cada ala três arcos de volta perfeita delimitados por duplas pilastras que incorporam no espaço interpilastral dois pequenos vãos, um portal retangular e um falso janelão superior.” (SILVA, 2012: 158). As almofadas do intradorso dos arcos são decoradas com motivos de “ponta-de-diamante” e ovais. Um entablamento liso separa o primeiro piso do segundo, onde se abrem janelas retangulares de varandins com balaustrada de cantaria e rematadas por frontões triangulares e curvo, ao centro. As abóbadas dos corredores do claustro são de arestas com chave central de florão.[20]

O espaço aberto do claustro era ornamentado por um jardim de canteiros, tendo ao centro um imponente chafariz datado de 1777-80 com o brutesco de Hércules e da hidra (1783), obra que há muito se perdeu.[21] Em 2001, o claustro foi coberto por uma concha acústica, uma estrutura em aço assente em quatro pilares e o foi-lhe colocado um soalho de madeira. O espaço é utilizado atualmente para a realização de espetáculos teatrais, concertos e eventos especiais, além de receber iniciativas externas de natureza diversa. [22] Nuno da Silva, na sua Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura, classifica este claustro como serliano, um grupo de claustros clássicos portugueses. O autor indica que estes modelos estão visivelmente enraizados à arquitetura palladiana e veneziana e são caracterizados pelos vãos arqueados que se intercalam com os vãos retangulares. Isto resulta numa nova forma de vão e de sustento da abóbada. Esta tipologia foi primeiramente adotada no claustro do Convento de Cristo em Tomar e pode ser encontrada em outras arquiteturas posteriores. Como ainda data este claustro de 1608 e indica que é dado como concluído no início da segunda metade do século XVII, afirmando Frei Leão de S. Tomás em 1651 “a claustra no que toca a obra de pedra está acabada, mas do mais não está ainda perfeita.”

O segundo claustro, denomina-se de “claustro dos carros”, nome atribuído devido à sua função de receber os carros responsáveis pelo abastecimento do conjunto monástico. É um pátio com três lanços de arcos sobre pilastras maciças. Foi construído na altura das obras de ampliação do mosteiro, no tempo do abade Frei Manuel de S. Tomás (1740-1743). Os cronistas da época dedicaram-se a descrever detalhadamente esta construção, que foi ampliada com os dormitórios localizados na ala oeste, ao longo da rua das Taipas, durante as obras realizadas entre 1777 e 1780.[23] Trata-se de uma obra simples, típica de um claustro destinado aos serviços monásticos e não apresenta nenhum elemento ornamental que a enriqueça.[24] Este claustro, composto por três pisos separados por frisos, apresenta apenas duas alas formadas por arcos plenos sustentados por pilares, enquanto os pisos superiores possuem janelas do tipo guilhotina.[25] A fachada da cela dos beneditinos apresenta quatro vãos gradeados, não integrais, e ornamentados ao centro com o brasão de armas da Congregação Beneditina, à semelhança dos vãos da galilé.

O Mosteiro foi a parte mais afetada de São Bento da Vitória, tendo sofrido pela passagem dos séculos. Perderam-se todos os azulejos descritos nos registos dos «Estados», bem como toda a talha e pinturas. Sob o uso militar quase constante a partir das invasões francesas de 1808, as suas amplas salas, bibliotecas e arquivo foram gradualmente devastados. Além disso, uma grande parte do edifício permaneceu virtualmente abandonada, chegando a ameaçar ruína.[26] Este mosteiro, ao longo da sua história, serviu como aquartelamento às tropas napoleónicas, hospital militar e, posteriormente, a outras funções militares após a extinção das ordens religiosas em 1834.[27]

A partir de 1984, o edifício passou por um processo de restauração orientado pelo Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR). Estas intervenções possibilitaram a adaptação de diferentes espaços a novos usos. O claustro nobre e as suas adjacências passaram a abrigar a sede da Orquestra Clássica do Porto. Na igreja, ala norte e no terceiro andar da ala poente, foi instalada a Cela dos Padres Beneditinos. Já o espaço que inclui o claustro dos carros e a ala transversal, passou a acolher o Arquivo Distrital do Porto. O espaço do mosteiro foi, assim, dividido e ocupado por estas três entidades, sofrendo as devidas adaptações necessárias para atender às suas necessidades específicas.

Contudo, estas intervenções foram concretizadas com cuidado, preservando a traça original e diversos elementos de importância arquitetônica.[28] Em 2007, o Estado atribui ao Teatro Nacional de São João (TNSJ) uma parte significativa do mosteiro, abrangendo a ala nascente, parte da ala sul e o Claustro Nobre.[29] Outros espaços do edifício foram também adaptados para atender às novas funções do TNSJ. A antiga biblioteca, localizada no piso superior, foi transformada numa sala de apresentações teatrais. Por sua vez, as galerias que rodeiam o claustro, também no piso superior, foram destinadas à exposição de objetos cenográficos e peças de figurino utilizados nos espetáculos.[30]

Património integrado[editar | editar código-fonte]

A seguinte tabela apresenta algumas obras que se inserem no património integrado da igreja de São Bento da Vitória e foi elaborada tendo como base os livros Obras de talha dourada, ensamblagem, e pintura na cidade e diocese do Porto (Brandão 1984), O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos (Moreno 1997) e S. Bento da Vitória, do Porto, à luz dos «Estados» de Tibães (Smith 1950?).

Identificação Datação Autoria
Coro alto e outras obras de ensamblagem e de talha (estante, púlpitos, grades e portas) Contrato de setembro de 1704. Não executado. O prazo seria até dia 29 de setembro de 1705 António de Azevedo Fernandes, mestre ensamblador e Domingos Nunes, entalhador
Cadeirado do coro, portas do coro e grades das seis capelas e cruzeiro Contrato de maio de 1718. As cadeiras e as portas do coro deveriam estar prontas até ao dia 15 de outubro de 1718 e as grades até ao fim de março de 1719 Manuel Vieira e António Cardoso, mestres ensambladores
Varanda e talha dos órgãos (verdadeiro e mudo) Triénio de 1716-19 Gabriel Rodrigues, entalhador bracarense
Retábulo da capela-mor Triénio de 1716-19 e dourado entre 1722-25 Talvez por Gabriel Rodrigues, entalhador de Landim, Famalicão
Cadeiral do coro alto Triénio de 1716-1719 Marceliano de Araújo
Órgão de tubos Antes de 1719. Em finais de abril desse ano já estava em fase adiantada de construção Fr. Manuel de S. Bento, irmão donato beneditino
Estátuas dos púlpitos 1722 Gabriel Rodrigues
Dois frontais de talha para os altares colaterais de Santa Escolástica e Santa Gertrudes e douramento do retábulo-mor Triénio de 1722-25 Os frontais de talha dourada para os altares colaterais foram oferecidos por um devoto.
Retábulos dos topos do transepto Triénio de 1755-58 José da Fonseca Lima e José Martins Tinoco

Objeto ou conjunto em destaque - O cadeiral do coro alto[editar | editar código-fonte]

O coro alto, sobre a galilé, era destinado à recitação das horas canónicas da liturgia monástica. O cadeiral, foi encomendado em 1704 e executado por Marceliano de Araújo entre 1716 e 1719, em madeira de jacarandá proveniente de 30 toros trazidos diretamente do Brasil em 1716. Ao centro destaca-se a cadeira abacial, rodeada por 50 estalas dispostas em forma de U, todas com as “misericórdias” cuidadosamente trabalhadas. O lambrim exibe 32 painéis em talha policromada e dourada em 1759, ilustrando cenas da vida de São Bento conforme os “Diálogos” de São Gregório Magno.[31] Nas superfícies irregulares das dramáticas caras destas figuras, refletem-se os mesmos maneirismos das imagens dos dosséis dos púlpitos, entalhadas por Gabriel Rodrigues em 1722. Vê-se, portanto, que o espaldar do cadeiral de São Bento da Vitória resulta da colaboração entre Gabriel Rodrigues, de Landim, e Marceliano de Araújo, de Braga, seguindo a traça de um autor ainda desconhecido.

O cadeiral apresenta uma série de volutas adornadas com folhagens, de onde surgem golfinhos na fila inferior e meios-corpos femininos na superior, introduzindo um motivo inovador nos cadeirais do século XVIII. Embora influenciado pelas cadeiras de Tibães, distingue-se pelos seus perfis laterais e pelas garras de leão que alternam com as volutas nos pés das cadeiras, características de uma nova época.[32]

O destaque deste cadeiral, considerado o mais notável do reino, é o imponente espaldar entalhado, dourado e estufado em 1759 por Manuel Homem Soares. Este, como foi dito anteriormente, é composto por 32 painéis em relevo, principalmente dedicados à vida de São Bento, com dois da história de Santa Escolástica, dispostos em duas filas como quadros em molduras ricamente talhadas. Esta organização remete ao sistema utilizado nas ilhargas da capela de Santa Gertrudes da igreja beneditina de São Martinho de Tibães, possivelmente do mesmo escultor, entre o triénio de 1710 e 1713.  Em ambos os monumentos, as figuras dos painéis destacam-se pela sua vivacidade, enriquecidas por uma abundância de detalhes de mobiliário e arquitetura.[33] Os painéis estão organizados em duas sequências horizontais: a inferior, com molduras retangulares e, a superior, predominantemente octogonais, exceto por dois painéis nas paredes do lado do Evangelho e da Epístola. A narrativa inicia-se na parte inferior do lado da Epístola, prosseguindo até ao lado do Evangelho, e recomeça na parte superior com os painéis octogonais, estendendo-se pelas três paredes do coro alto.[34]

Os relevos de São Bento da Vitória seguem uma narrativa linear e lógica, semelhante ao II livro dos Diálogos. A primeira cena, amplamente retratada em Portugal, representa o nascimento de São Bento e de Santa Escolástica. A comparação destes relevos com os livros de emblemas usados na iconografia beneditina em Portugal, revela claras semelhanças entre a obra e a matriz, tanto nos espaços como nas personagens, e pode indicar que Marcelino de Araújo teve contacto com essas obras ou outras baseadas nelas.[35]

Além dos 32 painéis principais, existem mais 4 dourados, mas não policromados, que representam santos beneditinos em trajes pontificais, o que totaliza o número de 36 painéis. Os dois quadros centrais não são alusivos à vida de São Bento nem possuem numeração. O painel central sobre a cadeira abacial, sem número, apresenta São Bento a entregar a Regra a monges e monjas. O santo com vestes prelatícias é ladeado por anjos e o listel exibe a inscrição “De cello offertur tibi non alteri”.[36] O painel superior, retrata a figura de São Bento de pé, em posição hierática com vestes prelatícias, flanqueado por dois anjos que lhe entregam a mitra e o báculo.[37]

O arquiteto Diogo Marques Lucas[editar | editar código-fonte]

Diogo Marques Lucas em setembro de 1594 foi nomeado para um dos três lugares de aprendiz de arquitetura, a qual aprenderia com Filippe Terzo.[38] Assim, Diogo Marques foi um dos primeiros arquitetos a receber uma formação privilegiada, que incluía lições teóricas no campo da geometria, assim como estudos de arquitetura com o arquiteto-mor Felipe Terzi.

Após o falecimento do arquiteto italiano, Diogo Marques continuou a complementar o seu estudo teórico com Nicolau de Frias até 1610, permanecendo com o cargo de “aprendiz” de arquitetura até 1616, altura em que foi substituído por Mateus Couto. Durante os inícios do novo século, aprendeu, auxiliou e colaborou nas principais obras régias, como também forneceu traças da sua própria autoria.[39]

A sua substituição na «aula» de arquitetura coincidiu com a sua ascensão profissional e nomeação como mestre de obras do Convento de Cristo, em Tomar, após a renúncia de Pero Fernandes de Torres no ano anterior. Com um salário anual de 80.000 reais, manteve o cargo até à sua morte, sendo sucedido por Pero Vaz Pereira em 1641. Em janeiro de 1614, Diogo Marques foi proposto para ocupar o cargo de «mestre de obras» das Ordens Militares, juntamente com Pedro Nunes Tinoco e Mateus do Couto, após a morte do arquiteto Baltasar Álvares. No entanto, a nomeação recaiu em Mateus do Couto cinco anos depois. Em 1640, era já falecido, conforme mencionado numa breve missiva do prior do Convento de Cristo de Tomar.[40]

Imagens e Iconografia do Objeto[editar | editar código-fonte]

Objeto arquitetónico[editar | editar código-fonte]

Património integrado[editar | editar código-fonte]

Objeto ou conjunto em destaque[editar | editar código-fonte]

Fontes e Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

[1] SOARES, Renan Marinho de Morais, 2021. Do Sagrado ao Profano a reutilização adaptativa nos mosteiros portugueses – Mosteiro de Santa Maria do Bouro, Mosteiro de São Bento da Vitória e Mosteiro de Santo Tirso. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 126-127.

[2] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 47.

[3] QUARESMA, Maria Clementina de Carvalho,1995. Inventário Artístico de Portugal Cidade do Porto. Lisboa: Academia Nacional das Belas-Artes, 192.

[4] PEREIRA, Ana Cristina da Cunha, 2007. Os Conventos do Porto. Descontinuidades, Transformação e Reutilização. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 239.

[5] SOARES, Renan Marinho de Morais, 2021. Do Sagrado ao Profano a reutilização adaptativa nos mosteiros portugueses – Mosteiro de Santa Maria do Bouro, Mosteiro de São Bento da Vitória e Mosteiro de Santo Tirso. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 134.

[6] PEREIRA, Ana Cristina da Cunha, 2007. Os Conventos do Porto. Descontinuidades, Transformação e Reutilização. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 240.

[7] Agenda Cultural do Porto, 2023. Miradouro da Vitória – Porto. [consult. 2024-11-22]. Disponível em https://agendaculturalporto.org/miradouro-da-vitoria-porto/

[8] PEREIRA, Ana Cristina da Cunha, 2007. Os Conventos do Porto. Descontinuidades, Transformação e Reutilização. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 241.

[9] FILIPE, Ana, 2012. Convento de São Bento da Vitória. SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico] [consult. 2024-11-14] Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5556

[10] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 56.

[11] QUARESMA, Maria Clementina de Carvalho,1995. Inventário Artístico de Portugal Cidade do Porto. Lisboa: Academia Nacional das Belas-Artes, 192-193.

[12] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 63.

[13] QUARESMA, Maria Clementina de Carvalho,1995. Inventário Artístico de Portugal Cidade do Porto. Lisboa: Academia Nacional das Belas-Artes, 193.

[14] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 61.

[15] FILIPE, Ana, 2012. Convento de São Bento da Vitória. SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico] [consult. 2024-11-14] Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5556

[16] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 56-57.

[17] SMITH, Robert C, 1950?. S. Bento da Vitória, do Porto, à luz dos «Estados» de Tibães. Porto: Livraria Fernando Machado, 44.

[18] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 45-46.

[19] FILIPE, Ana, 2012. Convento de São Bento da Vitória. SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico] [consult. 2024-11-14] Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5556

[20] SILVA, Nuno Miguel Maia da, 2012. Claustros Serlianos em Portugal 1558 –163. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 158.

[21] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 66.

[22] TNSJ [Teatro Nacional de São João], s.d. Mosteiro de São Bento da Vitória, Edifícios. [consult. 2024-11-16] Disponível em https://www.tnsj.pt/pt/edificios/mosteiro-de-sao-bento-da-vitoria

[23] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 75.

[24] QUARESMA, Maria Clementina de Carvalho,1995. Inventário Artístico de Portugal Cidade do Porto. Lisboa: Academia Nacional das Belas-Artes, 195.

[25] FILIPE, Ana, 2012. Convento de São Bento da Vitória. SIPA [Sistema de Informação para o Património Arquitetónico] [consult. 2024-11-14] Disponível em: http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5556

[26] SMITH, Robert C, 1950?. S. Bento da Vitória, do Porto, à luz dos «Estados» de Tibães. Porto: Livraria Fernando Machado, 44-45.

[27] QUARESMA, Maria Clementina de Carvalho,1995. Inventário Artístico de Portugal Cidade do Porto. Lisboa: Academia Nacional das Belas-Artes, 195.

[28] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 87.

[29] TNSJ [Teatro Nacional de São João], s.d. Mosteiro de São Bento da Vitória, Edifícios. [consult. 2024-11-16] Disponível em https://www.tnsj.pt/pt/edificios/mosteiro-de-sao-bento-da-vitoria

[30] SOARES, Renan Marinho de Morais, 2021. Do Sagrado ao Profano a reutilização adaptativa nos mosteiros portugueses – Mosteiro de Santa Maria do Bouro, Mosteiro de São Bento da Vitória e Mosteiro de Santo Tirso. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 153.

[31] MORENO, Humberto Carlos Baquero, dir., 1997. O Mosteiro de S. Bento da Vitória: quatrocentos anos. Porto: Edições Afrontamento, 61-62.

[32] SMITH, Robert C, 1968. Cadeirais de Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 50-51.

[33] SMITH, Robert C, 1968. Cadeirais de Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 51-52.

[34] PAULA, Mara Raquel Rodrigues de, 2023. Diálogos imagéticos. Iconografia beneditina em Portugal e a sua conexão com as fontes impressas da Idade Moderna. Tese de Doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 158-159.

[35] PAULA, Mara Raquel Rodrigues de, 2023. Diálogos imagéticos. Iconografia beneditina em Portugal e a sua conexão com as fontes impressas da Idade Moderna. Tese de Doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 162.

[36] DIAS, Geraldo Coelho, 2020. Hagiografia e iconografia beneditinas: Os “Diálogos” do papa S. Gregório Magno. N.º 3 (1996): Via Spiritus: Revista de História da Espiritualidade e do Sentimento Religioso, 19-20.

[37] DIAS, Geraldo Coelho, 2020. Hagiografia e iconografia beneditinas: Os “Diálogos” do papa S. Gregório Magno. N.º 3 (1996): Via Spiritus: Revista de História da Espiritualidade e do Sentimento Religioso, 22.

[38] SOUSA VITERBO, Franscisco Marques de, 1899. Diccionario historico e documental dos architectos, engenheiros e constructores portuguezes ou a serviço de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, p. 139.

[39] RUÃO, Carlos, 2006. «O Eupalinos Moderno» Teoria e Prática da Arquitectura Religiosa em Portugal 1550-1640. Volume II, Da «Corte» à «Província». Tese de Doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 284.

[40] RUÃO, Carlos, 2006. «O Eupalinos Moderno» Teoria e Prática da Arquitectura Religiosa em Portugal 1550-1640. Volume II, Da «Corte» à «Província». Tese de Doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 285.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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SOARES, Renan Marinho de Morais, 2021. Do Sagrado ao Profano a reutilização adaptativa nos mosteiros portugueses – Mosteiro de Santa Maria do Bouro, Mosteiro de São Bento da Vitória e Mosteiro de Santo Tirso. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Disponível em: https://hdl.handle.net/10216/139814. pp. 123-156

SOUSA VITERBO, Franscisco Marques de, 1899. Diccionario historico e documental dos architectos, engenheiros e constructores portuguezes ou a serviço de Portugal. Volume 2. Lisboa: Imprensa Nacional